Nathalia Bignon

Contra todos e a favor de ninguém

“Estamos contra nós mesmos”. Dizia, traduzida ao português, uma charge do cartunista @Tute, publicada em seu perfil no Instagram na última semana. O desenho é o retrato de uma sociedade dividida, refletida em uma multidão que parece reivindicar contra si mesma.

 Direcionada à sociedade argentina, a crítica é também uma espécie de alerta quanto ao “dano que nos autoinfligimos, como sociedade, elegendo governos que prejudicam a grande maioria das pessoas”, contou-me Tute. Apesar de direcionada, a análise serve muito bem a nós, brasileiros, neste momento de nossa história. “Seja por convicção ideológica ou por ingenuidade, estão no Poder, por voto majoritário, enganos absolutos”, disse-me o autor.

Hoje, Argentina e Brasil compartilham mais que amor ao futebol. Estruturam-se sob o mesmo modelo de país, de políticas de ajuste, de endividamento, de perda de direitos trabalhistas, civis e políticos e de um empobrecimento cultural patente e avassalador. Assim como no Brasil, com a ascensão de Jair Bolsonaro, a chegada de Mauricio Macri à Presidência exacerbou as diferenças sociais e econômicas, depois de uma campanha marcada pela polarização e pelas promessas de combate à corrupção, no contexto de um país cada vez mais dividido entre o retorno do kirchnerismo e o “neoliberalismo-tendência’, tão em voga na América Latina.

Imersa em um caldeirão de desigualdades desde que a crise econômica voltou a se instalar no país, a Argentina registrou um aumento de quase 5% da pobreza entre o primeiro e o segundo semestre de 2018, levando mais de 32% da população a uma situação de pobreza e quase 7% à indigência, segundo dados do Indec, o Instituto Nacional de Estatística e Censos da República Argentina. Com uma economia enfraquecida e a escalada da perda de garantias de um futuro próspero, o relato – e a crítica – feito por Tute poderia enquadrar-se na história de qualquer um dos países da América Latina.

A diferença, no entanto, parece estar na reação social ao desmonte de direitos. Um amigo argentino, que por aqui viveu, fazendo voluntariado e aprendendo português, disse-me que ficava entre a surpresa e a tristeza ao enxergar a apatia dos brasileiros diante das notícias que chegam sobre o Brasil. Hoje, vivendo na Espanha depois de perder a maior parte das economias na cruzada contra a recessão argentina, Facundo Villalobo me diz que a principal diferença é que “os argentinos não têm medo de ir às ruas pra fazer um protesto, pra mostrar ao Presidente que não estão contentes com políticas que não são para o povo, mas para uma minoria que têm dinheiro”.

Tendo vivido em outros países ele ainda me diz que o fenômeno não é “privilégio” nosso. “Ainda há muita ignorância. Baixar a cabeça não é a solução. Lutar, sim. E com educação. E educação começa em nossa família, em nosso círculo de amizade, não apenas nas escolas. Sei que a luta é perigosa quando essas forças de segurança estão na frente e o cérebro dessa força é o presidente, e no caso do Brasil, um fascista. Só a educação vai ajudar a resolver isso”, diz.

Embora o #15M tenha mobilizado um contingente expressivo de pessoas sob a bandeira da educação, é difícil enxergar que, no Brasil, façamos o mesmo barulho contra os desmandos de um governo como fizeram os argentinos em fevereiro deste ano, ocupando toda a Avenida 9 de Julio. Nossa apatia ainda parece anestesiada por um resquício de esperança, o que nos impede de reagir como deveríamos diante de um Presidente que nega a existência da fome do país, apesar dos dados, que ignora as recomendações quanto ao uso de agrotóxicos, que vê o desmonte da educação superior gratuita como algo defensável, que apoia o fim da cultura, que não se propõe a debater e nem mesmo explicar com nexo e precisão informações que deveriam ser públicas e que enxerga a indicação dos filhos e o beneficiamento de mais de 100 familiares como algo corriqueiro. Ainda é difícil imaginar um mar de gente ocupando as principais ruas das capitais em favor de todos e de cada um. Na nossa luta individual, esquecemos que fazer política é pensar coletivamente. Entender que as consequências são para todos, também.

Iniciei o ano na Argentina. E ouvia, com frequência a pergunta de como decidimos eleger um ser visivelmente incapaz de governar. Ouvi também que do lado de lá, os argentinos preferiam calar ao encontrar os muitos bolsonaristas orgulhosos que visitavam o país. Encontrei muitos brasileiros nessa jornada e quase todos me fizeram sentir vergonha. Porque, em geral, muitos de nós se sentem à vontade para proferir impropérios por onde passa, certos de uma certa incompreensão linguística, talvez. Como o senhor que esbarrei na recepção de um hotel, no dia 1º de janeiro, enquanto cenas da posse passavam na TV. Na virada do ano, alguém, irônico, o desejou “Feliz 1964” e ele, muito certo de si, bradou: “não vejo a hora de voltarmos logo a essa época”.

Quando perguntei ao Tute se ele via diferenças nas reações entre brasileiros e argentinos, ele me disse que não saberia dizer com propriedade, mas que sabia é que “com governos de mão dura, que reprimem protestos, a violência passa a ser legitimada. O mau exemplo também educa e habilita”. E completou: “espero que a reação seja vista nas urnas e que recuperemos um Governo, que sendo o Estado, não vire as costas para o povo. Tomara que essa mudança seja progressiva e ampla, que seja em toda a América Latina. Ainda que o mundo todo indique o contrário”.

* Jornalista e assessora de imprensa

As opiniões aqui expostas não representam necessariamente a opinião do Portal Vermelho



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