Lejeune Mirhan

A Fepal e os Palestinos no Brasil

Como as coisas que vêm ocorrendo no Oriente Médio árabe não têm se destacado, pelo menos na grande imprensa, vamos aproveitar a coluna desta semana para inaugurar uma nova etapa de nossa colaboração para este portal. De quando em vez, faremos uma entrevis

 

 

 

 

Quem é Elayyan Aladdin

 

 

É presidente da Federação Árabe Palestino-Brasileira – Fepal, um jovem de origem palestina, desta safra de jovens conscientes e profundamente engajados na luta, tanto pelos direitos dos trabalhadores e do povo brasileiro, como do seu povo ancestral. Um jovem de 32 anos apenas, mas muito consciente e combativo. Seu pai é palestino, refugiado da cidade de Beit Nabalah, hoje parte do território Israelense, especificamente em parte desta cidade está construído o aeroporto de Ben Gurion. Atualmente sua família paterna vive em um acampamento de refugiados na região de Ramalah, chamado Jalazon. Nasceu em 25 de junho de 1977, cidade de Esteio, Rio Grande do Sul, sua mãe é brasileira natural da cidade de Alegrete - RS. Passou sua infância na cidade gaucha de São Leopoldo, onde foi alfabetizado e estudou até o terceiro ano primário no ano de 1986, quando foi morar na Palestina com sua mãe e irmão. O objetivo era conhecer sua família e aprender a cultura, a história e o idioma Árabe. Estudou um ano na escola das Nações Unidas para refugiados, em 1987, quando em dezembro começou a Intifada, sendo suspensas as aulas, fazendo com que voltassem ao Brasil em 1988. Concluiu os estudos no Brasil, formando-se em direito pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos -Unisinos, e é advogado militante na cidade de Novo Hamburgo. Desde cedo se envolveu com movimento estudantil. Em 1996 assumiu pela primeira vez a responsabilidade de organizar a Sociedade Palestina de Porto Alegre, em 2004, no 8º congresso da Fepal, foi eleito vice–presidente da entidade e posteriormente eleito presidente em janeiro de 2007. A Fepal hoje é a entidade máxima representativa dos palestinos no Brasil.

 

Entrevista

 

 

Conte-nos a história da Fepal, sua trajetória aos longo da sua existência. Há alguma relação com entidades congêneres na América Latina?

 

 

A Fepal, foi fundada em 9 de novembro de 1980, desde então é a legitima representante dos palestinos no Brasil, sua trajetória ao longo dos anos foi muito dinâmica no sentido da unificação e de atuação na representação política e social de nossa comunidade. Característica fundamental desta entidade são os processos democráticos de participação, suas direções são eleitas democraticamente com a participação das entidades filiadas e da comunidade palestina no Brasil. A Fepal foi a mola propulsora da criação da Coplac - Confederação Palestina da América Latina e Caribe -, que por iniciativa brasileira, convocando a representação Chilena, convocaram no ano de 1984, o primeiro congresso das federações Palestinas da América Latina e Caribe, que se realizou em São Paulo no Hotel Hilton, instituindo assim a representação da Coplac.

 

 

Qual a estimativa de total de famílias palestinas morando no Brasil hoje? Em qual ou quais estados essas famílias se concentram mais?

 

 

A estimativa de palestinos e descendentes morando no Brasil ultrapassa 60 mil pessoas. Estes dados não são oficiais e precisos, mas é a projeção que temos baseados nas informações levantadas no final dos anos 1980. A Fepal, pelo valor desta informação, tem priorizado este tema em sua gestão e aprovou na 2ª Conferencia Nacional de Promoção da Igualdade Racial, resolução que solicita ao governo brasileiro incluir os palestinos no Brasil nas pesquisas populacionais e levantamentos do censo feito pelo IBGE ou por pesquisa de amostra domiciliar (PNAD).  Importante neste contexto é diferenciar as fases da imigração palestina no Brasil, a primeira datada de 1890, palestinos de religião cristã, vindos da região de Belém, deixando uma palestina sob domínio Otomano, procurando um novo lar, estes se estabeleceram no Nordeste Brasileiro, principalmente nas cidades de Recife e Natal. A segunda fase da imigração ocorre após Al Nakba, (catástrofe, em árabe), a criação do Estado de Israel e a expulsão de milhares de palestinos dos seus lares. Esta fase caracteriza-se por palestinos de religião islâmica, vindos de diversas regiões da Palestina, principalmente por refugiados de aldeias localizadas nos territórios onde foi criado o Estado de Israel, e da região de Ramalah na Cisjordânia Ocupada, se estabeleceram no Norte, Sudeste e Sul do país, sendo a maior concentração no Estado do Rio Grande do Sul.

 

 

Como esta a questão dos 117 refugiados palestinos que o Brasil aceitou receber a pedido da ACNUR?

 

 

Os refugiados palestinos no Brasil estão encontrando muitas dificuldades na adaptação. Entendemos que o programa de assentamento é falho e que não existia preparo para receber este contingente. Entendemos a intenção do governo brasileiro de estender a mão num gesto humanitário aos refugiados palestinos que se encontravam há mais de quatro anos no acampamento de Ruweished, na Jordânia, e, por isso, agradecemos e louvamos a iniciativa humanitária do Brasil. Porém, entendemos que o governo brasileiro deveria assumir um papel mais presente no desenvolvimento do programa de assentamento. O Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) é o responsável direto pela adaptação cultural, social e pela subsistência dos refugiados no Brasil, e faz esta implementação através de parceiros como Caritas Brasileira e a Associação Antônio Vieira. Ocorre que estas entidades não foram preparadas para atender refugiados distintos como o caso dos palestinos. Esta falta de informação cultural foi determinante para transformar a vida dos refugiados numa grande incerteza sobre o futuro e sobre o nosso próprio país. Evidente que por sermos ainda um país de grandes oportunidades, algumas famílias estão se inserindo na vida brasileira, mas todas elas com grandes dificuldades e com os traumas que os perseguem desde o nascimento. Para esta questão entendemos ser necessário uma ampla discussão, pois o assunto é complexo e exige um aprofundamento, mas o que podemos pontuar com precisão é o direito e desejo de todo palestino, incluindo os refugiados no Brasil, que seja cumprida a Resolução de número 194 da ONU, da qual o Brasil é signatário, que determina o direito inalienável de retorno de todos os refugiados palestinos a seus lares e terras, a Palestina do qual foram expulsos.

 

 

Como é relação da Fepal com a embaixada Palestina no Brasil? E com as outras embaixadas dos países árabes em geral?

 

 

A Fepal é uma organização da sociedade civil brasileira, que representa os palestinos no país, independente dos conflitos na Palestina e nem pauta a sua ação por esses conflitos no Oriente Médio. Isto faz com que a Fepal e a comunidade palestina brasileira não atuem como um grupo de pressão sobre o Estado brasileiro ou sobre as forças políticas visando fazer valer seus interesses, mesmo quando estes poderiam prejudicar a política externa brasileira, uma política de Estado que não pode ser corrompida por interesses externos ou alienígenas aos verdadeiros interesses da Nação brasileira. É neste marco que a Fepal atua, o que a tem tornado respeitada e distinguível se comparada, eventualmente, com outras organizações assemelhadas, que não raro ultrapassam os limites a que nos referimos e passam a atuar internamente defendendo os interesses de outros estados, mesmo quando estes prejudicam a posição brasileira, seja política e diplomaticamente, seja economicamente. Vimos isso concretamente quando das pressões absurdas e incompreensíveis contra a realização da cúpula dos países da América do Sul e dos países Árabes. E tanto mais incompreensível a referida pressão quanto mais sabemos que os interesses estratégicos do Brasil estavam e estão ancorados nesta iniciativa, que, aliás, não é a única com este viés. Os que pretendiam o fracasso da cúpula e para isso atuaram, com todo tipo de sabotagem, visavam impedir que o Brasil tivesse acesso a um mercado consumidor de mais de três centenas de milhões de pessoas, a uma região que tem as maiores reservas mundiais de petróleo e gás natural, confluência entre Europa, Ásia e África, com os quais o Brasil tem amizade e identidade, até pela grande comunidade árabe que aqui vive há muitas décadas. Queriam, em última análise, impedir que o Brasil ganhasse mercados e se fortalecesse como potência econômica e diplomática, capaz, inclusive, de contribuir positivamente para a resolução dos graves conflitos no Oriente Média, destacando-se a questão Palestina. É com esta compreensão que precisamos entender qual atuação devemos ter. Assim, A Fepal tem uma relação com a Embaixada Palestina do Brasil que não permite que uma substitua a outra, ou uma assuma tarefas precípuas da outra. A Embaixada representa o Estado e o Governo Palestino, o que faz com que mantenha relação com a comunidade palestina no Brasil, visto que muitos têm parentes e bens na Palestina, precisam de convalidações documentais, de intervenção com vistas a que possam viajar à Palestina, dentre outras questões. E, é claro, quando a algum membro de nossa comunidade interessar falar com as autoridades palestinas, com instituições governamentais, o fará por meio da Embaixada, que representa a Palestina no Brasil. Já à Fepal cumpre o papel de representar a comunidade palestina brasileira, falando com as autoridades brasileiras, com o conjunto da sociedade, aí compreendidos os partidos, os sindicados e todas as demais entidades organizadas existentes no país. São papeis distintos, que não se confundem, mas que, em determinados momentos, se assim se fizer necessário, podem ser complementares, sempre ressaltando que isto se dará preservando os interesses do Estado Brasileiro e a autonomia das instituições. E isto vale para as demais embaixadas árabes, com as quais temos relação de respeito, aos mesmo tempo que de independência.

 

 

Quais os planos mais gerais, concretos, que a Fepal pretende desenvolver com a comunidade palestina no Brasil?

 

 

Temos atuado com vistas à preservação de nossa identidade e de nossas tradições, sem as quais a causa de nosso povo, um dos mais martirizados da história, se perderia. Neste sentido, temos levado ao conjunto de nossa comunidade a história da Palestina, desde tempos imemoriais até nossos dias, com vistas à desmistificação da falsa história colocada pelo sionismo. Na verdade, o quem de mais importante toca à representação palestina, onde quer que seja, é a preservação das tradições e da identidade, pois sem isso não há povo ou identidade étnica. O resgate da história dos palestinos no Brasil, por exemplo, vai nesta linha. E neste resgate há o resgate do próprio movimento palestino, que ainda não tem uma história formal devidamente sistematizada. Esta história é importantíssima inclusive para o Brasil, pois que a luta dos palestinos nunca esteve dissociada das grandes lutas do povo brasileiro nas últimas décadas, especialmente a luta pela redemocratização, na qual os palestinos sempre estiveram inseridos. Entretanto, nada disto será possível sem a organização das comunidades em suas localidade, razão pela qual esta temática acabou dando a tônica do último congresso e continua sendo prioridade absoluta.

 

 

A participação política é fundamental, seja para os palestinos, seja para qualquer segmento social para que tenha seus direitos atendidos. Como se dará a participação dos palestinos nas eleições gerais no país em 2010? Há algum plano nesse sentido?

 

 

É tradição consolidada do movimento palestino, suas entidades e lideranças, não interferirem na vida política e institucional brasileira tendo em consideração a questão palestina como quesito da política interna do País. Isto é, a questão palestina nunca foi pauta do movimento palestino para influenciar ou condicionar suas percepções políticas no quadro interno brasileiro. Assim, os palestinos que vivem no Brasil, sejam imigrantes ou seus descendentes, estão distribuídos nos partidos e correntes políticas e ideológicas respeitando suas convicções pessoais, em primeiro lugar, bem como estando mais próximos das correntes políticas mais afirmativas quanto aos direitos do povo brasileiro, à soberania do País, ao seu desenvolvimento econômico, científico, tecnológico, cultural. Os palestinos têm atuado para que o Brasil seja uma potência econômica e diplomática, para o que sempre compreendemos estivesse preparado, com o que poderá desempenhar um papel positivo no mundo, que, inclusive, já vem fazendo. E a inserção do Brasil como potência está se dando sem uma única guerra, uma única invasão, sem protecionismo, sem pressões às soberanias de outros países e povos. É assim que pensam os palestinos no Brasil e é com esta compreensão que atuam no quadro político, eleitoral ou não, inclusive sem impor cores partidárias ou ideológicas, haja vista que este pensamento perpassa quase todas as forças e partidos. Caso se fosse falar de algum plano, este de fato seria o de contribuir com ideias e atitudes que ajudem a alicerçar a construção de um Brasil mais próspero, com um povo mais assistido e beneficiário desta prosperidade, que seja capaz de desempenhar um papel de potência construtiva no mundo atual, o que contribuiria até mesmo para a resolução das graves questões que afligem nosso mundo, dentre elas a questão palestina.

 

 

Por fim, queríamos a sua opinião sobre a possível reabertura das negociações de paz no Oriente Médio, envolvendo Israel e que conta com apoio do novo presidente americano, Barak Obama.

 

 

As iniciativas do novo presidente estadunidense são bem-vindas, mas os pronunciamentos não são bastante para romper os bloqueios à paz. São necessárias atitudes concretas e perceptíveis da nova administração dos EUA que indiquem a todos os atores que suas palavras não são retóricas vazias e que os que as desconsiderarem pagarão o preço que têm que pagar. Queremos nos referir especialmente a Israel, cujas atitudes negativas não lhe tem acarretado nenhum prejuízo perceptível. Assim, se a Israel não ficar claro que os EUA têm a determinação de que um Estado Palestino nasça com Jerusalém Oriental como sua capital, que o muro de apartheid precisa ser derrubado, que os confiscos de terra e os assentamentos judaicos precisam cessar e restituídas as terras já confiscadas, as colônias precisam ser desmanteladas, bem como os postos de controle – mais de seiscentos num território minúsculo – têm que ser removidos, os cercos à Cisjordânia e a Gaza – este desconhecendo todas as convenções humanas conhecidas – têm que ter termo incondicional, que devem ser libertados todos os presos políticos – são mais de 11 mil, entre eles quase mil crianças e mulheres –, que a reconstrução de Gaza precisa ser liberada imediatamente, que os assassinatos seletivos de lideranças palestinas não pode continuar, bem como devem cessar as incursões militares que destroem as infra-estruturas e assassinam dezenas e dezenas de palestinos. De que reabertura de negociações se estará falando? Atualmente os palestinos têm negociado nas condições mais extremas e desumanas e de que lhes tem servido apresentarem-se como parceiros para a paz? Simples: escombros e cadáveres, cada vez mais e sob ataques cada vez mais bárbaros, notadamente o último contra Gaza, algo à beira da insanidade total. Portanto, “envolver Israel” tem que significar demover os israelenses de tudo aquilo que representa justamente a guerra. Atualmente Israel move uma guerra de extermínio contra os palestinos e os EUA sabem disso. Acabar com este estado de coisas seria o papel dos EUA. Vejamos como exemplo o debate em torno das novas expansões das colônias em território palestino ocupado: se os EUA desempenharem seu papel, estas não só serão imediatamente congeladas como, em curto espaço de tempo, removidas. Do contrário teremos claro que o papel dos EUA não mudou e que a retórica é apenas uma cortina de fumaça para dar mais tempo ao trabalho de Israel, que é varrer a Palestina do mapa. O que para todo o mundo está claro é que Israel, especialmente frente à eleição da nova dirigência, notoriamente racista e avessa à paz, não deseja trilhar o caminho que leve à libertação dos Palestinos. Ao contrário: pretende incendiar todo o Oriente Médio, talvez com o uso de armas nucleares. Os EUA, que têm seus interesses estratégicos claramente prejudicados por Israel, na região e no mundo, podem demonstrar seu novo papel e determinação com apenas um ato: não vetar pelo menos uma resolução contra Israel no Conselho de Segurança da ONU. No mesmo dia Israel vem à mesa de negociações e, mais, talvez inicie a cessação dos crimes contra os palestinos.

 

 

Fim

* Sociólogo, Professor, Escritor e Arabista. Colunista da Revista Sociologia da Editora Escala, da Fundação Maurício Grabois e do Vermelho. Foi professor de Sociologia e Ciência Política da UNIMEPentre 1986 e 2006. Presidiu o Sindicato dos Sociólogos do Estado de São Paulo de 2007 a 2010.Recebe mensagens pelo correio eletrônico [email protected]

As opiniões aqui expostas não representam necessariamente a opinião do Portal Vermelho



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