5 de Janeiro de 2017 - 7h58

O povo se confunde, mas não é bobo 

Luciano Siqueira *

Não são poucos os analistas da atual situação do país, de um ponto de vista crítico aos atuais governantes, que revelam enorme impaciência, senão revolta, diante do que consideram "ignorância" da maioria dos brasileiros.


Para eles, o povo é desinformado e politicamente alienado.

Isto porque ainda não reage na proporção necessária às políticas regressivas encetadas por Temer e sua corja, como não reagiu diante do impeachment que, na prática, negou a vontade expressa de mais de 54 milhões de eleitores que haviam concedido um segundo mandato à presidenta Dilma.

Mas o buraco é mais embaixo. Aqui e em qualquer parte do mundo.

Complexo é o processo de formação de uma consciência social avançada. Nada em linha reta, nem ascendente sempre.

Tão complexo quanto a realidade; e sujeito a idas e vindas, a avanços e a retrocessos, sob a influência de inúmeras variáveis, entre as quais a dimensão da luta de ideias e a correlação de forças que esta comporta.

O aceso à informação numa sociedade como a brasileira é desigual, distorcido, fragmentado. O monopólio dos meios de comunicação determina, em última instância, o quê, como e quando o cidadão comum deve saber.

Por aí se dá certamente o principal mecanismo de formação do consenso em torno das ideias e interesses das elites dominantes, ao lado do sistema formador (escolas das redes pública e privada nos diversos níveis).

Tanto que é comum se dizer que o que não aparece na TV não aconteceu, assim como vale o que dizem os professores em sala de aula - mesmo que o ambiente da escola seja, em tese, propício ao debate.

O publicitário Duda Mendonça, conhecido pela participação em importantes campanhas eleitorais, quando no Recife assessorou o então prefeito João Paulo, candidato à reeleição, tendo o autor destas linhas como seu vice, era taxativo ao afirmar que o que saía em jornais e revistas ou mesmo em emissoras de rádio para ele não contava. Mas o que era divulgado na TV, sim.

Igual desdém tenho escutado de outros especialistas em marketing eleitoral quanto às redes sociais, segundo eles de alcance limitado porque circunscritas a grupos de interesse, sem o alcance da TV, sobretudo a de canal aberto.

Entretanto, como na essência o indivíduo pensa a partir do que vive, objetivamente a realidade social e individual termina por determinar sua leitura da realidade, desde que estimulado nessa direção.

É aí que entra o trabalho político organizado, sistemático e orientado para a desconstrução do consenso promovido pelo establishment - missão dos partidos políticos de esquerda e de outras formas de organização de caráter progressista.

Em outras palavras, trata-se de uma das esferas da luta de classes, que caminha ao lado da luta econômica e social e da luta política propriamente dita (que mira o poder).

Quando partidos e grupos de esquerda e progressistas subestimam essa frente de luta ou não a encaram com a competência devida, formam-se bolsões de incompreensão e de desinformação entre os milhões que constituem o povo, tornando-os assim vulneráveis à narrativa da classe dominante.

Nos recentes doze anos de conquistas sociais sem precedentes - governos Lula e Dilma -, mostrou-se evidente essa lacuna no trabalho político então desenvolvido junto ao povo. Tanto que pesquisas de opinião revelavam que a imensa maioria dos novos proletários ingressantes no sistema produtivo e no mercado de consumo atribuíam ao seu próprio esforço individual, e não às políticas públicas de governo, a ascensão social obtida.

Agora em que os papéis se inverteram e, no pós-impeachment, a direita neoliberal toma as rédeas da nação, mais do que nunca é preciso travar a batalha de ideias mediante os mais diversos instrumentos e mecanismos disponíveis - nas redes, nos salões e nas ruas.

Não basta protestar, é preciso esclarecer. Ir além da superfície na análise dos acontecimentos e traduzir de muitas formas e nas linguagens adequadas conteúdos essenciais destinados a despertar o povo para a luta em defesa da democracia, dos seus direitos fundamentais e da soberania da nação.

Nesse sentido, tudo vale a pena quando o compromisso e a vontade libertária não são pequenos: reuniões, debates, artigos, blogs e redes sociais - enroscados nas múltiplas manifestações coletivas.

Pois o povo pode estar mal informado e confuso, mas efetivamente não é nada bobo e pode se insurgir contra a ordem vigente. Questão de luta, tempo e aprendizado.

* Médico, vice-prefeito do Recife, membro do Comitê Central do PCdoB

* Opiniões aqui expressas não refletem necessariamente as opiniões do site.


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