18 de Março de 2017 - 16h06

 O Partido de Maria

Elder Vieira *

 .


- Uma necessidade histórica.

- Ã?

- Uma necessidade histórica.

- O quê é uma necessidade histórica, Maria?

- O Partido Comunista.

- Iiih... Lá vem você...

Assim começa o diálogo entre uma determinista e um relativista no café da manhã.
Há um ano morando juntos, se conheceram num ato político contra o golpe. De uma das inúmeras cirandas de que participava, ele a viu em cima do carro de som, soltando o verbo e comandando a massa.

Linda, foi o que primeiro pensou. E poderosa, completou a moça, dias depois, em seus braços. Amassos, cervejas e miles bate-bocas adiante, juntaram os panos.

Ele, pós-graduando em antropologia, sem perder sua paixão por Levy-Strauss, ligou-se intelectualmente ao pós-tudo dos tempos que correm. Defende um socialismo democrático e uma nova esquerda, "enquanto contraponto às organizações tradicionais do movimento de trabalhadores, entende?". Adora conceitos como "lugar de fala", "territorialidade", "multiculturalismo", "horizontalidade" e "frente de esquerda". Frase preferida: "O objetivo é nada; o movimento é tudo".

Ela, pós-graduada em Direito Administrativo , é comunista de carteirinha desde o ensino médio. Diretora do Sindicato dos Advogados, na manifestação, falava em nome da categoria. Defende o socialismo, ponto. Acredita que o caminho para o Brasil romper com sua condição de neocolônia socialmente injusta é um Novo Projeto Nacional de Desenvolvimento; trabalha pela Frente Ampla; milita na base comunista dos advogados da cidade. Para ela, o poder é a questão essencial.

Hoje, ambos acordaram animados. O ato contra a reforma da Previdência no dia anterior fora um sucesso. Enquanto mexia o café - ela detesta leite - lembrou-se que daqui a oito dias seu partido completará noventa e cinco anos de vida ininterrupta. Quedara-se, então, pensativa.

Ele lia a Farsa de Saint Paul e comia suas claras mexidas, acompanhadas de torradas integrais e toddy, quando ela soltou a frase.

- Necessidade histórica? - ele provoca, riso de mofa, dobrando o jornal.

- Sim - responde a companheira.

- E o socialismo, obviamente, é...

- Inevitável, porque uma necessidade histórica. E o Partido, instrumento da luta pelo socialismo, por óbvio, é também uma necessidade histórica. Logo...

- Logo...

- Nossa causa é invencível.

- Ah, que bom. Então, bóra sentar debaixo do pé de socialismo e esperar.

- Faz melhor, querido: monta uma ciranda em volta da tua árvore e espera o espírito da utopia baixar.
Que tal?

O desjejum azedou. Ele volta pro jornal, ela vai ao banho. Tem uma audiência logo mais.

Não carecia tudo isso. Um casal bonito desse se desaver por um nada assim... Basta ela explicar que é inevitável porque as contradições entre as classes no capitalismo levam à luta inevitável entre elas.

- Tá. Que a luta é inevitável, eu entendi. Mas por que a luta leva necessariamente ao socialismo? – perguntaria o moço, não tivesse o ego magoado e simulacros em demasia no sótão.

- Porque a contradição básica é que a produção é amplamente social e a apropriação do valor produzido é concentradamente privada – responderia a amada. Os meios de produzir a riqueza antagonizam as relações de produção, de propriedade. Enquanto houver exploração, haverá opressão. Enquanto houver opressão, haverá inevitavelmente reação contra a opressão. E os interesses comuns do operariado...

- Que operariado, Maria?! Lá vem você com os dogmas, achando que a classe operária é revolucionária! Onde tem operário mais?

- Rapaz, se você não achar numa fábrica, vai lá na casa da tua vó. Quem sabe cê acha uns.
Azedou de novo. Ela é impaciente; ele não escuta.

Se ele a deixasse terminar, ouviria que os trabalhadores, em especial os fabris, por sua posição no processo produtivo, queiram ou não, objetiva e incontornavelmente, são a classe à qual a História entregou a missão de por fim ao capitalismo e à sociedade de classes. A isso chamamos dimensão objetiva da classe.

Se ela não tivesse comido a pilha dele, poderia dizer que os interesses comuns, de explorados, as perdas objetivas, e sua concentração em grandes cadeias econômicas dão aos trabalhadores as condições de união entre eles. Essa união, uma vez em contato com o ideário marxista – esse, por sua, engendrado pelas mesmas contradições do sistema capitalista e estribado na tradição humanista e científica – vira consciência e unidade de classe. A isso chamamos de dimensão subjetiva da classe.

- E que tem o Partido a ver com tudo isso? – perguntará alguém que não estava na conversa, porque ela já saiu, batendo a porta atrás de si, e ele se trancou no banheiro, a pretexto de necessidades inadiáveis, fulo da vida, e falando sozinho.

O Partido é justamente a expressão dessa consciência e unidade de classe do proletariado. Ele é a forma necessária do instrumento da classe para a tomada do poder político – poder político que ela (a classe operária, os trabalhadores, as classes laboriosas, os proletários – chame-a como quiser) usará para por fim às classes e às opressões advindas das diferenças de classe.

A essa altura ela já está arrependida do destempero de há pouco. Cata o celular e liga pra ele. O sujeito atende meio chateado, mas já querendo hastear a bandeira branca. Ela pede desculpa, amor, e ele diz que a culpa é dele, que não para pra ouvir. Pergunta a que hora ela volta. Ela diz que na hora de costume.

Ou seja: tarde, vai ela pensando, enquanto dirige, que hoje tem reunião da base do PCdoB, o Partido da união do povo. Partido nascido da história de lutas do povo brasileiro, fundado em 1922 por nove trabalhadores numa casinha em Niterói; que pegou em armas em defesa do Brasil e da democracia; que formou amplas frentes políticas para derrotar, ainda que momentaneamente, o imperialismo, o latifúndio, os oligopólios rentistas, as elites entreguistas. Partido necessário, que não foge da briga onde ela se apresente – nas matas, nas ruas, nas fábricas, nos campos, nas escolas, nos parlamentos, nos governos, na vida. Partido de trabalhadores e trabalhadoras, de jovens e velhos, de brasileiros de todos os matizes, de pensadores e artistas, de sacerdotes e ialorixás, de gente de todo o canto. Partido de Maria. Partido de João.

* Escritor, servidor público, militante do PCdoB desde 1983

* Opiniões aqui expressas não refletem necessariamente as opiniões do site.


  • VOLTAR
  • IMPRIMIR
  • ENCAMINHAR