16 de Maio de 2007 - 19h42

Viagem à Síria (1)

Paulo Vinícius *

Após o Conselho Coordenador da FMJD havido em Beirute, Líbano, em novembro de 2006, a UJS, a convite da RYU (União da Juventude Revolucionária), e a UNE, a convite da União Nacional dos Estudantes Sírios, visitaram a Síria, com a possibilidade de conhecer


Tivemos a oportunidade de vivenciar nos dois países a proverbial hospitalidade árabe, e fomos conquistados pelo carinho, atenção e a incrível luta da Nação Síria por sua autodeterminação e defesa do legado de milhares de anos de história.

 

Durante os tensos dias em que a direita pró-estadunidense libanesa promovia provocações e se somava à grita do imperialismo na hostilidade à Síria, pudemos ver claramente a unidade dos interesses das forças que lutam contra o imperialismo no Líbano na Síria.

 

Fomos recebidos pelos mais altos dirigentes da RYU e da NUSS, conhecemos a universidade de Latakia), andamos pelas ruas da Antiga Damasco, conhecemos a região do Golan e as rodas de Hamas, assim como a cidadela de Saladino em Bosra e voltamos com a convicção de que a histeria anti-islâmica e anti-árabe só se justifica pela crueldade do imperialismo e seu desejo infinito de dominação. E ao mesmo tempo, retornamos cheios de admiração pela civilização árabe, tão injustamente vilipendiada.

 

Reunimos também com a União da Juventude Comunista Khaled Bagdash, visitamos o Mausoléu de Rafez El Assad, o Monumento aos Mártires da Guerra de 1973, a imagem e o Túmulo de Saladino na Antiga Damasco e a Mesquita dos Omíadas, primeira visitada por um Papa (João Paulo II).

 

Sem a pretensão de retratar totalmente esta incrível viagem, resumimos alguns aspectos das visitas para dar um panorama à juventude brasileira sobre este país e sua luta contra o sionismo e a ocupação, através destas imagens.

 

Bosra e a Cidadela Romana.

Na província de Hawran, a cerca de 145 km ao sul de Damasco,encontramos Bosra, já mencionada nos inventários de Tutmósis III e de Akhenaton por volta do IV século antes de Cristo. É incrível andar por uma cidade em cujas milenares construções ainda hoje vivem pessoas. Almoçamos num restaurante que devia ter cerca de 2000 anos!


Bosra tem um dos teatros romanos mais importantes da Humanidade, o segundo maior do mundo. Com capacidade para 15.000 pessoas, com 45 m de largura por 8,5 de profundidade - dava para sediar uma plenária final do Congresso da UNE!

 

A cidade foi a capital da província romana de Arábia, durante o reinado de Trajano (106 a. C) e também na história do Islã a cidade teve importante significado. Quando Maomé parou nesta cidade em caravana, um monge chamado Bahira lhe previu sua vocação profética e a nova fé que iniciaria. Nela estão os mais antigos minaretes do Islã ainda de pé, e a cidadela foi utilizada na resistência às Cruzadas.

 

Um momento de forte emoção: o encontro com a juventude palestina.


Estivéramos dias antes no Líbano, no local do Massacre de Sabra e Shatilla, perpetrado pelos fanáticos cristãos da Falange Libanesa com beneplácito do General Ariel Sharon, em 1982.

 

Também pudemos visitar o assentamento palestino mais próximo. As imagens ainda frescas na retina nos recordavam a tragédia da juventude palestina, de um povo cuja terra fora ocupada e seu martírio.

 

A caminho de Bosra, já na entrada, tivemos a oportunidade de ver a juventude do local curtindo o fim daquela tarde do feriado (era sexta, o feriado islâmico). Se fosse uma cuíca, um cavaquinho e um pandeiro, podia até ser um sambinha. Pelas ruas, com uma gaita e outros instrumentos, aqueles jovens cantavam, dançavam de mãos dadas, algo lindo de ver.

 

Reencontramo-los novamente, desta vez no palco do anfiteatro romano. E nos juntamos, é claro, à algazarra - algo muito natural, o pessoal curtindo a tarde, todos gente muito boa. Não precisávamos de meia palavra em Árabe para fazer parte da festa, fomos recebidos como se estivéssemos em casa.

 

Foi só prestes a partir, que fui me dando conta de algumas palavras de suas canções, entre as quais, Arafat, Israel e Palestina, e percebemos que aquele grupo era uma pequeníssima parte da juventude palestina que vive na Síria entre os milhares que lá residem. E um deles desfraldou uma bandeira com o rosto de Iasser Arafat.

 

Olhei-os, como estavam vestidos, os rostos, e observei a identificação imediata que havíamos tido com aqueles jovens, a alegria, a cultura, o ritmo, o que os diferenciava de qualquer jovem brasileiro? Praticamente nada. Foi perceptível o contraste com a triste situação dos palestinos amontoados nos subúrbios do Líbano e ao mesmo tempo a tristeza de perceber o que poderiam ser em sua própria terra.

 

Eram palestinos. Na sua alegria, no seu canto, nas danças, num fim de tarde cálido e de luzes tão plangentes, como os muçulmanos se volvem a Meca, vimos que mesmo sua alegria lhes remetia à Palestina, à diáspora e o massacre de seu povo.

 

Este entendimento, ali, de mãos dadas em meio àquele fim de tarde num anfiteatro que nem os séculos e as guerras tombaram, deram-nos ainda mais certeza da inutilidade dos intentos da potência ocupante de apagar a verdade insofismável de que o Estado de Israel os expulsou, segregou-os em guetos na sua própria terra, discrimina-os, assassina-os, tortura e persegue os verdadeiros donos da Palestina, que lá viviam antes de chegarem os judeus conduzidos por   Abraão, lá permaneceram após a destruição de Jerusalém e do Templo e nos quase dois milênios seguintes, e que ainda esperam retomar seu lar.

* Sociólogo e Bancário. Membro da direção Nacional da CTB.

* Opiniões aqui expressas não refletem necessariamente as opiniões do site.


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