6 de Janeiro de 2017 - 10h42

“BR 716” - Amarga Ressaca

Cloves Geraldo *

Cineasta carioca Domingos Oliveira monta alegoria sobre a juventude classe média para matizar sua alienação e o choque de país real em 1964.


No melhor da festa, as forças reacionárias brasileiras costumam frustrar a possibilidade de se estruturar um país em que os deserdados sentem à mesa para compartilhar o banquete. O cineasta carioca Domingos de Oliveira (1936) o reafirma nesta bem estruturada alegoria, “BR 716”, sobre a juventude classe média do Rio de Janeiro que nos anos pré-64 se entregava ao hedonismo e ao estado etílico.

Não estavam dispostos a enfrentar as contradições político-sociais do Brasil da época. E fugiam aos embates políticos-ideológicos enfurnados num apartamento de duzentos metros quadrados, na Rua Barata Ribeiro, em Copacabana, daí o título do filme: “BR 716”, para se divertir com amigos e amigas, ouvindo música e consumido uísque. Tudo patrocinado pelo jovem Felipe (Caio Blat), cujo sonho adiado era ser engenheiro.

Assim a alienação predomina. Nada do mundo exterior se manifesta neles. Assemelham-se aos convidados à festa em “O Anjo Exterminador” (1962), no qual Luis Buñuel (1900/1983) mostra-os assustados com seus próprios fantasmas. O que inquieta Felipe vem de seu universo interior e amoroso. Está sempre à caça de novas parceiras ou se insurge contra o amigo João (Álamo Facó) por ter-lhe “roubado” a companheira Adriana (Maria Ribeiro) aos gritos e tapas.

Jovem de classe média alienado cai na festa

Além disso, Oliveira o constrói como o conquistador fugaz, capaz de se “apaixonar” instantaneamente pela bela Gilda (Sophie Charlotte), sósia da Rita Hayworth (1918/1987) do filme homônimo (1946), dirigido pelo húngaro Charles Vidor (1900/’959), e a humilde Sara, garota da periferia, garantindo-lhes amor eterno. O que rende ao filme a bela sequência de Charlotte replicando a célebre canção Amado Mio, de Doris Fischer (1915/2003) e Allan Roberts (1905/1966), enquanto ele se desdobra em promessas à supostamente ingênua Sara, todo sedução.

Porém a realidade exterior advém de fator externo, introduzido por Oliveira na segunda parte do filme, quando o paulista Silvio zomba de Felipe e seus amigos por alhearem-se ao que ocorre nas ruas de São Paulo, durante as polêmicas entre as organizações de esquerda, defensoras do Governo João Goulart (1961/1964), e as forças conservadoras, enquanto eles se prendiam às festas erótico-etílicas.

O confronto político-ideológico se estende à tímida Sara que numa conversa com o sedutor advogado Carlinhos (Pedro Cardoso) se revela deslocada no meio de jovens classe média. Moradora do Bairro de Santa Cruz, periferia do Rio de Janeiro, diz que ali “todos têm estudo”. Por ser frágil e deserdada torna-se protegida de Felipe. Mas sua adesão ao meio classe média se traduz em inquietação, devido às suas explícitas carências.

Situação beira a ácida sátira

Assim, Oliveira introduz a surrealista situação de a festança no BR 716 ser ameaçada pelo golpe civil-militar de 1964. E seus participantes terem de se conscientizar de que o estado etílico terá de ser transformado em maturidade. Fica pior para Felipe quando o advogado da família lhe diz que o pai está mal das finanças e ele terá de abrir mão das facilidades, e o dono do bar onde pendura as contas o pressiona para ele quitar seus débitos.

A situação ganha clima de ácida sátira quando Silvio, na sequência final, alerta-os que a situação política ficou insustentável sem os esperados apoios. E convida-os a aderir a luta contra as forças conservadoras, com ares de tragédia. Embora Felipe e os demais se conscientizem da gravidade da situação a única a se dispor a participar é a “atriz” Gilda, cujo lema é “só amo quem pode ajudar em minha carreira”.

A forma encontrada por Oliveira é deixar o desfecho em suspenso, sem o espectador saber se Felipe e os amigos cumpriram o ciclo de parte dos jovens de classe média que se envolveram na luta armada. Ou se durante os 21 anos de ditadura civil-militar (1964/1985) continuaram na alienação, aderiram à contracultura, à comunidade hippie ou caíram no desbunde total da década de 60. Porém ninguém se manteve em completa alienação após repressão, exílios, execuções brutais e desaparecidos.

Personagens e situações demarcam dualidades


São estes entrechos, personagens e situações históricas que demarcam as dualidades autorreferentes deste “BR 717”, filmados em ambientes fechados, permitindo aos diretores de fotografia Luca Pouggy e Felipe Roque uma variedade de planos e movimentos de câmera que tornam ágeis a narrativa em p&b, ousadia a que poucos diretores brasileiros se permitem. Daí os prêmios de Melhor filme e diretor no 44º Festival de Cinema de Gramado, de 2016, pela contundência do tema.

Oliveira conduz seu filme num único cenário, com mais de uma dezena de personagens, embora centrado em cerca de seis. Idêntica estrutura de “O Baile!, 1983” no qual Ettore Scola (1931/2016) trata do fascismo, variando personagens e situações Porém, o espectador atento percebe a dualidade alienação/participação em intima e dialética simbiose em um Brasil cuja vida tornou-se ácida diante do último golpe em seu humor.


BR 716. Comédia dramática. Brasil/Rio de Janeiro.85 minutos. Montagem: Tina Shapiri. Fotografia: Luca Pougg/Felipe Roque. Roteiro/direção: Domingos de Oliveira. Elenco: Caio Blat, Sophie Charlotte, Maria Ribeiro, Pedro Cardoso, Álamo Facó, Lívia de Bueno.

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* Jornalista e cineasta, dirigiu os documentários "TerraMãe", "O Mestre do Cidadão" e "Paulão, lider popular". Escreveu novelas infantis,  "Os Grilos" e "Também os Galos não Cantam".

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