Jairo Junior

A Capoeira na política, as Maltas

O historiador Carlos Eugênio Líbano Soares (1994) estudou as maltas de capoeiras desde a colônia e concluiu que os grupos de mestiços livres (nacionais) e escravos africanos se dividiam entre Guayamus (composto por mestiços, pardos e brancos pobres) e Nagóas (composto por negros escravos e alforriados) na cidade do Rio de Janeiro entre 1850 -1890.

Os Nagóas integravam os africanos que vieram da Costa dos Escravos (região nordeste da África) que vieram para região sudeste através do tráfico interprovincial enquanto os Guayamus eram viviam na região portuária a muitos anos.

Estes grupos se confrontaram entre si nas ruas da cidade do Rio de Janeiro durante o período de crise na sociedade escravista, ou seja, entre os anos de 1850 com o fim do tráfico negreiro até o advento da República em 1889.

Essa crise surgiu diante do dilema de libertar os escravos ou prorrogar o regime escravista por alguns anos. Os conflitos ideológicos e a disputa entre os partidos sobre a emancipação escrava gerou o aliciamento de maltas de capoeiras. O recrutamento era feito, de acordo com os interesses políticos da região a qual pertenciam os negros e mestiços na cidade do Rio de Janeiro.

Um dos conflitos foi o crescimento do interesse político de grupos antagônicos pelo controle das principais regiões da cidade. Isso instigou a brutalidade e as brigas entre as maltas e a policia carioca.

A violência das maltas foi apoiado por grupos ou membros dos partidos Conservador ou Liberal, que se utilizaram das mesmas como milícias armadas, para assassinar inimigos pessoais e desafetos políticos.

Os Nagóas eram protegidos por membros do partido conservador que recrutavam estes bandos para invadir residências, lojas comerciais ou jornais abolicionistas Já os Guayamus eram apoiados pelos liberais e depois escolhidos como guardas costas de políticos contra as ameaças de membros do Partido Conservador.

Para ilustrar este domínio, na década de 1870, Soares (1994, p.80) comentou que o controle das ruas do Rio de Janeiro era dividido entre as milícias de capoeiras que repartiam entre si o domínio das zonas urbanas e rurais, conforme o domicilio e o local de trabalho de negros, escravos de ganho e libertos. Essas milícias recebiam libertos que atuaram na Guerra do Paraguai e retornaram em 1870 com patentes do exército, mas sem prestigio social.

Relatos de documentos da época apontavam para a concentração de grupos que lutavam capoeiras na área de Mata Atlântica e morros da zona portuária pertenciam ao grupo Nagóa enquanto os Guayamus se concentravam nas áreas residências e no centro da Corte Imperial. Os Guayamus eram mestiços e brancos, de origem portuguesa, que executavam serviços diversos no comércio e nas casas da elite urbana.

As maltas do grupo Nagóa habitavam em áreas de chácaras e grandes sítios que ocupavam a parte rural da cidade do Rio de janeiro, pois eram em sua maioria escravos ou prestavam serviços como negros de ganho no centro. Seu domínio se estendia da região do Glória até os limites do Campo do Santana e os membros eram divididos pelos bairros e freguesias conforme o local em que residiam. Por exemplo, a malta “Cadeira da senhora” que controlavam a região do Santana e o “Flor da gente” exerciam seu domínio sobre a freguesia do Glória.

Os Guayamus tinham seu território restrito, ao centro comercial, periferia e portos perto da orla marítima como o Morro da Providencia e do São Bento cujo limite natural ia do Largo do Rocio (atual Praça Tiradentes) até uma parte do Campo do Santana. As maltas “Três cachos” da freguesia de Santa Rita e “Franciscanos”, da freguesia de São Francisco de Paula eram as mais conhecidas dessa região.

O poder destas maltas, graças ao apoio de partidos políticos, cresceu em importância perante a imprensa carioca que passou a escrever em seus periódicos os distúrbios provocados pelos capoeiristas, a violência e a rivalidade entre os grupos. Segundo a imprensa, os Guayamus e os Nagóas pretendiam dominar todo o meio urbano carioca com a conivência da elite política. Para coibir a ação das maltas, a delegacia da Freguesia do Glória incorporavam capoeiras como integrantes da força policial para controle da região.

Por isso, os crimes das maltas foi destaque nos jornais cuja responsabilidade atribuíram aos negros ou brancos, de descendência portuguesa, pela pratica da violência associada a capoeira e a responsabilidade pelo aumento da criminalidade urbana. O grande destaque na imprensa foi a descrição das ações de maltas que se envolviam em lutas com navalhas e nos assassinatos de membros dos grupos rivais.

Diante da rivalidade entre Nagóas e Guayamus, a ação policial era ineficaz ao tentar controlar as maltas e impedir estes os assassinatos. Os registros criminais do período apontam a prisão de inúmeros negros, pardos e brancos pela pratica da capoeira em festas e comemorações religiosas. As diligencias policiais apreendiam negros bêbados que portavam navalhas, mas não conseguiam evitar os assassinatos nas ruas.

As informações são muitas o contexto estenso e se nós fomos estudar a participação heróica da capoeira na reácionária guerra do Paraguai? Iremos ver que mesmo com conotação controversa e polêmica. A Capoeira e os capoeiristas sempre teve com a politica uma relação inevitavél e quase que permanente. Assim sendo cabe aos capoeirista e suas lideranças não se esconderem e assumirem suas responsabilidades. Devemos e precisamos participar, pois só pela politica e através dela que poderemos garantir as conquistas histórcas pelas quais lutamos há seculos. Com a consciência de que a luta é o terreno da capoeira, os lideres precisam lutar para serem senhores de seu destino.

* Presidente Associação Brasil Angola (AABA); Diretor do Centro Cultural Africano (CCA); Coordenador do Congresso Nacional de Capoeira (CNC)

As opiniões aqui expostas não representam necessariamente a opinião do Portal Vermelho



Publicidade

TEXTOS DESTE +

OUTRAS COLUNAS