21 de Janeiro de 2010 - 0h01

Ali El Khatib, uma vida dedicada aos árabes

Lejeune Mirhan *

Muitas pessoas dedicam suas vidas a muitas causas. Alguns às crianças, outros aos idosos. Outros ainda preferem salvar os animais. Há os que participam de campanhas assistencialistas e outros que preferem a luta para mudar a sociedade. Há alguns que se dedicam a um povo em particular.


Ali, Superintendente do Instituto Jerusalém do Brasil

Desses povos que tem história milenar, os árabes talvez estejam entre os que mais deram contribuições à humanidade, aos seres humanos como um todo. E, nesse sentido, existem pessoas que dedicam suas vidas a esse povo milenar.
Uma história de vida

Como tenho feito, intercalo artigos teóricos com entrevistas pessoais de pessoas que possuem forte ligação com o mundo árabe, morando ou não no Brasil. Uma dessas mais destacadas pessoas, chama-se Ali El Khatib. Meu colega sociólogo de profissão, eu o conheço faz três décadas. Desde o Congresso da UNE de Piracicaba de 1980, quando elegemos Aldo Rebelo presidente e que tive a honra de trabalhar com ele na entidade posteriormente.

Ali é das pessoas que conheço da minha esfera de relacionamento o que mais e dedica à luta dos árabes em geral e a dos palestinos em particular. E faz isso no campo político, mas o faz em uma área que reputo como das mais importantes: a cultura. É difusor da cultura árabe, de suas tradições, de sua música, de sua dança, de sua culinária. E faz isso com maestria de poucos, do alto de sua experiência inclusive em uma década no SESC/SP como agente cultura, pela sua atuação na Secretaria de Cultura do Estado de SP e sua passagem até pela TV Cultura. Nos últimos anos, Ali tem sido diretor-superintendente do Instituto Jerusalém do Brasil, uma ONG que tem esse objetivo: difundir uma cultura árabe de paz. A sua ONG é Ponto de Cultura do MinC e organiza uma Orquestra Jovem de Percussão Árabe em Campinas. Mas, maiores detalhes de sua vida pregressa, e de sua atuação no presente, veremos na entrevista que publicamos a seguir.

Você foi uma espécie de “número dois” no escritório de representação da OLP no Brasil na década de 1980, hoje embaixada da Autoridade Nacional Palestina. Fale desse período específico de sua vida.

Em 1979 após concluir um trabalho na Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo em Campos do Jordão, fiquei sabendo da chegada do Representante da OLP Dr. Farid Sawwan ao Brasil através do Estadão. Aliás, uma crítica horrível. Foi quando resolvi enviar uma carta ao Dr. Farid colocando-me à disposição para contribuir principalmente na formação de grupos de jovens, experiência que acumulei em quase dez anos de trabalho educação não formal no SESC/SP formando grupos de voluntários quer jovens, quer trabalhadores do comércio e serviços.

Em janeiro de 1980 foi realizado no Teatro Ruth Escobar em São Paulo uma palestra sobre a Causa Palestina com a presença do Dr. Farid, Jasser Akel, Hassan El-Emleh, Suheil Sayegh, Airton Soares e Fernando Morais, que era deputado pelo antigo MDB entre outros. Acontece que a juventude sionista, em grande número, todos com mais de 1m80 de altura, estava presente e o tempo todo tentou impedir a palestra. O Movimento Negro Unificado, liderado por Milton Barbosa, também presente, procurou de todas as formas criar um clima propício ao debate que começou com atraso de 45 minutos e depois de muitos conflitos. Foi nesta noite que estreitei meu relacionamento com os palestinos. Estive algumas vezes em Brasília no escritório da OLP que inicialmente funcionava em uma única sala da Liga dos Estados Árabes. Foi neste ano que defini a 1ª Mostra das Culturas Árabe e Islâmica, com forte presença da cultura palestina, realizada em Campinas no mês de novembro. Após o enceramento da mostra, fui convidado pelo Dr. Farid para visitar as instalações da OLP no Líbano, acampamentos, escolas, hospitais e centros culturais. Integrei a Delegação Brasileira formada por Javier Alfaya, então presidente da UNE e hoje deputado estadual do PCdoB/BA, Fernando Morais, jornalista e deputado estadual pelo MDB, Moacyr Werneck de Castro da Revista Cadernos do Terceiro Mundo, Fausto Wolf, do Pasquim, Juca Martins da Agência F-4, além dos palestinos Farid, Fawzi, Hassan e Jasser entre outros.

No Líbano além de conhecer as instalações acima citadas, tive a grande e rara oportunidade de estar com o presidente Yasser Arafat por três vezes, em seu escritório, na Universidade Americana de Beirute e no Acampamento de Sabra e Chatila. Isto foi no final de dezembro de 1981 e início de janeiro de 1982, período de comemoração do aniversário da OLP.

Esta missão foi extraordinariamente e foi relatada no livro de Fausto Wolf, falecido em 2008, intitulado Palestinos, os Judeus da 3ª Guerra Mundial. Nesta viagem reencontrei minha família em Kherbet Rouha, no Bekaa, cenário de inúmeras histórias que meu pai Ahmad Abdallah El-Khatib nos contava e que contribuíram muito para a formação política e cidadã de toda minha família.

Em 1982, participei ativamente junto à comunidade palestina do Brasil, inclusive assessorando a Federação das Entidades Árabe-Palestino-Brasileiras, hoje Federação Palestina do Brasil – FEPAL.

A movimentação política no Brasil, no mundo e especialmente no Oriente Médio estava fervilhando. No Brasil tinha sido criado o PT, a UNE estava nas ruas lutando por seus direitos, havia sido realizada a 1º CONCLAT, a CUT seria fundada em 1983. Com este quadro político os palestinos acharam por bem lançar um candidato a deputado estadual por São Paulo. O indicado foi o presidente da Federação Palestina, Suheil Sayegh. Fui convidado para ser o coordenador da sua campanha, incumbência que aceitei. No final, faltaram menos de 800 votos para que ele fosse eleito pelo PT como deputado estadual em SP. No entanto durante a campanha tivemos um grande exercício de cidadania e formação política. Os jovens brasileiros de origem árabe, libaneses, sírios e palestinos em sua maioria tiveram uma grande participação na organização e mobilização da campanha. Foi uma grande experiência para a militância árabe-paletina. Foi quando em setembro acontece o Massacre de Sabra e Chatila no Líbano. A mobilização mundial foi muito grande. No Brasil maior ainda. A UNE, os sindicatos, os partidos políticos, foram às ruas e o grito de guerra era “OLP estamos com você”, e “Israel assassino do Povo Palestino”.

O meu vinculo com a OLP foi de forma lenta, gradual e se fortalecendo a cada passo. Só fui convidado para integrar oficialmente a representação em 1983. Não era o ‘’número dois’’ pois o representante era o Dr. Farid e o vice Fawzi El Mashni, depois embaixador no México. Mas, dei minha modesta contribuição.

No período que você esteve na representação palestina no Brasil, você idealizou diversos e bem sucedidos projetos. Um deles foi o Sanaud, que objetivava organizar e conscientizar a juventude palestina nascida no Brasil. Conte-nos essa experiência.

Durante minha convivência com as famílias palestinas em todo o Brasil, percebi a dificuldade da juventude em se inserir na vida cultural e política do país devido à origem e formação destas famílias. Seus pais foram expulsos da Palestina e aqui chegaram sem documento algum. Depois de muitas dificuldades no trabalho acabaram se casando com brasileiras em sua maioria. Período da ditadura e que a grande mídia chamava os palestinos, todos, de terroristas – e ainda hoje, infelizmente, faz isso. Essas famílias se sentiam temerosas em se identificar. Foi aí que surgiu a ideia de se estabelecer um mecanismo que pudesse criar uma auto-estima e fortalecer a identidade cultural desta juventude. Aproveitando minha experiência acumulada no SESC/SP na formação de grupos de jovens. Assim, elaborei um projeto para a juventude palestina.

Em Campinas entre 1980 e 1982 tínhamos um grupo de jovens palestinos que se reuniam periodicamente para discutir a situação na terra de seus pais. Depois da realização do CONEB – Conselho Nacional de Entidades de Base da UNE em 1981 organizado pelo DCE da PUCC e de minha volta do Líbano este grupo teve um formato que se denominou Associação da Juventude Palestina.

Barros Filho, o Barrinhos, ator e cineasta competente, produziu um filme sobre a primeira delegação brasileira a visitar o Líbano em 1980, em que Aldo Rebelo, então presidente da UNE, fez parte. Durante a sua longa e delicada edição nos estúdios da Produtora Mandurí, da qual tive a oportunidade de contribuir, discutíamos o nome do filme, que depois de muita discussão ficou sendo SANAUD, que significa Voltaremos em árabe.

Neste momento, 1982, com a juventude árabe se reunindo na sede da Sociedade Árabe Palestina, na Avenida Senador Queirós em São Paulo, surgiu a ideia de formarmos uma a Associação Cultural. Foi então que surgiu a Associação Cultural Sanaud. No projeto que apresentei uma determinante para a criação de uma nova Associação Cultural Sanaud seria que os jovens tivessem um treinamento em forma de planejamento estratégico, com técnicas de dinâmica de grupo em que seus membros identificam seus problemas e sugeriam forma de resolvê-los.

Foram criadas 17 associações em todo o Brasil que nos momentos de entrave político contatavam lideranças partidárias, estudantis e sindicais em busca de apoio. Muitas manifestações de rua foram realizadas, a maior delas em setembro de 1982 na cidade de São Paulo com a participação de dez mil pessoas pedindo o fim dos massacres e a criação do Estado da Palestina, livre, soberano e democrático.

Em 1985, nós realizamos o 1º Congresso das Associações Culturais Sanaud e o 1º Encontro da Juventude Árabe-Palestina da América Latina e Caribe, na Fazendinha, no Campus Taquaral da Unimep em Piracicaba.

Neste momento a cidade estava em pé de guerra devido à situação da Universidade em que as forças da direita queriam o afastamento do então reitor Elias Boaventura. Com a divulgação da possível realização do Congresso da Juventude Palestina a situação criou um estado de guerra provocado pelos sionistas locais e de todo o Brasil liderados pelo Rabino Henri Sobel argumentando que Piracicaba seria o centro de treinamento de terroristas. Toda a mídia brasileira estava contra. Eu me encontrava na cidade organizando o Congresso.

Devido à situação crítica tive que ficar dois dias sem poder sair do Hotel. Esta situação foi abrandada com a participação de Dom Eduardo Kuaik, Bispo Metropolitano de Piracicaba, que ofereceu seu palácio para que eu concedesse uma entrevista coletiva. No dia seguinte as manchetes dos jornais locais anunciavam: “De Portas abertas Dom Eduardo recebe os palestinos”, “Bispo dá respaldo ao Congresso palestino”. O então Deputado Federal e ex-prefeito, amigo querido, João Hermann Neto nos apoiou o tempo todo.

Durante o Congresso, foi criada a Federação das Associações Culturais SANAUD e no encerramento lançada a Declaração de Piracicaba com pleno apoio aos palestinos e à OLP. Na entrevista coletiva de entrega desta Declaração aos jornalistas denunciei veementemente o lobby sionista que tentou de todas as formas inviabilizar o Congresso e o Encontro. Manchete nos dias seguinte.

Lembro a todos que você, meu antigo companheiro e colega sociólogo, Prof. Lejeune Mirhan, que hoje me entrevista 25 anos depois, participou da Comissão Organizador do Congresso e do Encontro. Foi você, Emir Mourad (hoje morando na Líbia), Manah Tabun e minha irmã Amalina que me acompanharam na visita histórica no dia 20 de janeiro de 1985, um domingo, em que fomos prestar solidariedade ao Reitor Elias Boaventura na Unimep em Piracicaba. Lejeune, como articulista do jornal Tribuna Operária, escreve na edição de 4 a 10 de fevereiro de 1985 o artigo intitulado “Palestinos se organizam no Brasil”. Neste Congresso encontrei muitos amigos como os professores José Machado, depois prefeito e deputado federal e Lineu Maffezoli, grande economista e que tinha sido meu professor na PUCC, amigo até hoje.

Também na década de 1980, você ajudou a organizar os dois primeiros congressos da COPLAC – Confederação Palestina da América Latina e Caribe. O de SP ocorreu na Alesp e no antigo Hilton Hotel em 1984. Fale-nos sobre isso.

Devido ao meu relacionamento e confiança mútua construída ao longo destes anos a Federação Palestina e a OLP me convidaram para coordenar a organização deste Congresso. Mais um grande desafio em um momento delicado em minha vida, pois estava me preparando para iniciar meu mestrado em Lazer na Unicamp. Aceitei o convite e adiei o mestrado que não aconteceu até hoje.

Também era uma época muito difícil, a ditadura ainda reinava apesar de alguns avanços democráticos. Deveriam participar do Congresso ministros, embaixadores e lideranças palestinas de todo o mundo. Um desafio maluco. Criamos as comissões, realizamos contatos políticos com o governo federal (Itamaraty), Congresso Nacional, Governo do Estado de São Paulo (Franco Montoro) prefeito de São Paulo (Mário Covas), e com a Assembleia Legislativa. Lembro que o presidente brasileiro era o general João Batista de Oliveira Figueiredo que enviou saudação na abertura do Congresso. Ironicamente, eu tive que ler a mensagem nada aplaudida pelos presentes, mas de bom conteúdo. Assembleia lotadíssima. Partidos políticos, sindicalistas, OAB, UNE, UBES, UJS. Rogério Lustosa que no ato representava a Comissão de Legalização do PCdoB se fez presente com muitos camaradas. Estiveram no Congresso muitas autoridades palestinas, Khaled Al-Hassan, ministro das comunicações veio representando o líder e presidente da OLP Yasser Arafat.

O Congresso serviu para difundir a verdadeira Causa Palestina, estabelecer novos contatos, fortalecer as relações com os partidos políticos, a UNE, as entidades sindicais, autoridades, parlamentares, lideranças e personalidades brasileiras, da América Latina e Caribe. O ministro Khaled foi recebido pelo chanceler Saraiva Guerreiro e agradeceu todas a facilidades que o governo brasileiro ofereceu para viabilizar o Congresso. Para o Brasil o ganho foi muito grande, aumentaram e se fortaleceram os laços de cooperação e amizade.

Sabemos de sua ampla participação no movimento sindical e mesmo na vida política do país, nas campanhas do presidente Lula desde 1982, na fundação da CUT, nos Fóruns Sociais Mundiais realizados no Brasil. Fale-nos sobre essa sua atuação política e sindical também.

Era início da abertura política. Alguns políticos estavam retornando ao Brasil com a Anistia de 1979. O PT havia sido criado. Em 1981 a Ruth Escobar realiza o Encontro Internacional de Teatro e convida o Grupo Folclórico Palestino a visitar o Brasil. Além de São Paulo, Campinas e Brasília o Grupo se apresenta no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo. Foi aí que conhecei Lula.

Participando do movimento palestino e como coordenador da campanha do Sayegh em 1982 tinha como missão realizar inúmeros contatos e estabelecer parcerias tanto com entidades da comunidade árabe como a brasileira. O exército sionista de Israel invade o Líbano. As massas saem às ruas organizadas através de suas entidades. Assim estabeleci contatos com grandes sindicatos como dos metalúrgicos, químicos, médicos, bancários, marceneiros e tantos outros.

Entrei na campanha do Lula para governador em 1982 e tínhamos três candidatos da comunidade árabe: Airton Soares para federal, Sayegh para estadual e Sérgio Toufic para vereador. Contribui para a organização do primeiro comício do PT no Bairro de Santo Amaro em São Paulo. Recebi Lula, demais candidatos e convidados entre eles Rui Mesquita, diretor do Estadão. Continuei na campanha. Acompanhei nosso trio de candidatos e por muitas vezes com Lula na comitiva.Conheci praticamente todos do PT. Com PCdoB fui participando lentamente mas com muita segurança uma vez que suas lideranças e demais companheiros tinham uma participação efetiva na luta do Povo Palestino. O Partido ainda não era legalizado e atuava com a legenda do MDB, depois PMDB até 1985 quando veio seu registro legal. Com o deputado Benedito Cintra, estadual do PCdoB e seu competente assessor Eduardo Debrassi, o Dudu, conseguimos aprovar na Assembleia a Lei que instituiu o dia 29 de Novembro como sendo o Dia Internacional de Solidariedade ao Povo Palestino. Participei ativamente das primeiras campanhas de Aldo Rebelo, federal e Jamil Murad, estadual junto à nossa comunidade árabe-paletina.

Em 2000 na primeira edição do Fórum Social Mundial tentamos (o companheiro Walid Shukheir e eu), ter uma representação palestina a nível nacional, mas não conseguimos. Fomos para Porto Alegre com fé e coragem. Mas tivemos o cuidado de manter contatos com os companheiros do PCdoB, do PT e do MST, além da direção do FSM, como Emir Sader. O Governador do Estado do Rio Grande do Sul era Olívio Dutra, companheiro de tantas jornadas no PT e na CUT. Mantivemos contato. Soubemos da presença confirmada de muitos palestinos.

Chegamos a Porto Alegre com algumas Bandeiras Palestinas e outra gigante confeccionada pelos companheiros do MST. Na gloriosa marcha de abertura conseguimos distribuir nossas bandeiras nos principais caminhões que abriam o cortejo. Dia seguinte fotos em todos os jornais e TVs, Percebemos que estávamos em milhares. Muitos companheiros de todo o mundo trouxeram bandeiras palestinas e camisetas alusivas a luta deste povo. Nosso grito nas ruas era: “O Palestino é meu amigo mexeu com ele mexeu comigo”. Todos gritavam com entusiasmo.

Emir Sader, João Pedro Stédile, Aldo Rebelo, Jamil Murad, Olívio Dutra, Lula, José Dirceu, Jussara Cony todos estavam com os palestinos. Marcamos presença e conseguimos dar visibilidade à luta palestina. Em 2005 alguns sionistas, mesmo em número reduzido, aprovaram a realização do Fórum Social Palestino, mas queriam que fosse realizado só em Jerusalém. Nós queríamos em Jerusalém, Belém, Ramallah e outras cidades importantes da Palestina. Os embates foram muitos. Em um deles Aldo Rebelo saiu vitorioso em forte confronto com os sionistas. No encontro de parlamentares de todo o mundo Jamil Murad teve papel preponderante.

Em 2005 participamos do Fórum Social Pan Amazônico através de um convite do Comitê Organizador. Muitos diziam o que tem a ver a Palestina com a Amazônia. Em todos os temas se debatia a questão palestina que foi tida como exemplo para as demais lutas. Uma das principais mesas do Fórum foi formada por João Pedro Stédile, José Arbex, Tarek Ali, Padre Paulo e na platéia inúmeros internacionalistas.

No FSM de 2009 marcamos presença em Belém do Pará, onde o tema palestino tomou grandes proporções. O espaço do CEBRAPAZ foi totalmente palestino com uma produção de banners com conteúdo histórico muito importante. A presidente Socorro Gomes abriu-nos grandes espaços para debates sendo o maior deles com a presença do embaixador da Palestina no Brasil Ibrahim Al Zeben.

Você, em sua trajetória de vida, fez diversas viagens ao Oriente Médio e à Palestina ocupada inclusive. Sabemos que organiza inclusive até hoje grupos interessados em realizar excursões para a Terra Santa. Conte-nos algumas dessas viagens que mais marcaram a sua vida.

Minha primeira viagem foi ao Oriente Médio foi em 1981-1982 como já mencionei. Depois só voltei ao Oriente Médio em 1996 quando levei uma Delegação de Valinhos, inclusive o prefeito Moisés Abu Jadi, para estabelecer o convênio de Cidades irmãs Valinhos-Belém e fazer um intercâmbio com o Ministério da Agricultura da Palestina sobre a questão do figo. Estivemos com muitas autoridades e fomos recebidos mais uma vez pelo presidente Yasser Arafat em seu palácio presidencial em Gaza. Acertadas as questões políticas e diplomáticas, Arafat me perguntou: “quando estive no Brasil você me entregou uma proposta de fortalecer as relações de nossos países através do turismo; pois bem amanhã acontece em Belém a primeira reunião de organização do Projeto Belém 2000 e você deve comparecer. Informarei a coordenação sobre sua presença!”. Convite ou convocação? Não importa. Preparei-me e no dia seguinte com a delegação valinhense, acompanhados pelo Secretário do Ministério da Agricultura Palestina rumamos para Belém.

No checkpoint, revistas, perguntas e sequestro de meus filmes. Quatro horas de tortura e humilhação. Chegamos ao hotel e lá estava o querido dom Ibrahim Ayyad nos esperando. Fomos ao prefeito, assinamos o acordo de cidades irmãs onde o tradutor foi o atual embaixador palestino no Brasil, Ibrahim Al Zeben, então assessor do Ministério de Planejamento. A companheira Soraya Ali também estava presente e deu um grande apoio à delegação.

Fui imediatamente participar da reunião do projeto Belém 2000. Conheci as autoridades, os planejadores e empresários da área. Quando tive oportunidade de manifestar-me falei sobre o Brasil e as possibilidades de aumentarmos o turismo de peregrinação o que aumentaria a geração de emprego e renda dos palestinos. Gostaram da ideia. De volta ao Brasil, mantive contato com os organizadores do Congresso e Feira de Turismo da ABAV – Associação Brasileira dos Agentes de Viagem e consegui um espaço para o primeiro estande que se chamou Palestina, A Terra Santa. De 1997 até hoje, em 13 anos, participamos da ABAV e aumentamos o fluxo de turistas brasileiros para a Palestina. Trabalho voluntário, mas gratificante!

Três fatos marcaram as minhas cinco viagens à Palestina: 1º O reencontro com Arafat; 2º Sentir, respirar a vida palestina, conviver com o povo e reverenciar Jerusalém; 3º Receber de surpresa em Gaza uma homenagem do Comitê de Direitos Humanos das Mulheres Palestinas pelos trabalhos realizados. Elas sabiam de tudo! Tenho a faixa, bordada em Ponto Cruz até hoje.

Com família formada, Sofia, três filhos (Fayruz, Abdallah e Maruah) continuo a participar. Fayruz, com 11 anos, já participou de três grandes manifestações em São Paulo, todas realizadas em Campinas, algumas no MST e ajudou a plantar a oliveira na inauguração da Escola Nacional Florestan Fernandes em janeiro de 2005 em Guararema. Aliás, dia 6 de fevereiro deste ano, será realizada a grande festa de aniversário dos cinco anos de grandes conquistas. Estaremos lá.

Preciso mencionar que participei desde 1999 nos encontros governamentais e não governamentais que culminaram na realização da Cúpula América do Sul – Países Árabes, realizada em maio de 2005 em Brasília, que reuniu os 22 presidentes e chefes de estados árabes e os 12 presidentes sul-americanos.

Esta Cúpula tripudiada pelo governo estadunidense abriu um novo caminho para o Brasil e a América do Sul e suas relações com os países árabes, africanos e por consequência os islâmicos. Foi um dos fatores que contribuiu para que o Brasil vencesse a crise econômica mundial com maior facilidade, pois ampliamos e muito nossas exportações a esses países.

O Instituto Jerusalém do Brasil, de que hoje tenho a honra de ser diretor, não tem ainda uma década de vida, mas já ocupou definitivamente o seu espaço na sociedade árabe-brasileira e entre seus descendentes em Campinas, São Paulo e mesmo no Brasil. Fale-nos dessa experiência e das realizações dessa entidade.

O Instituto Jerusalém do Brasil foi criado com o objetivo de realizar eventos que possam fortalecer as relações cooperação e amizade entre brasileiros, palestinos e árabes em geral. Participamos e realizamos muitos eventos e apoiamos outros tantos.

Um que merece destaque foi a homenagem que prestamos ao grande Edward Said, no Club Homs em São Paulo em 2003, junto com a SBPC. Muitas lideranças e personalidades compareceram. Foi nesta noite se esboçou a intenção de se criar o Instituto da Cultura Árabe, hoje com um bom trabalho pela causa. Outros institutos foram criados nesse embalo, alguns com mais outros com menor atuação, mas fica o crédito de termos sido os primeiros a ter uma visão de futuro em transformar simples associações e clubes em organizações mais sólidas e com gestão mais eficiente através de um Instituto.

Os fundadores do Instituo Jerusalém do Brasil são Walid Shukair, Lâmia Mahruf, Najah Mahruf, Patrícia Abdallah, Mohamad Jabber, Nádia Jabber, Abdel Latif Hassan Abdel Latif, Jamile Abdel Latif, Sofia El-Khatib, Walid Shukair.

Soubemos inclusive que você pretende transformar o IJB em um Pontão de Cultura do Ministério da Cultura, difundindo ainda mais o slogan “os árabes somos nós”, em uma alusão ao slogan da UNE que une os estudantes no país. Fale-nos desse projeto.

Nossa proposta foi a de criar a Orquestra Brasileira Jovem de Percussão Árabe. E conseguimos isso, pois somos Ponto de Cultura reconhecido pelo MinC. Lembro que no país já somos quase mil Pontos de Cultura. Com todas as dificuldades inerentes a um projeto como este que visa incluir e transformar a realidade social e cultural de crianças e adolescente em situação de vulnerabilidade social conseguimos atingir o objetivo. A Orquestra, em 2009, se apresentou no 1º Festival Internacional de Leitura de Campinas; no 1º Campinas Café Festival; recebeu uma Premiação Nacional de Inclusão Digital no Instituto Itaú Cultural em São Paulo; no dia 29 de novembro, Dia Internacional de Solidariedade ao Povo Palestino, apresentou-se no Teatro do Centro de Convivência Cultural de Campinas e no Encontro Internacional de Mulheres realizado em Campinas com a presença de representantes de 45 países.

Ressalto que a ideia e execução do projeto dos Pontos de Cultura é de um campineiro, Célio Turino, que teve a coragem de enfrentar inúmeros obstáculos políticos e principalmente burocráticos para estabelecer este histórico projeto que está mostrando o verdadeiro Brasil através dos verdadeiros fazedores de Cultura. O livro do Célio inclusive, Ponto de Cultura - O Brasil de Baixo para cima (Editora Anita Garibaldi) revela toda esta riqueza. Dedicamos a ele todo o reconhecimento e méritos que nossa Orquestra vem alcançando.

Com nosso histórico, conhecimentos e relacionamentos acumulados no Brasil e nos países árabes sentimo-nos estimulados a apresentar ao Ministério da Cultura um projeto de criação do “Pontão de Cultura Os Árabes somos nós”. Este Pontão terá o objetivo de potencializar todas as nossas experiências, realizar uma ampla pesquisa em todo o Brasil, realizar eventos e estabelecer parcerias efetivas no Líbano, Síria e Palestina. Esperamos contar com o colega sociólogo que nos entrevista, nessas articulações no Oriente Médio. O projeto já foi habilitado faltando apenas a aprovação final. Tenho certeza que, se aprovado, daremos uma enorme contribuição nas relações árabe-brasileiras. Já estabelecemos contatos com universidades de diversos países árabes, com algum embaixadores árabes e brasileiros e com a embaixadora brasileira em Ramallah, na Palestina, que se mostrou muito interessada em contribuir.

Para encerrarmos nossa entrevista, gostaria que você nos contasse a sua experiência junto ao Núcleo de Estudos Árabes da FACCAMP – NEAF, em pesquisas, aulas, orientações monográficas junto ao curso de Relações Internacionais dessa prestigiosa instituição de ensino.

Em 2006 fui convidado para participar do Encontro Nacional dos Estudantes de Relações Internacionais realizado no The Royal Palm Plaza Resort em Campinas. Lá chegando encontrei com o prefeito e amigo de muitos anos Dr. Hélio de Oliveira Santos, o secretário municipal de cooperação internacional Romeu Santini, grande incentivador de nossos projetos e muitas outras autoridades.

Quando chegou o Embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, então secretário geral do Ministério de Relações Exteriores e cumprimenta todos, ao se dirigir a mim lembrou um documento que eu havia apresentado em uma reunião em São Paulo e disparou: “Ali distribui seu documento para todo o ministério, parabéns!”. Foi um susto. Parecia que éramos amigos, mas na verdade tínhamos nos encontrado apenas duas vezes. Foi o motivo para que citassem meu nome em seus pronunciamentos tendo sido o do Romeu Santini que me qualificou como o amigo de Campinas, o amigo do Brasil.

No intervalo, alunos e professores de algumas faculdades vieram falar comigo, vários da Facamp. O então coordenador do Curso de Relações Internacionais me convidou para um encontro maior na Faculdade. Fui, falamos muito e no final veio a proposta de criar um Núcleo de Estudos Árabes da FACAMP.

Aprovado pela diretoria, Professores João Manuel Cardozo de Mello, Liana Aureliano e Luiz Gonzaga Belluzzo veio o maior desafio; como o curso iniciava às 8h e se encerrava às 17h eu tinha apenas o horário do almoço, das 12h às 13h30 para realizar o meu projeto. Como estudar e pesquisar os 22 países árabes no horário do almoço? Reuni tudo, experiência, criatividade, coragem e audácia. Começamos com 11 alunos. Elaborei um projeto até o final de 2006. Visitamos várias instituições e entidades árabes em São Paulo, inclusive a Câmara de Comércio Árabe-Brasileira. Todos me perguntavam: como isto na Facamp? Aqui não se pode sair, estágio só no último ano. A metodologia criada não diminuía o estímulo ao estudo pelo contrário, motivava. Realizamos eventos internos e externos.

Em 2009 convidei o embaixador da Palestina Ibrahim Al Zeben para fazer a aula inaugural. Foi o primeiro embaixador a visitar a Facamp em seus dez anos de existência. Depois vieram outros. Fizemos parceria com o DCE e com o curso de Publicidade e Marketing, sempre em relação aos árabes. Terminamos 2009 com quarenta e nove alunos, em duas turmas divididas em 10 grupos de trabalho. Hoje o NEAF está integrado a grade curricular em horário normal de aulas.

Muitos dos aqui citados contribuíram para a formação de meu patrimônio cultural que me permitiu realizar estas ações e as próximas que virão. Não dá para fazer uma lista, mas não posso omitir, os amigos do SESC, o meu colega sociólogo Danilo Santos de Miranda, hoje diretor regional no Estado de São Paulo, Joel N. Padula, superintendente técnico e Evandro Ceneviva gerente do SESC/Campinas, a forte presença dos embaixadores palestinos, Farid Sawwan, com quem militei durante oito anos, Musa Amer Odeh, Mayada Bamie e Ibrahim Al Zebem que conheci na Nicarágua na Campanha de Solidariedade a Luta Sandinista durante a colheita do Café, depois em Cuba e durante muitos anos no Brasil. Em Campinas, Mohamed Habib, pró-reitor de Extensão e Assuntos Comunitários da Unicamp, vereadores Sérgio Benassi e Dário Saadi. Muito antes, Monsenhor José Salim criador da PUCC, mestre Padre Pedro e o companheiro Alfredo Sulzer.

Eis o legado de uma Cultura Milenar que sempre contribuiu para o conhecimento, que segundo o Profeta Mohamad, que Deus o tenha, ”vá buscar conhecimento nem que seja na China”. Vamos abreviar, vá para a Facamp. As inúmeras histórias contadas pelo Ahmad Abdallah El-Khatib, meu pai, estão produzindo resultados. Salam.

* Sociólogo, Professor, Escritor e Arabista. Colunista da Revista Sociologia da Editora Escala, da Fundação Maurício Grabois e do Vermelho. Foi professor de Sociologia e Ciência Política da UNIMEPentre 1986 e 2006. Presidiu o Sindicato dos Sociólogos do Estado de São Paulo de 2007 a 2010.Recebe mensagens pelo correio eletrônico lejeunemgxc@uol.com.br.

* Opiniões aqui expressas não refletem necessariamente as opiniões do site.


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