Elias Jabbour

A centralidade da questão nacional

Tenho tendência ao otimismo, mesmo em épocas de contrafluxos e disrupturas como a que estamos a viver hoje. Não tenho dúvidas que o mundo está cada vez mais perigoso e o Brasil, em particular, poderá caminhar para um futuro que inclui um mix de africanização e mexicanização. 

Uma ofensiva imperialista está em marcha e tem no campo da comunicação uma de suas armas mais letais. Isso sem falar da transformação do dólar em arma de destruição em massa como atestam as experiências da Venezuela e Irã. Aqui não precisou disso.

Uma classe média nascida no seio de antigos primários-exportadores e comerciantes de exportações e importações da década de 1920 tomou conta do aparelho de Estado desde a redemocratização. São cosmopolitas como seus avós, bisavôs e tataravôs. Foram estudar nos Estados Unidos entre as décadas de 1970 e 1990 e hoje dão as cartas na máquina burocrática do Estado. A Operação Lava-Jato é expressão nua desta camada social. O final dos anos de 1980 e início dos de 1990 marcaram também a subscrição de uma chamada “agenda nacional e desenvolvimentista”. E isso atingiu diretamente as esquerdas, desde então conectadas com a agenda “progressista” do Partido Democrata dos EUA. A maior parcela da esquerda conectou-se a Nova Iorque. Pela direita a financeirização e a abertura de caixas financeiros nas grandes industrias fez o serviço de esterilizar a classe que deveria tocar adiante o projeto de modernização do país. A indústria conectou-se a Miami.

A República está em frangalhos. Sim. É difícil falar em república quando ministros do Supremo ainda afiançam ações de quadrilhas como a de Sérgio Moro e Dellagnol e quando temos uma classe média que, simplesmente, não admite que as massas populares atinjam um nível mínimo de consumo e ascensão social. Não existe república (e Nação) com instituições aparelhadas por agentes de uma potência estrangeira, onde professores de economia ensinam sobre a deus ex machina da lei das vantagens comparativas e quando professores de história variam entre denunciar o “patrimonialismo” ou repetir que “nosso país não pode ter futuro”, pois carrega a mancha de um passado “escravista e patriarcal” numa pobre visão de casca progressista e fundo reacionário. Assassinaram Darcy Ribeiro.

O que assustou ontem? Duas sínteses. O número de votos um pouco abaixo dos 140 e o crescente apoio de amplas parcelas da população à reforma da previdência. No concreto, estamos isolados dentro da Câmara dos Deputados e, pior, na própria sociedade. Existe uma irresistível força que nos empurra para a autodestruição e inviabilização enquanto país, Nação e sociedade. Atualmente existem mais de 50 milhões de brasileiros com suas vidas em desordem de todo tipo. O crescimento econômico não voltará tão cedo, a não ser por algum mini-ciclo de consumo diante das baixas taxas de inflação e juros e com a possibilidade de alguma medida “heterodoxa” do governo em estimular o consumo. De resto, a ortodoxia ficará com a “mão na brocha” pois nada do que pregam tem cola com a realidade. Mas ao menos estão no poder...

O que existe em meio a tudo isto? Insisto em dizer que nunca foi tão central uma coisa chamada “Questão Nacional”. O Brasil nos últimos cem anos se industrializou, urbanizou-se e formou grandes quadros técnicos e políticos. A sociedade tornou-se complexa com as crescentes “demandas da urbanização”. Já não se fica calado diante da violência contra as mulheres, os negros e as minorias. Uma nação que pensa já não assiste passivo a voz no Palácio Planalto dizer que “menino veste azul e menina veste rosa”. Mas com tudo isso ainda continuamos isolados, espremidos e ameaçados de extinção física e política.

Para nossa esperança o presidente Lula, ao que tudo indica, encontrou-se na cadeia com Getúlio Vargas. Aponta na direção da centralidade da defesa da soberania nacional. Tem chamado a atenção a isso a todos seus interlocutores. A questão é materializar essa bandeira. Acredito que a fragorosa derrota de ontem determine um rumo ao nosso campo. O momento é demostrar que não existe somente uma democracia em risco. Não existe democracia sem base material expandida. Um manifesto em defesa da Nação e a devida apropriação do verde e amarelo nos roubado é fundamental. O custo da recolonização será alto às futuras gerações. Será mais alto ainda a quem não colocar isso em primeiro plano. Ontem foi dada a senha. Não existe “lugar de fala” para este ou aquele. Devemos ser a voz do “lugar de fala” da NAÇÃO e de TODOS OS BRASILEIROS

* Doutor e Mestre em Geografia Humana (FFLCH-USP). Professor Adjunto da FCE/UERJ. Membro do Comitê Central do PCdoB.

As opiniões aqui expostas não representam necessariamente a opinião do Portal Vermelho



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