Lejeune Mirhan

A imigração árabe no Brasil

É comum falarmos que os imigrantes árabes, e suas três gerações subseqüentes perfazem mais de 10 milhões de pessoas. Ou até mais do que isso. Documentos históricos, alguns oficiais arquivados na Biblioteca Nacional no Rio de Janeiro dão como certa a presença árabe no Brasil desde meados do século 19.

Claude em sua biblioteca

Um dos poucos – se não o único – livros que tratam do assunto no Brasil foi escrito pela psicanalista Claude Fahd Hajjar, intitulado Imigração árabe: cem anos de reflexão, da Editora Ícone. Fazemos esta coluna semanal uma entrevista com a autora da excelente obra de referência.

Claude Hajjar, uma arabista


A companheira que hoje entrevistamos é a Claude Fahd Hajjar, nascida em Beirute, Líbano. Imigrou com seus pais em 1959 para o Brasil após a revolução Libanesa que vai marcar a entrada dos EUA no Líbano. Seus pais são originários da Síria e militavam no Partido Nacionalista Social Sírio (PNSS). Seu pai foi preso e encontrou na imigração uma forma de se afastar de perseguições e privações. A casa de sua familia no Líbano foi saqueada assim como a loja e pequena fábrica de seu pai.

No Brasil formou-se e se especializou em Psicología Clínica de orientação Psicoanalítica e atuou como professora e supervisora de Psicoanálise pelo NEPP. Cursou pós-graduação em Clínica Nietzcheana na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

Dentre os inúmeros trabalhos e pesquisas científicas, esta o seu livro: “Imigração Árabe: 100 anos de Reflexão”, de 1985, editado pela Ícone Editora de São Paulo. Tema inda “A Morte do Pai e a Busca do Nome Próprio: Oriente-Ocidente (pronto para impressão em árabe em árabe e espanhol). Claude traduziu do árabe para o portugués o livro “Hafez Al Assad - O Percurso de um Combatente”, de autoría de Lucien Bitterland.

Atualmente, Claude atua na Federação de Entidades Americano-Árabes, onde milita desde 1983. Trabalhou com pesquisa sobre a presença árabe no Brasil através da Península Ibérica de 1988 a 1992. De 1990 a 1992 foi nomeada Diretora Cultural de Fearab América e Coordenadora do Projeto do 5º Centenário do Descobrimiento da América em 1992. De 2001 a 2004 fez parte da coordenação do Projeto Al Andaluz de Fearab América. Atualmente é Conselheira da Presidência da Fearab América e Diretora Cultural de Fearab São Paulo.

A entrevista

Porque a decisão de publicar um livro sobre a imigração árabe no Brasil em 1985?

O início da pesquisa foi uma conferência no Congresso Pan-americano Árabe de Damasco em outubro de 1983. Em dois anos virou um livro graças a inúmeros incentivadores da Fearab Brasil, do Centro Cultural Árabe Sírio e do PNSS. O objetivo era o de um trabalho que pudesse ser instigante e desse uma partida para pesquisas posteriores. Eu não pretendia um compêndio sobre imigração, mas uma pequena análise de causas e consequências.

Passados hoje mais de 24 anos do lançamento deste livro eu posso dizer que ele cumpriu o seu objetivo: sinalizar a necessidade de uma pesquisa séria que aborde a questão imigratória Árabe e suas vicissitudes. Na ocasião eu ainda não era uma pesquisadora de temas americano–árabes, mas mesmo assim fui atrás e consegui.

Havia alguns poucos trabalhos de pesquisa acadêmica, que eu cito no livro, mas nada que pudesse ser de fácil acesso ao grande público. Muitos diplomatas ao serem nomeados para os países árabes buscavam no livro Imigração Árabe 100 anos de reflexão uma pequena orientação para a compreensão de temas do cotidiano dos países de origem da imigração, isto é, Síria, Líbano e Palestina.

Fale-nos, de forma resumida, as principais ondas migratórias árabes para o Brasil, registrando as origens em relação aos países que vieram esses imigrantes? Em seu livro você menciona seis grandes ondas, é isso mesmo?

Nós os árabes e outros grupos imigratórios viemos ao Brasil atendendo ao convite do Imperador D. Pedro II que em 1973 e 1977 visitou Síria, o Líbano e a Palestina. Na sua bagagem levava inúmeros exemplares em árabe do livro “O Brasil”. D. Pedro foi convidar o cidadão árabe da Síria, Líbano e da Palestina para imigrar e a se fixar no Brasil.

No Brasil já estava sendo preparada e esperada a absolvição dos escravos. Como é do conhecimento de estudiosos e pesquisadores, as empresas europeias, e em particular as inglesas que para cá vieram, precisavam de uma população que pudesse consumir produtos, e o Brasil não poderia adentrar o século XX com uma mão de obra escrava e sem liquidez para o consumo. A população excedente da Europa, do oriente próximo e inclusive do Japão foi incentivada a imigrar para ocupar o lugar da mão de obra escrava no campo.

O Brasil precisava de agricultores e de camponeses e por esta razão D. Pedro II foi para lá, com livros em árabe para nos estimular a imigrar. A nossa imigração árabe ao Brasil não possuía acordos bilaterais entre países, a exemplo de Alemanha, Japão ou Itália. A Nossa imigração foi voluntária e incentivada pelas companhias de navegação. Imigravam sem saber para onde vinham, sem saber como era o país, o idioma ou a religião do seu destino.

Fugiam muitos, se afastavam voluntariamente outros, buscavam sempre novos ares, para de longe poder refletir e quem sabe ajudar a encontrar uma saída para o cada vez mais complexo drama que assolava a Nação Árabe.

Sonhando com uma pronta libertação, pensavam eles, bastaria a queda do Império Otomano e os seus problemas se resolveriam. O “Doente da Europa” foi vencido, mas a Nação Árabe havia perdido referências, líderes e capacidades. Muitos para a Imigração no Mundo. EUA, Europa, Norte da África, Austrália ou Canadá, em todos os continentes temos uma forte e combativa presença árabe, que faziam falta em seu próprio território.

O Inicio do século 20 vai encontrar a Nação Árabe sonhando com a libertação mas já prevendo que o sonho de libertação viraria o pesadelo da ocupação. Após a Primeira Guerra Mundial tem inicio a segunda fase imigratória.

Os imigrantes árabes eram em sua maioria cristãos ou muçulmanos?

Existem alguns sinais e rumores de que a União de Igrejas no mundo poderiam estar conivente ao estímulo à imigração da população cristã da região do oriente árabe.

O inicio da imigração árabe ao Brasil aconteceu com um predomínio da população cristã. A partir deste inicio a imigração acontecia por regiões, sejam elas aldeias ou cidades e as notícias e resultados aferidos iriam contaminar e estimular a imigração independente de família ou religião. Foi na segunda fase imigratória que vemos a presença de imigrantes muçulmanos no país.

Quais foram as suas primeiras obras sociais ds imigrantes árabes de maior impacto?

Em minha opinião não foram as obras sociais que valorizam o imigrante árabe no Brasil, apesar destas obras serem hoje um verdadeiro monumento ao empreendorismo; mas a sua contribuição às letras, às pesquisas, à ciência, à poesia e prosa e principalmente à imprensa árabe no Brasil.

O Brasil foi o país que sediou e possibilitou a profícua produção das letras árabes. Constatamos a existência de mais de 140 jornais e revistas e mais de 300 jornalistas, até o ano de 1949.

Na segunda década do século XX vamos encontrar escritores, poetas e pensadores no Brasil, nos EUA e nos países de origem todos voltados para compreensão dos acontecimentos mundiais e ao prenúncio da nova era que se abriria a todos. Estes pensadores foram contemporâneos à Semana de Arte Moderna de 1922, a Oswald de Andrade, Pagú e Tarsila do Amaral.

Nos EUA, foi fundado o Pen Club, por Gibran, Riham, Naaime, Abumadi e outros que expressaram a sua presença e participação na reorganização política, social e econômica dos países da imigração quanto dos países árabes.

Cabia a estes pensadores expressarem, através das letras, o inconsciente coletivo da sua comunidade ou grupo social, o que estes sentem; e assim, conseguem expor a apreensão e os questionamentos daqueles imigrantes.

A “Literatura do Mahjar” como seria conhecida e estudada nas Universidades Árabes, teve o seu momento brasileiro de apogeu após a morte de Gibran Kalil Gibran em 1931.

Foi criada no Brasil “A Liga Andaluza” em 1933, com o objetivo de dar continuidade ao Renascimento Literário Árabe, este não poderia morrer com Gibran. Ele se imortalizou nos EUA com a sua prosa, o Brasil e particularmente São Paulo, teve o destaque na produção da arte política.

Em 1936 foi fundado no Hemisfério Sul o PNSS, partido político que continua atuante no Líbano, Síria, Jordânia e em outros lugares da imigração.

Este partido se originou através deste frisson intelectual e política de inúmeros homens de letras e pensadores e entre os quais estava o Dr. Kallil Saade, médico do inicio do século XX e o seu filho o pensador e líder Antun Saade fundador do PNSS e que foi executado em 1949.

Em seu livro temos vários anexos. Entre eles, as tipografias, livrarias e jornais árabes no Brasil desde o começo do século 20. Porque isso hoje quase não existe mais?

Em 1941, durante a vigência da Segunda Guerra Mundial, atendendo a decisão governamental, foi proibida a utilização da língua estrangeira escrita ou falada, sendo portanto suspensa toda e qualquer publicação de qualquer imprensa estrangeira no País. Quando, após o término da Segunda Grande Guerra, em 1945, vamos encontrar o imigrante brasileiro árabe, muito mais integrado, buscando cada vez a assimilação dentro do seio da sociedade que o acolheu.

A ausência de notícias, a longa pausa na vinda de novos imigrantes, criou um distanciamento real e inseriu cada vez mais o brasileiro árabe na sociedade brasileira. Desde 1930, com a crise econômica e a quebra dos produtores de café a ascensão política e social das classes diferenciadas fez com que casamentos entre filhos de imigrantes árabes e não árabes, contraíssem matrimonio com filhos de quatrocentões brasileiros.

Conte-nos um pouco da história da Fearab no Brasil, em SP e sua expansão para as Américas.

Na imigração árabe do Brasil, fervia uma verve política e varias tendências estavam presentes nos acontecimentos políticos e imigratórios.

Registramos aqui a presença forte de partidários do PNSS, de nasseristas (após 1948), de adeptos do Partido Baath, de falangista, de libaneses progressistas, de membros do Partido Comunista (de vários países) entre outros. Cada um dentro de sua ideologia, tentavam responder e buscar soluções para os novos desafios que estavam sendo vividos.

A Palestina ocupada, dividida e dilacerada, havia conseguido denegrir a imagem árabe no mundo. E no Brasil, na Argentina, no Chile e na Venezuela, esta onda de tentar confundir a opinião publica mundial era um plano orquestrado e magnificamente gerenciado. Com a guerra de junho de 1967, a derrota árabe abalou os alicerces dos jovens filhos de imigrantes. Estes hoje são médicos, advogados, cientistas, físicos e todos estão inseridos na sociedade brasileira e da América do Sul, e viram o seu nome árabe ser afetado e cada vez mais sentiam a necessidade de um organismo que pudesse ajudar a esclarecer corretamente a opinião pública brasileira e americana sobre a real versão dos fatos, que envolviam a criação do Estado de Israel.

A Reunião preparatória do Congresso Pan-americano Árabe, foi no Clube Homs, em outubro de 1973. Mas, o embrião deste evento aconteceu em Damasco no ano de 1965, com o primeiro congresso dos emigrados árabes e cujo presidente foi Alberto Diab Chaccur (PNSS)

O primeiro Congresso Pan-americano Árabe aconteceu em Buenos Aires, Argentina em outubro de 1973, com uma comitiva brasileira de 153 membros, e dos quais foram nomeados 8 delegados brasileiros.

Estavam presentes, além do Brasil, representantes do Chile, Venezuela, Uruguai e representantes diplomáticos de inúmeros países árabes.

A fundação da Fearab Brasil ocorreu em 23 de novembro de 1974, na Assembleia Legislativa de São Paulo. E o Presidente de Honra da Fearab Brasil hoje é o Senhor Rezkalla Tuma. A fundação da Fearab América ocorreu no Brasil em 1975 e o seu primeiro presidente foi Mohamad Youssef Mourad, atual presidente honorário de Fearab América. Dentre as múltiplas funções e tarefas, que são da responsabilidade da Fearab nas Américas, quero salientar o aspecto psicológico decorrente da imigração.

Ao imigrar deixamos para trás tudo: laços, afetos, idioma, religião, semanários, livros, referências. Os países americanos conseguiram criar um novo espaço e tempo, mas não a tradição e a história. A sociedade americana carece de alma aos olhos do imigrante; e neste ponto que está a importância das instituições que ajudam no resgate da identidade do imigrante. Este trabalho do resgate da tradição, da historia da busca das origens por debaixo do oceano Atlântico é que vai irrigar e dar nova vida à imigração. Não pensando na volta para o país de origem. Não, a nível de identidade não temos volta.

Uma vez imigrante, vai ser tudo, menos voltar a ser um original. Também não se consegue rapidamente a assimilação. Este é um processo que pode ser menos penoso se possui interlocutores que possam dividir experiências, vivências, sentimentos e emoções.

Ao estarmos centrados em estudos e pesquisas, que foi uma das maiores contribuições da Fearab América, podemos resgatar a dignidade de ser americano-árabe e agregar a esta nova identidade toda a importância de pertencer a uma tradição milenar que foi o berço da civilização no Oriente Próximo, e deixou um legado fantástico na Península Ibérica, que foi o berço da construção dos Estados da Europa.

Coube à Fearab, um papel de interlocutor entre 23 países árabes e 22 países da América do Sul e Caribe. Os membros de Fearab América acabam fazendo o papel de embaixadores de seus respectivos países lá nos países árabes. Dentro dos quadros de Fearab América, já tivemos três ministros de Estado, três representantes do legislativo; um candidato à presidência da República; dois juristas; cinco embaixadores, além de um grande número de cônsules honorários.

O fato dos cristãos sejam eles católicos ou ortodoxos não terem que ler escrituras em árabes pode ter influenciado o fato de que os imigrantes dessa confissão religiosa não terem transmitido a língua árabe para seus filhos e netos?

Esta questão é recorrente. Eu atribuo a parte desta influência a questão religiosa, mas atribuo maior peso à questão de que os imigrantes recentes são em sua maioria muçulmanos e logo os laços com o país de origem são mais presentes. O bairro onde se abrigam é todo de novos imigrantes, como no passado ocorria com os imigrantes das primeiras fases imigratórias.

Eu considero muito salutar, não esquecer o idioma original e devemos aprender do novo idioma. Está marcada aí a necessidade de sobrevivência, da comunicação com o novo habitat.

Neste aspecto vejo na Fearab que a necessidade de se comunicar com os representantes diplomáticos, e nas suas viagens aos países árabes, os membros de Fearab reaprendem um árabe suficiente para se comunicar com o Outro.

Por fim, quando o mercado editorial no país e os leitores brasileiros poderão ter acesso a uma segunda edição revista e atualizada de sua magnífica obra de referência sobre a imigração árabe no Brasil?

Breve, breve e conto com você para me ajudar nesta tarefa.

* Sociólogo, Professor, Escritor e Arabista. Colunista da Revista Sociologia da Editora Escala, da Fundação Maurício Grabois e do Vermelho. Foi professor de Sociologia e Ciência Política da UNIMEPentre 1986 e 2006. Presidiu o Sindicato dos Sociólogos do Estado de São Paulo de 2007 a 2010.Recebe mensagens pelo correio eletrônico [email protected]

As opiniões aqui expostas não representam necessariamente a opinião do Portal Vermelho



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