25 de Dezembro de 2007 - 22h01

O risco demo-tucano

Paulo Vinícius *

Seria irônico não fosse trágico. O fim do ano ganhou uma nota triste. Não exagerou o Ministro da Saúde ao falar que o dia do fim da CPMF era um dia de luto para a saúde. Assim é. Afinal, todos sabem que a CPMF passou anos a fio sendo roubada do povo brasi


Então, a CPMF era "indispensável" e eles descaradamente a mantiveram defendendo-se com toda a cantilena neoliberal que todos conhecemos. E chantagearam a Nação. Afinal, eram tempos em que não se podia fazer nada, nada para não desagradar o mercado. Estradas, pontes ligando-nos aos países irmãos, portos, não se podia também deixar de privatizar nossas empresas e perseguir nossos direitos. Os que puseram os tanques nas refinarias da Petrobrás eram os guardiões de Baal e o Brasil fazia sacrifícios imensos na pira insaciável do deus mercado. A juventude, os trabalhadores, os aposentados, toda uma geração sofreu aquele terrível período e ficou desempregada, ficou desesperançada do nosso país.

 


É importante lembrar dessas coisas para entender o fio da História, afinal, foram os mesmos "sacerdotes", demos e carcarás, que agora, vingativos e serelepes, juntos ao consórcio da mídia atacaram o Governo Lula, mesmo com o risco de prejudicar o povo brasileiro. Os mesmos que no passado quebraram o país e nos chantagearam para manter a CPMF como instrumento de sua política econômica desastrosa a acabaram exatamente quando chegaria a milhões de brasileiros pobres, vitaminando o Sistema Único de Saúde.

 


Quando servia aos banqueiros era indispensável. Agora, por estar se destinando efetivamente ao que fora criada - foram 15 bi em 2007 e seriam ao menos 24 bi para a saúde em 2008 -, eles tinham de impedir esta melhora visível na vida dos brasileiros. Rejeitados que foram pelo povo, atônitos ante a avalanche de boas notícias, agiram no velho estilo da alma sebosa. É o risco demo-tucano, afinal estão à espreita sempre, inclusive para prejudicar o desenvolvimento de uma política que beneficiaria milhões de brasileiros.

 


Mas talvez tenham medido mal o seu gesto. É crescente a percepção que isto foi uma manobra essencialmente negativa e a maioria do povo brasileiro apóia o Governo Lula, mesmo sob o impiedoso ataque de adversários tão poderosos, que vomitam incessantemente toda sorte de críticas. Ficou muito claro ao povo o objetivo da oposição e o brasileiro não valoriza tanto alguns trocados ao ponto de aceitar retirar 24 bi ou mais do orçamento da saúde.

 


A situação não está nada confortável para os que foram atingidos pela artilharia certeira da verdade que expôs a participação de FHC e a cara dura com que eles impediram um investimento pesado dos recursos para a saúde que enfrenta grave crise. Ainda assim, deram uma demonstração de força.

 


Isto reforça a certeza de que é urgentíssimo o Brasil libertar-se das cadeias que obstam seu desenvolvimento pleno. Foi-se o tempo em que estávamos de joelhos e mãos ao chão. As pessoas redescobrem a dignidade do trabalho e são alvo de políticas concretas para apoiar o mercado interno, multiplicando a solidariedade e a riqueza. O capital financeiro disputa estes recursos, disputa o orçamento, as políticas, sempre procurando ampliar a bomba de sucção, o perverso mecanismo em que trabalho e suor se transformam em lucros de especuladores. Vingativamente, preferiram que tais recursos voltassem ao mercado, pulverizados, que servirem a uma política de Estado, ainda que emergencial, recusando qualquer meio termo proposto pelo governo e sempre recusado.

 


E esta bomba de sucção persiste, ainda que se tenham feitos grandes avanços para redistribuir a renda e desenvolver o país. Mas é preciso dizer que o tripé altos juros – política de câmbio – superávit elevado é uma carga imensa ao país, isso mesmo, um peso que nos puxa para baixo e impede massivos investimentos produtivos. Este tripé é que deveria pagar o preço do fim da CPMF.

 


Nossa defesa de mudanças na política econômica deve ser melhor traduzidas para que o povo brasileiro saiba que tantos anos depois de Tiradentes seguimos lutando contra o malfadado Quinto e possa dar aos Silvérios dos Reis o destino que lhes cabe.

 

* Sociólogo e Bancário. Membro da direção Nacional da CTB.

* Opiniões aqui expressas não refletem necessariamente as opiniões do site.


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