Urariano Mota

Falando de Bar - da Ponte do Janga ao Pontal de Maria Farinha

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Tive a sorte de ler ontem o original do livro que ainda está em fase de revisão. À primeira vista, o texto poderia ser confundido com um guia turístico dos bares do Janga até o extremo de Maria Farinha, que vem a ser a praia de um dos nomes mais poéticos que já vi. Ele poderia ser um guia de bares, sem qualquer desdouro. Todos precisamos dessas indicações de lugares onde se sossega o peito nestas horas de brasil. Mas o seu autor, Arnóbio Pereira, é um cidadão baixinho, bravo e culto para só escrever um roteiro. Como se fosse pouco, Noba, de nome de batismo Arnóbio, vem de uma geração de militantes de Ação Popular, a organização subversiva de quadros valorosos na ditadura. Portanto, o autor possui ambições mais altas e de justiça para o assunto de bares do Janga a Maria Farinha.

De fato, Arnóbio Pereira escreve história como linhas de crônica de jornal. Ele é um cronista do tempo e da boa prosa, enquanto conta o movimento histórico dos bares das praias do município de Paulista, em Pernambuco. E faz um livro que contextualiza o processo de urbanização no litoral que ele bem conhece a partir dos seus bares.

Para falar pouco do prazer da leitura, informo que o texto de Noba é imperdível como uma orientação dos bares de praia do litoral norte de Pernambuco. Nele há parágrafos que são um estímulo à visita e deixam na gente o desejo de estar logo ali:

“A Barraca da Tia Zélia era uma das mais rústicas. Fogão à lenha, de tijolo e barro, montado sobre uma armação de madeira. Mas essa simplicidade toda proporcionava excelentes comidas. Dali saíam agulha frita, saramunete, tainha e também caranguejo. Igualmente caprichava nas comidas de panela, como arrumadinho, sarapatel e dobradinha. Para beber, servia cachaça, cerveja e batida de frutas produzida na barraca”.

É pouco? Para os amigos longe do céu de Pernambuco, esclareço que arrumadinho é uma invenção local que nada tem a ver com acordos desonestos para enganar o povo. Não. Arrumadinho é um prato de feijão-de-corda (feijão-fradinho), farofa e charque frita, misturado no prato. Escrevo “frita” porque em Pernambuco charque é substantivo feminino. O arrumadinho também pode ser com linguiça, ou carne de bode, ou – sofisticação das sofisticações – com bacalhau frito. Agora, imaginem comer essa invenção seca e saborosa, sob o sol, sem molhar com cerveja. Imaginem. Quanto à agulha, é um peixe fino, longo, medindo em média 50 centímetros, com a boca prolongada em um bico que lembra agulha. Bem assada, a sua espinha se torna crocante. Já o saramunete é tido pelos pescadores como o melhor peixe que existe. Ele vem de águas tão fundas, que cheira a oceano. Mas vamos ao mais importante.

Arnóbio Pereira é historiador, no sentido clássico do pesquisador que documenta a memória dos lugares, e também porque sabe dar dignidade e graça aos temas do cotidiano. Como aqui:

“O candidato dos peixes. Na rua Betânia, à beira-mar, próximo ao Bar Travessia, o Véio Zuza tinha uma barraca que servia caranguejo e agulhinha da melhor qualidade. Funcionou nos anos de 1980, chegando à segunda metade da década de 90.

Figura interessante, agradável e cativante era o Véio... Não se tem certeza do ano da eleição em que o fato relatado a seguir ocorreu, mas Geraldo Pinho Alves, prefeito da cidade por várias gestões, lançou o Véio candidato a vereador, o que tentara em eleições anteriores sem sucesso. Mais um candidato para a campanha a prefeito a ser reforçada. Marcou-se o lançamento da candidatura para o bar.

No dia e hora combinados não tinha eleitores; só a comitiva do prefeito. Depois de esperar os ‘eleitores’ do Véio por mais de uma hora, Geraldo Pinho mandou que o candi-dato começasse a falar, ‘que os eleitores apareceriam’. Espirituosamente, ao tomar o microfone, o pretenso vereador virou-se para o mar e iniciou o que deveria ser um inflamado discurso político: ‘Senhores peixes, senhores peixes...’, repetiu várias vezes, querendo mostrar que não topava a parada de ser candidato.

Não queria, nem seria eleito pra nada; nem pra associação dos barraqueiros. Geraldo desistiu ‘desse apoio’ e partiu para cumprir outros compromissos de candidato...”

Ou aqui:

“Inicialmente, o Pelajanga, uma das mais antigas peladas organizadas das praias, era conhecida por Poeirão. A partir de 1988, nos domingos e feriados, passou a utilizar o campo que ficava em frente ao Bar de Biu de Sá Duda, porém à margem direita da avenida. Aí adotou o nome Pelajanga e o Bar de Biu como referência.

Em dia de pelada é assim: depois da primeira pelada, por volta das sete horas, começam ‘os trabalhos’; quem perde e não vai mais jogar, corre para o bar. Quando termina o último jogo, por volta das nove, o bar já está cheio e a resenha já está acirrada. Cerveja e cachaça comendo no centro, até o fim da tarde....”

Merecem destaque frases nos bares, que Arnóbio Pereira reproduz:

Mamãe mandou tomar juízo, mas só tinha cerveja.

Aqui se reúnem pescadores, caçadores e outros mentirosos

Nunca fiz amigos bebendo leite

Um livro, em resumo, que se faz com olhos de historiador, cronista e amante do que o autor conheceu e viveu. No lançamento, acredito que Marco Albertim estará na fila, como lembrança e espírito.

* Jornalista do Recife. Autor dos romances “Soledad no Recife”, “O filho renegado de Deus” e “A mais longa duração da juventude”

As opiniões aqui expostas não representam necessariamente a opinião do Portal Vermelho



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