19 de Março de 2009 - 20h20

Dia de São José, dias de esperança

Paulo Vinícius *

Já chegamos ao Dia de São José – com tanto de veredicto que a data tem para os cearenses. Dia 19 de março é dia de definição. O camponês aprendeu na lida com a aridez e o sol inclemente esta mudança que é o equinócio de Outono: se chove, haverá fartura, s


E há que celebrar a alegria sertaneja neste 2009 que promete ser de bom inverno – que lá, muito justamente, é quando chove, portanto agora. E o dia de hoje, de onde eu vim, é dia de esperança e alegria. Haverá fartura – feijão verde, pequi, carne, leite e o milho – onde o trabalho e a alegria de viver se abraçarão. É lindo quando isso se dá. A caatinga, nosso bioma tão injustamente tratado como erva daninha, florirá em um tapete verde, emprestando à paisagem uma beleza de ressurreição, grandiosa como a fibra do sertanejo nordestino, na minha opinião o cimento da unidade nacional.

 

 

 

Mas confesso que me espanto com a ligeireza deste ano que corre tanto, e embalado pela data e pelas notícias, deixo a esperança tocar o modo como vejo o presente e prefiguro o futuro. A segunda-feira veio com a notícia da vitória da Frente Farabundo Martí de Liberação Nacional em El Salvador, incluindo Maurício Funes entre os novos próceres latino-americanos que temos a oportunidade de ter à frente de nossos países. Lembro de uma madrugada terrível que passei em claro, insone, em 2003, dia do golpe de estado contra o presidente Chávez, na Venezuela. Pouco vazava do que lá transcorria – só o saberíamos mais à frente e em grande medida ao filme “A Revolução não será televisionada”, mas a frustração ante a certeza do golpe era imensa para mim. Para piorar, nesta noite, passava um filme que contava exatamente o assassinato covarde de Dom Oscar Romero pelos esquadrões da morte que derrotaram então a guerrilha salvadorenha com apoio ianque. Mataram-no em meio à celebração de uma missa. Doía imensamente a percepção de que a noite neoliberal teimava tanto em não passar, que a democracia fora outra vez golpeada. E, vejam só, quanta coisa tem mudado, e tão rápido!

 

 

 

Mais cedo que qualquer um creria, a humanidade apercebe-se que “o rei está nu”. Desnuda, a incompetência da auto-regulação mostrou seu interior de sepulcro caiado. Lembro de tantos noticiários em que um economista ou jornalista explicava-nos que “o Mercado” precisava disto ou daquilo para justificar vilanias, entreguismo e violências contra o povo, e celebro o desmascaramento destas pitonisas de botequim, desmoralizadas pelos fatos. Sabem a mofo seus vaticínios até ontem tão arrogantes, como a tese da suposta superioridade do capitalismo em alocar recursos. Foi de um chocado Alan Greenspan – que por 16 anos esteve à frente do Federal Reserve, inquestionável como um papa do mercado - que veio a constatação mais interessante, a confissão de que a auto-regulação dos mercados não tem bases reais. O mercado não pode ser o elemento que sintetize e regule as relações humanas, que dirija a economia. O mundo será outro, os valores estão em disputa.

 

 

 

Para a História faz apenas um átimo que houve a Queda do Leste. Em 1991 fui ao meu primeiro debate no Auditório Castelo Branco, na Avenida da Universidade com a Treze de Maio, no Benfica, em Fortaleza. Era sobre a crise do socialismo e o 8° Congresso, que tinha como lema “O tempo não pára. O Socialismo Vive”. E aqueles dias tão trevosos não nos turvaram a certeza de que tudo muda, certeza confirmada em tudo pelos fatos. E agora, deparamo-nos com o doce desafio de reafirmar as esperanças e romper as barreiras conceptuais e subjetivas que ainda nos separam da retomada da ofensiva estratégica, a nova luta pelo socialismo.

 

 

 

Neste 19 de março, o presidente Funes vem se encontrar com Lula. Esperanças no sertão, no Brasil e na América Latina, como chuva benfazeja que flore o solo maltratado pelo látego solar. É incrível a capacidade deste florir, tanto da terra física quanto da luta do povo. Nestes dias só recordo das palavras, quase versos, de Amazonas:

 

 

 

“O século 21 será assim: trevas e luzes. No princípio, mais trevas do que luzes. Depois, a humanidade viverá grandes esperanças”.

 

 

 

Sim, estamos entrando numa era de grandes esperanças. Não há que temê-las, mas acreditar e lutar por elas. Estes são dias perfeitos para a militância.

* Sociólogo e Bancário. Membro da direção Nacional da CTB.

* Opiniões aqui expressas não refletem necessariamente as opiniões do site.


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