Luciano Rezende

General Heleno, o augusto símbolo da mediocridade

O nome composto revela a pompa de quem nasceu, na visão dos pais, para ser um tipo predestinado, de casta superior: Augusto Heleno.

Augusto, na Roma antiga, era o título dado a alguns imperadores. Alguém que merece respeito, reverência. Um estadista.

Heleno, por sua vez, é referente ao povo grego, “portador do dom da profecia” ou “o reluzente”.

Mas nosso general Augusto Heleno, ministro de Estado no governo Bolsonaro, não é nem um, nem outro.

A julgar pela entrevista dada por ele ao Valor Econômico na sexta-feira, dia 21 de junho de 2019, no caderno EU& Fim de Semana, Augusto Heleno, de respeitável, só tem o nome. É um medíocre.

Vergonhosa, do início ao fim, sua entrevista revela a decadência intelectual e moral na formação militar brasileira. Como é possível um entreguista de tal naipe ter tido influência em governos anteriores e ainda gozar de tanto prestígio nas Forças Armadas?

Heleno se derrete por Paulo Guedes (a quem chama de “brilhante”) na liquidação que promove de nosso patrimônio público. Se porta como exemplo de retidão moral ao atacar Lula (e até Fernando Henrique) ao mesmo tempo em que bota a mão no fogo por ninguém menos que Jair Bolsonaro. O mesmo Bolsonaro que, publicamente, afirmou sonegar tudo que pode.

Em um determinado trecho da entrevista o general afirma que conversou com Bolsonaro em 2016, já manifestando apoio ao seu nome. Perguntou se ele tinha grana para competir, o que Bolsonaro lhe respondera que só dispunha das redes sociais. Será que nosso ingênuo general acha que o envolvimento de empresas na avalanche de fake news que elegeu seu candidato foi de graça?

Mas talvez o mais cínico e irônico da entrevista foi o nosso "augustíssimo" Heleno afirmar que “sempre foi um poder moderador”. Será a mesma moderação que, semana passada, o fez dar murros na mesa e pedir a prisão perpétua de Lula? Ou terá sido a mesma moderação de quem, na entrevista, desabafou ser “um grande opositor do PT e de tudo o que o cerca”?

Fizesse jus ao seu nome, o general Augusto Heleno se orgulharia de ter sido indicado à ONU no governo Lula para comandar a Missão das Nações Unidas para Estabilização do Haiti (Minustah), em 2004. Era uma época muito distinta da atual, onde as Forças Armadas começavam a desempenhar o papel protagonista na geopolítica internacional, pleiteando assento no Conselho de Segurança da ONU.

Mas com certeza, esse papel ativo e altivo de nossas Forças Armadas, não é bem assimilado por quem se acostumou a comer nas mãos dos Estados Unidos, desde os tempos da ditadura militar brasileira. O general Heleno descreve o Haiti com desprezo, resumindo a capital, Porto Príncipe, como um lugar em que “porcos e pessoas disputavam restos de comida em valas de lixo”.

Sobre os programas sociais nos governos Lula e Dilma, diz nunca ter acreditado neles. Com relação ao Bolsa Família, diz que o mesmo deve “ter uma porta de saída”, e acrescenta: “Quanto tempo quem trabalha vai sustentar quem não tem emprego ou coisa parecida?”.

Heleno parece se esquecer de que hoje ele faz parte de um governo que prometeu tirar o país da crise. Mais que isso. Heleno foi um dos que incentivou a deposição da presidenta Dilma e desde então assiste o desemprego galopar e a economia descambar. Cabe a ele e ao seu presidente apresentar essa “porta de saída” ao invés de só reverberar seu ódio contra o PT.

Ao falar de sua formação, Heleno aproveita para defender as posições do ministro da Educação, Abraham Weintraub. Justamente quem se formou em escolas militares, sendo doutrinado a combater comunistas, vem a público manifestar sua oposição a professores pretensamente doutrinadores. Seria irônico, não fosse trágico.

Heleno é o símbolo decadente desta última safra de generais formados nos estertores da ditadura militar. Nada mais natural que, na atualidade, apoie um presidente apologista de torturadores e envolto a escândalos de corrupção de todos os níveis, assim como no passado apoiou (e sente orgulho disso) o general Sílvio Frota, um contumaz anticomunista que foi contra a abertura política no governo Geisel.

O pavilhão nacional, “augusto símbolo da paz”, é pisado por generais como Heleno que destila ódio e invoca sempre a guerra contra quem pensa diferente. Nossas Forças Armadas merecem uma nova geração de generais que seja capaz de dialogar ao invés de babar pelos cantos da boca e esmurrar mesas.

* Professor. Presidente da Seção Mineira da Fundação Maurício Grabois e Membro do Comitê Central do PCdoB.

As opiniões aqui expostas não representam necessariamente a opinião do Portal Vermelho



Publicidade

TEXTOS DESTE +

OUTRAS COLUNAS