Brasil

16 de julho de 2009 - 12h24

Família Gurjão Farias: "Bergson era um diamante lapidado"


Terceiro filho de Luíza Gurjão e Gessiner Farias, Bergson era o filho reservado porém brincalhão. Moradores da Rua Dom Joaquim, no centro de Fortaleza, sua vida estudantil iniciou-se na escola Paternon Santa Luzia que tinha como diretora Dona Liryce Porto, quando junto a Tânia e Ielnia, Bergson deu seus primeiros passos escolares. Passados os anos, as irmãs seguiram para estudar no colégio da Imaculada Conceição enquanto Bergson já com o irmão Gessiner Junior seguiram para o Colégio Brasil. Ele passaria ainda pelo Colégio Batista Santos Dumont e também pelo Castelo Branco, primeiro curso preparatório para vestibular na época.

 

Em meio às recordações, Tânia comenta sobre sua dedicação à vida escolar. “Acho incrível como ele conseguia as coisas. Já perto de terminar o curso secundário, Bergson chegou para conversar com papai que iria perder o ano por conta da disciplina de Química. Severo, papai disse que achava melhor que ele se dedicasse e estudasse pois não admitiria que um filho ficasse reprovado. Em um mês, Bergson estudou e conseguiu tirar o dez que precisava. Logo em Química, curso que anos depois entraria na Universidade”.

 

Ielnia relembra outro fato de quando, após uma sequência de notas ruins, Bergson tira nota máxima da disciplina. Desconfiado, o professor o repreende diante de toda a turma e questiona de quem ele tinha “pescado”. Firme, ele confirmou que tinha estudado. Para comprovar, o professor desafia Bergson e pede que ele resolva determinado problema no quadro negro. Com o êxito, o próprio professor pede desculpas a Bergson diante da turma e pede que os alunos se espelhem no colega. “Ele era inteligentíssimo mas se preocupava com coisas extras e sempre deixava os estudos para última hora. Sua persistência e convicção sempre foram marcas de sua personalidade”, reforçou a irmã.

 

Aprovado pela primeira vez para o curso de Química pela UFC, Bergson tinha pontuação mas não conseguiu entrar porque não tinha vagas. Enquanto não era chamado, serviu o Exército no CPOR (Centro Preparatório de Oficiais da Reserva) mas não chegou a ficar seis meses porque foi chamado para entrar na Universidade.

 

O atleta

 

Segundo as irmãs, antes dos músculos, Bergson desenvolveu o cérebro. Campeão Cearense e Vice Campeão Brasileiro de Xadrez, o Sr Gessiner incentivava os filhos a praticarem o esporte. “Papai era brilhante. Tinha uma memória fotográfica e desafiava até quatro adversários de uma vez. Ele sempre organizava torneios com os vizinhos da rua para que a gente participasse”, relembrou Ielnia.

 

Natação e Tênis também foram praticados por Bergson mas foi no Basquete que ele se destacou. Sócio do Náutico Atlético Cearense, ele começou a participar da equipe na categoria infantil, depois juvenil e em seguida passou para o time oficial. “Viajou o Brasil todo. Lembro de competições em Belém e no Rio Grande do Sul”, relembra Tânia, também atleta do mesmo esporte no mesmo clube, que cita o nome de alguns colegas de Bergson na época: Roberto Bastos (técnico), Aziz Jereissati, Zé Flávio Teixeira, Raul Santos (Raulzinho), Ercílio, Guilherme Bacila, Niltinho e o Jipe. 

 

O brincalhão

 

Em casa, Bergson era considerado o palhaço. Apesar de calado, estava sempre de bom humor. Segundo Tânia, ele adorava cantar. “Uma marchinha que ele sempre que chegava em casa cantava: Quem quer meu papagaio? Era uma graça... Ele dançava e parecia aqueles bonecos de Recife”, recorda a irmã.

 

Sr. Gessiner, certa vez, o elegeu “o beijoqueiro oficial da casa”. Com o pai, pareciam duas crianças. “Certa vez, durante uma brincadeira, encostou o pai na parede”, relembrou Tânia. Na rua gostava de fazer pipas e em época de festa junina vendia fogos de artifício. Junto com o pai, organizava os campeonatos de Xadrez com a vizinhança.

 

Para se divertir, gostava de festas e cinema. “Ele sempre nos acompanhava nas tertúlias. Era super cuidadoso e extremamente ciumento. Certa vez, por causa de um ciúme, acabou meu namoro que só durou dois dias”, relembra Ielnia.

 

Outra característica destacada pelas irmãs era a de apaziguador. “Quando os irmãos brigavam, coisa normal em qualquer família, era sempre ele quem interferia nas confusões. Eu e ele geralmente formávamos um bom time”, relembra Ielnia com um sorriso discreto.

 

O homem dedicado

 

Com a preocupação em ajudar os outros, Bergson começou a se dedicar às causas sociais. Quando assumiu a presidência do Diretório Acadêmico dos Institutos de Ciências da UFC,  criou um cinema de arte na entidade. “Lá, os estudantes tinham acesso às sessões de graça. Lembro de uma vez que fui assistir lá um filme sobre a vida de Oscar Wilde”, recorda Ielnia.

 

Outra ação encaminhada por Bergson foi a criação de um cursinho gratuito que dava aulas de matemática. O cursinho era preparatório para o vestibular. Ele também encabeçou uma cooperativa que vendia material escolar para estudantes carentes. “Nesta época ele tinha mais ou menos 19 anos e já desenvolvia ações de cunho social”, reforça Tânia.

 

A entrada na política

 

Segundo Ielnia, a entrada na política era uma evolução quase que natural. “Tínhamos fortes raízes desde nossos avós, que participavam de encontros com grupos de esquerda na época, até nosso pai para quem as causas comuns, sociais eram mais importantes que as individuais”. Ela relembra que em casa sempre havia discussões políticas, diálogos sobre eleições. As conversas aconteciam independente da idade dos filhos. “Lá em casa todos tínhamos uma forte consciência política e vivíamos num ambiente de liberdade”.

 

Tânia começou a observar uma certa mudança de comportamento de Bergson ainda na época em que ele estudava no Colégio Batista, próximo de terminar o curso secundário. “Notei que ele ficou mais calado, mais reservado. Acho que foi naquela época que ele começou a se envolver com determinados grupos políticos”, avalia.

 

Já com o avançar dos anos, na época da passeata que aconteceria no centro de Fortaleza e teria a concentração em frente à Faculdade de Direito, o delegado da polícia civil Alencar Monteiro, que morava vizinho à família, avisou ao Sr Gessiner para não deixar os filhos participarem da manifestação porque era certa a presença da polícia no local. “Papai nunca proibiu a gente de fazer nada mas, aflito, sugeriu que nós não fossemos. Bergson o questionou: papai, se o senhor fosse estudante, iria? Ele confirmou que sim. Imagino o conflito que ele viveu pois, como pai, tinha o dever de defender os filhos mas também acreditava na luta contra a Ditadura”, avalia Ielnia. Sr. Gessiner faleceu em 1988.

 

O desaparecimento

 

Após ser banido da UFC, Bergson foi embora para São Paulo, onde segundo Tânia, trabalhou como vendedor de enciclopédias. A irmã mais velha revela que ainda o encontrou algumas vezes na capital paulista quando conversavam até altas horas da noite. “Nunca soube onde ele morava. Ele só me dizia que dividia a casa com um bando de gente. Certa vez me falou que ia sair do emprego e estudar na Tchecoslováquia. Pediu que eu avisasse ao papai mas reforçou que sempre daria notícia”.  Nesta conversa, ainda segundo Tânia, Bergson falou que tinha feito tratamento nos dentes para não ter problemas por lá. “Depois disso, Bergson voltou acompanhado do João de Paula (na época estudante de Medicina e vice-presidente da UNE) me entregando parte do dinheiro que tinha recebido no trabalho e pediu para eu não me preocupar. Foi a última vez que vi meu irmão”, recorda Tânia.

 

Ielnia recorda que supôs que Bergson havia morrido quando foi presa em Parnaíba. “Durante a prisão, sob tortura, começaram a me perguntar sobre o Bergson, me mostravam retratos de várias pessoas, dentre elas o meu irmão. Recordo que algumas fotos tinham uma cruz como marca no canto. De repente, percebi que eles pararam de me perguntar. Provavelmente ele tinha sido assassinado recentemente”.

 

A confirmação

 

Tânia recebeu a notícia pessoalmente através da secretária-executiva da Comissão de Mortos e Desaparecidos, Vera Rotta. ''Ela me disse que o resultado dos exames tinham dado 99,99% de certeza de ser o Bergson. Quando o ministro (Paulo Vannuchi, da Secretaria Nacional de Direitos Humanos) disse: 'eu lhe garanto que é'. Então é!''. Segundo Tânia, a sensação que teve foi de esvaziamento na cabeça. “De repente queria perguntar, contestar, mas foi definitivo. Fiquei triste por algum tempo mas depois agradeci pensando na mamãe”, revelou. Ela afirma ainda que Dona Luíza chorou muito com a confirmação. “Era o choro de 37 anos”.

 

Já Ielnia teve outra sensação. “Achei que estava preparada. Na realidade não estava. Sempre tive a intuição de que o X2 era o Bergson. Liguei para o Brasil e a mamãe me falou por telefone que tinha acabado de sair a confirmação. Sozinha em casa fiquei pensando em todos os anos que esperei por isso. No momento em que desliguei o telefone, tive a sensação de que as coisas tinham acabado de acontecer. Coloquei um CD da Maria Bethânia cantando músicas de Noel Rosa e chorei por um longo tempo. Ainda hoje ouço Noel mas com uma alegria terrivelmente triste”, revela.

 

Perguntadas qual palavra definiria Bergson, as irmãs se emocionam. Após um longo tempo pensando, Ielnia tenta: “Não consigo encontrar esta palavra. A palavra não é dedicado, nem desprendido. Ele era uma pessoa que não pensava em si mas sempre nos outros”. Tânia dá uma resposta simbólica: “Ele era um diamante lapidado. Cheio de facetas e muito brilhante”.

 

Dona Luíza

 

Com forte influência do pai na personalidade, perguntamos às irmãs qual característica de Dona Luíza Bergson carregava. “Ele era muito paciente e tinha esse jeito bonachão, um jeitinho de ajeitar tudo”, revelou Tânia. Ielnia complementou: “essa paixão pela música também é característica da mamãe”. Bergson era grande admirador de Noel Rosa.

 

Já no final da entrevista, aproxima-se a figura doce e forte de Dona Luíza, matriarca da família. Aos 94 anos, com um jeitinho meio calado, começa a tecer alguns comentários sobre Bergson. Pego minha agenda para anotar e logo sou repreendida. “Não anote nada não. Tenho que ter confiança”. Após tantas declarações, fomos autorizados a divulgar um fato curioso que aconteceu quando a família ainda morava na Rua Dom Joaquim, no centro de Fortaleza.

 

Certa vez, segundo Dona Luíza, comentou com Sr. Gessiner que a família precisava de uma geladeira. Após alguns dias de discussões de como seria comprado o eletrodoméstico, o equipamento foi adquirido. Para ornamentá-lo, um pinguim, como de costume. Passados alguns dias, acabou o dinheiro para comprar a carne que alimentaria a família. Dona Luísa, preocupada com a carência de dinheiro e a precisão de se comprar o alimento, comentou com Sr Gessiner. A resposta foi: “Pois mate o pinguim”. Este era o clima da família Gurjão Farias. Em meio a gargalhadas de todos, nos despedimos deste encontro repleto de memória e emoções.

 

Curiosidades

 

Bergson adorava o livro “O Pequeno Príncipe”, de Saint Exupery e, por conta do livro, fez curso de aviador. Chegou até a fazer o voo solo.

 

Bergson foi escoteiro. A família soube por acaso porque uma tia foi à missa na Igreja do Cristo Rei, viu a movimentação. Curiosa, se aproximou da solenidade e o viu de longe. Ela foi madrinha do sobrinho durante o Fogo de Conselho.

 

Durante a entrevista, Tânia recebe uma correspondência e mostra via web cam para a irmã que conversa conosco direto da Flórida. Na expectativa, Ielnia recebe com imensa alegria a boa notícia. O documento comprovando que ela trabalhou durante um tempo na empresa Vegetex de onde foi retirada por um grupo de desconhecidos para um local não identificado. Ielnia foi presa mas não possuia nenhuma documentação que comprovasse. Com a declaração, ela agora poderá dar entrada no pedido de reparação financeira por ter sido mais uma vítima de crimes na época da Ditadura Militar

 

De Fortaleza,

Carolina Campos com colaboração de Inácio Carvalho



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