11 de Junho de 2008 - 20h12

90 anos da revolta de Córdoba e a nova hora americana

Paulo Vinícius *

Dois mil e oito marca os 40 anos do Maio de 1968, mas não apenas. Celebramos também o aniversário de 90 anos da Revolta estudantil de Córdoba, episódio que alçou a Reforma Universitária à condição de uma das mais importantes bandeiras do movimento estudan


O que foi a Rebelião de Córdoba


 

Naquele junho de 1918, a Europa saía da Primeira Guerra Mundial e a Revolução Russa dava seus primeiros passos que modificariam em profundidade o planeta. Desde o fim do século 19 e o princípio do Século 20 os estudantes já tinham peso como a parcela mais ativa da juventude quanto às questões políticas (1). No Uruguai, Chile e na Argentina, iniciavam-se as movimentações pela organização gremial e em Montevidéu já em 1908 reúne-se um “Primeiro Congresso de Estudantes Americanos. Na Argentina, a efervescência estudantil se dava em meio a um momento de renovação política com a ascensão ao governo nacional da União Cívica Radical, sob a presidência de Hipólito Yrigoyen (2). Naquela quadra é que se levantaram os estudantes da Universidade de Córdoba, província dominada pela


 

“ 'antiga classe letrada que junto ao clero instruído e com os funcionários públicos exercia o domínio espiritual na província'. Em um país cujas universidades eram os centros de discussão, crítica, elaboração e reprodução do discurso da modernidade, a Universidade de Córdoba, se exilava dos impulsos do mundo moderno. (...) fundada em 1613 pelos jesuítas, ademais de ostentar o prestígio de ser a primeira universidade estabelecida na Argentina, mantinha em sua estrutura de poder e na organização dos estudos e conteúdos os princípios de sua fundação, apesar de desde 1858 ter passado a depender administrativamente do governo nacional”. (3)

 


É contra esta tríplice aliança que se levantam os estudantes cordobeses. Seu Manifesto, belo e contundente ainda cala fundo e do qual reproduzimos alguns trechos:


“As universidades têm sido até aqui (...) o lugar aonde todas as formas de tiranizar e de insensibilizar acharam a cátedra que as ditasse (...) chegando a ser assim o fiel reflexo destas sociedades decadentes que se empenham em oferecer o triste espetáculo de uma imobilidade senil. Por isso a ciência frente a estas casas mudas e fechadas, passa silenciosa ou entra mutilada e grotesca para o serviço burocrático”.

 

“Nosso regime universitário - mesmo o más recente é anacrônico. Está fundado sobre uma espécie de direito divino; o direito divino do professorado universitário. Cria-se a si mesmo. Nele nasce e nele morre, mantendo um distanciamento olímpico”;

 

“A Federação Universitária de Córdoba se levanta para lutar contra esse regime (...). Reivindica um governo estritamente democrático e sustenta que na comunidade universitária, a soberania, o direito de dar-se governo próprio radica principalmente nos estudantes. O conceito de autoridade que corresponde e acompanha um diretor ou um professor em um lar de estudantes universitários não pode apoiar-se na força de disciplinas estranhas à substância mesma dos estudos. A autoridade, em um lar de estudantes, não se exercita mandando, mas sugerindo e amando: ensinando”.

 

“Se não existe uma vinculação espiritual entre o que ensina e o que aprende, todo ensino é hostil e por conseguinte infecundo. Toda a educação é uma longa obra de amor aos que aprendem. Fundar a garantia de uma paz fecunda no artigo combinatório de um regulamento ou de um estatuto é, em todo caso, amparar um regime de quartel, mas não um trabalho de ciência”.

 

“Nos acusam agora de insurretos em nome de uma ordem que não discutimos, mas que nada tem conosco. Se é assim, se em nome da ordem querem continuar nos enganando e embrutecendo, proclamamos bem alto o direito da insurreição”.

 

“A juventude (...) não se equivoca nunca na eleição de seus próprios mestres. Ante os jovens não se faz mérito adulando ou comprando. É preciso deixar que eles mesmos elejam seus professores e diretores, seguros de que o acerto vai coroar suas determinações. Doravante, só poderão ser professores na república universitária os verdadeiros construtores de almas, os criadores de verdade, de beleza e de bem”.

 

“Na Universidade Nacional de Córdoba e nesta cidade não foram presenciadas desordens; se contemplou e se contempla o nascimento de uma verdadeira revolução que há de agrupar bem rápido sob sua bandeira a todos os homens livres do continente”.

 

“A juventude universitária de Córdoba afirma que jamais fez questão de nomes nem de empregos. Se levantou contra um regime administrativo, contra um método docente, contra um conceito de autoridade. As funções públicas se exercitavam em benefício de determinadas camarilhas”.

 

“A juventude já não pede. Exige que se reconheça o direito de exteriorizar esse pensamento próprio nos corpos universitários por meio de seus representantes”.


 

O Manifesto e a Rebelião dos Estudantes levaram à ocupação da Universidade e ao convite à população para assistir as aulas. A Revolta impulsionou a estruturação da Federação Universitária dos Estudantes que realizou seu primeiro congresso aquela cidade no mesmo ano. A intervenção do governo nacional respaldou as reivindicações estudantis e levou a uma Reforma Universitária que rompeu em grande medida a dominação clerical e o alijamento dos estudantes das questões acadêmicas. Estes êxitos motivam até hoje a luta pela Reforma Universitária na América Latina.

 


Razões da longevidade do espírito de Córdoba

 

A longevidade impressionante desta rebelião deve-se à afirmação política da juventude estudantil e à defesa do seu direito a participar das decisões nas universidades, na definição da educação que recebemos e ao questionamento de seu conteúdo, exigindo sua vinculação com as aspirações mais amplas de nosso povo,exigindo que a universidade seja parte das mudanças mais profundas necessárias em nossos países. Como Hugo Cancino esclarece:

 


“Definitivamente, o projeto desta nova geração, foi, em termos gramscianos, a criação a partir da Universidade reformada de um tipo de intelectual moderno que substituísse os sacerdotes e aos intelectuais tradicionais articulados com a oligarquia. Estes novos intelectuais deveriam criar a nova hegemonia espiritual, cultural e ética que permitisse às camadas médias e subalternas realizar a modernização das sociedades da América Latina”. (4)


 

Como disseram, “as batidas do coração nos advertem: estamos pisando sobre uma revolução, estamos vivendo uma hora americana”. Cumpre inquirir-nos se neste alba do século 21 se o espectro de Córdoba não deve novamente percorrer as salas de aula da América Latina na execução plena desta titânica tarefa histórica, antevista pelos heróicos estudantes de Córdoba, mas inconclusa ainda.

 


Uma nova hora americana

 

Nosso destino comum latino-americano impõe-nos tirar as devidas lições, do nosso passado, imprescindíveis ao escrever a inédita história que se descortina graças a nossas ações e lutas. Revisitar as memoráveis páginas da Revolta dos estudantes da Universidade Córdoba, inscreve-se entre as responsabilidades intelectuais de nossa geração, desafiada a intervir como nunca nas mudanças porque passa a América Latina com o advento de novas forças sociais e políticas que ascendem aos governos centrais de Brasil, Argentina, Venezuela, Uruguai, Equador, Bolívia, Paraguai, Panamá e Nicarágua, que se somaram a Cuba Socialista.

 

 


Conhecer o ideário e as repercussões deste evento transcendente surgido no país vizinho é afirmar uma contribuição original, latino americana, à concepção da universidade, plenamente vigente e necessária. Afinal, as mudanças políticas que vivemos na América Latina acenam para novas conquistas . É possível implementar mudanças de profundidade no ensino superior em nossos países, e a reforma universitária reafirma-se como bandeira de dimensão continental, vinculada à busca de projetos nacionais de desenvolvimento próprios, baseados em nossa própria história e sociedades. A integração latino-americana é o que pode dar a cada projeto nacional a sua viabilidade geopolítica e econômica, e são imensas as possibilidades de que a unidade dos estudantes num contexto favorável impulsione à construção de uma universidade mais popular e democrática, com medidas que já ocorrem no Brasil e na Venezuela, por exemplo, mas que exigem uma sistematização e um sentido unitário, como o do Manifesto de 1918.

 

 

A integração educacional dá passos largos com a construção de instituições latino-americanas, como a Universidade Pan Amazônica e a Unila (Universidade Latino Americana), que se somam à Escola Latino Americana de Medicina, em Cuba. O intercâmbio estudantil ganha um novo sentido e imensas possibilidades. A luta por Reformas estruturantes é fundamental, e entre elas e entre elas a Reforma Universitária. E a História do movimento estudantil latino-americano é clara. Aqueles que na Venezuela se opõem às universidades experimentais em defesa dos privilégios de uma universidade elitista, e os que no Brasil não percebem a importância de medidas como o Prouni, o Reuni, as cotas e a reserva de vagas, situam-se ao lado dos conservadores de todos os tempos, por medo de construir uma ampla unidade em defesa do co-governo, da ampliação do financiamento e da popularização das universidades. Mas a mudança já está em curso.

 


Há um espectro que ronda a América Latina, o espectro da Revolta Estudantil de Córdoba, o espectro da luta pela Reforma Universitária, que influenciou todas as gerações nos últimos 90 anos, especialmente a visão dos revolucionários sobre o que deve ser a universidade, como Che, ícone de 1968, a dizer-nos, como só ele sabia, de tão bonito e verdadeiro:

 


“que tenho a dizer à Universidade como artigo primeiro, como função essencial de sua vida nesta Cuba nova? Tenho a dizer-lhe que se pinte de negro, que se pinte de mulato, não só entre los alunos, mas também entre os professores; que se pinte de operário e de camponês, que se pinte de povo, porque a Universidade não é patrimônio de ninguém e pertence ao povo (...) e o povo, que tem triunfado, está até malcriado no triunfo, pois conhece sua força e sabe se perfilar, está hoje às portas da Universidade, e a Universidade deve ser flexível, pintar-se de negro, de mulato, de operário, e camponês, ou ficar sem portas, e o povo as romperá e pintará a Universidade com as cores que desejar” (5).


Notas:

 

1 - No Brasil, os versos abolicionistas de Castro Alves, estudante da Faculdade de de Direito Recife, a ousadia de Euclides da Cunha, estudante da Escola Militar do Rio de Janeiro que atira aos pés do Ministro da Guerra do Império seu sabre de estudante em protesto contra o Império são expressões da importância do protagonismo da juventude estudantil já em fins do século 19.

 


2 - CANCINO, Hugo. El movimiento de reforma universitaria en Córdoba, Argentina, 1918. Para una relectura de su discurso ideológico. Disponível aqui

 

“Nuevos grupos sociales, las capas medias y sectores populares irrumpían en el escenario social poniendo en tela de juicio el viejo sistemas de alianzas y exigiendo la participación en el Estado y en el sistema político. Ello exigía naturalmente una reforma del sistema político, que hiciera posible la participación electoral de los sectores marginados. La Unión Civica Radical canalizó los movimientos de protesta anti olígarquíca de los nuevos grupos sociales, proyectándose como el partido de la reforma política y de la modernización”.

 


3 – Ibidem.


 

4 - CANCINO, Hugo. Ibidem.


 

5 - GUEVARA, Che. Discurso al recibir el doctorado honoris causa de la Universidad Central de las Villas(28 de diciembre de 1959). Disponível aqui

* Sociólogo e Bancário. Membro da direção Nacional da CTB.

* Opiniões aqui expressas não refletem necessariamente as opiniões do site.


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