5 de Outubro de 2017 - 10h24

Luta de ideias para politizar

Luiz Manfredini *

Deficiência, a meu ver decisiva, dos governos Lula e Dilma, extensiva a vários setores da esquerda brasileira, foi o descaso com a politização da sociedade. Como afirma o ex-deputado federal Aldo Arantes, em seu artigo, “Gramsci e a luta de ideias”, “a preocupação excessiva com o processo eleitoral e a presença na máquina do estado fragilizou a luta social e deixou de lado a luta de ideias e a politização da sociedade”.


Imaginou-se que a simples melhoria das condições de vida e de expectativas de futuro seriam suficientes para construir e manter, em torno do projeto governamental vigente, amplo e duradouro apoio popular.

Pura ilusão. A negligência com a politização da sociedade tornou o povo ainda mais vulnerável à maciça campanha midiática (em nome das elites dominadas pelo neoliberalismo) de criminalização da política e dos políticos e da disseminação de um ideário alienante e conformista.
A consciência política, cidadã, e não pura e simplesmente a melhoria nos padrões de consumo ou mesmo de políticas públicas inclusivas, é o que garante o suporte popular indispensável às rupturas que o processo transformador exige.

Assim, encontrando campo fértil para suas pregações, a direita, particularmente durante e após as manifestações de 2013, construiu a hegemonia necessária para perpetrar o golpe de agosto de 2016, que depôs a presidente Dilma Rousseff.

É claro que tal hegemonia vem sendo aos poucos, corroída, pois edificadas sobre as bases antidemocráticas, antipopulares e antinacionais (e insustentáveis) do projeto neoliberal. Crescentes setores sociais – inclusive parcelas da classe média que bateu panelas e saiu às ruas com as camisetas da CBF – parecem perceber o governo Temer, resultado do golpe, como uma confraria de ladrões. Assim, começam a se sentir, tais setores, usados para fins distantes daqueles que talvez imaginassem.

O neoliberalismo, que já não pode apostar em soluções de força militar para impor-se à sociedade, confere papel central à hegemonia ideológica e cultural, mediante intensa, ampla e sistemática luta de ideias. E é nesse campo que a luta de classe deve assumir papel decisivo.
Mas a construção de uma nova hegemonia cobra e cobrará esforços ingentes das forças democráticas e progressistas. Deve ocorrer por onde seja possível, capilarizando-se pelo conjunto da sociedade, em particular entre os trabalhadores e a juventude, irrigando-a com valores essenciais à luta transformadora. Valores como o pensamento crítico, a defesa da democracia, das soluções coletivas, solidárias, a condenação dos ódios, tudo enfeixado num projeto para o Brasil capaz de unir o povo brasileiro.

Ações políticas de massas, como vem fazendo o ex-presidente Lula, constituem-se no núcleo dessa luta, sem prejuízo de iniciativas em outras áreas, como a da cultura e da comunicação, tudo dentro de um planejamento sistemático. A frente ampla que se propõe constituir com largos segmentos da sociedade em defesa da democracia e contra os retrocessos patrocinados pelo golpismo, pode ser o conduto dessa luta essencial, desde que nela se afirme uma coesa direção de esquerda.

* Jornalista a escritor paranaense, autor, entre outros livros, dos romances "As moças de Minas", "Memória e Neblina" e "Retrato no entardecer de agosto".

* Opiniões aqui expressas não refletem necessariamente as opiniões do site.


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