25 de Junho de 2012 - 14h41

Vaticano contra a mulher na Rio+20

Carlos Pompe *

A reação clerical teve uma atuação coordenada e abrangente contra os direitos femininos durante a Conferência Rio+20, na semana passada. O embaixador da Santa Sé na Organização das Nações Unidas (ONU), Francis Chullikatt, e o representante oficial do Vaticano na Conferência, o cardeal brasileiro dom Odilo Scherer, foram os intrépidos defensores do ideário medieval a respeito do sexo feminino no encontro internacional.


Durante os trabalhos de elaboração do documento final da Rio+20, coube a Chullikatt o triste papel de articular a retirada dos direitos de sexualidade e reprodução das mulheres, que eram consagrados desde a quarta Conferência Mundial para as Mulheres, realizada em Pequim em 1995. As modificações foram feitas no parágrafo 16, e se referem à Declaração de Pequim e à Plataforma de Ação, aprovada posteriormente no Cairo. Ambas estabelecem o direito das mulheres sobre sua vida reprodutiva e lhes garantem acesso a métodos de planejamento familiar.

Graça à ação nefasta do Vaticano e de alguns chefes de estado que são religiosos, substituiu-se a promoção de "direitos de sexualidade e reprodução" por "serviços de saúde" da mulher. A redação final menciona apenas "saúde reprodutiva", referindo-se ao direito de acesso a métodos de planejamento familiar. O representante da Igreja Católica tentou retirar outras referências à Declaração de Pequim, de 1995, sobre os direitos sexuais femininos, mas não teve êxito.


Átila Roque, diretor-executivo da Anistia Internacional do Brasil, considerou a atitude um ataque aos direitos igualitários da mulher. "É uma questão que abrange a participação das mulheres sobre todas as políticas que têm impacto sobre a vida delas, como garantir sua autonomia sobre decisões que afetam o próprio corpo".

O chanceler Antônio Patriota se declarou "particularmente frustrado pela exclusão do termo, mas o papel do Brasil como anfitrião é buscar o consenso". A presidenta Dilma Rousseff, por sua vez, disse que "é preciso recuar de argumentos para permitir outros".

No dia 22, o representante da oligarquia clerical brasileira, dom Odilo, usou a Conferência como palanque para despejar seus preconceitos contra o direito ao aborto. A Igreja proíbe seus seguidores, a quem chama de ovelhas, de usar qualquer tipo de anticoncepcional. O Vaticano aceita apenas que o casal deixe de fazer sexo durante o período fértil da mulher – se o marido permitir, é claro, pois a mulher, na ótica da Igreja Católica, deve subserviência ao homem – é o que reza a carta de Pauto de Tarso aos Coríntios 1, 11:4-16: “O homem não deve cobrir a cabeça, visto que ele é imagem e glória de Deus; mas a mulher é glória do homem. Pois o homem não se originou da mulher, mas a mulher do homem; além disso, o homem não foi criado por causa da mulher, mas a mulher por causa do homem. Por essa razão e por causa dos anjos, a mulher deve ter sobre a cabeça um sinal de autoridade.” É esse o ideário defendido pelo papa Bento XVI e seus representantes.

O milenar desprezo do alto comando católico pelas mulheres chega às raias provocação. Em 2009, o jornal semioficial do Vaticano, o L'Osservatore Romano, editado pela cúpula clerical, por ocasião do Dia Internacional da Mulher, publicou um artigo, assinado por uma mulher, com o título "A máquina de lavar e a liberação das mulheres – ponha detergente, feche a tampa e relaxe". No texto, afrontava: “O que no século XX fez mais para liberar as mulheres ocidentais? O debate é acalorado. Alguns dizem que a pílula, alguns dizem que o direito ao aborto, e alguns o direito a trabalhar fora de casa. Alguns, porém, ousam ir além: a máquina de lavar."

* Jornalista e curioso do mundo.

* Opiniões aqui expressas não refletem necessariamente as opiniões do site.


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