João Quartim de Moraes

O último combate de Marco Aurélio

No dia 20 de julho passado, logo que teve notícia da morte de Marco Aurélio Garcia, uma das mais cultivadas e brilhantes inteligências do PT, o portal Vermelho homenageou-o publicando “Construir o amanhã”, sua intervenção no encontro das fundações Maurício Grabois (PCdoB), Perseu Abramo (PT) e Leonel Brizola – Alberto Pasqualini (PDT), em São Paulo, na sexta-feira 14 de julho.

A importância dessa contribuição, que acabou sendo, para nossa tristeza, uma peça de testamento político, justifica o cuidado em restabelecer a integralidade do texto. É que a versão divulgada pelo portal Vermelho a partir de uma das cópias xerox do texto do Marco Aurélio, que ele próprio distribuiu naquela ocasião, contém uma lacuna na parte final, prejudicando a compreensão da conclusão, em que ele projeta um facho de luz sobre a tenebrosa situação instaurada pelo golpe parlamentar de abril 2016.

Lemos no texto divulgado pelo Portal Vermelho:

“O Brasil não pode seguir, diante das dificuldades atuais, um caminho que isole as???, confinando-as em um canto de nosso tabuleiro político. Não pode, menos ainda, reeditar – em nome da unidade nacional – velhas políticas de conciliação que comprometeram a identidade do progressismo sem dar-lhe a eficácia que anunciavam.”

Os ??? são meus, apenas para assinalar a lacuna no texto. Ainda não consegui verificar se esta lacuna já estava no original distribuído pelo Marco Aurélio ou se foi um lapso na transcrição para o Vermelho.

Circulou depois na Internet uma versão que “corrigiu” o texto com infelicidade, suprimindo a lacuna sem resolver o problema: “O Brasil não pode seguir, diante das dificuldades atuais, um caminho que isole, confinando-as em um canto de nosso tabuleiro político”. Assim modificada, a frase não faz sentido. A que se refere o pronome “as” em “confinando-as em um canto de nosso tabuleiro político”? Teria ele dito que não devemos confinar as dificuldades atuais em um canto de nosso tabuleiro político? Mas esta recomendação, como certamente ele diria com sua habitual ironia, é digna do Conselheiro Acácio. A luta política seria tão fácil se pudéssemos confinar as dificuldades onde quiséssemos...

Marco Aurélio se expressava num bom português e tinha ideias claras. Ele jamais teria escrito “um caminho que isole” sem explicar quem ou o que o caminho isola. O verbo “isolar” é transitivo. Descartada a interpretação acaciana do “confinando-as”, é da lógica da argumentação que podemos inferir a palavra que falta. Logo antes da frase em pauta, ele havia apontado as dificuldades a serem vencidas para superar a sombria situação instaurada pelo golpe de abril 2016:

“As forças progressistas [...] sabem que têm um caminho complexo e árduo a percorrer. Que exige derrotar os atuais donos do poder e que supõe entender criticamente as razões da grande derrota que sofremos. Mas que depende, também, e essencialmente, de nossa capacidade de formar uma grande coalizão social e política capaz de construir um novo amanhã para o Brasil. Essa coalizão tem de ser mais ampla que o espaço das esquerdas”; ela deve “atrair amplos setores democráticos em todas as esferas da sociedade brasileira, inclusive aqueles que, equivocados, participaram da aventura golpista”.

É portanto às forças (ou setores, como ele também diz) progressistas, “representados por partidos de esquerda e movimentos sociais”, que se dirige o apelo ao novo combate por um “programa mais avançado”, inseparável da construção de “uma nova correlação de forças no país”. Não há pois enigma na lacuna do texto de Marco Aurélio. Certamente a frase integral é a seguinte: “O Brasil não pode seguir, diante das dificuldades atuais, um caminho que isole as [forças progressistas], confinando-as em um canto de nosso tabuleiro político”. Para tirar o país do pútrido atoleiro a que os golpistas neoliberais e cripto fascistas o conduziram, as forças de esquerda não devem se deixar levar pela compreensível ojeriza que eles inspiram. Deve concentrar-se na luta contra a política reacionária das bancadas BBB, resistindo obstinadamente à destruição das conquistas sociais outorgadas pela CLT e ampliadas em muitas décadas de combates operários e sindicais, à hipocrisia obscurantista da “escola sem partido”, ao moralismo faccioso de Moro e consortes etc. Sem nunca perder de vista que qualquer manobra estratégica somente será exitosa se isolarmos o inimigo, em vez de sermos por ele isolado, como ocorreu em 2015-2016.

Marco Aurélio foi muito enfático ao rejeitar os que pretendem “reeditar – em nome da unidade nacional –– velhas políticas de conciliação que comprometeram a identidade do progressismo sem dar-lhe a eficácia que anunciavam”. Há aqui um aspecto autocrítico: o PT, Lula e Dilma recorreram muito a “velhas políticas de conciliação”. Fiquemos com um dos exemplos mais clamorosos: foi Lula quem propeliu o banqueiro Henrique Meireles, ex presidente da sucursal do Bank Boston no Brasil, à presidência do Banco Central. Qualquer que seja a retórica de união nacional de que venha revestida a reedição dessas “velhas políticas”, ela não passaria, na atual correlação de forças, de uma integração subalterna no bloco dos golpistas. Em troca de mesquinhas vantagens, comprometeria a “identidade do progressismo” perante as forças sociais e correntes de opinião interessadas num projeto transformador.

* Professor universitário, pesquisador do marxismo e analista político.




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