Por que faltam médicos?

Eron Bezerra *

Nos últimos anos o Brasil inteiro debate a falta de médicos para atender a população do país, especialmente a parcela mais carente. Esse assunto que até então parecia ser restrito às regiões mais longínquas dos estados do norte e do nordeste do país se transformou num problema nacional. Faltam médicos em todo o país, o que fez com que a própria presidenta da república viesse a público tratar desse fenômeno.


O problema não é novo e nem tem solução “milagrosa”, o que não significa dizer que não possa ser resolvido.

A solução passa pelo fim da demagogia – e mesmo da vigarice de alguns – pelo correto diagnóstico do fenômeno, pela adoção das medidas administrativas apropriadas e pela correta compreensão da necessidade de se trabalhar de acordo com a realidade material objetiva – a realidade concreta - e não cenários ideais, que embora sejam desejáveis não são reais para a realidade de um país que passou 500 anos sendo dilapidado pela direita, por forças políticas obscurantistas sem qualquer compromisso com o povo e por isso mesmo empenhada na precarização dos serviços públicos, especialmente nos anos que o PSDB (1995 a 2002) governou o país.

Deixemos de lado a demagogia dos que se levantam contra qualquer medida para atenuar o problema. Não se pode perder tempo com quem não tem qualquer interesse numa solução. Para esses a manutenção do caos é o cenário ideal, tanto para fingir que defendem os médicos, como para desgastar o governo da presidenta Dilma Rousseff, cujo êxito embora seja bom para o povo é ruim para eles.

Nos últimos anos aumentou consideravelmente a quantidade de vagas nos cursos de medicina nas universidades públicas e mesmo se abriu outras tantas. Como a população não cresceu na mesma proporção seria razoável supor que o problema, que não é novo, fosse reduzido. Mas ocorreu exatamente o contrário. Por quê?

Simplesmente porque mais gente, através dos programas de saúde da família custeados pelo governo federal, passou a ter acesso aos serviços médicos que antes eram inacessíveis para eles. Basta analisar, por exemplo, quantos grupos de saúde da família existia no governo FHC e Dilma. Não diminuiu os médicos, o que ocorreu é que mais gente passou a ter direito a atendimento médico.

Por outro lado o serviço médico nacional é irracional. Temos muito mais médicos do que enfermeiros, o que faz com que muitas vezes se ocupe o serviço de um médico para atendimentos que qualquer paramédico treinado seria capaz de realizar, sem mencionar os próprios enfermeiros.

Mas se há uma carência reconhecida e há profissionais formados em outros países que podem complementar pelo menos em parte às nossas necessidades, é o caso de se questionar porque medidas concretas para enfrentar esse impasse não são tomadas, tanto pelo governo federal quanto pelos governos estaduais?

Essas medidas podem ser a validação de diplomas; uma complementação acadêmica semestral para adaptação curricular, quanto se fizer necessário; a adoção da figura do médico preceptor por município como forma de minimizar riscos; convênios de cooperação com universidades que já trariam esses preceptores especialistas e, até mesmo, ocasionalmente a adoção da medicina tradicional. Não há problema sem solução, desde que queiramos resolver.
Há projetos, como o da Senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB, Am), que de certa forma procura enfrentar esse problema. Mas do ponto de vista do executivo nada ou quase nada tem sido feito, enquanto milhares de pessoas reclamam atendimento.

E há, ainda, aqueles que só veem a solução desse problema quando todos os municípios tiverem a estrutura adequada para receber um profissional médico. É a completa inversão de valores e o completo desprezo pela realidade, na qual as pessoas são penalizadas pelo fato de não morarem na Suíça, onde talvez seja possível se vislumbrar essa realidade. Aqui, nos longínquos municípios do interior brasileiro, que não dispõe sequer de rede de esgoto, é pouco provável se vislumbrar essa situação ideal que alguns reclamam, pelo menos em curto prazo.

Assim, é preciso agir, de acordo com o REAL e não com IDEAL, para que possamos pelo menos minorar

* Professor da UFAM, Doutor em Ciências do Ambiente e Sustentabilidade na Amazônia, Coordenador Nacional da Questão Amazônica e Indígena do Comitê Central do PCdoB.

* Opiniões aqui expressas não refletem necessariamente as opiniões do site.


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