6 de Outubro de 2017 - 0h33

Fracasso do sistema educacional e crise civilizatória

Rita Coitinho *

Hoje vou usar esse espaço para dizer algumas obviedades. Perdoe-me o leitor que espera de um portal de notícias as últimas novidades. Mas os tempos andam confusos – até meio bicudos, e isso não é um trocadilho com a triste figura do Direito – e vem sendo necessário repetir coisas já ditas, com a esperança de que isso possa ajudar a dissipar algumas nuvens que andam turvando o cenário nacional.


Refiro-me aos “escândalos” fabricados por um punhado de gente em razão de algumas exposições e performances artísticas. Criticados por irem contra a liberdade de expressão e de criação artística, os revoltosos – e até aqueles que não participaram das “ações”, mas querem emitir uma opinião “ponderada” – converteram-se em críticos instantâneos e passam agora à ofensiva: eles decidem, no grito, o que é ou não é “arte” ou o que é ou não é merecedor de ser exposto em um museu.

Alguns colegas que admiro pela ponderação aconselham que não alimentemos esse debate. O que os grupos políticos que organizam essas pessoas querem é nos distrair das pautas que importam (reformas trabalhista, previdenciária, política, escândalos envolvendo o presidente ilegítimo etc.) e ditar a agenda política com base em valores conservadores. Eles estão um pouco certos, de fato é isso que a “direção” do escândalo deseja – direção essa muito bem financiada, aliás, por sinistras corporações internacionais que têm todo o interesse no caos em que vai mergulhando o país. Mas... e tudo tem um “mas”, não é? Acontece que essa aparente insanidade coletiva não é um movimento transitório. Ela é, antes de mais nada, a prova cabal do fracasso do nosso sistema educacional. Ou do fracasso como projeto, parafraseando o professor Darcy Ribeiro. É aí que entram as obviedades que anunciei acima.

A primeira obviedade é que o povo brasileiro é em relação a costumes, conservador. Questões como a nudez, o sexo, a sexualidade, as relações familiares e a infância são temas sensíveis que podem facilmente ser manipulados em discursos inflamados e extremistas para “mover multidões”. O crescimento da capilaridade de certos grupos radicais cristãos é um fenômeno que estamos – os intelectuais, as universidades e mesmo os partidos de esquerda e progressistas – demorando demais a avaliar e procurar responder.

A segunda obviedade é que conceitos e ideias ligados à fruição da arte, especialmente às artes visuais, são muito precariamente trabalhados em nosso sistema educacional. O ensino de artes nas escolas não é privativo de profissionais formados na área. Na maioria das escolas a disciplina de “artes” é coberta por professores generalistas, que não têm formação aprofundada no tema. Como mostrou a pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Museus, há 3 mil instituições museológicas no Brasil, mas a ampla maioria está concentrada nas grandes cidades o que, por si só, impede o acesso de milhões de brasileiros e brasileiras aos museus. Mesmo nas cidades que contam com esse tipo de infraestrutura, as visitas aos museus são esporádicas, em geral por iniciativa das escolas, e apenas uma minoria de famílias tem o hábito de levar seus filhos para ver exposições. Como mostrou o sociólogo francês Pierre Bourdieu, o “gosto pela arte” é uma habilidade que requer tempo e treinamento. Não se nasce um amante das artes, muito menos adquire-se conhecimento a respeito sem que haja envolvimento da família e – e isso é decisivo – do sistema educacional.

A terceira obviedade é uma consequência das duas primeiras: como é que nos espantamos com o fato de que a maioria das pessoas reaja negativamente a uma pintura renascentista com cupidos nus quando o “debate” sobre as artes foi enviezadamente inserido nas redes sociais a partir de uma lente moralista, que se apega aos valores mais profundos do povo e distorce-os para promover o caos? Como é que podemos acreditar que basta sair afirmando nas redes que esse comportamento não passa de “ignorância” para afastar o problema, com raízes tão profundas?

É evidente que arte não tem nada a ver com “beleza” – embora possa representar “o belo”, se assim quer o artista -, e as afirmações simplórias de que as obras expostas em Porto Alegre não são “arte” porque não são “belas” são absolutamente desprovidas de razão. É claro também que a arte não precisa “servir” a algum propósito para que seja assim considerada, e é ainda mais óbvio que se a obra causa mal-estar e estranhamento ela está sendo bem sucedida. É ainda bastante evidente que a arte não está no mundo para reafirmar valores e nos deixar confortáveis - eventualmente a obra é concebida exatamente para nos desorientar. Mas é óbvio para quem? Para meia dúzia de iniciados, não para a ampla maioria. Se havia alguma intenção de universalização do conhecimento e da fruição das artes em nosso sistema educacional (e eu tenho dúvidas de que essa intenção tenha existido a sério), ela fracassou.

O debate que se abre – e que não envolve somente as artes, note-se bem, mas também as versões sobre a história – faz parte do confronto mais amplo de concepções sobre a sociedade que se tornou aberto e franco nos últimos anos. Ele é parte da luta de classes e, ao que parece, alguns daqueles que se posicionavam ao lado das classes dominantes também serão engolidos (fogo amigo?). Também nos anos 1920-30, na Europa que caminhava para o confronto, as vanguardas artísticas eram atacadas violentamente pelos grupos conservadores, sendo recorrentes as vaias e tumultos em exposições de arte moderna – que, vejam que coincidência, dizia-se não era arte. Não é à toa que grande parte dos coletivos de vanguarda passaram a apoiar os comunistas e os socialistas. Tomando emprestada a frase de Gramsci, nada – nem as artes, nem os museus - escapa ao confronto quando o velho desaba e o novo ainda não pode nascer.

*  Socióloga

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