Luiz Manfredini

O centro e a frente ampla

Parece-me simplesmente acaciana a recorrente afirmação – anunciada em tom, digamos, de revelação - de que agora, diante da crise e de sua derrota (com o “impeachment” e o fracasso nas eleições municipais), a esquerda deve ampliar para o centro. É como se esse não tenha sido um dos grandes e históricos desafios desse bloco do espectro político, ora conquistado, ora não.

Eis a verdade que os fatos demonstram em abundância: o centro foi sempre essencial para os objetivos táticos tanto da esquerda, quanto da direita. Não há novidade nisso. Para chegar ao que chegou (depor a presidente Dilma Rousseff mediante um golpe e promover o retrocesso autoritário que vem promovendo com o governo Temer), a direita ganhou o centro. Não o ganhasse, não teria sucesso. Em 2002, Lula venceu as eleições, pois teve a maioria do centro a seu lado.

Não acredito que uma frente de esquerda, como defendem alguns, seja capaz, por sua natureza mais restrita, de enfrentar e vencer orgia neoliberal a que o Brasil está submetido. Penso que é necessário mesmo uma composição com o centro politico com base num programa mínimo (atenção: mínimo) de caráter democrático e progressista, retirando ao menos parte desse bloco das asas hoje hegemônicas da direita e da extrema-direita.

O que não é correto, de uma perspectiva da esquerda, é a adesão ao centro com insinuam, ainda que disfarçadamente, algumas vozes no debate político.
Ou seja, menos esquerda e mais centro.

O mesmo ocorre com a questão, insaciavelmente debatida nos tempos atuais, da frente ampla como fórmula para a luta anti-neoliberal no Brasil. Aqui, o equívoco – também disfarçado numa certa fraseologia – é tomar a frente em seu aspecto meramente eleitoral. Ou seja, uma frente para disputar eleições e ganhá-las a qualquer custo.

Um movimento com a magnitude politica que se pretende, nucleada pela esquerda e com o audacioso objetivo de derrotar o projeto neoliberal deve, sim, disputar eleições e tentar construir maiorias no âmbito parlamentar, mas com base num forte movimento social e de luta de ideias, ambos decisivos. Do contrário, será – a tal frente - menor que o intuito que busca.

Espero não prosperem nenhum desses desvios, o da adesão ao centro e o da percepção meramente eleitoral da necessária frente ampla.

* Jornalista a escritor paranaense, autor, entre outros livros, dos romances "As moças de Minas", "Memória e Neblina" e "Retrato no entardecer de agosto".

As opiniões aqui expostas não representam necessariamente a opinião do Portal Vermelho



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