Daniel Costa Lima

Uma reflexão pouco usual para o dia dos pais

Neste dia dos pais o meu filho terá dois anos e 11 dias. Pode soar estranho, mas às vezes eu tenho dificuldade de lembrar dele recém nascido; parece que ele sempre foi assim, um menininho pequeno, danado e falante. Por vezes também tenho dificuldade de lembrar como eu era antes dele nascer. O que sei é que algo mudou profundamente com a chegada de Francisco. E ao mesmo tempo, nada mudou.

Nas coisas que me compõem enquanto indivíduo e cidadão, sinto que continuo o mesmo. Tenho os mesmos valores e a mesma forma de enxergar o mundo. Mas o “tempo” mudou. E não me refiro apenas ao tempo livre que sumiu para aparentemente nunca mais voltar. Me refiro principalmente a como percebo e como “vivo” o tempo. Sei que isso está um pouco confuso, mas vou tentar explicar...

Desde as 22:40 do dia 31 de julho de 2017 eu tenho consciência de ter os pés mais fincados no presente do que nunca: eu estou aqui.

Ao mesmo tempo, com certa frequência me imagino no aniversário de 10 anos de Francisco, quando, se tudo der certo, eu terei 50 anos; ou nos seus 20 anos, quando já serei um idoso: eu fantasio e desejo um futuro.

Por fim, a paternidade tem me levado a constantes reflexões sobre a minha infância e sobre o meu pai e a minha mãe: eu estou nas minhas memórias.

Me parece que com o nascimento dele, o tempo nasceu em mim e com ele, uma série de perguntas que ficam suspensas no ar, cada uma enrolada em um leve fio.

O fio que puxo agora pode parecer inadequado para um texto do dia dos pais mas espero que ao chegar à sua última linha isso faça alguma sentido. Ele traz consigo uma questão que me intriga há anos, mas que apenas recentemente, através desse exercício de puxar os fios do tempo, consegui rabiscar, mesmo que de forma rudimentar.

Muitas de nossas mães não estão bem e poucas vezes tentamos compreender genuinamente o sofrimento delas. Muitas das mães de nossos/as filhos/as não estão bem e igualmente, poucas vezes nos mostramos empáticos ao sofrimento delas.

Não sei quantos/as de vocês já tiveram essa experiência, mas no meu círculo de amigas/os, é praticamente impossível que uma noite de conversa regada a bebida passe incólume por nossos problemas de relacionamento com as nossas mães ou por seus diversos sofrimentos físicos e mentais. De uma forma ou de outra elas surgem e me parece que quando temos as/os nossas/os próprias/os filhas/os e elas viram avós, isso só se intensifica.

Já os pais raramente são citados nesses momentos. Na história dos dramas familiares eles muitas vezes parecem aquelas notas de rodapé que ninguém se dá ao trabalho de ler. Quando se tornam avôs nada parece mudar, eles são amáveis mas menos presentes e, principalmente, raramente seus nomes são associados a conflitos, cobranças e intromissões exageradas na forma como devemos ou não devemos educar nossas crianças.

A reflexão que agora proponho é que direcionemos o nosso olhar às pequenas letras da nota de rodapé. Eu torço para que esta não seja a sua experiência, mas a minha trajetória de quase 20 anos de trabalho com o tema das paternidades me diz que muitos/as vão se deparar com longas passagens relacionadas à ausência paterna, à distancia paterna e ao silêncio ruidoso desses homens.

Caso eu esteja correto, gostaria que você refletisse sobre o impacto disso para as nossas mães, para as mães de nossas/os filhas/os e para o nosso relacionamento com elas.

Se você estiver disposto/a, tente recordar de algum momento durante a sua infância ou adolescência em que o seu pai esteve distante fisicamente e/ou emocionalmente. Agora puxe esse fio e encontre a sua mãe. Eu sei que estou entrando num campo de grandes suposições, mas não me parece inverossímil supor que durante a ausência de seu pai, a sua mãe (ou outra mulher) fazia um grande esforço para preencher o “buraco” que ficava.

O problema é que esse "buraco" não era dela. As necessidades e desejos ali depositados, ou seja, o que você precisava, não devia nem podia ser por ela respondido. Assim, todo o investimento adicional de amor e cuidado que ela fazia provavelmente surtia pouco efeito e por vezes era até recebido negativamente – penso que não é à toa que os filmes estejam repletos de histórias de mães sufocantes e controladoras.

Agora imagine que enquanto a sua mãe se desdobrava tentando em vão compensar pela falta de outra pessoa, ela também lidava com seus próprios “buracos”, deixados para trás pela distância e pelos silêncios de seu parceiro e também de seus próprios pais.

Agora imagine isso como uma bola de neve. 10 anos e crescendo. 20 anos e crescendo. 30 anos... Quais os impactos dessas construções para a saúde mental das mulheres?


A minha proposta aqui não é a de vitimar as mães nem a maternidade; tampouco traçar uma caricatura de vilão dos pais e da paternidade. Para ser bem sincero, essas são questões que me cruzam mas que ainda sinto estar um tanto longe de qualquer resposta bem elaborada.
O que sei é que nada disso é dado. Nada é natural. O nascimento de uma criança passa necessariamente por um ato biológico mas ser mãe e ser pai são questões eminentemente marcadas pelas construções de gênero.

As mulheres, como sabemos, têm questionado e batido de frente com padrões e expectativas irreais e tóxicas relacionadas à maternidade há muitos anos. Por mais que eu me alegre em finalmente ver homens falando sobre paternidades, a verdade é que nós raramente nos debruçamos sobre o grande impacto negativo causado às mulheres pela nossa distancia, pelos nossos silêncios e pelo nosso apego a um modelo de família que simplesmente não mais cabe na sociedade de hoje. Ou seja, falamos sobre paternidade evitando ao máximo abordar a questão de gênero e, consequentemente, dos nossos privilégios.

Queremos todo o afeto que estiver ao nosso alcance e por ele até aceitamos uma parte da responsabilidade do cuidado das crianças, mas não a divisão.1 Para deixar esse afeto entrar, permitimos a abertura de pequenas brechas em nossas couraças, no entanto, continuamos devedores contumazes de afeto, o que apenas se aprofunda à medida em que arrastamos pelo tempo uma pesada mala de silêncio.

Como já disse, não tenho respostas, creio que apenas procuro ouvidos e interlocutores/as dispostos/as a fantasiar juntos/as um futuro com menos sofrimentos e sei que nós, homens e pais, temos muito a contribuir com isso. E isso é algo que vale a pena.

(1) Já abordei esse tema no artigo “Um pai cansado e o dia das mães” http://www.vermelho.org.br/coluna.php?id_coluna_texto=9139&id_coluna=167
* Ilustração da artista Snezhana Soosh


* Pai de Francisco, psicólogo, mestre em saúde pública e consultor independente no campo de gênero, masculinidades, paternidade e cuidado e violência baseada em gênero.
[email protected]

As opiniões aqui expostas não representam necessariamente a opinião do Portal Vermelho



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