Paulo Tedesco

Das aventuras e fascinações

Uma das fascinações que herdei como leitor é daquelas que somente um livro de aventuras poderia trazer.

Lembro com clareza dos primeiros contatos com Os Meninos da Ilha Perdida, da Coleção Vagalume, lá nos idos de 1980, e alguns anos depois com O Príncipe Invencível, de Virgínia Lefèbvre, o qual não me recordo da editora mas não consigo esquecer da impressionante capa com Alexandre o Grande sobre um cavalo lutando com um soldado árabe montado num elefante – a ilustração que tomava conta da capa dura era um indisfarçável convite à aventura do texto.

Acreditava, com os anos, que esse gosto se esgotaria com a vida adulta, afinal de aventura bastaria o nosso dia a dica com filhos e compromissos financeiros, ou seja, a cada mês comemorávamos uma vitória na selva do sistema e isso seria mais do que o suficiente. Porém estava absolutamente errado. O gosto por livros de aventura nunca se esgotou, e agora não mais na mente de um menino, mas na de um homem que precisava da criatividade para sobreviver e fazer melhor para sua vida e a da família.

Tenho amigos que dizem que a literatura de ficção não tem função alguma, e isso tem lá sua verdade, mas, a mim, e acredito que para muitos que como eu leram a Coleção Vagalume nos seus tempos de guri, aquela ficção produziu e ainda produz seus bons resultados.

E assim vi que eu poderia ir além, e das páginas de ficção migrei para as de não-ficção, que depois aprendi serem fontes de inspiração para muitas outras ficções. Nessa nova rodada de leituras surgiu Joshua Slocum, Ernest Shackleton, John Krakauer, Airton Ortiz, Amyr Klink, Família Schurmann e por aí. E, neles, na Família Schurmann, por exemplo, é que aprendi que o clássico Robinson Crusoé, de Daniel Defoe, veio de Alexander Selkirk, que ficou por quatro anos solitário numa ilha chilena em pleno Pacífico, e que depois veio a receber justamente o nome de Ilha Robinson Crusoé. Não poderia ser mais maravilhosa a descoberta, a ficção e a não-ficção se encostando e se confundindo, assim, tão pertinhas.

Sim, o leitor infanto-juvenil se transformou no leitor adulto e nele se recriou o desejo de aventuras sem sair das páginas. Ah, claro, fiz das minhas na juventude, e muitas vezes inspirado pelas confusões dos livros.

O que mais motiva, no entanto, é saber que as leituras de aventura também motivaram outros leitores para outros mundos, como o de literatura fantástica e o de ficção científica. Também os quadrinhos dos super-heróis formaram, além de novos e bons leitores adultos, profissionais de criação gráfica e roteiristas de grande qualidade.

E aqui puxo o fecho do valor dessas nossas fascinações, dessas nossas paixões que nos arrebatam ainda na idade tenra, e de como isso é delicado, incrivelmente delicado. Não restrinjamos, gente, em nenhuma hipótese os sonhos das crianças. Se ela sonha em ser astronauta, deixemos com que vá à lua quantas vezes quiser, se ela quer ser médica, deixamos com que faça quantas cirurgias e exames achar necessário, e se ela insiste em ser escritora ou ilustradora de livros, ora, apesar de tudo, ainda há muito para ser feito e todo novo escritor e bom ilustrador será sempre bem-vindo.

* Escritor, consultor e professor de produção escrita editorial




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