Urariano Mota

A ciência descobre uma nova juventude

 

Esta foi a notícia mais incrível nestes dias:

“Por acaso, cientistas americanos descobrem coquetel do rejuvenescimento”

Não seria a primeira vez que a ciência descobre um fenômeno tão raro, que parece uma revelação do maravilhoso. Assim foi com a anestesia, que deu um passo de gigante no combate à dor nas cirurgias mais difíceis. Assim tem sido em todas as ciências naturais, que pelos efeitos das descobertas parecem tudo, menos naturais. Assim também tem sido nas ciências físicas, que mais parecem incorpóreas, absurdas, como na afirmação de que todo universo é finito.

Mas continuava a notícia da extraordinária maravilha, que nem o diabo concedeu sem exigir nada em troca. Na Folha de São Paulo, no blog de Paulo Markun:

“Depois de receberem, por um ano, um coquetel de drogas composto por dois remédios para a diabetes e um hormônio de crescimento, nove voluntários perderam em média dois anos e meio em suas idades biológicas. O estudo desenvolvido na Universidade da Califórnia em Los Angeles, ganhou espaço na mídia após ser destaque na revista Nature, no mesmo dia em que deveria ser veiculado numa publicação científica bastante restrita, a Aging Cell”.

E, de fato, fomos ver na Aging Cel que assim confirmava:

“Epigenetic ‘clocks’ can now surpass chronological age in accuracy for estimating biological age. Here, we use four such age estimators to show that epigenetic aging can be reversed in humans...”

E na própria revista Nature:

“First hint that body’s ‘biological age’ can be reversed
In a small trial, drugs seemed to rejuvenate the body’s ‘epigenetic clock’, which tracks a person’s biological age...

“I’d expected to see slowing down of the clock, but not a reversal,” says geneticist Steve Horvath at the University of California, Los Angeles, who conducted the epigenetic analysis. “That felt kind of futuristic.”

Que assim falava na declaração traduzida do cientista:

“Eu esperava ver o relógio andando mais devagar, mas não uma reversão no tempo”, disse o doutor Horvath à Nature. “Parece ficção científica”.

É uma descoberta de impacto, sem dúvida. Mas deve ser destacado que o fundamental não são os muitos anos de vida para qualquer homem. E aqui podemos lembrar uma grande reflexão de Kant: “a moral não nos ensina como devemos nos tornar felizes, mas como devemos nos tornar dignos da felicidade”. Esse é um princípio ético difícil, ou “pesado”, como falariam os mais jovens que nós. Devo dizer, numa livre adaptação do belo pensamento de Kant: importa mais saber se somos dignos dos poucos ou muitos anos que atravessamos. Importa saber como preenchemos com amor, trabalho e luta os curtos longos tempos de nossas vidas. Pois não é possível ambicionar uma existência vegetal de muitos anos.

Agora, nos objetivos imediatos da ciência, não será preciso vender a alma a Mefistófeles em troca de juventude. Seria trágico demais. Aqui, a notícia da descoberta é em si mesma um começo prático, rasteiro, de juventude. Uma recuperação de anos anteriores de vigor e saúde. Não é nada, não é nada, é muito.

É claro, é certo que os objetivos científicos não são altíssimos, como no desejo impossível do personagem Zacarelli, no romance A Mais Longa Duração da Juventude:

“Zacarelli, sem palavras, olhou a rua, viu as moças que passavam aos gritos, aos risos, e sorriu um sorriso triste, que caberia no frevo-regresso que canta ‘adeus, ó minha gente, o bloco vai embora...’. Mas ele não ia se abater pelo aviso do fim da linha do trem, da entrada em um túnel jamais visto, quando a viagem é presente e os vagões cantam os frevos mais lindos e guerreiros de Pernambuco. ‘Rejeito’, ele se disse. Então ele se virou para mim e falou, num êxtase em meio à felicidade que passa:

- Sabe, rapaz? Os cientistas vão descobrir a imortalidade.

A minha cabeça recua como se houvesse levado um direto, antes do nocaute. Devo tê-lo olhado com um ar de quem espera a revelação do mais íntimo segredo de todos os tempos. O mais simples seria lhe dizer ‘fale baixo, se nos escutam, quebra-se o encanto’. Ao que Zacarelli, com a prática de expositor em congressos de história, faz um recuo digno da ciência:

- Mas ainda não descobriram, entende?”

Por enquanto, a ciência pode nos deixar 2,5 anos mais jovem. É muito para o que havia antes. É pouco para as nossas necessidades. A nossa ambição maior de juventude fica então adiada, quem sabe, para os próximos 30 anos. É possível que a geração seguinte venha a refletir sobre a juventude que aqueles militantes idosos não puderam ter, Mas bem eram donos do desejo, e à sua maneira realizaram:

“Agora, conversar sobre sexo não é o mais íntimo nem o importante entre nós. Que valor tem se não somos mais o latin lover que nunca fomos? Que importa relacionar e remoer amores onde nossa brutalidade e imperícia foram a tônica? Somos os fortes e fracos que degustamos o estágio desse conflito. Temos que viver com as lições dos nosso fracassos.

- Eu penso ás vezes que a pílula é uma caricatura de Goethe - digo.

- Por quê, rapaz?

- Aquele conceito de Puberdade Tardia, entende? Goethe falava que certas pessoas têm uma natureza que não se curva à idade. E recebem então uma puberdade tardia.

- Mas essa idealização de Goethe a ciência fez real. – Luiz do Carmo me responde. – Por que não usá-la, se a temos a nosso alcance? O sonho de antes agora está na farmácia.

- Eu sei. Mas é um artifício, caricatural.

- Você se nega à sua idade?

- Eu não sou um velho. Aliás, nós não somos velhos.

- Eu sei. O tesão de mudar o mundo continua”.

E a rebeldia permanente desceu sobre os novos jovens.

* Jornalista do Recife. Autor dos romances “Soledad no Recife”, “O filho renegado de Deus” e “A mais longa duração da juventude”

As opiniões aqui expostas não representam necessariamente a opinião do Portal Vermelho



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