16 de Fevereiro de 2017 - 15h31

Heliporto é prioridade em Sampa 

Jaime Sautchuk *

As maiores cidades do mundo devem servir de exemplo quando ao bem-estar das comunidades aos demais centros populacionais de todo o Planeta, com destaque à questão da mobilidade urbana. No Brasil, esse papel é reservado principalmente à São Paulo, pelo que se supõe.


No entanto, o que vemos é o retorno da prioridade absoluta aos veículos particulares, do automóvel ao helicóptero. Em ambos os casos, seguindo na contramão da tendência moderna, de ampla democratização dos sistemas de transporte, que inclui o uso do espaço aéreo, hoje também congestionado.

A grande novidade das primeiras décadas do século passado foi o veículo automotor. A invenção era o chique de então, que deixava pra trás os veículos puxados por animais ou os próprios animais de montaria. Era também uma alternativa muito mais ágil e eficiente do que o bonde, então de largo uso. Era, enfim, o símbolo da modernidade.

Um século depois, porém, nos países mais desenvolvidos o carro particular é que se consolida como símbolo do atraso, do vetusto, da prepotência e arrogância. Em vez de salvar a mobilidade urbana, é agora a razão maior da imobilidade, dos engarrafamentos, dos deslocamentos demorados, da poluição de todos os tipos e das ocorrências que lotam hospitais e cemitérios.

Todos os espaços possíveis são tomados por esses meios de locomoção, sacrificando pedestres, ciclistas e usuários do transporte público. O aumento da velocidade dos carros nas vias marginais da capital paulista, em menos de dois meses de nova gestão na prefeitura, já elevou o número de acidentes, com mais mortos e muitos feridos.

No entanto, por mais facilitado que aparente ser, com o aumento dos limites de velocidade, o trânsito de automóveis nas principais vias da capital e região metropolitana não satisfaz aos mais ricos. A cada minuto, um helicóptero decola de algum heliporto situado em prédios e espaços particulares e órgãos públicos (polícias, bombeiros etc.), ou do aeroporto de Campo de Marte.

O número de aparelhos e de voos diários na capital paulista é pelo menos três vezes maior do que o da cidade de Nova Iorque, nos Estados Unidos, pra se ter uma ideia do tamanho da encrenca. São cerca de 600 helicópteros e perto de 1.500 pousos e decolagens por dia, provocando congestionamento de algumas rotas centrais da cidade.

Hotéis, sedes de empresas, condomínios residenciais de luxo, centros de eventos e até igrejas são locais que possuem heliportos autorizados a operar na capital paulista. E a cidade é a única que tem um controle próprio dessa modalidade de transporte, dispensando o Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea), de atuação nacional.

A maior parte dos helicópteros autorizados a operar ali é de propriedade particular, incluindo empresas que funcionam como locadoras. Um único aparelho de porte médio custa em torno de R$ 4 milhões.

O setor cresceu tanto nos últimos anos que o prefeito João Dória (PSDB) já determinou a revisão das regras municipais a ele relacionadas. Desde logo, decretou prioridade ao tema.

Quanto ao transporte público destinado à grande massa da população, esse vai sendo tocado no ritmo da contenção de despesas decidida na esfera federal e acatada pelo poder local.

* Trabalhou nos principais órgãos da imprensa, Estado de SP, Globo, Folha de S.Paulo e Veja. E na imprensa de resistência, Opinião e Movimento. Atuou na BBC de Londres, dirigiu duas emissoras da RBS.

* Opiniões aqui expressas não refletem necessariamente as opiniões do site.


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