11 de Abril de 2017 - 10h21

É uma luta necessária banir o fascismo da sociedade brasileira

Fatima Oliveira *

Registro o meu repúdio ao ocorrido no Clube Hebraica do Rio de Janeiro, em 3 de abril passado, quando, a convite do presidente Luiz Mairovitch, o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ) proferiu uma palestra, após cancelamento de outra na sede paulista da Hebraica por solicitação de um abaixo-assinado com mais de 2.600 assinaturas da comunidade judaica.


Jair Bolsonaro é misógino, homofóbico, racista e fascista confesso; não é polêmico, como alguns dizem por aí, é indubitavelmente um fascista! Ou alguém imaginava que ele faria uma declaração de amor ao povo brasileiro? Sem novidades, pois o fascismo é, de cabo a rabo, perseguição à democracia, desde o nascedouro.

A comunidade judaica no mundo, incluindo o Brasil, não é um bloco monolítico! Basta avaliar que a Hebraica de São Paulo cancelou a palestra do referido deputado, mas a do Rio de Janeiro não atendeu os apelos de cancelamento!

Enquanto a palestra ia de vento em popa, arrancando risos de cerca de 300 convidados, outros 150 judeus protestavam do lado de fora da Hebraica e relembravam os judeus mortos pela ditadura militar de 1964: o jornalista Vladimir Herzog (1937-1975) e a psicóloga Iara Iavelberg (1944-1971).

Dentre os inúmeros impropérios ditos pelo deputado, eis alguns paradigmáticos do ideário fascista pelo qual se norteia: “O deputado afirmou que as reservas indígenas e quilombolas atrapalham a economia: ‘Onde tem uma terra indígena, tem uma riqueza embaixo dela. Temos que mudar isso aí’. Ele disse que foi ‘a um quilombo’. De lá, voltou com a seguinte percepção: ‘O afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada. Eu acho que nem para procriador ele serve mais. Mais de R$ 1 bilhão por ano são gastos com eles’.

Segundo Marcelo Braga Edmundo, em “Bolsonaro: ‘Nem um centímetro para quilombola ou reserva indígena’”, o presidenciável não poupou os refugiados. “Não podemos abrir as portas para todo mundo”, disse. Ele não se mostrou, porém, avesso a todos os estrangeiros: “Alguém já viu algum japonês pedindo esmola? É uma raça que tem vergonha na cara!”.

A deputada federal Benedita da Silva (PT-RJ) encabeçou um grupo de parlamentares que protocolou, em 6 de abril, uma ação na Procuradoria Geral da República (PGR) contra Jair Bolsonaro pelo crime de racismo. É esperar no que vai dar! Há repúdios significativos do movimento negro e de setores da comunidade judaica.

O cientista social, mestre em letras pelo programa de Estudos Judaicos e Árabes da USP, Daniel Douek, em “Uma carta de resposta dos judeus que não riram” (7.4.2017), declarou: “Aqui entre nós, talvez seja o caso de dizer o óbvio: campo de concentração não é escola de direitos humanos. Ao contrário, desumaniza; corrói corações, mentes e almas; dilacera a fé nos homens e na própria possibilidade de humanidade; deixa marcas indeléveis, que perduram mesmo entre gerações que não vivenciaram o extermínio; não é atalho para a vida digna, mas um obstáculo a ser transposto. Há alguns anos, ao discutir a afirmação deplorável de que os judeus não aprenderam nada com o holocausto, o pedagogo Gabriel Douek foi certeiro: ‘O que está por trás desse tipo de afirmação é a crença de que o assassinato de 6 milhões de judeus durante a Segunda Guerra Mundial ocorreu para ensinar algo a esse povo’. Assim, dizer que os judeus deveriam ter aprendido algo, e não aprenderam, é conceber o genocídio judaico como uma espécie de ‘lição’ ou ‘castigo’ que não surtiu efeito. E ainda mais: é afirmar que o holocausto não foi suficiente”.

Urge banir o fascismo da sociedade brasileira.

* Médica e escritora. É do Conselho Diretor da Comissão de Cidadania e Reprodução e do Conselho da Rede de Saúde das Mulheres Latino-americanas e do Caribe. Indicada ao Prêmio Nobel da paz 2005.

* Opiniões aqui expressas não refletem necessariamente as opiniões do site.


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