28 de Fevereiro de 2011 - 0h01

Lançamento de "Marx: Atualidade e Controvérsia”

Diorge Konrad *



Muitos têm defendido, com novos argumentos, uma velha tradição: a da História como conhecimento do passado. Outros, juntamente com cientistas sociais, reivindicam a incognoscibilidade do mundo atual. Há ainda os que reforçam parte da décima primeira das Teses contra Feuerbach de Karl Marx (1982): apenas a interpretação do mundo. Em diversos intelectuais coexistem variadas formas de discurso relativista ou agnóstico, com similaridade a um caleidoscópio.

Contra o marxismo, argumenta-se que sua crise se deu pelo fato de “novos” movimentos sociais, constituídos por outros agentes de transformação e por reivindicações diferenciadas e cotidianas, terem tomado o lugar do movimento operário na luta pelas transformações sociais. Ademais, o paradigma marxista sofreria de uma falência estrutural, agravada pela queda do Muro de Berlim e o declínio dos países socialistas, em especial pelo fim da URSS, o que permitiria considerar a crise teórica uma ampliação da crise política.

Outra crítica dirigida ao marxismo e a História como ciência refere-se à impossibilidade de se construir conhecimento a partir da ideia de totalidade dialética. Fundamentam-na os paradigmas do “irracionalismopós-moderno” ou do pós-estruturalismo e algumas correntes da chamada Nova História, a partir da afirmação da pós-histoire. Seu enfoque centra-se no simulacro, na representação, na fragmentação e no micro, na análise do discurso e do simbólico, negando, em alguns casos, a existência da realidade como um pressuposto externo ao pensamento dos homens.

Parte deste debate, presente no Seminário “Marx: atualidade e controvérsia”, ocorrido na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), em 2008, e o resultado das conferências, em obra organizada pelo cientista social João Vicente R. B. Costa Lima, acaba de ser editado pela UNISC, editora da Universidade de Santa Cruz do Sul.

No livro, os artigos “Problematizando uma sedução discursiva antimarxista: pós-estruturalismo e atualidade do marxismo”, do historiador Diorge A. Konrad, “A atualidade de ‘O Capital’ – 140 anos depois”, com autoria do economista Sérgio Alfredo Massen Prieb, “Do ideário de Marx às práticas socialistas: desvio doutrinário ou decorrência lógica?”, escrito pelo cientista social Reginaldo Prerez, “Explicação e paixão em Marx”, do também cientista social João Vicente Costa Lima, e “Marx e a violência revolucionária: problemas e conseqüências morais e políticas” do professor de filosofia de Ricardo Bins di Napoli, adentram em um debate acadêmico de defesa e de crítica de Marx, no qual, como diz o organizador da obra. “o maior legado de seu pensamento talvez seja, assim, o de descentrar os críticos e simpatizantes dos lugares seguros de interpretação, gerando um estímulo formidável: parecer a uns possibilidade real de compreensão e a outros um compêndio de ideias fora de lugar, mantendo-se sempre, porém, como um sistema de pensamento que continua a nos estimular com grande intensidade até os dias de hoje”,

Discussões como estas estimulam o interesse sobre as razões e os significados da crise vivenciada na atualidade. Fala-se em globalização, mas regionalismos e nacionalismos têm ganhado força, expondo os localismos em contraposição à “mundialização” dos mercados. O local e o global redimensionam-se. A fome, as drogas, a AIDS, as questões ambientais, a energia nuclear, a questão agrária, a questão urbana, a questão indígena, a miséria, o desemprego e tantas outras questões seguem devastando populações e exércitos de trabalhadores, apesar das novas tecnologias e do intercâmbio entre as diversas partes do mundo. Entretanto, mesmo com o excepcional desenvolvimento do conhecimento e a modificação nas formas produtivas, permanecem as relações de dominação do capital sobre o trabalho.

Como explica Virgínia Fontes (2007, p. 12-3), “a concorrência internacional em que foram lançados os trabalhadores, encapsulados em seus espaços nacionais nos quais não encontravam mais amparo no direito, foi a mais poderosa – e violenta – forma para tentar exterminar com o ‘mundo (dos direitos) do trabalho’”. Para tanto, segue a autora, “o mundo dos trabalhadores organizados deveria fragmentar-se sob a pressão do capital, este a cada dia mais organizado no plano internacional”. Assim, “a organização voltada para o capital não tem como objetivo uma vida social menos caótica, menos dramática e destrutiva”, mas, ao contrário, visa “[à] imposição da desregulamentação de direitos do trabalho em escala internacional”, significando “o estabelecimento de uma legislação do e para o capital, em âmbito planetário”.

A diminuição da jornada de trabalho, que poderia gerar mais empregos, é um horizonte ainda distante. A descolonização do chamado Terceiro Mundo não gerou a liberdade social e econômica dos seus países. Assim, a relação dos homens com o espaço torna-se um problema renovado para o conhecimento e a ação histórica, estimulando novas identidades sociais e culturais (as quais incidem novas formas de produtos para seus consumidores específicos). Resta, no entanto, o resultado da expansão do capitalismo em escala planetária e da complexidade de relações que esse proporciona.

Muitas dessas problematizações passam pela mídia, pelos sistemas de ensino (em especial pelas universidades e seus cursos de pós-graduação), pelos movimentos sociais, pelos partidos políticos, enfim, pela interação e pelo conflito ente a sociedade civil e a sociedade política, pela luta de classes em nível político e ideológico. No entanto, tem atravessado todaa sociedade apenas em sua aparência, sem atingir a sua essência, ou seja, o modo pelo o capitalismo socializa a produção (no desenvolvimento das forças produtivas), sem, contudo, deixar de se apropriar privadamente do produto do trabalho. Se esse, o trabalho, é negado, ocultam-se a contradição fundamental da sociedade burguesa e a contraposição ou luta/necessidade pela sociedade humana, isto é, pela humanidade socializada (MARX, 1982, p. 3).

Por isso, cada vez mais, é pertinente a adoção de uma metodologia baseada na noção de síntese dialética e totalizante, considerando a História como conhecimento científico, o que permite contrapor a correspondência entre as “novas” perspectivas teóricas e a concretude do mundo atual.  Assim, o materialismo histórico, em particular, e o marxismo, em geral, continuam sendo atuais, tanto como teoria da História quanto como visão do mundo, servindo-nos com instrumentos metodológicos para a análise e a síntese das diferentes formações sociais.

Como diz Sérgio Prieb em seu artigo. “o fato de haver uma grande massa de trabalhadores gerando a riqueza do mundo compromete a hipótese que muitos gostariam de comprovar, isto é, de que a luta de classes não apresentaria mais sentido e, por extensão, de que a teoria de Marx ter-se-ia tornando obsoleta. (...) O que se observa nos dias de hoje, em que predomina a terceira revolução industrial, é a superexploração do trabalho (...) assim, constatada a importância do trabalho nos dias de hoje, torna-se imprescindível questionar sua exploração cada vez maior por parte do capital. Isso conduzirá certamente à percepção da atualidade da crítica de Marx ao processo de exploração do trabalho, bem como à necessidade da superação positiva do capitalismo pelo socialismo. (...) As dificuldades na realização dos lucros da atual fase de predomínio do capital parasitário-especulativo fazem com que as crises no capitalismo, além de se tornarem cada vez mais frequentes, assumam proporções maiores. (...)não basta transportar a obra de Marx, escrita no século XIX, mecanicamente para a atualidade. Deve-se saber interpretar o capitalismo de hoje, bem como suas crises, utilizando como referencial o autor e a obra que melhor souberam expressar a origem e a essência exploratória do modo de produção capitalista: Karl Marx e O Capital. Um espectro ainda ronda o mundo”.

Aparentemente teórico, esse debate torna-se crucial ao proletariado, o qual historicamente têm questionado a sociedade do capital, dando um sentido para a História enquanto processo concreto rumo à transformação revolucionária mundial.

 

Referências
FONTES, Virgínia. Introdução a Marx, o incontornável de mortes e vidas. In: NÓVOA, Jorge (Org.). Incontornável Marx. Salvador: Ed. da UFBA; São Paulo: Ed. da UNESP, 2007.
MARX, Karl. Teses sobre Feuerbach. In: MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Obras escolhidas, v. 1. Lisboa: Avante; Moscou: Progresso, 1982.
LIMA, João Vicente R. B. Costa. Marx: atualidade e controvérsia. Santa Cruz do Sul: Ed. da UNISC, 2010.

* Professor Adjunto do Programa de Pós-Graduação do Curso de História - Licenciatura Plena e Bacharelado e do Departamento de História da UFSM, Doutor em História Social do Trabalho pela UNICAMP

* Opiniões aqui expressas não refletem necessariamente as opiniões do site.


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