Brasil

28 de maio de 2017 - 20h38

Gilse Cosenza: História viva do PCdoB


Gilse Cosenza foi uma das responsáveis pela reorganização do PCdoB no Ceará Gilse Cosenza foi uma das responsáveis pela reorganização do PCdoB no Ceará
Há mais de dez anos distante, Gilse Cosenza volta ao Ceará para rever os amigos e receber justas homenagens alusivas ao Dia Internacional da Mulher. O Vermelho/CE acompanhou a conversa da comunista com dirigentes do PCdoB que trabalham sobre a história do Partido no Ceará. Perseverança, força e determinação são adjetivos desta mineira que acolheu o Ceará no coração.

Leia a seguir a íntegra da matéria:

Era noite de terça-feira, dia 22/03, quando Gilse Cosenza se encontrou com um grupo de dirigentes comunistas na casa do deputado estadual Lula Morais (PCdoB) para relatar sua trajetória política e sua experiência na reorganização do PCdoB. O objetivo do encontro era documentar a história do Partido Comunista e preparar uma publicação para o futuro, mas o papo foi além. Não tem como não se emocionar com a trajetória desta pequena grande mulher.

A mineira Gilse Cosenza teve a vida marcada pela luta em defesa dos direitos dos brasileiros. Cada passo de sua trajetória traz a marca de dias difíceis e de incontáveis vitórias. Ainda jovem, aos 16 anos, Gilse ingressa num colégio interno de freiras. Lá conhece a Juventude Estudantil Católica (JEC) onde ajudou a criar o grêmio estudantil. A principal atuação do grêmio era mobilizar as alunas na luta pelas reformas de base propostas pelo presidente João Goulart. “A partir de então, passei a me envolver também com as questões sociais. Passamos a lutar pelo direito à educação pública para todos em Belo Horizonte.” Na época, segundo Gilse, a capital mineira só contava com duas escolas públicas para o 2º grau (hoje, ensino médio).

O movimento das alunas ampliou o leque de atuação e a mobilização foi feita para que elas dessem aulas para analfabetos. “Íamos às favelas e usávamos o método de Paulo Freire. Com o contato com a realidade dos moradores vindos do campo, ampliamos novamente nosso tema de discussão e passamos a defender, além da Educação, as Reformas Agrária e Urbana”, relembra.

Gilse terminou o 2º grau decidida a fazer um curso superior que a colocasse no centro dos problemas sociais e optou por Serviço Social. Em 1964, foi aprovada em 1º lugar no vestibular da Pontifícia Universidade Católica - PUC de Minas Gerais. “Caloura, chegamos à faculdade no dia 1º de abril, mas a cidade amanheceu diferente. Pelo rádio, soube do golpe militar. Reunimos a turma e decidimos não assistir às aulas naquele dia. Partimos em direção à Praça Sete, (centro de Belo Horizonte), pois consideramos que lá deveria ter mais gente que nos orientasse”, recorda. Em passeata, os alunos do Serviço Social encontraram pelo caminho estudantes de diversos cursos. “A gente não tinha armas, mas teríamos que descobrir meios de resistir.”

O ingresso na ação política

Segundo Gilse, foi naquele 1º de abril de 1964 que ela chegou à conclusão de que para enfrentar a repressão não bastava uma ação limitada da juventude católica. “Era preciso entrar numa organização política que pudesse dar conta de enfrentar a ditadura. Foi quando procurei a Ação Popular (AP).” Com a resistência dos estudantes dentro da legalidade, Gilse foi eleita presidente do Diretório Acadêmico do Serviço Social da PUC-MG. Já militando pela AP, expandiu a ação para outras escolas da PUC, formando um núcleo da organização na universidade. Em 1966, foi eleita vice-presidente do Diretório Central dos Estudantes (DCE). Foi quando assumiu a luta pública contra a ditadura.

Em 1967, quando já terminava o mandato no DCE, Gilse foi eleita membro da Executiva Nacional de Serviço Social. “Mesmo inserida no movimento estudantil, sempre gostei de estudar. Era destaque pelas ótimas notas. Terminei o curso em 1967 com media 9,5. A ideia era me formar e continuar na militância.” Devido ao bom histórico, foi convidada a ser professora da PUC. “Imaginava estar diante de uma sala de aula com jovens chamando-os para a luta. Foi quando recebi um aviso de que existia uma lista de lideranças estudantis com nome de pessoas que deveriam ser presas de imediato. E o meu nome estava entre eles. Tive que sair da casa do meu pai escondida, não pude colar grau e comecei a viver na semiclandestinidade.”

O casamento

Gilse ainda cursava o 3º ano da faculdade quando conheceu, numa passeata, aquele que seria seu companheiro por mais de 20 anos. Após serem perseguidos, um grupo de alunos invadiu a Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais. Na fuga, muitos ficaram machucados. “Dentre eles, um companheiro da AP da Faculdade de Economia, Abel Rodrigues, que estava com uma mão machucada que cuidei. Ficamos um dia e uma noite inteira sitiados lá. Nesta mesma manifestação o então vice-presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), Renato Rabelo [atual presidente nacional do PCdoB] estava presente”, relembra. As negociações davam conta de que a repressão permitiria a saída de todas as moças. “Eu fiquei indignada. Discursei dizendo que foi-se o tempo onde as mulheres ficavam trancadas em torres de cristal. Ou nos deixam empunhar as lanças, junto com os homens, ou também ficaremos aqui. Daqui só sai todo mundo ou ninguém. Consegui reverter a assembleia e os militares garantiram que todos poderiam sair sem ser presos”, recorda.

Após a proximidade com o cuidado do ferimento, Gilse considerou ter encontrado em Rodrigues mais que um simples companheiro. “Achei ele um amor e enquanto a polícia nos sitiava lá fora, viramos namorados na luta.”

Com a repressão apertando, Gilse avaliou que era hora de sumir. Junto com Abel avaliou que ambos poderiam ser presos logo. “Procuramos meus pais e instaurou-se uma crise familiar. Como a filha mais velha de uma família de classe média, conservadora, patriarcal iria fugir sem casar? Meu pai ainda não admitia que a filha tenha ido parar na universidade, fazer política contra o governo e participar de encontros clandestinos.” Ao informar aos pais que fugiria de Belo Horizonte com Rodrigues, os pais, chocados, pediram que eles casassem. “Pensamos: casar não custa nada, nem tira pedaço. Encontramos um padre progressista e resolvemos oficializar a união.”

A irmã Gilda, que namorava Henrique de Souza Filho, o cartunista Henfil, também decidiu casar. “A gente casa tudo de uma vez. Eu de minissaia vermelha e ela, azul piscina. Foi um escândalo. Nosso pai dizia que o povo ia pensar que não éramos mais virgens. Cedemos a cor e ele o tamanho da saia”, recorda sorridente. A cerimônia aconteceu no dia 13 de janeiro de 1968, em seguida Gilse Westin Cosenza Avelar e Abel Rodriges Avelar partiram para a clandestinidade.

A clandestinidade

Num primeiro momento, o casal ainda morou em Belo Horizonte e Gilse ainda tentou continuar seu trabalho na antiga Febem. “Pouco tempo depois fui avisada de que havia sido decretada a prisão preventiva de 17 estudantes, inclusive eu. Saí do trabalho, passei na faculdade de Economia e avisei Rodrigues. Ele pegou os livros e disse que sozinha eu não iria. Juntos, fomos para outra favela e passamos a trabalhar numa tecelagem onde conseguimos, por certo tempo, sobreviver e fazer política com as operárias.”

Pouco tempo depois, recorda Gilse, surgem novos problemas. “Naquele tempo em que ninguém sabia o que era assédio moral, um chefe quis se engraçar comigo e me transferiu para outro setor. Falou que se eu fosse boazinha, seria contratada e passaria a ser a chefe de setor. Ele começou uma perseguição e me criou problemas pois não poderia denunciá-lo já que estava visada pela repressão.”

Neste período Gilse descobre que está grávida. “Minha situação complica mais ainda. Eu já usava o nome falso de Márcia. A tecelagem passou a ser alvo de investigações, policiais levavam fotos dos perseguidos para as portas das fábricas. Diante disso vimos que já não era mais possível ficar em Belo Horizonte.”

Com o objetivo de organizar camponeses e trabalhadores rurais, Gilse e Abel trocam novamente de moradia. “Fomos morar perto da cidade mineira Coronel Fabriciano. Mudei de nome novamente e passei a usar Ceci. Tivemos que recomeçar do zero. Aprender a plantar arroz, usar a enxada, viver como eles. Foi um período complicado pois a gente não sabia trabalhar na terra. Além disso, tivemos que conviver com machismo e pensamento retrógrado. Mesmo assim, era preciso conviver e não chamar atenção”, recorda.

Aos poucos, o casal se adaptou à nova rotina. Ceci lavava roupa no rio e levava comida na roça para o marido. Na volta, visitava as casas das pessoas da vizinhança. Numa dessas visitas, encontrou uma criança prestes a morrer. “Ela estava coberta de feridas, tinha febre e vômitos. Com uma maleta que eu tinha com remédios tipo amostras grátis, comecei a tratá-la, dar banhos e chás. Em 15 dias, a criança já brincava na rua e a mãe, antes aflita, disse que queria que eu fosse madrinha do próximo filho que tivesse. Foi quando começaram a me chamar de Cumadre Ceci.”

Era dezembro de 1968. Ceci já era respeitada na localidade e conversava com as mulheres sobre a realidade das explorações, saúde e cuidados. “Rodrigues conversava com os maridos sobre a roça e propôs outra forma de trabalhar. Juntos, resolveram trabalhar em forma de mutirão. O trabalho começou a render e ficamos ainda mais queridos na região”, recorda.

A gravidez

O trabalho ia bem, o casal já estava integrado com a comunidade, os sinais da gravidez já apareciam. “Foi em 13 de dezembro de 1968 que decretaram o Ato Institucional nº 5 (AI-5). Aí a coisa ficou brava e ficamos ainda mais atentos. Em janeiro do ano seguinte, recebemos um recado de que deveríamos ir a Belo Horizonte para uma reunião da AP a fim de discutir como sobreviver ao AI-5. Já era fevereiro e eu estava com sete meses de gravidez. Na reunião clandestina, ia o tempo inteiro ao banheiro e descobrimos que eu tinha entrado em trabalho de parto.” O imprevisto desarticulou a reunião. Todos foram mobilizados para encontrar um médico progressista que pudesse realizar o parto. “Lembro que uma colega chegou a dizer que era tarefa revolucionária não deixar o bebê nascer antes da chegada de um médico”, recorda rindo.

Gilse foi para um hospital. Ao ser atendida por estudantes de Medicina, notou que eles pareciam preocupados. “Ouvi o comentário de um deles dizendo que eram duas cabeças. Entrei em pânico porque só aí descobri que estava grávida de gêmeos. No dia seguinte nasceram Juliana e Adriana.”

As meninas prematuras ficaram internadas na incubadora do hospital e um casal de amigos se prontificou a esconder Gilse. Quinze dias depois, Adriana morreu. “Ela foi enterrada numa caixinha de sapatos. Juliana voltou ainda fraca. Para alimentá-la tinha que pingar leite com conta-gotas. Juliana não abria os olhos e teve várias doenças”, recorda.

Gilse, Abel e Juliana viveram ainda sob o abrigo de outros casais para fugir da polícia. “No dia 17 de junho de 1969, com a repressão violentíssima, era aniversário da minha irmã, Gilvania. Pensei que seria um bom dia para dar notícias aos meus pais que, desde minha fuga, não tinham contatos comigo. Estava dentro de casa quando bateram na porta anunciando que era da polícia. Minha mãe os atendeu pela porta de vidro. Os policiais anunciaram a prisão do meu irmão Gildásio e disseram que viriam revistar a casa à minha procura. Peguei a identidade da minha irmã, que parecia muito comigo, coloquei um lenço na cabeça e pulei do sobrado até chegar na outra rua.”

A prisão

Preocupada com a prisão do irmão e com a de outros colegas, Gilse foi até o “aparelho” para informar sobre as baixas. “Lá, fui identificada pela pinta no lado direito do meu pescoço. Levaram-me para a ‘solitária’, onde fiquei três meses sendo torturada. Depois, fiquei junto com outras presas políticas. Levaram-nos para um interrogatório. A intenção era que a gente entregasse mais fugitivos. Achávamos que seriamos mortas neste dia.”

Gilse recorda a crueldade que os policiais faziam com ela. “Eles descreviam as torturas que fariam com a Juliana, que nesta época deveria estar com 6 ou 7 meses. Eu entrava em pânico! Quase enlouquecia ao imaginar que ela poderia estar sendo torturada. A única coisa que eu pensava era que precisava enlouquecer rápido”, admite.

Notícias de Juliana

Transferida para uma prisão em Juiz de Fora, Gilse teve acesso a um advogado. “Eles não permitiam muita conversa, mas pelo menos era uma visita. Nesta época, fizemos uma greve de fome para ter direito de assinar um jornal e ter notícias do mundo. Na primeira edição que recebemos, as meninas correram pra ver a primeira página. Pedi para ver a página que tinha os quadrinhos. Queria ver as charges do meu cunhado Henfil. Na hora que abri a charge, vi o desenho de um bebê de cabelo encaracolado. Nas letras, a referência a Juliana. Sabia que ele tinha feito isso pra mim. Só assim soube que ela estava bem. Depois descobri que, desde que fui presa, ele deixava recadinhos com a esperança de que chegassem a mim.”

A absolvição

Gilse considera ter tido “sorte” para ser absolvida. “Atribuíram a mim vários processos, inclusive no Rio de Janeiro onde nunca fiz nenhuma manifestação. Eles alegavam ser prova de que eu era uma pessoa perigosa, meu currículo. Uma pessoa considerada ‘subversiva’, com inteligência precisa ser condenada, consideravam.” Para os militares e para a Justiça, o único crime cometido por Gilse era ser inteligente demais. “Meu advogado foi brilhante. Ele falou que concordaria se eu fosse condenada mas, junto com minha a sentença, pediria a condenação de todo o júri. Fui absolvida por unanimidade.” Ainda no julgamento, Gilse viu os familiares, dentre eles, alguém que chamou atenção. “Juliana estava linda, de macacão azul. Fazia mais de um ano que não a via.”

Após o julgamento, Gilse foi orientada a sumir novamente. “Meu advogado disse que seu eu fosse presa novamente, poderia ser ainda por. Ele pediu pra eu esquecer que era mineira.” Em São Paulo, a comunista reecontrou a Abel e Juliana e soube do debate interno na AP sobre a incorporação ao PCdoB. “A orientação era de que eu deveria trabalhar como comerciária na periferia paulista e começar nova vida clandestina.” Nesta época Gilse passou a estudar os documentos do PCdoB e posiciona-se favorável ao ingresso no partido.

O PCdoB

Não demora muito e a AP é incorporada ao PCdoB. Em 1972, Gilse entra no Partido. Em 1973, completa-se sua incorporação pois ela já militava para o PCdoB em São Paulo.

Em meados de 1976, Gilse e Rodrigues recebem a orientação de vir para o Ceará. Nesta época, o casal já tinha outra filha. Juliana tinha entre 6 anos e Gilda, a caçula, por volta de 3 anos e meio.

A orientação do PCdoB era que eles trocassem novamente de nome e a tarefa ordenada pela Direção Nacional do Partido era de que eles trabalhassem como fotógrafos. “Com a prisão de vários militantes, o PCdoB decidiu que deveríamos vir para o Ceará. Nossos contatos eram Benedito Bizerril e Oswald Barroso.” As crianças sofriam com a asma. Médicos orientavam que, se fossem morar perto do mar, elas melhorariam. Nova mudança para a família.

Ceará

A chegada não foi tarefa fácil. “A determinação era que a gente não podia ser preso. Da gente dependia a reorganização do Partido. Demore o tempo que demorar, o PCdoB depende de vocês”, alertou-nos Pedro Pomar. Era segundo semestre de 1976. O desafio inicial era a integração, fazer amigos, manter ligação com a vizinhança. “Pomar nos informou que em dezembro viria nos ajudar.” Não deu tempo. Gilse caminhava pela Praça da Lagoinha, no centro de Fortaleza, quando comprou um jornal com notícias nacionais. “Simplesmente desmontei com o jornal na mão. Na capa, o anúncio da chacina na Lapa. Dentre os mortos, Pedro Pomar. Chegamos à conclusão de que tínhamos que descobrir o Ceará por nós mesmos”, relembra.

A morada foi numa casa simples, na Rua Olavo Bilac. As meninas foram matriculadas na escola. Cecília e Rodrigo, os novos codinomes, trabalhavam com fotografia. “Enquanto isso, a gente procurava livros em bibliotecas para conhecer esta linguagem diferente daqui. Parecia que a gente vivia em outro país. É uma cultura completamente diferente”, compara.

A reconstrução do Partido

Com a prisão e a clandestinidade das principais lideranças do PCdoB, Gilse e Rodrigues passaram a ser o núcleo do Partido no Ceará. Do contato com o advogado comunista Benedito Bizerril, renasce a legenda no estado. Até então, toda atividade dos comunistas girava em torno dos familiares de presos políticos, a luta pela anistia e articulação do jornal Mutirão. O primeiro desafio para recompor o Partido era a tentativa de, minimamente, estabelecer-se. “Acompanhávamos a política do partido através da Rádio Tirana, da Albânia (então um país socialista), gravávamos e transcrevíamos os textos. Com a ajuda de um mimeógrafo, reproduzíamos para distribuirmos cladestinamente. Como não sabíamos para quem enviar, pegamos uma lista telefônica, anotávamos os endereços e fazíamos a distribuição nas caixas de correio”, relembra Gilse.

Benedito Bizerril trouxe contatos dos militantes da época e o grupo passou a direcionar os documentos mimeografados. O trabalho inicial, segundo a comunista, resumia-se a ir para dentro da luta pela anistia e divulgar os documentos do Partido. “Com certa dificuldade, já com um pequeno grupo indicado pelo Benedito, surgem lideranças dos metalúrgicos e ligados aos direitos dos trabalhadores.”

Outra iniciativa que movimentou o PCdoB na época foi o jornal Mutirão. Os jornalistas e militantes comunistas Luiz Carlos Antero e Messias Pontes participavam a empreitada. “Apesar da participação de muita gente, politicamente o conteúdo era direcionado ao pensamento do PCdoB, focando na luta pela anistia e pela Constituinte.”

A força da juventude

Com o crescimento do PCdoB no Ceará, Gilse alertou para a importância da juventude nesta reconstrução. “Sem estudante não dá, tem que ter juventude para dar força ao nosso processo de ampliação. Foi quando nos chegou o contato de um estudante de Medicina que poderia fazer parte do Partido”, recorda. Lula Morais tinha ligação com movimento estudantil. Além disso, Rui Frazão, expressiva liderança de Pernambuco e desaparecido político, era seu cunhado. “Marcamos data e hora para conversar. O encontro aconteceu na Praça Coração de Jesus. A partir de então, aconteceram encontros semanais durante cerca de três meses e Lula Morais passou a ser nosso contato dentro da Universidade.”

O desafio do jovem estudante era distribuir os documentos do PCdoB sem ser preso. “Ele deixou uma pilha de papéis impressos com o ‘Manifesto à Nação’ sob uma árvore, na cantina e nas salas de aula. Os alunos pegavam o documento e, a partir dele, passavam a discutir o tema. O documento era datado, atual e ninguém sabia quem tinha distribuído. Naquela época, o grande problema era retomar a confiança no Partido. Quando alguém se apresentava, era difícil acreditar. Era uma paranoia”, relembra Gilse.

Pós-Anistia

Em 1979, com a Anistia, o PCdoB passa a crescer ainda mais. A cuidadosa, porém eficaz, ação na Faculdade de Medicina ganha força. Juntos, os acadêmicos visitavam bairros de Fortaleza para oferecer serviços de saúde. O contato inicial era feito com uma liderança do bairro que se encarregava de reunir a comunidade. Enquanto uns atendiam, outros orientavam os moradores e alertavam que esta não era função dos estudantes, mas sim do Estado. Para que todos tivessem acesso aos seus direitos, tinham que se organizar. Papicu, Bela Vista e Dias Macedo foram alguns dos bairros atendidos. Desta iniciativa, nasceu a comissão Pró-Federação de Bairros e Favelas de Fortaleza.

Alguns bancários também passam a se integrar ao PCdoB. O Partido foi crescendo, juntando estudantes e organizando bases. “No Ceará era onde o Partido estava mais organizado no país. A gente já tinha influência em várias áreas e atuava em diversas frentes. Estávamos em todo lugar”, recorda Gilse.

Em outubro de 1979, acontece a eleição DCE da UFC. “Luis Carlos Paes [atual presidente do PCdoB/Fortaleza] é eleito presidente e Clodoveu (Veveu) Arruda (atual prefeito de Sobral), vice. O PCdoB coordenava o DCE”, confirma. A criação do jornal Tribuna da Luta Operária, de circulação nacional, coincide com a anistia e a volta dos exilados políticos. “O partido precisava se organizar novamente e a criação do jornal surge como elemento articulador e protagonista no movimento de juntar os comunistas”, considera Gilse.

Em 1980, o Partido já tinha crescido com ações consolidadas nos movimentos operários, estudantil e comunitário. Com ações na universidade, no Sindicato dos Metalúrgicos e junto aos trabalhadores, chega a hora de lançar candidatura do PCdoB nas eleições. A ideia de concorrer nas eleições de 1982 foi amadurecendo aos poucos. A eleição de Chico Lopes para vereador de Fortaleza coroou todo um processo de reconstrução do PCdoB no Ceará. Atualmente, o Partido Comunista é uma das mais respeitadas legendas do estado, com lideranças destacadas e projetos ousados. Muito destas conquistas são graças a Gilse Cosenza, uma mulher que vive muito além de seu tempo e que superou inúmeras e pesadas dificuldades em nome de uma vida mais justa.


De Fortaleza,
Carolina Campos


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