7 de Dezembro de 2017 - 9h39

Proporções e perspectivas

Luciano Siqueira *

Eu devia ter uns seis anos de idade e exultava quando meu pai me mandava comprar o pão na padaria do seu Antenor, na esquina. Uma aventura, pois imaginava uma distância enorme — embora anos após, em visita à Lagoa Seca, nosso bairro em Natal, me dei conta de que separava nossa casa e a padaria apenas um quarteirão.


Tudo é uma questão de perspectiva, dizem.

E é mesmo.

Tanto que hoje fico sabendo que um asteroide de 5 km vai passar ‘raspando’ na Terra antes do Natal – e já não me assusto tanto com o termo ‘raspando’.

De fato, nos parâmetros da astronomia a distância é medida numa escala quase infinita. Os cientistas chamam ‘perto’ distâncias que a gente sequer consegue imaginar.

O 3200 Phaeton (como é chamado esse asteroide) passará a 10 milhões de quilômetros da Terra!

Ou seja, uma rocha espacial de cerca de 5 km de extensão tirará um “fino” do nosso belo e contraditório Planeta.

Você acha longe? Então anote aí: essa distância é 27 vezes mais perto do que a distância daqui até a Lua.

A Nasa (agência espacial dos EUA) garante que o 3200 Phaeton é totalmente inofensivo.

Muito diferente é a distância entre o desejo e a realidade na política. Não são poucos os exemplos de pretensões astronômicas alimentadas sobre a base do simples desejo, sem qualquer aproximação com a realidade concreta.

São erros de avaliação e de perspectiva. Em geral por deficiente percepção da correlação de forças.

Quando se contar a história do impeachment da presidenta Dilma, por exemplo, com um mínimo de isenção que o distanciamento no tempo permite, se terá a dimensão exata dos erros táticos cometidos pela força hegemônica em seu governo, o PT, por considerar riscos reais como se fossem semelhantes ao do asteróide.

Os resultados do pleito de 2014 foram lidos apenas parcialmente. A quarta vitória consecutiva na disputa presidencial, em si mesma uma grande conquista, terminou ofuscando a justa avaliação da nova configuração da Câmara dos Deputados e do Senado.

Com o apoio praticamente de um quarto apenas das forças em presença, o PT insistiu numa candidatura própria à presidência da Câmara, meio caminho para a eleição de Eduardo Cunha e todas as consequências que se seguiram.

Observando a trajetória do 3200 Phaeton, numa perspectiva mais ampla, os cientistas fazem inúmeras ilações e formulam novos projetos de pesquisa destinados a elucidar os mistérios que ainda os desafiam na compreensão do Universo.

Sem descortino estratégico amplo, embalados pelo imediatismo reducionista, muitos ainda se debatem com enorme dificuldade de compreender o enigma sociedade brasileira.

* Médico, vice-prefeito do Recife, membro do Comitê Central do PCdoB

* Opiniões aqui expressas não refletem necessariamente as opiniões do site.


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