3 de Dezembro de 2006 - 16h44

O Líbano e o assassinato de Pierre Geymael

Paulo Vinícius *

Uma tragédia que só beneficiou o imperialismo

 

Depois de uma viagem ao Líbano e à Síria, de dez dias, onde participei do Conselho Coordenador da Federação Mundial da Juventude Democrática (FMJD), representando a U


O que estava ocorrendo antes do assassinato de Geymael

 

 

O assassinato covarde do Ministro da Indústria Libanês Pierre Geymael ampliou as tensões no Oriente Médio, e cumpre analisar a descarada utilização política do episódio. Afinal, um ministro cristão, jovem, filho de um ex-presidente foi assassinado em seu carro, desatando uma série de desdobramentos políticos muito graves, como por exemplo o fim prático do arranjo constitucional até então organizador da vida política libanesa. Só a análise da história política recente do Líbano permitirá entender as conseqüências e os maiores interessados na instabilidade e divisão do País do Cedro, as hostilidades contra a Síria e a relação de tais episódios com o sionismo israelense e o Novo Oriente Médio pretendido pelo imperialismo estadunidense.

 

Alguns elementos para análise:

 

1 - Antes do assassinato as forças pró-EUA no Líbano estavam em clara defensiva. Os ataques isralelense e a heróica resistência patriótica – protagonizada pelo Hizbolah e com apoio do Partido Comunista Libanês – mostraram que hoje, assim como no passado, a política estadunidense e de Israel são o principal inimigo da soberania libanesa. A omissão vergonhosa do exército libanês ante a violação de seu território e o assassinato de seus cidadãos nos 33 dias de bárbaros ataques israelenses mostrou qual o "nacionalismo" da maioria do governo libanês. Ante a monstruosidade sionista, só a resistência do Hizbolah e dos comunistas defendeu a população. E derrotou Israel! Este fato transcendente teve, tem e terá profundos impactos na vida política nacional.

 

 

2 - Apesar da grande divisão entre as diferentes confissões religiosas que há no Líbano, era perceptível a mudança do centro da polêmica, saindo da questão religiosa e migrando para a questão política, com claro caráter nacional. E se há uma razão para estar na oposição ao atual   governo libanês é a defesa da nação, pedra de toque que diferencia na essência os atores políticos no Líbano.


 

3 - O nacionalismo seletivo – expresso pelo desejo de atacar a Síria e a cumplicidade ante os EUA e Israel - mostrou suas limitações pela concreta confrontação contra os verdadeiros inimigos: o imperialismo e o sionismo. Apesar de toda a hostilidade alimentada contra a Síria pela maioria dos grupos que detêm o atual governo libanês, tanto a defesa quanto a evacuação dos inocentes - entre os quais muitos brasileiros - teriam sido impossíveis sem a decisiva solidariedade do povo e governo Sírios. Foram milhares de pessoas recebidas por todo o país, e é preciso dizer que boa parte dos libaneses tem parentes sírios.


     

Ficou evidente a amplas parcelas da população que o nacionalismo de alguns e as provocações contra a Síria são apenas cortina de fumaça. Importantes líderes do país cruzaram os braços ante o massacre de seu próprio povo, em vez de construir ampla frente patriótica. Portanto, a contradição não é entre confessionalismo e secularismo, mas de defesa nacional ou covardia diante de Israel e alinhamento automático ante os EUA. O maior beneficiário deste avanço na consciência coletiva foi o Hizbolah, cuja importância e respeito cresceram no Líbano e em todo o mundo árabe.

 

4 -  É com este histórico que ganha importância decisiva para os setores pró-imperialistas a instalação do "Tribunal Internacional" sobre o assassinato do Primeiro Ministro Hafic Hariri, usada para atacar as forças verdadeiramente patrióticas, manter viva a divisão nacional em torno de credos religiosos, permitir a aberta ingerência norte-americana sobre os assuntos internos, revelando pouco ou nenhum interesse em descobrir a verdade, e muito em pré-julgar e criminalizar as forças patrióticas. 

 

 

5 -   A saída do Hizbolah do governo e o pedido de uma nova coalizão governamental que leve em conta os interesses nacionais justifica-se na própria constituição libanesa.  Por esta, o governo é inconstitucional se tiver apenas apoio cristão e sunita, havendo a necessidade de presença xiita e o consenso. Dado o impasse diante da questão do Tribunal Internacional, a possibilidade iminente de tropas de intervenção da ONU se instalarem no interior do país - em vez da fronteira com Israel - e a equiparação pela ONU das vítimas aos agressores na resolução que estabeleceu a missão de paz, é possível entender as razões para rebelar-se contra o golpe que já se desenhava. 

 

6 -  É neste contexto que o Hizbolah debatia a realização de amplas mobilizações pacíficas, tentando o apoio de outras forças patrióticas, em defesa do cumprimento da constituição e pela construção de um novo governo mais equilibrado entre as forças patrióticas e as que claramente se aliam com os EUA. Os adiamentos sucessivos das manifestações - que de fato não se realizaram - e o caráter pacífico claramente manifesto indicam uma disputa política normal, e não qualquer intento terrorista, como a administração americana fez reverberar pelos monopólios da mídia. Por parte do atual governo,a resposta foi cristalina: havia já milhares de militares libaneses espalhados por todo o Líbano, fortemente armados, como eu mesmo pude ver.

 

Este foi o cenário em que surgiu um fato de grandes repercussões e poder explosivo: o assassinato do Ministro da Indústria, Pierre Geymael.

* Sociólogo e Bancário. Membro da direção Nacional da CTB.

* Opiniões aqui expressas não refletem necessariamente as opiniões do site.


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