20 de Dezembro de 2006 - 18h35

O Líbano e o assassinato de Pierre Geymael (2)

Paulo Vinícius *

Quem ganhou com a morte de Pierre Geymael?

 

Em meio a uma grande tensão, um dia após nossa partida, ocorre o assassinato do Ministro Geymael. Qual o seu impacto sobre a cena política libanesa?


As forças pró-EUA, representadas pelo líder do governo no parlamento, Saad Hariri, imediatamente acusaram o Hizbolah e a Síria;

 


- A mídia estadunidense, particularmente a CNN, iniciou uma campanha na mesma direção, buscando culpar sem quaisquer indícios a Síria e ao Hizbolah.

 


- Ao mesmo tempo, apostou no caráter confessional da questão. Tudo foi reduzido a uma disputa religiosa em que de um lado estariam terroristas (xiitas, claro) e de outro os cristãos (pacíficos, claro), o que nem de longe é verdade. Oculta-se o fato de que Pierre Geymael era ligado ao Partido direitista e pró-imperialista chamado Falange Cristã, responsável pelo massacre de Sabra e Chatila, em 14 de setembro de 1982, quando sob o olhar cúmplice de Ariel Sharon e do Exército de Israel foram assassinados cruelmente entre 2750 e 3500 palestinos, cercados e indefesos, homens mulheres e crianças;

 


- A administração estadunidense, em situação desesperadora no Iraque, culpou a Síria e/ou o Hizbolah. Que coincidência, não é mesmo!?

 

 

 Ante a iminente queda do governo inconstitucional que já se desmoralizara ante as agressões israelenses, o assassinato do Ministro Geymael poderia interessar a muitos, mas certamente era a pior coisa que poderia acontecer às forças patrióticas e à Síria - além, é claro da vítima. Mas alguns se beneficiaram da morte de Geymael, sem pudores, senão vejamos:

 


- O governo retomou a ofensiva política, lastreado na mídia internacional e galvanizando manifestações de rua, estimulando a divisão do país, a estigmatização xiita, a criminalização da heróica resistência, poupando mais uma vez Israel que teve seus crimes esquecidos e postos em segundo plano.

 


- Insiste-se na divisão pró-Síria e pró-Irã para designar as forças da Resistência, num nacionalismo muito mixuruca, mas já ficava cada vez mais claro que a divisão do espectro político libanês é pró-EUA/Israel ou em defesa da soberania libanesa. A Síria não tem mais qualquer presença no Líbano. Deste modo, o episódio foi uma mão cheia, contra a Síria, cristianizada pela CNN até a exaustão, sem uma evidência sequer.

 

 

Porém, cabe perguntar:


 

- Como, nas ruas apinhadas de tropas fortemente armadas do Exército Libanês, ocorre o assassinato de um Ministro e a fuga tranqüila dos assassinos, quando a segurança dos membros do governo já era então uma prioridade?

 


- Com a saída de todas as tropas sírias e o decidido afastamento da política interna Libanesa, por que a Síria teria qualquer interesse que ocorresse algo tão perfeito para a retórica anti-Síria? E mais, ainda que o desejasse – o que é inverossímil - como poderia, com milhares de militares libaneses por todos os lados?

 


- O Hizbolah, que exercia unicamente pressões políticas, legais e pacíficas, hesitava então em realizar marchas de protesto, buscando o máximo de acordo possível entre a oposição e buscando apoio internacional das forças progressistas. Por que tomaria uma atitude que imediatamente lhe poria na defensiva e no isolamento?

 


- E se o atual governo Libanês é legítimo e democrático e não concorda com o arranjo confessional que divide o poder entre as religiões, e se quer mudar a constituição, porque não convoca eleições de verdade, um eleitor, um voto, e compõe um governo de unidade nacional que de fato represente e defenda o país? Por que, em vez disso, acusa, arma-se, escora-se em Israel e nos EUA?

 

 

Se o assassinato foi uma arma, foi usada contra quem?


 

O assassinato de Pierre Geymael foi usado como uma potente e oportuna arma para deter o avanço decidido das forças anti-imperialistas e anti-sionistas no Líbano. Estas ampliavam sua unidade, enfatizavam que qualquer confrontação armada só poderia ser contra a força ocupante, além de romper o confessionalismo. Como bem relatou José Reinaldo Carvalho, Secretário de Relações Internacionais do PCdoB:

 

 

“(...) um dos lideres mais importantes do Hizbolah, o Dr. Ali Fayyad, presidente do Centro de Pesquisas e Documentação Estratégicas – instituto de estudos políticos e teóricos do partido xiita – e membro do seu Birô Político, é incisivo:”Nossa ação política obedece exclusivamente a critérios políticos. As divisões no Líbano não são religiosas. Nossa luta é pela justiça social, a soberania do país e a paz. Nós nos opomos decididamente à idéia do conflito religioso entre cristãos e muçulmanos e também à hegemonia de uma só confissão religiosa”. (Ler em http://www.vermelho.org.br/base.asp?texto=10140 )

 


O grande perigo do exemplo: resistência, unidade, tolerância e a defesa da soberania.

 


Na minha opinião, era demais para as forças pró-imperialistas, os EUA e Israel. Um cenário favorável à resistência, propício à unidade de todas as forças políticas contrárias ao imperialismo (Hizbolah, Amal, PCL, etc).

 

 

 

Já pensou, o Hizbolah ser a única força a derrotar Israel (e duas vezes!), fazendo parte de uma ampla unidade com diálogo com o Partido Comunista Libanês e o movimento Amal, rompendo os limites do confessionalismo, ampliando suas relações e desmistificando seu suposto terrorismo?

 

 

 

Já pensou a frente pró-imperialista no Líbano perder o controle total do governo para uma aliança desta natureza, que poderia alçar-se da “Vitória Divina” no confronto com Israel à vitória terrena de ser alternativa política real?! Alguma coisa tinha de acontecer para impedir isto, não é mesmo? Imagina este exemplo correndo solto todo o Oriente Médio!

 

 

Não resta dúvida que houve uma cruel e indecente farsa. Urge denunciar as manipulações do sionismo e do imperialismo na região e prestar solidariedade aos verdadeiros patriotas libaneses – que defenderam o país dos ataques de Israel, em especial o Partido Comunista Libanês e o Hizbolah.

 

 

A hora é de solidariedade e unidade


 

Esta solidariedade deve se estender ao povo e à liderança Síria, ameaçada e fustigada por grosseira manipulação que visa a isolá-la e neutralizar seu papel regional. Para os EUA e Israel o maior crime Sírio é ser um país pacífico e estável que defende sua soberania e acolhe com dignidade às vítimas de Israel, sejam palestinos, sejam os milhares de libaneses que foram recebidos na Síria como irmãos.

 

 

O Oriente Médio está na linha de frente da resistência da humanidade contra a destruição da civilização árabe. O imperialismo e o sionismo, desmoralizados, apelam e apelarão a quaisquer expedientes para justificar seus planos genocidas. Cabe aos democratas e amantes da paz ampliar a solidariedade e denunciar o perigoso jogo em curso, cujas implicações podem pôr em risco toda a humanidade. E esta solidariedade só é possível sob a base da defesa inquestionável da soberania de cada país (Líbano e Síria), e da unidade das forças anti-imperialistas e anti-sionistas na região.

 

 

A construção de uma alternativa política democrática, patriótica e secular no Líbano, que preserve sua unidade nacional e soberania é o melhor caminho para impedir o objetivo do imperialismo de asfixiar e destruir a Síria por seu papel na região contra os interesses de Israel. A unidade dos povos irmãos nos dois países e o entendimento de quem de fato ameaça a região é elemento vital, assim como uma estratégia política que possa desmascare as farsas e os crimes do imperialismo e do sionismo.

 

 

Deste modo, quando nestes dias, vemos a maré humana de centenas de milhares de patriotas libaneses que enchem o país de luta democrática. Quando vemos o governo de Siniora sustentado por fuzis e cercado em um bunker, e quando percebemos que um jovem xiita foi assassinado por esta luta pacífica, sabemos que as coisas estão mudando no Líbano, e sabemos quem está contra a Constituição Libanesa e a favor de um golpe, quem cruzou os braços diante da violência do ocupante, quem já se vendeu ao imperialismo. Mas o povo não caiu na farsa e toma nas ruas o seu destino nas mãos.

* Sociólogo e Bancário. Membro da direção Nacional da CTB.

* Opiniões aqui expressas não refletem necessariamente as opiniões do site.


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