Diorge Konrad

100 anos de Cyro Martins: expulsão e criminalização dos ''gaúchos a pé''

João Guedes, o gaúcho honesto e sofredor que a garra adunca do senhor do campo lança repentinamente nas ''coroas de miséria'' que envolvem a cidade do interior, é um homem que hoje pode ser encontrado em centenas de reproduções em nosso Estado (Décio Frei

imagem: Centenário de Ciro Martins, divulgado pelo Centro de Estudos de Literatura e Psicanálise Cyro Martins (Celpcyro)

 

 

"Testemunhos de protesto como são, meus romances teriam que ser campeiros e pracistas, para acompanhar de perto o destino dos migrantes" (Cyro Martins, no ensaio Páginas soltas, escrito em 1994).

 

 

Em 5 de agosto de 1908, nascia o escritor e psicanalista gaúcho Cyro Martins, morto em 1995. Natural de Quaraí (1), na fronteira sudoeste do Rio Grande do Sul, foi o autor dos romances Sem Rumo (1937), Porteira Fechada (1944) e Estrada Nova (1954), nomeados pela crítica literária como a “Trilogia do Gaúcho a Pé”, (2)  por abordar atores sociais em situação de pobreza no campo e marginalidade na cidade.

 

Ainda menino, em 1920, foi morar em Porto Alegre a fim de estudar. Mais tarde cursaria a faculdade de Medicina, formando-se em 1933. Ao retornar à Quaraí, foi médico por três anos. Foi ali que conheceu mais de perto a miséria social decorrente da capitalização das estâncias gaúchas que, abordaria em seus romances, tornando-o um dos principais intelectuais do Rio Grande do Sul.

 

Filiado ao Partido Comunista do Brasil, teve atuação destacada junto à vanguarda do pensamento gaúcho, escrevendo na revista Rumo, em 1936, em A Tribuna Gaúcha, a partir de 1946 e também na revista Horizonte, onde foi editor junto com Lila Ripoll.
Tragicamente, no centenário de nascimento de Cyro Martins, partiu do Rio Grande do Sul a mais recente tentativa de criminalização do movimento social que herda a tradição do “gaúcho a pé” na luta pelo acesso à terra, o Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra.

 

Em 2008,  assistimos a maior ofensiva civil-militar contra os movimentos sociais, e o MST em particular, desde o fim da Ditadura Civil-Militar. Tornou-se pública a ata n. 1.116 do Conselho Superior do Ministério Público do Estado do Rio Grande do Sul. Nela, fica evidente a estratégia do governo de Yeda Crusius, através da Brigada Militar, da FARSUL (a entidade máxima dos ruralistas gaúchos) e de parcela do Poder Judiciário para dissolver o Movimento Sem Terra, impedir a luta pela reforma agrária e o avanço da democracia social em nosso país.

 

Baseando-se no Estatuto da Terra da Ditadura, o qual pôs na ilegalidade as Ligas Camponesas, são propostas as seguintes medidas: designar uma equipe de promotores de justiça para promover ação civil pública com vistas à dissolução do MST e a declaração de sua ilegalidade; suspender as marchas, colunas ou outros deslocamentos em massa de sem-terras; investigar os integrantes de acampamentos e da direção do MST pela prática de crime organizado; investigar os integrantes de acampamentos e a direção do MST no que toca ao uso de verbas públicas e de subvenções oficiais; intervenção do Ministério Público em três escolas para a readequação à legalidade, tanto no aspecto pedagógico quanto na estrutura de influência externa do MST com vista à proteção da infância e juventude em relação às bases pedagógicas veiculadas nas escolas mantidas ou geridas pelo MST, impedimento da presença de crianças e adolescentes em acampamentos e em deslocamentos em massa; desativação dos acampamentos situados nas proximidades da Fazenda Coqueiros bem como de todos os acampamentos que estejam sendo utilizados como 'base de operações' para invasão de propriedades; investigação dos assentamentos promovidos pelo Incra ou pelo Estado do Rio Grande do Sul, de forma a verificar se a propriedade rural, nessas áreas, cumpre sua função social; realização de investigação eleitoral nas localidades em que se situam os acampamentos controlados pelo MST, examinando-se a existência de condutas tendentes ao desequilíbrio deliberado da situação eleitoral local e; formulação de uma política oficial do Ministério Público, com discriminação de tarefas concretas, com a finalidade de proteção da legalidade no campo.

 

Esse movimento reacionário não se resume apenas ao aumento da repressão militar aos movimentos sociais. Em Carasinho, no norte do estado, em 29 de julho, integrantes do MST tiveram a primeira audiência onde respondem processo baseado na Lei de Segurança Nacional, a mesma que regulou e orientou a ação da Ditadura Pós-1964.

 

54 anos depois de Estrada Nova (1954), 64 depois de Porteira Fechada, 71 depois de Sem Rumo e nos cem anos do nascimento de Cyro Martins bem que os procuradores gaúchos poderiam ler a trilogia desse extraordinário escritor. Quem sabe, voltariam a  tirar as vendas de Themis. (3)  Assim, olhariam para a realidade centenária de expulsão dos homens da terra no Rio Grande do Sul, formada pelas sesmarias, consolidadas pela falta de reforma agrária com o fim da escravidão e aprofundadas com a mecanização do campo feita pelo agronegócio sem a respectiva partilha da terra.

 

 

O Contexto Histórico do “Gaúcho a Pé” de Cyro Martins (4)

 

 

Apesar do Movimento de 1930, no Rio Grande do Sul, não houve mudança radical na estrutura agro-exportadora e no modelo histórico de desenvolvimento. Seu desenvolvimento econômico continuou concentrado na agricultura e na pecuária, destinando-se a ser um complemento da economia central com o papel de fornecer gêneros de subsistência ao mercado nacional. Para as classes dominantes nacionais interessava manter aquela dinâmica. Por isso, consolidou-se uma relação de dependência e complementaridade.

 

Neste quadro, o governo central, segundo argumenta Sandra Pesavento, “procurava de todas as maneiras resolver os problemas das regiões econômicas periféricas, desde que os interesses destas não entrassem em contradição com (...) a integração do mercado pela articulação das economias regionais e a  diversificação da estrutura produtiva da nação. Ambos, em última instância, se resumiam em um único: garantir a continuidade do processo de acumulação capitalista no país. (5)

 

Sendo um estado essencialmente exportador - o charque ainda era o principal produto - o Rio Grande do Sul dependia, de forma geral, da política econômica do governo central, mesmo quando as charqueadas perdiam espaço para a implantação de frigoríficos, sobretudo devido à matéria-prima.

 

No caso da pecuária, a criação permanece fundamentalmente extensiva, com a criação do gado em largas extensões de terra, não tendo uma maior utilização de novas tecnologias para “incrementar a produtividade”. (6) Na produção agrícola, também, os problemas eram grandes, impossibilitando um maior estímulo ao setor.

 

Esse quadro é mostrado por Sandra Pesavento. A historiadora argumenta que do ponto de vista do proprietário da terra e gado, a baixa capitalização limitava as chances alternativas do uso do potencial produtivo da terra. Além disso, o elevado custo das máquinas, fertilizantes e defensivos agrícolas, sob o controle das empresas estrangeiras, aliada à concorrência do mercado nacional e internacional de outros produtos, dificultava o êxito da lavoura capitalista gaúcha de exportação. (7)

 

Assim, a crise agropecuária só poderia ser revertida por um grande desenvolvimento industrial que surgisse do setor primário. Como isso não acontecia, o Rio Grande do Sul mantinha a sua estrutura tradicional, pois a agricultura como a pecuária, não serviam de fator gerador da “acumulação de capital para a indústria, tal como se deu com o café no contexto paulista”. (8)

 

Por sua vez, também, essa crise descapitalizava os setores da criação e das charqueadas, impossibilitando que a classe dominante local renovasse a estrutura produtiva para acelerar o desenvolvimento capitalista pleno no campo. Assim, a atividade produtiva centrada no setor agropecuário, frente ao baixo índice  de acumulação primitiva do capital não impunha ao Rio Grande do Sul as “características capitalistas plenamente configuradas”. (9)

 

Além da indústria baseada na agricultura e na pecuária, apenas a indústria têxtil e a indústria alimentar têm relativo destaque, pois, no geral, suas características de produção artesanal ainda permanecem elevadas. Esta industrialização concentrava-se em Porto Alegre, Pelotas, São Leopoldo, Caxias, Rio Grande e Novo Hamburgo. Dessa forma, a pequena indústria era a predominante, não exercendo mudanças revolucionárias no desenvolvimento de forças produtivas. Assim, “o desenvolvimento industrial do estado não foi capaz de compensar a estagnação do setor agropecuário”, fazendo com que a fase ficasse conhecida como “crise da economia gaúcha”. (10)

 

Contraditoriamente, o parco capital, frente à crise gerada na agricultura e na pecuária não é investido na indústria, mas, ao contrário, o capital oriundo de atividades comerciais e industriais é aplicado para a solução dos problemas agropecuários. É nesse momento, que se terá certa  renovação e modernização do setor. (11)

 

De forma combinada e desigual, se no centro do País a industrialização era acelerada, no sul do país a economia regional mesmo que não mudasse substancialmente, vinha aderindo a novas técnicas de produção. Isso aumentava a capitalização do estado, tanto na cidade como no campo, sobretudo devido à expansão do mercado rio-grandense.

 

Mesmo que a economia continuasse centrada na atividade agropecuária, a crise desta última estimulava a expectativa de desenvolvimento do parque industrial do Rio Grande do Sul, sobretudo no ramo metal-mecânico, que produzia máquinas e implementos dirigidos para as necessidades do setor primário. (12)

 

A partir desse processo, aprofunda-se a urbanização e a industrialização, estimulando também o desenvolvimento das relações capitalistas. Como o governo de Flores da Cunha subsidiava e favorecia os grandes proprietários ligados à pecuária e à agricultura, os pequenos agricultores se uniam. Aqueles que não o faziam, acabavam perdendo suas propriedades em vista da falta de estímulo aos produtos agrícolas que tinham seu preço mínimo reduzido. Isso fazia com que muitos buscassem o caminho das cidades, a partir da criação de um mercado de trabalho na indústria manufatureira e artesanal.

 

Por outro lado, com o término do cercamento dos campos e a introdução de novas tecnologias na atividade agropecuária, no Rio Grande do Sul dos anos 1930, aceleram-se os processos de expulsão de mão-de-obra das estâncias para os centros urbanos. Com isso, passa a aumentar o contingente do proletariado sem especialização, gerando graves problemas sociais nas cidades, resultantes do desemprego, devido “a crise econômica vigente e à falta de uma maior industrialização”. (13)

 

Além disso, sem um processo que tornasse a burguesia industrial gaúcha a classe dominante absoluta, o Rio Grande do Sul passava por uma verdadeira encruzilhada, pois ao mesmo tempo em que se buscava resolver os problemas econômicos, as contradições sociais se avolumam sem ter soluções.

 

Tal realidade fez com que o proletariado urbano começasse a se organizar política, sindical e partidariamente, a fim de se enfrentar os problemas cada vez mais agravados devido à crise econômica. No entanto, tal organização restringia-se às cidades, pois, no campo os peões e o reduzido proletariado rural ainda viviam em dependência econômica, social e política dos grandes proprietários, não possuindo organização própria, impossibilitando uma maior expansão das reivindicações dos setores urbanos para as zonas agrícolas do Rio Grande do Sul.

 

É desse universo social em transformação que sairá boa parte da produção literária gaúcha, nomeada como “Geração de 30”, inserida na produção modernista do romance brasileiro, também chamada de neo-realista, tendo entre eles Dyonélio Machado, Érico Veríssimo e Cyro Martins.

 

 

A Geração de 30 no Rio Grande do Sul e a Obra de Cyro Martins

 

 

A prosa literária da década de 1930 deu continuidade ao projeto modernista, dali em diante com ênfase na literatura regionalista, abordando as desigualdades sociais do Brasil, tanto em relação à cidade como ao campo.

 

Foi com A bagaceira, obra de José Américo de Almeida, publicada em 1928, que o movimento foi inaugurado mostrando a miséria do nordestino, a brutalização do sertão e as relações de exploração de patrões dobre seus empregados. A continuação dessa tradição se deu com Graciliano Ramos, autor que mostrará a desumanização do homem nordestino em São Bernardo (1934) e a fome e a miséria retirante com Vidas secas (1938). Com José Lins do Rego será retratada a decadência da sociedade rural patriarcal dos senhores de engenho do Nordeste nas obras Menino de engenho (1932), Doidinho (1933), Bangüê (1934), Usina (1936) e, finalmente, Fogo morto (1943), mostrando o coronel decadente e violento contraposto pelo defensor dos oprimidos. Nos romances de Rachel de Queiróz predominam a memória e a observação dos problemas sociais do Nordeste, sobretudo com João Miguel (1932), Caminho das pedras (1937), As três marias (1939). Já em Jorge Amado, através de Cacau, (1933), Suor (1934), Jubiabá (1935), Mar morto (1936) e Capitães da Areia (1937), surgem na literatura outras denúncias das desigualdades sociais da região, sobretudo nesse último, quando mostra a deplorável situação de crianças abandonadas de Salvador e defende a revolução socialista.

 

No Rio Grande do Sul, o chamado Romance de 30 mostrará a obra de Érico Veríssimo, através de Clarissa (1933), Música ao longe (1935) e Um lugar ao sol (1936), na qual o escritor abordará o cotidiano da vida urbana, mostrando aos leitores o universo de Porto Alegre. Já na trilogia O tempo e o vento, Veríssimo procurará, como já afirmou José Hildebrando Dacanal, “abranger globalmente no tempo e no espaço” uma das zonas agrárias, apresentando um “amplo e completo painel da formação do patriarcado rural sul-rio-grandense, ou do grupo oligárquico-rural da fronteira gaúcha”. (14)

 

Com Dionélio Machado e sua obra Os ratos (1935), o Romance de 30 terá uma marca. Nela, o retrato simbólico da realidade de Porto Alegre e de como o dinheiro se torna a síntese das relações sociais capitalistas e do consumismo da cidade grande, é mostrado com toda a profundidade psicológica. Através da vida de um funcionário público, endividado e envergonhado de olhar os credores, a visão cruel da miséria urbana aparece com intensidade em toda a narrativa.

 

Já em Xarqueda (1937), o baiano Pedro Rubens de Freitas Wayne (15) apresentou a situação precária dos operários saladeiris, em uma das abordagens mais paradigmáticas da vida pastoril gaúcha, marcando o Romance de 30. Como já disse Léa Masina, há neste romance uma “forte correlação entre os dados do mundo empírico e o desejo de transformar as representações sociais em literárias”, através da “criação de uma consciência crítica por parte do escritor”. Nele, o autor se permite “narrar a estória das desvalias de um fragmento específico da população do Rio Grande do Sul: os trabalhadores da indústria da carne e do charque, então principal matéria-prima a sustentar a economia do Estado”. (16)

 

Outra obra significativa será Fronteira Agreste (1944), escrita por Ivan Pedro de Martins, (17) apresentando a estrutura socialmente injusta de uma fazenda de pecuária extensiva, entre Dom Pedrito e Bagé, no sudoeste do Rio Grande do Sul.

 

Como já demonstrou José Hildebrando Dacanal, com Memórias do Coronel Falcão, escrita por Aureliano de Figueiredo Pinto no final da década de 1930, mas só editado em 1973, com quase cinqüenta anos de atraso, teremos o elo que faltava entre a ficção sobre o campo e a cidade. Será  “a ponte entre Érico Veríssimo de O tempo e o vento – a formação, o apogeu e o início da decadência da estrutura oligárquico-rural do estado” - com “o aflorar da consciência crítica dos grupos médios urbanos de Porto Alegre”, nas obras de Dyonélio Machado e Cyro Martins. (18)

 

Porém, foi com Cyro Martins que o regionalismo gaúcho mostrará o peão, o antigo agregado, o expulso do campo se proletarizando, com toda a sua intensidade, um tema tão atual e ainda universal. (19) Estudante em Porto Alegre, ele mesmo confessou que muito jovem, empolgado pela imprensa e pelos livros e pelos “discursos ruapraieiros entusiasmados sacudindo palas”, quando voltava para casa, nas férias, “na beira da estrada real, em plena campanha, os tipos que desfilavam por ali eram bem diferentes daqueles fantasiados que serviam de modelos (...) configurando um afresco da decadência e retirada que nenhuma retórica tradicionalista conseguiria encaixar numa inventiva rósea”.

 

Em outra passagem, o romancista dá o tom sobre o conteúdo da sua ficção literária: “inspirada nesse documento humano, para ser coerente com o que os meus olhos viram e o meu coração sentiu (...) teria que se apegar à verdade que gritava aos meus ouvidos (...) numa linguagem singela, largada, temperada com o sal da terra e sem nenhum ufanismo”. (20)

 

Para Tânia Carvalhal, com a “Trilogia do Gaúcho a pé”, onde um livro dá continuidade ao outro, via integração temática, Cyro Martins “desvendou o avesso de uma prática romântica, que fixara a figura do gaúcho como ‘monarca das coxilhas’, dono de suas montarias e das distâncias (...) idealização do homem rural”. Para a autora, contra essa idealização, Cyro Martins vai “contrapor uma feição mais terra-a-terra e coerente com as mudanças econômicas e sociais que passara o gaúcho, obrigado a apear do cavalo, a migrar e a enfrentar uma realidade de horizonte aberto”. (21)

 

Para Glaucia Konrad, “o discurso regionalista tradicional  do Rio Grande do Sul e a tentativa de mantê-lo vivo” é a expressão de  uma oligarquia oriunda do latifúndio pecuário ou agrícola  em decadência.  Para a autora, “outro conteúdo teve o regionalismo  social,  exibido nas  obras  de Dyonélio Machado, Cyro Martins e  Ivan  Pedro  de Martins,  entre  outros”. Pois, “esses autores questionavam o  modelo de desenvolvimento agrário gaúcho, mostrando uma realidade decadente e a situação do homem do campo e daquele que foi expulso das suas terras, indo para a cidade e se constituindo em mão-de-obra para a indústria, com pouco ou nenhuma qualificação”. (22)

 

Os conselheiros do Ministério Público do Estado do Rio Grande do Sul que produziram a ata n. 1.116, no lugar de criminalizar os movimentos sociais, deveriam olhar para o processo histórico da formação social do Rio Grande do Sul. Nele poderiam ver a necessidade do fim do latifúndio, percebendo o quanto a modernização com a permanência da grande propriedade, através do agronegócio, se não for enfrentada, continuará produzindo os “gaúchos a pés”.

 

Quem sabe lendo Estrada Nova, escrito por Cyro Martins no distante 1954, veriam que estão fazendo o papel do personagem do velho Policarpo, símbolo da permanência de um tempo passado que expressa a decadência do mundo rural que insiste em permanecer, pois não consegue enxergar as transformações econômicas e os resultados sociais desse processo.

 

***

 

Este artigo é dedicado a Valentina, que da barriga da mamãe já acompanha o papai na produção acadêmica e militante, na luta por um mundo para além do capital. 
 

 

Notas

 

(1) Quaraí é conhecida como terra dos escritores. Nela, além de Cyro Martins, nasceram Dyonélio Tubino Machado, autor de Os ratos, Presidente da Aliança Nacional Libertadora no Rio Grande do Sul, em 1935, e deputado estadual pelo Partido Comunista do Brasil, em 1945; Lila Ripoll, poetisa, professora, jornalista e militante comunista, escreveu em A Tribuna Gaúcha e editou a revista Horizonte, órgãos do PCB no Rio Grande do Sul; Waldemar Ripoll, jornalista e escritor, assassinado no exílio em 1934, em Rivera, por ordem de pessoas ligadas ao interventor  gaúcho Flores da Cunha, quando já era um militante da esquerda clandestina; João Batista Marçal, jornalista, preso político no pós-1964 e autor de diversas obras sobre a militância e organizações operárias e de esquerda; entre outros.


(2) Foi o próprio Cyro Martins que, em 1935, utilizou pela primeira vez, em uma conferência, o termo gaúcho a pé. Porto Alegre, que homenageou Cyro Martins em 1986, como Patrono da 32ª Feira do Livro, refletirá sobre a importância da sua obra, em dois grandes eventos acadêmicos, entre outros: no dia 15 de agosto, na Casa de Cultura Mário Quintana, uma mesa-redonda sobre a “Trilogia do Gaúcho a Pé”; nos dias 26 e 27 de agosto, na PUC-RS, o seminário ''Cyro Martins 100 anos - Múltiplas Leituras'', organizado pelo Centro de Estudos de Literatura e Psicanálise Cyro Martins (CELPCYRO).

(3) A imagem da Têmis, como conhecemos hoje, passou a ter a venda nos olhos por criação de artistas alemães do século XVI. A faixa simbolizaria a imparcialidade que não veria diferenças entre as partes em litígio, sejam ricos ou pobres, poderosos ou humildes, grandes ou pequenos. Típica visão do direito tradiconal, esta na base da concepção positiva da lei, deixando de lado a justiça e o direito.
 

(4) Essa contextualização apresenta extratos modificados de parte de minha dissertação de mestrado 1935: a Aliança Nacional Libertadora no Rio Grande do Sul, defendida na área de História do Brasil na PUC-RS, em 1994, e orientada por Sandra Lubisco Brancato. Ver especialmente os itens 3.1 – Fatores econômico, social e político no Rio Grande do Sul, p. 143-169.
 
(5) Cf. História do Rio Grande do Sul. Série Revisão, n. 1. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1984, p. 106.
  Ver Cf. PESAVENTO, Sandra J. Rio Grande do Sul: a economia e o poder nos anos 30. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1980, p. 84.
 
(6) Cf. Historiografia e ideologia. In. DACANAL, José Hildebrando; GONZAGA, Sergius. RS: cultura e ideologia. Coleção Documenta, n. 3. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1980, p.  85.
 
(7)Idem, ibidem, p. 85.
 
(8)Ver KOCH, Adelar. O processo gaúcho de industrialização na República Nova. In. O processo revolucionário de 1930, v. VII, n. 1/2. Porto Alegre: PUC-RS, 1981, p. 123.
 
(9)Cf. PESAVENTO, Sandra. A burguesia industrial gaúcha na República Nova (1930-1937). In. O processo revolucionário de 1930, v. VII, n. 1/2. Porto Alegre: PUC- RS, 1981, p. 137.
 
(10) Idem, ibidem, p. 138.
 
(11) Cf. PESAVENTO, Sandra. História da indústria sul-riograndense. Guaíba: Riocell, 1985, p. 91.
 
(12) Ver PESAVENTO, Sandra, op. cit., 1980, p. 85
 
(13) Cf. DACANAL, José Hildebrando. O romance de 30. Série Revisão, n. 7. Porto Alegre, Mercado Aberto, 1982, p. 48-9.
 
(14) Pedro Wayne nasceu em Salvador, em 1904, mas com dois anos, foi morar em Pelotas, cidade onde permaneceu até 1927, quando se mudou para Bagé, como funcionário do antigo Banco Pelotense. Pegou em armas em 1930, na arrancada de Vargas, conspirou na revolução de 1932 e, para escapar da prisão, foi trabalhar como guarda-livros na charqueada de seu sogro, onde atendia o bolicho que supria os empregados do “saladero”. Mais tarde, transferiu-se para outra charqueada, até retornar a Bagé e participar do movimento artístico modernista, que reuniu nessa cidade da Campanha, artistas plásticos como Glauco Rodrigues, Danúbio Gonçalves, de projeção regional, e Carlos Scliar. Ver estas informações em MOREIRA, Maria Eunice. Charqueadas e Xarqueada: a vida saladeiril na província gaúcha. In. Letras de Hoje. Porto Alegre, v. 42, n. 2, p. 161, junho, 2007. Disponível em http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/fale/article/viewFile/2418/1892. Acesso em 12/08/2008.
 
(15) Ver o artigo Xarqueada, de Pedro Wayne: um paradigma do romance de 30. In. MASINA, Léa; APPEL, Myrna Bier (orgs). A Geração de 30 no Rio Grande do Sul: literatura e artes plásticas. Porto Alegre, Ed. da UFRGS, 2000, p. 123.
 
(16) Ivan de Pedro Martins foi presidente nacional da juventude da Aliança Nacional Libertadora, em 1935. Após a Insurreição Comunista de novembro, tornou-se clandestino, sendo abrigado em uma fazenda de um amigo de seu pai, no interior do Rio Grande do Sul. Dali surgiu a inspiração de seu romance. Cf. a biografia do autor em MARTINS, Ivan Pedro de. A flecha e o alvo: a intentona de 1935. Porto Alegre, Movimento/IGEL/IEL, 1994.
 
(17) DACANAL, op. cit., 1982, p. 60.
 
(18) Para Regina Zilbermann, Cyro Martins constitui o autor mais produtivo do período. Com a trilogia do “gaúcho a pé”os romances do autor apresentariam uma “nova visão do herói tradicional dos pampas, apresentado em seu estado atual: de penúria econômica e desenraizamento social, já que foi jogado para fora do campo, vivendo como pária da sociedade urbana”. Cf. A literatura no Rio Grande do Sul. 3 ed. atualizada e ampliada. Série Revisão, n. 2. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1992, p. 83.
 
(19) Ruapraieiro é uma referência à Rua dos Andradas, no centro de Porto Alegre, chamada popularmente até hoje de Rua da Praia, seu antigo nome. Palas são vestimentas gaúchas semelhantes ao poncho. Ver a opinião de Cyro Martins no artigo Regionalismo, modernismo e o surgimento do romance de 30. In. MASINA, Léa; APPEL, Myrna Bier (orgs), op. cit., 2000, p. 86-7 e 92.
 
(20) Cf. CARVALHAL, Tânia Franco. Relendo ‘o gaúcho a pé’”. In. MASINA, Léa; APPEL, Myrna Bier (orgs), ibidem, p. 143-4.
 
(21) Ver a dissertação de mestrado A política cultura do Estado Novo no Rio Grande do Sul: imposição e resistência. Porto Alegre: PUC-RS, 1994, p. 143.

* Professor Adjunto do Programa de Pós-Graduação do Curso de História - Licenciatura Plena e Bacharelado e do Departamento de História da UFSM, Doutor em História Social do Trabalho pela UNICAMP

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