Cloves Geraldo

"O Professor Substituto": Nada além do antevisto

O futuro das gerações do Terceiro Milênio sob ameaça é o que prevê o cineasta francês em filme sobre a falta de perspectiva sob o Capitalismo.

Há algo ameaçador em gestação acelerada em vários continentes no século XXI, diria o espectador no desfecho deste “O Professor Substituto”. Não pela forma como o diretor/roteirista francês Sebastién Marnier estrutura sua narrativa desde a chocante abertura. O que ele desenvolve ao longo de 103 minutos leva o espectador a refletir sobre os impasses político-sócio-econômicos neste período de extremo neoliberalismo. E as ações da extrema-direita no poder em muitos países, como no Brasil, só incentivam o capital. O que leva as novas gerações à falta de perspectiva no futuro.

Devido a estas exclusões, a questão é saber as tendências políticas das novas gerações. Principalmente os que começam a entrar no duro jogo do mercado de trabalho, a formar suas famílias e tentar elevar seu padrão de vida. As perspectivas não são nada alvissareiras. Milhares deles podem sequer se tornar mão-de-obra absorvível num mercado tão competitivo. A contribuição de Marnier é transformar sua ágil narrativa numa história centrada nas manipulações em curso, ao tornar reais as ameaças às novas gerações e algo compreensível para o espectador, não só pura diversão.

Desde o início, Marnier constrói seu tema central ao reverso. O que ocorreu ao professor Eric Capadis (Cyrille Hertel) configura, desde já, a mescla de thriller, terror, mistério e aventura. Em vez de centrá-lo no impacto sofrido pelos alunos da Faculdade Saint Joseph, de Paris, ele prefere introduzir outro personagem na história. É por meio do professor Pierre Hoffman, de 40 anos, que os demais personagens emergem em sua inteireza. É uma espécie de catalizador das submersas ações de seus alunos nas aulas de Francês. Seu método, eles logo percebem, é diverso do aplicado por Capadis. Daí o inevitável choque entre mestre e alunos.

Alunos têm assento no Conselho da Faculdade

Marnier, além disso, não enverada para o clichê do professor que, aos poucos, faz toda a classe interagir com ele (Ao Mestre Com Carinho,1967, James Clavell, 1924/1994). Mesmo porque foge também do parâmetro hollywoodiano de um personagem fazer de tudo para desvendar o que o outro esconde. Hoffman tenta se impor de modo a enfrentar o desafio lhe imposto pelos alunos. Em particular a irrequieta e desafiadora Apolline (Luana Bajranei), líder da classe, que logo lhe indaga: “O senhor se acha capaz de dar conta?”. Ele desfaz logo a suposta má impressão.

O que sustenta esta construção dramática centrada em bem construída trama é a Saint Joseph ser uma faculdade de primeira linha. Seu método de ensino inclui a classe de alunos superdotados. E os que ficam diante de Hoffman se sentem, de fato, jovens-alunos especiais, com direito a contestar e corrigir o mestre. Este é, enfim, o real desafio para o professor substituto. Tudo ali foge ao tradicional, os alunos são incentivados a superar os desafios e obter notas máximas. E, não bastasse, dois deles têm assento na Comissão Pedagógica da respeitada faculdade.

Depois, se o espectador achava que a trama se desenvolveria em torno do que levou Capadis à substituição, Marnier deixa-o em segundo plano. A rigidez da Saint Joseph obriga o professor a dar conta do aluno enquanto ele estiver em seu campus. “O que acontece fora daqui não é de nossa conta”, enfatiza o reitor Poncin (Pascal Gregory). Hoffman então vê-se obrigado a vigiar seus ebulitivos alunos, E, a partir da estruturação de um fato inusitado, Marnier revela-se mestre em trama paralela de mistério e suspense. Daí o que foi exposto antes pouco influencia na narrativa.

Chantagens representam grande risco de morte

É neste tipo de virada que o bom filme se justifica. Não se limita a divertir mas incentiva a mente a refletir sobre o que se desenrola na tela. O espectador não é mais o sujeito passivo passa a ser ativo ao buscar conscientemente soluções para os perigos enfrentados pelo ameaçado. Ou, sem dúvida, desvendar o mistério antes de Hoffman. É o momento de mistério e terror, no qual cada chantagem ou perigo representa risco de morte para o “sujeito real” na ficção. Nenhum entrevero presenciado por ele é bastante para desvendar o que transcorre na mata fechada à noite.

No entanto, Marnier não estruturou sua trama para assustar a plateia, fazendo-a se encolher e abaixar a cabeça na sala de exibição. Busca sobretudo despertá-la para o que ocorre no Planeta hoje. Se Hoffman se restringiu a atentar para o ocorrido a Bricé (Thomas Guy) na faculdade, nada mais irá lhe escapar a partir de então. O próprio espectador entenderá, pois Marnier deixou os conflitos entre alunos na Saint Joseph para centrar sua narrativa nos sacrifícios medievais nas águas do rio à beira da floresta. Assim, a história se torna misteriosa e assustadora.

A começar pelas posições político-ideológicas do grupo de estudantes da Saint Joseph liderados por Apolline. Ela mesma, tão aguerrida, oscila entre o antissemitismo e o questionamento da posição político-ideológica de Hoffman. Principalmente ao esbravejar contra os judeus em tom ofensivo. “Judeu de m... só se interessa pelo dinheiro!” Não à toa seu grupo se mostra violento e medieval. Notadamente na sequência do sacrifício de Clara (Adèle Castillon)) à beira o rio. É espantoso para não dizer torturante a lembrar as práticas da Ditadura Militar (1964/1985).

Apolline oscila entre esquerda e direita

Não bastasse, Apolline ainda questiona Hoffman como se ele lhe devesse explicações para que ela não voltasse a lhe impor o terror. E, além disso, o provoca ao separar os comunistas da esquerda do século XXI.

Apolline: A esquerda e os comunistas defendem os oprimidos. O senhor é comunista?
Hoffman: Sou escravo, sou livre!

Percebe-se a confusão político-ideológica da nova geração a ser creditada à massificação dos debates que vilanizam o ativista político. Não só ele como as posições dos militantes de esquerda e, no limite, até dos partidos, organizações e instituições democráticas. Inclusive a perseguição e o desmonte das representações sindicais de qualquer tipo de trabalhador braçal ou intelectual. Pelas posições de Apolline, construídas por Marnier, a tendência é a despolitização imposta de fora para dentro pelos partidos da extrema direita e seus aliados ao centro e à direita vinculados ao grande capital interessado na despolitização e na desmontagem dos partidos.

O resultado é a ruptura e a desconstrução da consciência materialista entre as novas gerações. A realidade não é a fome, a miséria, o desemprego, e a urgência de uma sociedade igualitária. Prevalece a eterna dependência, traduzida na escravização imposta pelo capital. Trata-se da imposição, o cerco e a mistificação da salvação da alma pelos ilusionistas. E a solidariedade, o humanismo e o internacionalismo proletário são vistos como ameaça, não a saída para unir os oprimidos. Enquanto a divisão dos botins entre os exploradores e seus lacaios, mesclada à violência e a fome e a perseguição continuam sem freios.

Hoffman logo entende o culto à violência

Entende-se as intenções de Marnier ao mostrar, por meio do grupo de Apolline, o perigo representado pela confusa visão política-ideológica das novas gerações. O que predomina entre os grupos de estudantes da Saint Joseph é o culto à violência e o sacrifício, mesmo pondo a vida do/a outro/a em risco. Não à toa praticam ritos medievais. É o modo de mostrarem um ao outro a capacidade de se submeter ao sacrifício. E Hoffman logo o entende e ao seu modo procura influenciar Apolline e Brice. Não os deixa mais longe dele e leva junto a direção da faculdade.

Entre as explícitas abordagens em torno despolitização das novas gerações sobressai a sutil crítica de Marnier às faculdades supostamente avançadas. A fictícia Saint Joseph incentiva a criatividade e a ousada iniciativa do aluno. Quanto mais ele desafiar os métodos de ensino e as teorias mais ele se enquadra na categoria de superdotado. É o que ocorre nas aulas de música em que a mestra Catherine (Emmanuelle Bercot) leva seus alunos a criar letras e notas e sons em altos decibéis a beirar o êxtase. Percebe-se que faltou incluir ciências humanas na grade escolar.

São os alunos descolados da realidade sócio-econômica imediata, formados para ser instrumento do trabalho tal máquinas a produzir o que determina o capital e o mercado. Ser cidadão pleno e transformador das opressoras estruturas políticas não está incluído no currículo. Muito menos filosofia, política, geopolítica e artes. Neoliberais de extrema-esquerda, direita e centro-direita perdem o sono e entram em pânico ao vislumbrar a capacidade de os proletários, gays, afros e deficientes assumirem o papel que lhes cabe na história. São potenciais e riquezas de qualquer país.

A paz é banalizada e o ódio e o rancor se impõem

Com tal complexidade, ainda que dotada de mistério e suspense, Marnier fixa sua câmera nos símbolos da destruição do planeta. Dentre eles, de forma mais insistente, a usina nuclear e o meio-ambiente, configurados pelo rio e a floresta onde se dão os sacrifícios. É a simbologia do fogo, da água do ecossistema e sobretudo da vida e no limite do apocalipse, ou seja, o fim dos tempos. Enquanto isto a paz é banalizada, o ódio e o rancor se impõem, como se estivéssemos na Idade da Pedra e a violência valesse mais do que a tranquila divisão da água do rio.

O desfecho deste “O Professor Substituto” sintetiza a urgência ditada pela necessidade de se evitar a catástrofe. Marnier funde a visão da extinção à estrutura montada para a humanidade desfrutar da ciência e da harmonia entre os povos. Inclusive abrindo espaço para as novas e futuras gerações desfrutarem de uma vida saudável e harmoniosa com todos os povos. Tudo se constrói como o homo sapiens sobreviveu às outras espécies ao descobrir que a ciência é o instrumento a ser usado para a sua contínua e inteligente sobrevivência.

O Professor Substituto. (L´Heure de la Sortie) . Drama. Thriller. Mistério. França. 2019. 103minutos. Montagem: Isabelle Manquillet. Fotografia: Romain Carcanade. Roteiro/direção: Sébastien Marnier. Elenco: Laurent Lafitte, Luana Bajranei, Pascal Gregory, Adéle Castilon, Emmanuelle Bercot, Thomas Guy.

* Jornalista e cineasta, dirigiu os documentários "TerraMãe", "O Mestre do Cidadão" e "Paulão, lider popular". Escreveu novelas infantis,  "Os Grilos" e "Também os Galos não Cantam".

As opiniões aqui expostas não representam necessariamente a opinião do Portal Vermelho



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