10 de Outubro de 2017 - 14h58

O dia em que vi a armadura de um homem tremer e ruir

Daniel Costa Lima *

No meu texto introdutório nesta caminhada de reflexão sobre a(s) paternidade(s), comentei que achava imprescindível que esse debate andasse lado a lado com uma leitura critica de gênero.





De forma bem resumida, quero dizer com isso que precisamos reconhecer que as masculinidades e as feminilidades - assim como, em grande parte, a paternidade e a maternidade - são construções sociais, culturais e históricas que têm contribuído sobremaneira para uma sociedade desigual e opressora, em especial, para as mulheres (situação que se potencializa, e muito, quando damos a devida atenção para os “recortes” de classe, raça e orientação sexual).

Nesse contexto, a brutal desproporcionalidade que geralmente se observa entre a quantidade de horas que homens e mulheres investem no cuidado de suas(eus) filhas e filhos (mesmo quando ambos trabalham fora) é um dos mais cabais reflexos e ao mesmo tempo, mais evidentes causas da desigualdade de gênero.

No presente texto, tentarei dar mais um passo em direção a essa questão, tomando como base algumas elaborações de algo que escrevi em 2014 e inspirado por reflexões advindas de uma história que vivenciei no mesmo ano.

Em a “Paternidade: uma revolução dos afetos”¹ (2014), discorri sobre a longa e importantíssima revolução das mulheres, liderada por diferentes movimentos feministas, e como ela se deu e se dá, em boa parte, para “fora”, ou seja, para os espaços políticos, para o trabalho fora de casa, para a educação formal e para a garantia de um direito básico, o de ocupar as “ruas” (trabalho, transporte público, bar, feira etc.) sem medo de ser vítima de assédio e de violência sexual.

Nesse texto, defendi que mesmo a passos tímidos, muitos homens têm esboçado uma similar revolução, sendo que, no nosso caso, essa tem sido para “dentro”, para convivências familiares mais equitativas e harmoniosas e também para o reconhecimento de que podemos nos expressar de forma sensível e delicada, rejeitando qualquer tipo de violência e vivenciando as nossas emoções e afetos livremente. Estou cada vez mais seguro de que a paternidade, historicamente marcada por diversas imagens negativas e ligadas ao estabelecimento e à manutenção de controle, regras e normas, traz em si um imenso e subutilizado potencial de transformação.

Alguns meses após esse texto, tive uma experiência que me marcou bastante e sobre a qual, até agora, eu não tinha escrito. Na época, eu trabalhava na Coordenação Nacional de Saúde dos Homens (Ministério da Saúde) e, ao traçar com a equipe novas estratégias para a campanha “Pai Presente: Cuidado e Compromisso”, tivemos a ideia de lançar um pôster retratando um pai fazendo o Método Canguru² com seu filho ou filha. Como o Ministério não contava com tal imagem em seu banco de dados, fomos tentar a nossa sorte em uma maternidade pública do Distrito Federal.

Lá chegando, nos informaram que não era comum que homens fizessem o método, mas que podíamos conversar com Carlos (nome fictício), pai de um bebê que havia nascido com apenas seis meses e meio e que, nas palavras de uma médica, era um dos mais “dedicados” que ela já havia conhecido. Como tinha feito todos os dias do último mês e meio, Carlos se encontrava, naquele momento, na UTI Neonatal.

Quando entrei na sala, lá estava ele, um homem na faixa dos 30 anos, forte e de ombros largos, sentado num banco, se curvando para que seus olhos ficassem na altura do rosto de seu filho. Eu me aproximei, expliquei a situação e perguntei se ele já havia feito o método. Ele disse que a sua companheira fazia com certa frequência, mas que ele, nunca. Depois perguntei se já o haviam convidado a tentar, e a resposta foi “não”.

Ao propor que ele tentasse e perguntar se poderíamos fotografá-lo, Carlos demonstrou receio, olhou para baixo, depois para as próprias mãos e disse sem graça “Eu acho melhor não, é que eu sou meio bruto, tenho medo de machucá-lo”. Acolhi o seu temor, mas reforcei que toda a equipe estava lá para ajudá-lo, que o risco era zero e que o contato pele a pele podia ser muito positivo para o seu filho e também pare ele. Ainda titubeando, ele concordou.

Já sem camisa e pouco antes de receber o seu filho, Carlos olhou com certa urgência para a enfermeira e disse “Eu sou muito peludo, não vou sufocá-lo?!”. Segurando o menino, que mal pesava 1,5kg, a enfermeira sorriu e mais uma vez disse para ele não se preocupar. Segundos depois, o corpo de Carlos e o de seu filho se encontraram pela primeira vez, sendo depois cuidadosamente enrolados por uma larga atadura.

No entanto, enquanto o bebê calmamente se aninhava em seu peito, Carlos se mostrava nervoso e tenso. Mesmo distante uns dois metros, vi que ele começou a suar e logo depois, todo o seu corpo começou a tremer em fortes espasmos. Felizmente, quando eu já começava a pensar que aquilo tinha sido uma péssima ideia, tudo mudou. De repente, Carlos relaxou e os espasmos cessaram. Toda a sua expressão corporal mudou, seus largos ombros se tornaram “leves” e abaixaram, seu rosto, antes tenso, ficou calmo e suas grandes mãos se encontraram delicadamente. Era como se todo o seu corpo acolhesse o seu pequenino filho. Ele olhou para mim e sorriu, num misto de emoção e alivio. E lá eles ficaram, durante as fotos e apos o termino delas.

No fim das contas, o objetivo daquela tarde não foi atingido, já que as fotos não foram aproveitadas para a campanha, mas certamente, algo muito mais importante aconteceu. Obviamente, não posso dizer o que aquele momento significou para Carlos, que já era, de forma incontestável, um pai amoroso e dedicado. Posso apenas falar do que vi e imaginar os possíveis desdobramentos do que vi. E o que vi foi a armadura de um homem tremer e ruir (pelo menos momentaneamente) ao ser confrontada com a necessidade de um ato de grande delicadeza.

Para mim, Carlos, assim como muitos outros homens, estão cada vez mais saindo de suas zonas de conforto (geralmente moldadas por comportamentos machistas) e abraçando o processo transformador que pode ser proporcionado pela paternidade. Essa “revolução dos afetos” não apenas contribui para o exercício de uma paternidade afetuosa e responsável, como também pode ser determinante para a construção de relacionamentos mais equitativos e menos marcados pela violência. Por fim, mas não menos importante, estou seguro de que vivenciar a paternidade de forma intensamente amorosa – não importa a idade de seu/ua filho/a, nem se você é pai biológico, adotivo ou uma figura paterna – pode ser a faísca necessária para uma profunda reflexão e para a manifestação de masculinidades menos áridas e rígidas.

¹ Originalmente lançado no extinto sítio ninja.oximity.com

² De acordo com o Portal da Saúde, o Método Canguru busca melhorar a qualidade da atenção prestada à gestante, ao recém-nascido e sua família, promovendo, a partir de uma abordagem humanizada e segura, o contato pele a pele (posição canguru) precoce entre a mãe/pai e o bebê, de forma gradual e progressiva, favorecendo vínculo afetivo, estabilidade térmica, estímulo à amamentação e o desenvolvimento do bebê.


Ilustração: Snezhana Soosh.

* Pai de Francisco, psicólogo, mestre em saúde pública e consultor independente no campo de gênero, masculinidades, paternidade e cuidado e violência baseada em gênero.
costalima77@gmail.com

* Opiniões aqui expressas não refletem necessariamente as opiniões do site.


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