Carlos Pompe

Mandela, do anticomunismo à adesão ao marxismo

Em sua autobiografia, “Longo caminho para a liberdade”, Nelson Mandela conta de sua oposição aos comunistas e ao Partido Comunista da África do Sul; de sua convivência e, depois, amizade com militantes do PC e de como isso o levou a estudar os fundadores do socialismo científico e à adesão aos seus ideais.

Num momento em que se ergue uma unanimidade em torno do seu nome, descaracterizando, muitas vezes, seu pensamento, vale verificar esse depoimento desse que foi um dos grandes revolucionários surgidos no século passado.

Em 1947, aos 29 anos, Mandela era dirigente da Liga da Juventude, uma das organizações que, com o Partido Comunista e outras, formava o Congresso Nacional Africano (CNA). Na Conferência Nacional do CNA, ocorrida nesse ano, a Liga apresentou uma moção uma moção exigindo a expulsão dos militantes do PC da organização. “Minha preocupação era que a intenção dos comunistas fosse apossar-se de nosso movimento usando o disfarce da ação conjunta. Eu achava que o que nos poderia libertar seria um nacionalismo africano não diluído e não um marxismo e nem um multirracialismo. Com alguns colegas da liga, cheguei ao ponto de interromper reuniões do Partido Comunista invadindo o palco, arrancando cartazes e me apossando do microfone,” relata.

Em 1950, opôs-se à realização de um dia de greve, no 1º de Maio, o Dia da Liberdade, aprovado pela Convenção de Defesa da Liberdade de Expressão, porque a proposta partiu do PC e ele achou “que os comunistas estavam tentando tirar a força do Dia Nacional de Protesto do CNA”. Desta vez, Mandela teve êxito e a greve aconteceu sem o apoio do CNA. “Mais de dois terços dos trabalhadores africanos ficaram em casa durante a greve de um dia”, lembra. Dezoito africanos foram mortos e muitos ficaram feridos num ataque realizado pela polícia a manifestantes que apoiavam a greve. Poucas semanas depois, o governo tornou ilegal o Partido Comunista. Mandela conta que ouviu de um dirigente do CNA “estas palavras proféticas: ‘Hoje é o Partido Comunista. Amanhã serão os nossos sindicatos, o nosso Congresso Indiano, o nosso Congresso Nacional Africano”.

Em resposta a esses acontecimentos, o CNA resolveu promover, em 26 de junho de 1950, um Dia Nacional de Protesto, juntamente com o PC e outras organizações. “Naquele tempo eu tinha mais certeza das coisas às quais eu me opunha do que das coisas que apoiava. Minha oposição ao comunismo vinha de muito tempo, mas estava se desfazendo”. Moses Kotane, secretário-geral do PC, perguntou-lhe: “O que você tem contra nós, Nelson? Nós todos estamos lutando contra o mesmo inimigo. Não estamos querendo dominar o CNA; estamos trabalhando no contexto do nacionalismo africano”. Relacionando-se com vários comunistas, “e por observar seus sacrifícios, achava cada vez mais difícil justificar meu preconceito contra o Partido”.

Mandela resolveu conhecer melhor o marxismo, pois, nas discussões políticas com os amigos “via-me sempre prejudicado por minha ignorância da filosofia marxista”. Comprou as obras de Marx e Engels, Lênin, Stálin e Mao Zedong “e comecei a sondar a filosofia do materialismo dialético e histórico. (...) Eu concordava com a frase básica de Marx, que tinha simplicidade e a generosidade da Regra de Ouro: ‘De cada um conforme a capacidade; a cada um conforme a necessidade’”.

Tudo mudou: “O materialismo dialético me ajudou a ver a situação de outra maneira que não pelo prisma das relações entre negros e brancos, pois se quiséssemos que nossa luta tivesse êxito, precisaríamos transcender as cores. Fui atraído para as bases científicas do materialismo dialético, pois estou sempre inclinado a confiar no que posso verificar. (...) O apelo do marxismo à ação revolucionária era música para os ouvidos de um combatente pela liberdade. A ideia de que a história progride por meio de lutas e que as mudanças ocorrem em saltos revolucionários também era muito sedutora. Em minha leitura das obras de Marx encontrei uma grande quantidade de informações relacionadas ao tipo de problemas que um político prático encontra”.

“Certa vez um amigo me perguntou como eu podia conciliar meus princípios de nacionalista africano com uma crença no materialismo dialético. Para mim, não havia nenhuma contradição. Eu era primeiro e acima de tudo um nacionalista africano em luta por nossa emancipação de um governo minoritário e pelo direito de controlar nosso próprio destino. No entanto, ao mesmo tempo a África do Sul e o continente africano faziam parte de um mundo maior. Nossos problemas eram diferentes e especiais, mas não eram completamente exclusivos e só podia ser válida uma filosofia que colocava esses problemas no contexto internacional e histórico do mundo como um todo e do processo histórico”, escreve Mandela, para concluir: “Verifiquei que os nacionalistas africanos e os comunistas africanos geralmente tinham muito mais elementos os unido que os separando. Os cínicos sempre sugeriam que os comunistas estavam nos usando. Mas quem poderá dizer que nós não estávamos usando os comunistas?”.

Pouca gente lembra, mas Mandela é cidadão paulista. O título foi dado pelo então deputado Vital Nolasco, do PCdoB, e ele foi à Assembleia Legislativa de São Paulo para recebê-lo, em 2 de agosto de 1991.


* Jornalista e curioso do mundo.

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