14 de Março de 2017 - 18h05

Continua a luta por um mundo de igualdade contra todas as opressões

Fatima Oliveira *

A greve geral das mulheres no 8 de Março passado, com a adesão de mais de 60 países, incluindo o Brasil, onde ocorreu mais de uma centena de manifestações, nos dá muitas esperanças na força e no poder do internacionalismo feminista, apesar dos atropelos machistas e misóginos que nos cercaram na data em nosso país.


Um deles, o goleiro Bruno, condenado por feminicídio, em 2010, a 22 anos e três meses de prisão, foi solto! “Tirou” apenas seis anos e sete meses de cadeia! Ele recorreu da sentença, e sua condenação virou prisão preventiva, pois o recurso não foi julgado até a data da soltura, 24.2.2017. Todo pimpão, declarou à TV Globo Minas: “Independente do tempo que eu fiquei também, eu queria deixar bem claro, se eu ficasse lá, se tivesse prisão perpétua, por exemplo, no Brasil... não ia trazer a vítima de volta”.

Como se cadeia fosse para ressuscitar quem os assassinos mataram! É um assassino tirando onda de filósofo! Em 10 de março, ele foi contratado pelo Boa Esporte, de Varginha (MG), a cidade dos ETs. Faz sentido. É um escárnio, acobertado pela lei. É a segunda vez que o Estado acaricia o criminoso goleiro: Eliza Samudio foi assassinada porque o Estado brasileiro, quando instado por ela a proteger sua vida, se omitiu: não compareceu para dar limites ao agressor, acariciando assim a onipotência dele.

Há quase três anos não moro em BH, todavia, na tarde de 7 de março, fui “achada” por uma defensora pública de Uberlândia (MG), que conduz um caso de gravidez pós-estupro e pedia socorro porque não encontrara nas “muitas Minas” quem realizasse o aborto! Conforme relato da defensora pública: “Uma moça de 20 anos está grávida após estupro. Desde então, vem em peregrinação por hospitais da rede pública, para se submeter ao procedimento de interrupção da gravidez, e todos se recusaram.

Ela chegou a ser encaminhada para um hospital em BH, mas foi negado o atendimento porque supostamente este seria atribuição do Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia, que, por sua vez, já informou que não o faz”.

A valorosa defensora já entrou com uma ação pedindo que o Estado providencie a interrupção da gravidez; no entanto, não conseguiu a informação sobre quais hospitais em Minas Gerais são credenciados para tanto. Cadê o governador de Minas Gerais? Até 2010 havia lista pública de serviços de aborto prevista em lei no Brasil, mas um ministro fundamentalista proibiu a divulgação dela! Só sabemos que são 65 serviços e a lista sumiu!

A terceira miséria foi o chamado nem tanto subliminar do atual presidente da República à formação das fiscais de Temer, ao dizer: “Ninguém melhor do que a mulher para indicar desajustes de preços no supermercado”, em meio a um discurso das entranhas da Idade Média, bem ao estilo família “comercial de margarina”, ignorando as novas configurações familiares no Brasil, onde 40% dos domicílios têm mulheres como pessoas de referência, conforme a pesquisa “Retrato das Desigualdades de Gênero e Raça”, do Ipea. “Tenho absoluta convicção, até por formação familiar e por estar ao lado da Marcela, do quanto a mulher faz pela casa, pelo lar. Do que faz pelos filhos...” Ninguém merece ser reduzida ao papel de mulher-mala, aquela cujo valor divino são os rebentos que pode carregar na barriga!

É um atraso que padrões culturais retrógrados dominem mentes que têm poder e que, por dever de ofício, deveriam estar em sintonia com a peleja “por um mundo de igualdade contra todas as opressões”.

Publicado também em O Tempo (14/03/17)

* Médica e escritora. É do Conselho Diretor da Comissão de Cidadania e Reprodução e do Conselho da Rede de Saúde das Mulheres Latino-americanas e do Caribe. Indicada ao Prêmio Nobel da paz 2005.

* Opiniões aqui expressas não refletem necessariamente as opiniões do site.


  • VOLTAR
  • IMPRIMIR
  • ENCAMINHAR