3 de Março de 2010 - 0h01

Memória, compromisso e via-crúcis: do "Resgate" ao Samu

Fatima Oliveira *

Cultuo respeito irrestrito por quem trabalha em serviço móvel de urgência. Ano passado, viajando para Diamantina, entendi minha deferência ao Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). O motorista da Pampulha Turismo era de uma gentileza que, de longe, se via que "era de berço". Ele mencionou que seu sonho era ser motorista do Samu, pois as ambulâncias desse serviço o emocionavam. A mim também.


O ideal seria que todo mundo amasse, entendesse as singularidades e a importância do que faz e demonstrasse apreço pela história do seu local de trabalho e zelasse pelo seu nome. Lembra do "Resgate"? Vou contar. É de onde foi parido o Samu 192, principal componente da Política Nacional de Atenção às Urgências, criada em 2003 pelo Ministério da Saúde.

Lembra de Belo Horizonte sem "Resgate"? Nem vale a pena. Em 1995, o prefeito Patrus Ananias, do alto de sua incomensurável sensatez humanista, entendeu que uma cidade do porte da nossa não poderia prescindir de um serviço público móvel para as urgências médicas e depender apenas do trabalho abnegado do Corpo de Bombeiros. Era convicto que a ressurreição da atenção digna à saúde exigia desatar aquele nó. Foi uma sacada de mestre! E colocou gente para correr atrás, ver experiências mundiais. Não ficou contando tostão por tostão. Decidiu ter uma política assim, custasse o que custasse.

De Rouen, a bela capital da Normandia, cidade francesa irmã de Beagá, vieram dois médicos assessorar a Prefeitura de Belo Horizonte. Logo após, três médicos da PBH - Helvécio Magalhães, Jorge Nahas e Marcelo Torres - passaram 45 dias em Rouen e cerca de nove regiões da França, observando serviços, protocolos e atenção humanizada, ao estilo do que os franceses são mestres. Na volta, montaram o "Resgate", ideia pioneira no Brasil, modelo para o Samu 192 em âmbito nacional.

Contato o Samu tão logo assumo o plantão, mesmo quando havia reguladores onipotentes e sem traquejo, que diziam: "Trabalhamos com vaga zero, se precisar vou levar!". Eram palavras que rompiam meus tímpanos. Vaga zero para salvar vidas é um conceito sagrado, mas pra deixar morrer à míngua é crime hediondo! Lamento a ignorância da frase de Lenin: "Duas coisas a burguesia nos legou, e não podemos dispensá-las: bom gosto e boas maneiras". Em respeito ao Samu, aviso até quando a "maca de parada" fica livre.

O papel do regulador é "regular vaga" e não impor doente grave onde ela inexiste. Sem vaga e sem equipamentos, os entreveros são titânicos com reguladores inadequados para a função e inflados de onipotente touperice. Via de regra, as equipes do Samu são cordatas e dotadas de senso de cumprimento do dever. Hoje, pelo menos duas vezes por turno, telefonam para saber da "situação". Solidários na via-crúcis, sofremos juntos a tortura da insuficiente retaguarda de leitos hospitalares para desafogar pronto-socorros e assemelhados.

Recupero a história para que ela seja honrada e cultuada pelos servidores do Samu e pelo povo, que às vezes abusa, usando o serviço como transporte sanitário. Há pessoas que inventam quadros graves e acionam o Samu quando vão ao pronto-socorro apenas em busca de uma consulta!

O Samu é um equipamento público com fim definido, que não é "transportar" pessoas, mas prestar socorro nos casos em que a vida corre riscos. O "Resgate", hoje Samu, que se firmou como um modelo de serviço de excelência, em sua origem é conquista e patrimônio do povo belo-horizontino. Doa em quem doer, Patrus Ananias é o pai do "Resgate" e avô do Samu.

* Médica e escritora. É do Conselho Diretor da Comissão de Cidadania e Reprodução e do Conselho da Rede de Saúde das Mulheres Latino-americanas e do Caribe. Indicada ao Prêmio Nobel da paz 2005.

* Opiniões aqui expressas não refletem necessariamente as opiniões do site.


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