Pedro Luiz Teixeira de Camargo (Peixe)

Amazônia, Desenvolvimento Sustentável e Soberania Nacional

Vimos ao longo do último mês de agosto a fatídica, mas óbvia notícia de variados incêndios ao longo da Amazônia brasileira. Apesar de triste, era óbvio que isso aconteceria, afinal de contas a irresponsabilidade e incompetência do Ministro do Meio Ambiente, ligado ao Partido Novo (que de novo não tem nada), é visível. Chega a ser risível o despreparo desse senhor, talvez só comparável ao do próprio presidente.

A causa prática mais provável para essa tragédia, é vergonhosa. Segundo alguns veículos de notícias regionais; madeireiros e pecuaristas ilegais incendiaram vários pontos da mata para “comemorar” o afrouxamento da legislação ambiental, anunciada pelo governo em meados de julho.

É surreal pensar que seres humanos que vivem da própria floresta são capazes de colocar fogo em seu próprio sustento, mas em tempos de fake news e outras bobagens, nada mais parece ser tão surpreendente em nosso país.

Não bastasse um incêndio que deixou parte significativa do país debaixo de fumaça e aumentasse o risco da diminuição dos rios aéreos oriundos dessa região (fenômeno que explica a ocorrência de chuvas na porção centro sul do Brasil), vimos de volta um debate que parecia vencido: de quem é a Amazônia?

Esse argumento, outrora presente em diversos organismos internacionais conseguiu ser sepultado ainda nos anos 1970-1980, com participação, inclusive, da ditadura militar, que tratou de criar medidas de povoamento, ocupação e infraestrutura na região Norte do país. Prova disso é a própria Transamazônica, que buscava ligar um Brasil esquecido ao resto da nação.

É bem verdade que durante os anos neoliberais liderados por Fernando Henrique Cardoso (FHC) muitas dessas ações foram sucateadas, em especial o aporte às forças armadas e o patrulhamento de fronteiras. O reflexo dessa política de estado mínimo, foi o fortalecimento das Organizações Não Governamentais (ONGs) internacionais, que passaram não só a ocupar parte importante do território amazônico, mas também a fazer o papel literal do Estado, então ausente.

Regiões inteiras, especialmente indígenas, sem falar português passaram a ser realidade desde os anos 1990, coincidentemente o mesmo período que estouraram diversos pedidos de patente na Organização Mundial de Comércio (OMC) de frutos endêmicos da Amazônia brasileira. Quem não se lembra do pedido de patente do Cupuaçu (Theobroma grandiflorum) por um país asiático?
Além da riqueza presente na biodiversidade da região, merece ainda destaque outras, como o enorme potencial geológico, com reservas de Ouro e Urânio, entre outros minerais, além de seu imenso aquífero subterrâneo, maior até mesmo que o Aquífero Guarani, que abastece parte importante do Sudeste-Sul do Brasil.

Relembro toda essa história para dizer o óbvio: a Amazônia é nossa! É do Brasil e precisa ser usada para fomentar o desenvolvimento da nação de modo responsável.

Entretanto, mesmo sendo dos brasileiros, seus efeitos são globais, o que justifica a preocupação de todos com a nossa floresta. O que não pode, por óbvio, é acharmos que o presidente da França pode ditar os rumos dos bens naturais de outros países, como o nosso, cada um no seu quadrado.
Evidentemente, que isso não justifica o comportamento inapropriado de Bolsonaro e seus asseclas, desrespeitando o líder francês, sua esposa e negando os fatos óbvios de destruição e desmatamento amazônico.

O grande problema do atual governo é exatamente esse: na ânsia de destruir tudo que foi construído ao longo dos últimos 30 anos, colocam em xeque até mesmo a soberania nacional, gerando incidentes diplomáticos totalmente desnecessários, trazendo de volta um debate já vencido (de quem é a Amazônia?) e oferecendo nossas riquezas aos Estados Unidos a preço de banana, como foi o Pré Sal.

Não é simples pensar em soberania e desenvolvimento sem um Estado forte, com investimento pesado em pessoal, infraestrutura e patrulhamento de fronteiras, outro erro do atual governo, pois ao negar uma lógica nacional-desenvolvimentista, coloca em risco o que é nosso por direito: a Amazônia brasileira.

Incêndios são reflexos de políticas inadequadas, mas os ataques à nossa soberania, são piores, refletem a presença de pessoas desqualificadas ocupando cargos chave no governo.
Triste a nação cujo o Mito é o senhor!

Até a próxima.

* Biólogo, Geógrafo e Professor; atualmente é Doutorando em Evolução Crustal e Recursos Naturais pela UFOP/MG e Membro da Direção Eixo Sudeste da Sociedade Brasileira de Economia Ecológica (EcoEco). Foi diretor da União Estadual dos Estudantes de Minas Gerais (UEE-MG) e da Associação Nacional de Pós Graduandos (ANPG)

As opiniões aqui expostas não representam necessariamente a opinião do Portal Vermelho



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