Carolina Mello

Amor, riso e melancolia em Fleabag

É rápida e cortante como uma navalha a forma como Phoebe Waller-Bridge entrega, ao final do primeiro episódio, a chave do drama que a protagonista Fleabag desenvolve ao longo da homônima série britânica vencedora de Emmys.

Esqueçam por um momento a quebra da quarta parede. Para apreciar Fleabag é preciso enxergar além das piadas divididas com o espectador, e examinar mais de perto o que há embaixo das camadas de cinismo e sexo casual.

O essencial é dito ao motorista numa corrida de táxi, quando nossa heroína está despida – literal e metaforicamente – de qualquer moral. Ali, numa sacristia improvisada, ela confessa a dor e a culpa de dois lutos sucessivos.

A ausência da mãe e da sócia e melhor amiga é pontuada durante toda a narrativa, como que para sinalizar o vazio que a protagonista reclama em constante estado de mania, transando por farra, roubando coisas, perturbando a ordem familiar.

Fleabag é bem mais do que uma versão londrina de baixo orçamento de Sex and the City; é sobre uma mulher enlutada tentando se virar nesse deserto de boletos, relacionamentos difíceis e sonhos frustrados chamada vida adulta.

Até aqui, parece só a descrição de um misto de drama e comédia romântica, mas a outra faceta da série – a mais superficial e, também, a mais profunda – é a homenagem concebida por Phoebe à melancolia ao encenar uma clown.

O humor em Fleabag é a forma como a protagonista, por meio de uma performance desastrada, pede desculpas a todo momento por ser uma “mulher de gênio” no sentido aristotélico, poética e melancólica.

Na tradição mambembe, é o palhaço quem por vezes conversa com a plateia, pois a sua excentricidade lhe permite se retirar do teatro da vida para poder sorrir dela e de si mesmo, junto com os espectadores. Não seria Fleabag conversando com a câmera?

O riso do melancólico não é contraditório, mas uma via poética para comunicar sua descrença diante de um mundo, este sim, repleto de contradições. Ao emprestar a perspectiva satírica do palhaço para o olhar feminino, Phoebe tece uma crítica de costumes contemporânea que abraça a todas nós.

“We’re bad feminists”, máxima sussurrada por Fleabag à irmã após uma gafe cometida por ambas numa palestra feminista, é um aviso de como o feminismo ainda pode ser sequestrado e vendido como um novo tipo de espartilho muito mais sedutor.

Como não existe poesia sem amor, a segunda temporada da série é inteiramente dedicada ao mais sublime dos sentimentos. Em contraste à miséria demasiada humana de Fleabag, temos o Padre, sensível e terno, a quem ela passa a investir desejo.

À medida que se aproximam, percebemos o quanto há de palhaço no sacerdote, e o quanto há de sacerdotisa naquela colombina. São duas antípodas de um mesmo gênio melancólico, um dedicado mirar a criação divina por meio da contemplação, a outra obstinada a superar a própria finitude por meio de uma exasperação dos sentidos.

A desastrosa maneira como Fleabag lida com o próprio tesão, da mesma forma que envenena a relação com sua amiga, é também o remédio a quem ela oferece ao misógino que, agradecido, lhe ajuda com o financiamento de seu Café.

Depois de uma jornada aflitiva, a redenção de nossa heroína vem pela via do coração. Mas sua chegada ainda é metade do caminho, num ponto de ônibus, sozinha, com todo o amor que ela finalmente descobre ser capaz de doar.
Toda história de amor merece ser contada, mesmo que não possa ser vivida em sua plenitude, porque amores serão sempre amáveis, apesar da certeza de que todos eles, invariavelmente, irão passar, como um ônibus vazio pela madrugada.

*  Jornalista pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA), interessada em política, feminismo, literatura e cinema

As opiniões aqui expostas não representam necessariamente a opinião do Portal Vermelho



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