José Carlos Ruy

Dom Hélder Câmara, o “santo” vermelho

A decisão anunciada nesta quarta-feira (8) pelo Vaticano de iniciar o processo de beatificação de Dom Hélder Câmara (1909-1999) é uma homenagem aos democratas que lutaram – e lutam – pela igualdade, pelo respeito aos direitos humanos e contra as ditaduras.

Aquela decisão reforça também, a percepção da radical mudança que o papa Francisco promove na cúpula da Igreja Católica.
É um processo longo, que envolve várias etapas e culmina com a canonização, isto é, a incorporação ao panteão dos santos católicos.

Modesto e muito simples, o próprio D. Hélder talvez nem se importasse muito com isso. Ele sabia das contradições que envolvem esse tipo de consideração. Certa vez disse que era chamado de “santo” quando dava pão aos pobres, e condenado como “comunista” quando queria saber por que eram pobres.

Fundador e presidente da Conferencia Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) entre 1952 e 1964, ele foi um destacado defensor da Teologia da Libertação e esteve na linha de frente da luta contra a ditadura militar.

Desde o início de sua longa atividade sacerdotal (que durou mais de seis décadas!), lutou, sobretudo, contra a pobreza e pela igualdade entre os homens. Ser pobre não é vontade de Deus.

Ele foi quatro vezes indicado para o Prêmio Nobel da Paz, nas décadas de 1960 e 1970, e a ditadura boicotou sua indicação. O general Emílio Garrastazu Médici chegou a se envolver pessoalmente para evitar aquela premiação que seria mais uma condenação da ditadura que comandava.

Para os ditadores brasileiros e seus acólitos, D. Helder era o “bispo vermelho” contra o qual valia tudo. A imprensa foi proibida de citar seu nome, sua casa chegou a ser metralhada, assessores próximos a ele foram perseguidos, presos e torturados. Até o assassinato foi usado para atingir aquele que o povo chamava, com carinho, de “Dom da paz”.

O atentado mais hediondo ocorreu em 26 de maio de 1969, cometido por agentes da repressão e do CCC (Comando de Caça aos Comunistas). Eles assassinaram com requintes de perversidade o padre Henrique (Antônio Henrique Pereira da Silva Neto), que coordenava a Comissão Pastoral da Juventude da arquidiocese de Olinda e do Recife e era muito ligado a D. Hélder.

Foi um “recado” criminoso da direita e da repressão ao arcebispo, que não se intimidou e aprofundou a luta contra a ditadura.

Naquela época sombria a Igreja progressista formava um amplo guarda-chuva para abrigar muitos, inúmeros, lutadores pela democracia e contra a ditadura.

A Arquidiocese de Olinda e do Recife, dirigida desde 12 de março de 1964 por D. Hélder, foi um abrigo para todos os democratas e patriotas.

Nesse sentido D. Hélder foi um sacerdote da estirpe de D. Oscar Romero, o arcebispo metropolitano de San Salvador assassinado pela direita (em 24 de março de 1980) durante a celebração de uma missa na catedral do país, e que está em processo de canonização.

Ao abrir o caminho que pode levar à canonização de Dom Hélder, a Igreja homenageia todos estes lutadores progressistas. Ele será o “santo” vermelho.

Ao mesmo tempo o Vaticano sinaliza que se afasta do conservadorismo extremo que prevaleceu sob os papas João Paulo II e Bento XVI.

* Jornalista, editor da Classe Operária, membro da Comissão Nacional de Comunicação e do Comitê Central do PCdoB; é da Comissão Editorial da revista Princípios

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