Nossa cuca devastada 

Diz Galeano que nossa memória sabe mais de nossas vidas do que nós mesmos. A memória se encarrega de guardar o que verdadeiramente importa.

O escritor uruguaio deve estar certo. Mas há uma contrapartida que assalta ao espírito de todo ser vivente: bem que gostaríamos que algumas dessas coisas que “verdadeiramente importam” fossem apagadas para sempre ou, pelo menos, estivem contidas em lugar recôndito e de difícil acesso. É isso que atestam milhões de homens e mulheres que se autoproclamam ébrios para esquecer.

Mas eis que cientistas britânicos trabalham em sentido inverso. Não bastasse o tormento de reminiscências dolorosas, agora se cria um tipo de exame cerebral capaz de prever, por exemplo, trechos de filmes nos quais o expectador deverá pensar depois. O estudo, realizado na University College de Londres, informa sobre como as memórias são registradas no cérebro. Talvez com um pouco mais de aprimoramento, tenhamos nossa cuca devassada.

A descoberta pode ser útil para superar a perda de memória motivada por doença degenerativa ou agravo físico – contribuindo, assim, para melhorar a qualidade de vida de muita gente.

Bom seria, entretanto, que a doutora Eleanor Maguire, que comanda o estudo, e seus colaboradores inventassem técnicas igualmente eficientes em sentido inverso, tornando possível identificar antecipadamente partes negativas de nossa existência passíveis de esquecimento. O cara iria à luta já sabendo que determinados infortúnios seriam futuramente deletados da memória – por exemplo, em casos de amores malsucedidos. Ficariam apenas as boas lembranças, enquanto dores e dissabores seriam movidos para uma espécie de buraco negro da mente de onde jamais sairiam.

Assim sendo, já não se beberia tanto para esquecer; antes para comemorar ou reviver as coisas boas vividas.E seguiríamos adiante na fascinante e desafiadora aventura da vida desfrutando dos prazeres da memória seletiva.

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