Diorge Konrad

O Rio Grande do Sul e o perigo comunista no golpe do Estado Novo

"Noite   pesada...  de   tristeza  imensa./   Noite   de   lágrimas   e   de   descrença.
Noite  de  mil  perguntas  doloridas/  Noite

Em outubro de 1936 começaram a se aprofundar os boatos de maiores conflitos políticos entre o governador gaúcho Flores da Cunha e o presidente Getúlio Vargas.  Em janeiro de 1937, os boatos se transformaram em especulações de maior gravidade, haja vista a conjuntura em que o Partido Republicano Liberal, liderado por Flores, aderia cada vez mais à Minoria Parlamentar. No seu estado, Flores da Cunha vinha a certo tempo organizando os batalhões ou patrulhas rodoviárias (chamados de corpos provisórios rodoviários), mas era acusado de almejar, com a medida, a reintrodução dos antigos corpos provisórios.

 

 

O episódio dos corpos provisórios, na verdade, vinha expressando o fim da “pacificação política rio-grandense” entre as classes dominantes. A novidade, no início de 1937, foi que boa parte dos inimigos de Flores da Cunha de 1932, portanto, também de Vargas, estavam naquele momento com este último.[1]

 

 

A movimentação dos corpos provisórios expressava as articulações políticas que vinham sendo preparadas, com vistas à sucessão presidencial, entre o PRL de Flores da Cunha e o Partido Constitucionalista de Armando de Salles Oliveira.

 

 

A crise política aumentava, devido às constantes recusas do PRL em prorrogar o Estado de Guerra pedido pelo governo federal. No dia 11 de março, um discurso na Câmara dos Deputados proferido pelo líder do PRL, João Carlos Machado, aumentou ainda mais a tensão. Nele, Machado condenou o adiamento do Estado de Guerra, objetando o fato de haver uma grande quantidade de indiciados no “crime de comunismo” e cujos processos ainda não haviam ido “além da alçada da polícia”.

 

 

Em seguida, como forma de se contrapor às insinuações de que o governo rio-grandense estava contra o governo federal, João Carlos Machado apresentou um ofício datado de 25 de abril de 1936, de Valentim Aragon, subchefe de polícia da 1a Região, ao juiz federal na Seção do Rio Grande do Sul de Porto Alegre, onde foi denunciada a atividade comunista de Luiz Cuneo e seu enquadramento na LSN.

 

 

No ofício, era explicado que, desde o fechamento das sedes da ANL em Porto Alegre, a atividade dos comunistas vinha sendo exercida através de reuniões clandestinas, por meio de correspondência e através de militantes que serviam de ligação entre os chefes que articulavam o movimento revolucionário deflagrado em novembro de 1935. O documento continuava explicando, que mesmo com diversas prisões ocorridas, continuou freqüente a divulgação de boletins impressos e mimiografados no centro e na periferia da capital do estado, o que fez com que a polícia descobrisse as tipografias onde os mesmos eram impressos. Assim, em 22 de março, a polícia apreendeu dois mil e setecentos exemplares do boletim “Crime e Covardia”, encomendados por Luiz Cuneo Filho, que já havia solicitado boletins anteriores como “Companheiros”, “Ao povo do Rio Grande” – “Camaradas do 7o BC” e “Banditismo e Covardia”.

 

 

Com a clara intenção de tentar afirmar que as intrigas e os boatos em torno dos conflitos do governo estadual e do governo federal eram obras dos comunistas, as quais sempre foram denunciadas pelas autoridades gaúchas, Machado continuou explicando que os boletins “Ao povo do Rio Grande” e “Banditismos e Covardia”, que expunham o governador do estado e o chefe de polícia “ao desprezo e a odiosidade pública, pela referência e narração de fatos e acontecimentos fantasiados para esse fim”, na verdade, preparavam os espíritos para a revolta e o ódio para reativar uma revolução idêntica àquela acontecida em 1935.[2]

 

 

Nesse meio tempo, Flores da Cunha viajou ao Rio de Janeiro, acompanhado de investigadores da polícia gaúcha, em busca de articulações políticas, porém perdera a confiança de Vargas, pois voltara a ser vigiado diuturnamente pelos policiais da DESPS, através de serviço reservado, quando eram controladas as visitas à sua  residência no edifício Victor, anotadas as placas dos carros dos que se encontravam com ele, vigiados os seus passos nas visitas ao Cassino Balneário da Urca e ao Hipódromo Brasileiro na Gávea, bem como os encontros públicos com jornalistas, políticos e amigos. Além disso, os investigadores conseguiam cópias dos telegramas remetidos para o Rio Grande do Sul, inclusive os cifrados.[3] Não interessava a Vargas o fortalecimento político de Flores da Cunha ou de seus aliados, ou seu reforço militar para um possível enfrentamento.

 

 

Em decorrência, o Governo Vargas determinou a execução do Estado de Guerra pela 3ª Região Militar, retirando os poderes para tal fim do governo sul-riograndense, estabelecendo na prática a intervenção federal no estado, como reação ao apoio declarado e unânime do PRL e de Flores da Cunha à candidatura de Armando de Salles Oliveira à presidência da República, chamado pelas forças conservadoras como o “candidato nacional”.[4]

 

 

A estratégia do governo Vargas se apresentava clara, quando procurava isolar movimentos oposicionistas do bloco dominante se aproximando novamente da FUG e dividindo o PRL, enquanto mantinha a repressão para a oposição de esquerda.

 

 

Flores da Cunha endereçou um ofício ao comandante da 3ª Região Militar, Emílio Lúcio Esteves, declarando que “se manteria dentro da Constituição e das leis” e que tudo faria “para assegurar a autonomia do Rio Grande do Sul e preservar a dignidade dos rio-grandenses”.[5]

 

 

Dias depois da declaração sobre a autonomia do Rio Grande do Sul, Lúcio Esteves solicitou a Flores da Cunha que fosse continuada pela polícia civil do estado “a colaboração com as autoridades militares federais na repressão ao comunismo e sua propaganda ideológica”, visto que estas forças não dispunham “de meios especializados” para o serviço, o que não acontecia com a polícia civil do Rio Grande do Sul. Flores da Cunha respondeu que seu governo continuava “animado do propósito patriótico de repressão do comunismo, estando pronto a colaborar para esse fim com as autoridades militares federais”.[6]

 

 

Ao mesmo tempo, Lúcio Esteves baixou instruções para a censura em todo o território rio-grandense, a qual passou a ser executada sob o comando da 3ª região Militar e tendo como delegados os comandantes das guarnições, os quais podiam designar oficiais auxiliares para o serviço que abrangia a imprensa, os correios e telégrafos, a Companhia Telefônica, o telégrafo da Viação Férrea e as emissoras e estações de rádio, inclusive amadoras.

 

 

A repressão ao comunismo continuava no país, marcada pela violência. Em 21 de abril, já havia acontecido o massacre do presídio Maria Zélia, quando foram assassinados quatro integrantes do PCB paulista, além de terem ficado feridos a bala dezenas de outros presos políticos.

 

 

Enquanto aumentava o conflito das facções que apoiavam Flores da Cunha com as que estavam ao lado do governo Vargas, a repressão aos envolvidos na Insurreição Comunista de 1935 continuava. No dia 7 de maio, o TSN se reuniu para iniciar o julgamento dos trinta e seis denunciados como cabeças da rebelião, excluindo-se cinco deputados federais e o senador, separados em outro processo.

 

 

As denúncias contra Flores da Cunha tinham a ver com a sucessão presidencial prevista constitucionalmente para 1938. Getúlio e as forças governistas haviam lançado, em 25 de maio, José Américo de Almeida para a disputa. A oposição conservadora fortalecia a candidatura de Armando de Salles Oliveira, lançada por Flores da Cunha.[7] Os integralistas ensaiavam com Plínio Salgado. Flores da Cunha, ainda em junho tomou a decisão de apoiar o governador de São Paulo e começar o ataque frontal a Vargas. Estava estabelecida a ruptura política que os unia havia tempos, mas que ficara fraca nos últimos anos. De maior força militar e política que sustentou o governo federal, Vargas passou a ter um inimigo poderoso em seu estado natal. Assim, o ataque dos floristas a Vargas estabelecia mais uma divisão entre as classes dominantes gaúchas, com virulentos discursos de parte a parte, mas também uma divisão no centro do poder político nacional.

 

 

Essa divisão passou a ser explorada pelo PCB. A disputa entre os que apoiavam Flores da Cunha e Getúlio Vargas passou a interessar ainda mais ao Partido no Rio Grande do Sul, quando ainda em junho lançou um manifesto, sem defender o primeiro, mas atacando as forças getulistas no estado. No boletim “A Todo o Povo do Rio Grande do Sul”, o PCB denunciava que “as intenções do Catete” continuavam sendo as mesmas: “nada de sucessão, perpetuação de qualquer maneira da ditadura fascista”, pois Getúlio continuava preparando “seu golpe de subversão”. O Partido denunciava que oficiais do Exército que não se prestavam à intervenção no estado eram substituídos e que só aos fascistas interessava o Estado de Guerra. Por isso, reivindicava a autonomia do estado, a realização de um pleito livre e a defesa da democracia contra o fascismo.[8]

 

 

A estratégia pública do governo Vargas, para o debate eleitoral, além da candidatura do escritor José Américo de Almeida, era a liberação de alguns presos políticos e certo abrandamento da censura à imprensa e das liberdades públicas. Mesmo assim, os floristas gaúchos continuavam a denunciar que tudo não passava de “cortina de fumaça” para Vargas ficar mais à vontade no “propósito de se perpetuar no poder”.

 

 

Nesse meio tempo, em 17 de junho, o Estado de Guerra deixou de existir em todo o território nacional. Mesmo assim, continuaram os preparativos para retirar Flores do governo rio-grandense. A nomeação do general Daltro Filho para o comando da 3ª Região Militar e o pedido da entrega de armamento, sob guarda do governo estadual, para a responsabilidade das tropas federais, que teria sido emprestado ao estado, no Movimento de 1930, e na defesa do “Governo Provisório”, em 1932, ordens acatadas por Flores, foi mais um passo deste processo.

 

 

Vargas tinha muita força política e, talvez, a principal para o momento: a força das armas. Outra era o discurso sobre a perturbação da ordem e o “perigo comunista”. Em 20 de agosto, o ministro Macedo Soares coordenou reunião no Ministério da Justiça, na qual foram estudadas as bases de “uma organização para a defesa da sociedade contra o comunismo”. Desde que assumira a pasta política do governo, Macedo Soares defendera a supressão da censura à imprensa e a extinção do Estado de Guerra, concomitante com medidas de defesa da sociedade e do regime sem o auxílio das medidas de exceção.[9]

 

 

Nesse ínterim, aumentavam as notícias de nova intervenção federal no Rio Grande do Sul e as pressões políticas para um impeachment de Flores da Cunha.

 

 

No Rio de Janeiro, no início de setembro, o governo federal colocou as Forças Armadas em prontidão com o argumento de poderia romper a qualquer momento um “movimento extremista” devido às “indisfarçáveis atividades comunistas”. No entanto, as Forças Armadas garantiam que qualquer tentativa através de “golpes de força”, seria “reprimida com violência ainda não conhecida no Brasil”. Lembrando 1935, os militares avisavam que os que desejassem perturbar a paz no país, seriam tratados como criminosos.[10]

 

 

A situação de Flores da Cunha perante o governo federal se agravou quando o candidato Armando de Salles visitou o Rio Grande do Sul, em meados de setembro, confirmando o apoio declarado do governador gaúcho. Mas se precisava de algo mais forte para ganhar o apoio da maioria da população. Este motivo veio com a “descoberta” de um documento pelo Ministério da Guerra atribuído ao Komintern, dando instruções para uma nova revolução comunista no Brasil. O governo Vargas que tencionava um novo decreto de Estado de Guerra era o maior interessado na “descoberta” de um novo plano de assalto ao poder. E este veio com o chamado “Plano Cohen”.[11]

 

 

A divulgação do “Plano Cohen” foi precedida de uma reunião no gabinete do Ministério da Guerra, em 27 de setembro, onde estiveram presentes os generais Eurico Gaspar Dutra (ministro da Guerra), Pedro Aurélio de Góes Monteiro (chefe do Estado Maior do Exército), Almério de Moura (comandante da 1ª Região Militar), José Antônio Coelho Neto (diretor da Aviação) e Newton Cavalcanti (comandante da 1ª Brigada de Infantaria e ex-integrante da CNRC), além do capitão Filinto Müller (chefe de polícia do Distrito Federal).

 

 

Na ocasião, em uma reunião que não se tratava de política, mas “exclusivamente da repressão ao comunismo”, pois as leis ainda continuavam ineficazes e inócuas, pois só vinham servindo “para por em liberdade aqueles que a polícia apanhou em flagrante delinqüência”, enquanto que o menor defeito dos processos servia “para inocentar os maiores culpados”, conforme as palavras de Eurico Dutra, se decidiu promover “uma ação enérgica junto ao governo, no sentido de contrapor medidas decisivas aos planos comunistas e seus pregadores ou adeptos”, a fim de salvar “o Brasil e suas instituições políticas e sociais da hecatombe” que, segundo eles estava prestes a explodir, pois se estava na “iminência de um novo golpe comunista”. Na verdade, a reunião articulava também o futuro Golpe do Estado Novo, iniciado com as intervenções federais nos estados, especialmente no Rio Grande do Sul e terminado com o ato bonapartista de 10 de novembro de 1937.[12]

 

 

Mas de nada adiantaram as denúncias de que o “Plano Cohen” havia sido inventado para justificar o novo fechamento do regime. Na Câmara dos Deputados, no dia 1º de outubro, se votou o novo pedido de Estado de Guerra solicitado por Vargas. Ficava evidente que o “Plano Cohen”, a pretexto de combate ao comunismo, visava impedir a realização de eleições presidenciais (e uma possível vitória do candidato liberal) e garantir a permanência da frente de classe de apoio a Getúlio Vargas no poder.

 

 

De nada adiantou a utilização da promessa e do histórico do combate de classe ao comunismo no Rio Grande do Sul por Flores da Cunha e de Armando de Salles Oliveira em São Paulo. O governo federal, através de solicitação do então comandante da 3ª Região Militar Manoel Cerqueira Daltro Filho, em 10 de outubro, e sob o pretexto do “perigo comunista”, requisitou a Brigada Militar, transformando-a em força auxiliar do Exército.[13]

 

 

Dessa forma, as pressões políticas tornaram-se insuportáveis para Flores, o que o levou à renúncia do governo do estado, encaminhada à Assembléia Legislativa em 17 de outubro, depois de colocar a Brigada Militar à disposição das tropas federais. Estava decretada a intervenção no Rio Grande do Sul pelo prazo de um ano, iniciando a interventoria de Daltro Filho, com a justificativa de que no estado havia núcleos comunistas trabalhados e orientados por estrangeiros que obedeciam ao Komintern “conforme documentos apreendidos pelas autoridades” e que colocavam em risco a “unidade nacional”, concomitante às lutas partidárias existentes e a renúncia do governador.[14]

 

 

Em 18 de outubro, a Comissão Executora do Estado de Guerra baixou instruções assinadas por Macedo Soares, pelo general Newton Cavalcanti e pelo almirante Dario Paes Leme, estabelecendo a detenção de todas as pessoas que realizassem propaganda comunista, com conseqüente abertura de devassa dos presos a fim de conhecer a extensão de suas atividades. Daquela forma e como medidas de caráter preventivo foram estabelecidas: 1) a organização de colônias agrícolas de reeducação moral e cívica, aproveitando os elementos comunistas considerados não perigosos; 2) a organização de campos de concentração militar, destinados a receber os jovens transviados dos deveres cívicos, deixando-se arrastar pelo marxismo; 3) a designação de um presídio, em qualquer ilha pertencente à União, a fim de recolher os comunistas considerados chefes, insufladores ou propagandistas ostensivos do marxismo; 4) a organização de campos de concentração nos moldes escotistas racionais, destinados a reeducar os filhos dos comunistas condenados pelas leis do país; 5) a organização de comissões nacionais para incentivar, nas escolas, as preleções contra o comunismo; 6) a apreensão das obras de caráter didático, político e social, que tivessem por finalidade, direta ou indiretamente, propagar as idéias comunistas, contrarias a mentalidade nacional e; 7) a obrigação, através da imprensa, da difusão de uma campanha contra o comunismo. Como medidas de caráter permanente foi estabelecido: 1) a solicitação do governo leis capazes de garantir a execução das resoluções acima expostas, sem necessidade de medidas extremas; 2) o pleito de medidas que fossem necessárias para o julgamento sumário dos chefes e mentores materiais e intelectuais do comunismo, garantindo a condenação dos mesmos e sua segregação, como elementos nocivos à paz e à ordem; 3) o pleito da autorização para deter, com ou sem Estado de Guerra, os praticantes ou simpatizantes do comunismo, não podendo os mesmos valer-se da sua liberdade e dos recursos das leis vigentes; 4) a criação da Polícia Federal, para reprimir o comunismo em qualquer setor; 5) a criação de medidas de caráter repressivo que deveriam ser preparadas para combater qualquer manifestação perturbadora da tranqüilidade da Nação, reprimindo-as energicamente e: 6) em qualquer desses casos, deveria vigorar no país a lei marcial, em toda a plenitude da sua eficiência.[15]

 

 

O Estado de Guerra era medida insuficiente para os propósitos do governo Vargas. Em 10 de novembro, o Palácio do governo estadual divulgou para a imprensa uma nota, assinada por Daltro Filho, comunicando o recebimento de um telegrama do ministro da Justiça Francisco Campos, que havia assumido o Ministério um dia antes, em substituição a José Carlos Macedo Soares.[16] O telegrama tinha os seguintes termos:

 

 

General Manoel Cerqueira Daltro Filho – Interventor do Estado do Rio Grande do Sul – Porto Alegre – RS – No 8 de 10-937. – Comunico vossência que o governo, com o apoio das forças armadas, acaba de promulgar a nova Constituição, dissolvendo a Câmara e o Senado. O País entra, assim, num regime novo, em que são devidamente assegurados os interesses da Nação. Comunicando a vossência o importante acontecimento, espero que vossência sobre ele se manifeste com a necessária urgência. Cordiais saudações. – (a.) Francisco Campos – Ministro da Justiça.”

 

 

A justificativa para o golpe do Estado Novo foi o perigo comunista. O decreto de 10 de novembro e o cercamento do Congresso Nacional por policiais militares, na verdade, não iniciou a ditadura. Consolidou-a.

 

 

 

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* Este artigo apresenta extratos modificados da parte final da tese de doutorado O fantasma do medo: o Rio Grande do Sul, a repressão policial e os movimentos sócio-políticos (1930-1937), orientada pelo Prof. Dr. Michael M. Hall, e defendida na UNICAMP em 2004. Tem como objetivo mostrar novas indicações historiográficas sobre o Golpe do Estado Novo, que completa 70 anos neste 10 de novembro.

 

 

[1] Em 1932, na última hora, Flores da Cunha rompeu a promessa de apoiar os paulistas e a sua revolta conservadora e restauradora dos poderes nacionais pré-1930, ficando ao lado de Vargas e contra o chamado Movimento Constitucionalista.

 

 

[2] Cf. “Aspectos Sensacionais da prisão de Luiz Cuneo”. In. Diário de Notícias, Porto Alegre, 23/03/1937, p. 1.

 

 

[3] Em sua estadia no Rio de Janeiro, entre 2 a 12 de abril, Flores da Cunha manteve vários contatos. Em  todos os encontros era vigiado por investigadores de polícia da DESPS. Ver os diversos relatórios do serviço reservado da Delegacia no prontuário de Flores da Cunha no Fundo DESPS, Setor Prontuários, Notação 454-1, APERJ.

 

 

[4] Em 11 de abril, Flores da Cunha se reuniu no Rio de Janeiro (no prado da Gávea) com Júlio de Mesquita Filho, diretor de O Estado de São Paulo, e um dos principais organizadores da campanha do ex-governador paulista. Uma semana depois, o próprio jornal divulgou com destaque a decisão do PRL em apoiar uma candidatura paulista. Cf. a foto de Flores da Cunha e Mesquita Filho e a matéria “O PRL adota a candidatura Salles Oliveira à sucessão” em O Estado de São Paulo, São Paulo, 18/04/1937, p. 2, Microfilme 0526, Coleção Jornais Brasileiros, AEL/UNICAMP.

 

 

[5] O telegrama e o ofício foram publicados em A Federação. Ver “A execução do Estado de Guerra no Rio Grande do Sul”, Porto Alegre, 27/04/1937, p. 1.

 

 

[6] Conferir o teor desse ofício (nº 96) e a resposta do governador do estado, no processo de defesa de Flores da Cunha, no TSN, publicado no Diário da Assembléia. Porto Alegre, em 16/11/1959, p. 13, BALERGS/SC. O constante jogo dúbio de Flores da Cunha, mesmo sendo cercado pelo governo federal, enquanto prometia continuar a repressão ao comunismo, característico de uma opção política conservadora, fazia ignorar apelos de alianças com a esquerda do estado e em defesa da liberal democracia. Em 1º de maio de 1937, o major Carlos da Costa Leite escreveu para Flores, do exílio em Montevidéu, em nome da ANL, e secundando a ação de Dyonélio Machado e Pedro Mota Lima, oferecia novamente a colaboração e o decidido apoio para o acompanhar a uma resistência ao governo federal para restabelecer “as liberdades e o império da democracia no Brasil”, tendo por base o afastamento de Vargas do poder Executivo. Cf. a carta na íntegra no Arquivo Flores da Cunha, FC tp 36.01.02, CPDOC/Fundação Getúlio Vargas.

 

 

[7] Mais uma expressão das contradições intraclasses e dos interesses políticos moventes no Brasil da década de 1930: Flores da Cunha se aliava aos paulistas, justamente aqueles que ele havia abandonado às vésperas da revolta de 1932. Um dos primeiros documentos oficiais em que Flores da Cunha demonstrou simpatia pela candidatura de Armando de Salles Oliveira foi uma carta de 07/12/1936 para Eduardo Gomes. Cf. Arquivo Flores da Cunha, FC 36.01.02, 1936-37 – Sucessão Presidencial, doc. 34, CPDOC/Fundação Getúlio Vargas.

 

[8] Cf. Fundo Ministério da Justiça e Negócios do Interior (1933-1939), Caixa 297, Série A – Segurança Pública, Sub-Série 38 – Ordem Política e Social, Secretaria de Estado da Justiça e Negócios Interiores, 347/37, AN. Em um documento anterior, sem data, assinado pelo Diretório Estadual da ANL, endereçado para Flores da Cunha, o governador foi informado que havia um plano de intervenção federal no estado, informação oriunda do Comitê Militar da Aliança. Cf. a íntegra do datilografado no Arquivo Flores da Cunha, FC tp 36.05.24, CPDOC/Fundação Getúlio Vargas.

 

[9]  “Em defesa da sociedade contra o comunismo”. Correio do Povo, Porto Alegre, 21/08/1937, p. 1.

 

[10] Ver “As Forças Armadas permanecem em rigorosa prontidão para reprimir qualquer perturbação”. Diário de Notícias, Porto Alegre, 07/09/1937, p. 1.

 

[11] Vargas e o general Dutra divulgaram o Plano Cohen em 30/09/1937.

 

[12] Ver a íntegra da ata da reunião, em documento de cinco páginas, no Arquivo Eurico Dutra, ED vp 1936.01.07, doc. V-32, CPDOC/Fundação Getúlio Vargas. O termo bonapartista é aqui colocado em um dos sentidos dado por Karl Marx, em O 18 Brumário de Louis Bonaparte, quando uma classe dominante se torna incapaz de manter a dominação política na sociedade capitalista por meios parlamentares e constitucionais.

 

[13] Segundo a lei federal então vigente, a requisição de tropas federais só era possível quando o país estivesse em guerra com o estrangeiro (o que não era o caso) ou quando houvesse grave comoção intestina, justificada unicamente no “perigo comunista”.

 

[14] A cópia do rádio dirigido para Getúlio Vargas, quando Daltro Filho aceita a sua nomeação como interventor, se encontra no Arquivo Getúlio Vargas, GV 37.10.01/1, doc. XXVII-58a, 0612/4, Rolo 5, CPDOC/Fundação Getúlio Vargas.

 

[15] Ver “O combate ao comunismo”. A Federação, Porto Alegre, 18/10/1937, p. 1.

 

[16] Logo após tomar posse, na manhã de 9 de novembro, Francisco Campos se reuniu em seu gabinete com o general Newton Cavalcanti e com o chefe de polícia Filinto Müler. À tarde, Campos iniciou longa reunião, dessa vez com o ministério de Vargas, que durou até às vinte e uma horas. No dia seguinte, a imprensa noticiava os encontros, mas dizia não saber de que assuntos trataram. O Brasil não precisou esperar mais vinte e quatro horas por informações nos jornais que desvendassem o mistério a respeito dos motivos desses encontros. Todos ficaram sabendo deles no dia 10 de novembro.

* Professor Adjunto do Programa de Pós-Graduação do Curso de História - Licenciatura Plena e Bacharelado e do Departamento de História da UFSM, Doutor em História Social do Trabalho pela UNICAMP

As opiniões aqui expostas não representam necessariamente a opinião do Portal Vermelho



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