22 de Julho de 2008 - 19h27

Quando dois israelenses valem mais que duzentos libaneses

Paulo Vinícius *

Causa-me não raro imensa repulsa assistir o noticiário. É algo meio masoquista, mas importante porque é preciso entender como pensa esta facção poderosíssima, as grandes empresas de comunicação, em aliança com os principais fiadores do neoliberalismo no B


E não posso esconder que sempre quis num artigo dar um retorno a tanto lixo que tenho de assistir. Acho que é muito importante que não deixemos impune tanta mentira a nos bombardear, praticamente sem opções, ante grandes e poderosas empresas especializadas em mentir. Por isto este artigo.

 

 

E mentira é também a ênfase em determinados temas e as auto-notícias, a glorificação da mídia por si mesma, um descaro em que se têm especializado, a cínica propaganda de si mesmos, mais falsa que uma moeda de três reais. Exemplo foi no dia 15 de julho, no JN, a privilegiada notícia de um tal congresso brasileiro de publicidade com declarações importantíssimas de ilustres desconhecidos. Curioso ninguém saber quem são os caras quando já estamos no terceiro dia de cobertura do tal congresso de publicidade no Jornal Nacional. Repito, publicidade.

 

 

E não sabemos quem são os caras porque o tal convescote reuniu quem sempre se esconde atrás da imagem, sem desvelar o véu de seu surgimento na cena política brasileira. Por que estes grandes veículos de imprensa têm tais posições políticas, e não outras? Por que de seus serviços ao Regime Militar, à defesa dos interesses dos EUA e a difusão de sua cultura? Por que serviram ao desmonte da Nação durante os tristes anos FHC, quando tivemos os destinos de nossa economia submetidos ao regime de cassino dos rentistas? Uma dica para entender o tema é assistir Muito Além do Cidadão Kane.

 

 

O documentário é importante por ser o primeiro a desentranhar a nossa mídia a negar-lhe a imparcialidade que se atribui, a levá-los em conta como atores políticos com interesses muito questionáveis. O congresso em questão deve ser visto sob a mesma lupa, que permite identificar seus interesses quando saem à ribalta para defender posições tão fortes, falando de "ameaças" à liberdade de imprensa, e argumentando candidamente que:

 

 

"É a publicidade que viabiliza do ponto de vista financeiro a liberdade de imprensa e a difusão de cultura e entretenimento para toda a população".

 

 

"É a publicidade que torna possível a existência de milhares de jornais, revistas, emissoras de rádio e TV, assim como de outras expressões da mídia" .

 

 

Ou seja, a publicidade que sustenta a grande imprensa! Agora sim tá entendido o sentido da liberdade...E tudo isto às oito e meia da noite... Pelo menos a gente não se confunde, e entende de cara que, mesmo no jornal, não se trata de jornalismo, são apenas "business".

 

 

Quando o mercado não vale mais que a vida e a verdade

 


Faço um paralelo com a revolta dos comerciantes com a dita “lei seca”, que se baseia sobretudo no direito coletivo à vida, proibindo o álcool ao volante. Vemos alguns donos de bares que acham mais importante as suas vendas. A defesa disto não é ilegítima quando sabemos quem são e o porque de suas posições e o sentido que dão ao termo liberdade. Eles vivem disto. Não é diferente o tal Congresso de Publicidade. E sinceramente não me comove o fato de o Faustão ter ido lá, ou qualquer outro do "elenco", ou da folha de pagamento, nem um pouquinho.

 

 

Afinal o que interessa é o que eles defendem. E a vantagem é a comunicação fácil de que não haja nenhuma regulação a estas pessoas jurídicas e ao seu poder. Os donatários defendem naturalmente as novas sesmarias e seu caráter sagrado, e neste intento é que dizem que a publicidade não deve ter nenhuma limitação, mesmo que minta, mesmo que estimule um consumismo insano, mesmo que sujeite as mulheres a uma coisificação enojante e sedutora, mesmo que estimulando a dependência química, mesmo se utilizando de psicologia, mesmo que para crianças. E eles são tão legais que expressam uma indignação comovente ao defender que este seu poder não pode ser questionado pela cidadania nem com as melhores "intenções".

 

 

Este fenômeno é contemporâneo de outro, que mais os desespera. Ocorre que estes setores foram derrotados, e não apenas uma ou duas vezes. Eles têm uma agenda para o país. E uma péssima agenda, derrotada como a Alca, o Alckmin, e desculpem o trocadilho, mas é compreensível que defendam não haver limites para a publicidade do álcool. Fundamentalmente, eles estão defendendo o deles. E o povo entende mais claramente que não partilha dos mesmos interesses da grande mídia. Os "formadores de opinião" babam impotentes diante da indiferença popular quanto a alguns temas que lhes são caros. Quanto a outros, o bombardeio massivo não permite dúvida, infelizmente.

 

 

Quando dois soldados israelenses valem mais que duzentos libaneses e sete brasileiros

 

 


Na mesma edição do JN, uma matéria inteiramente pró-israelense ataca o Hizbollah, sem jamais reconhecer que este logrou importante vitória quanto ao seu reconhecimento como ator político destacado na região. Afinal, o Hizbollah é um movimento político muito forte que têm o apoio de grande parte da população libanesa, e não apenas, mas de todos os árabes. E não é à toa, pois o que não pode ser noticiado é que Israel não pôde vencer o Líbano graças à resistência de sua juventude, que organizou-se e derrotou militarmente por duas vezes o Exército de Israel, fato inédito e incontestável prova de organização e força. No episódio mais recente da invasão do Líbano por Israel, justificado pela captura de dois soldados israelenses, morreram centenas de libaneses.

 

 

Tive a oportunidade de visitar os subúrbios de Beirute e o Sul do Líbano, em uma visita de solidariedade da Federação Mundial das Juventudes Democráticas em 2007. Vi edifícios inteiros afundados até dois ou três subsolos, vi sacadas de apartamentos varadas de balas, e as imagens dos cadáveres das crianças que escandalizaram o mundo, assim como os jovens da União da Juventude Democrática Libanesa, assassinados, como os sete brasileiros vitimados pelos ataques. O destaque dado pelo JN ao tema tem lado, por isto omite todas estas barbaridades, solidários com Israel e seus soldados. Ocorre que o exército de Israel, um exército regular e o mais poderoso da região, matou crianças, atacou a população civil, inclusive brasileiros que estavam neste país irmão. Por que isto passa desapercebido na notícia?

 

 

Outro detalhe que não saiu na cobertura é que graças à Síria inúmeras vidas foram salvas em meio a este momento de grande dificuldade, inclusive brasileiros, porque foi neste país acolhedor que os libaneses e os brasileiros em fuga encontraram guarida ante a sanha assassina de Israel, que recebe a maior ajuda militar dos EUA, que detém ogivas nucleares clandestinas e mantém milhares de pessoas presas, seqüestradas, especialmente palestinos. Quando Bachar el Assad, presidente da Síria, na recente cúpula mediterrânea não cumprimenta Olmert, não cumprimenta quem deu as ordens desta chacina contra o Líbano, não confraterniza com o representante de um país que ocupa parte do Golã Sírio, onde jamais houve presença judaica. E é na Síria de Saladino que vivem mais de um milhão de iraquianos e milhares de palestinos expulsos de seus lares pela violência patrocinada pelos EUA e Israel.

 

 

Então, é surpreendente observar a vitória política do Hizbollah, que é um partido legal no Líbano, com ampla representação parlamentar, que já teve ministros e um dos três postos mais importantes do país. Tendo defendido o Líbano da agressão israelense, expulsando-os por duas vezes, agora realiza a troca de mortos de guerra, entre os quais os dois soldados israelenses, foco do jornal em questão. Sua história foi contada em detalhes, com requinte, um drama humano a que não podemos ficar indiferentes. Mas não menos indiferentes ficaríamos se nos fosse dada a oportunidade de ouvir mais sobre um "detalhe" da notícia, o de que foram devolvidos duzentos corpos de libaneses mortos por Israel. E é enojante perceber que estes duzentos libaneses – não sabemos se homens, mulheres ou crianças – são para o Jornal Nacional menos dignos de nota que os dois soldados israelenses, assim como os sete brasileiros mortos por Israel neste mesmo conflito, que não mereceram jamais a indignação global .

 

 

E quando se trata de temas tão graves, como ficamos, diante de toda a liberdade desta meia dúzia de ricaços, como fica o nosso direito à verdade, à informação, ao outro lado da história? Não podemos permitir que nos confundam, pois o fundamentalismo da liberdade de empresa, que é a ditadura do mercado, é hoje o principal obstáculo à liberdade de imprensa.

 

 


Notas:

 


1 Assista no YouTube no endereço:  Diga-se de passagem que a interdição deste documentário foi promovida judicialmente pelos tais paladino das "liberdades".

 

Para ver a matéria em questão:

 

Para ver a matéria em questão:

* Sociólogo e Bancário. Membro da direção Nacional da CTB.

* Opiniões aqui expressas não refletem necessariamente as opiniões do site.


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