7 de outubro de 2009 - 11h05

37 anos depois, Bergson Gurjão é sepultado com honras de Estado


As homenagens aconteceram no jardim da UFC As homenagens aconteceram no jardim da UFC
Expectativa, ansiedade, sentimento de justiça, emoção. Desde o início da tarde, centenas de pessoas aguardavam a chegada dos restos mortais de Bergson Gurjão a Fortaleza. Amigos, familiares, militantes comunistas, imprensa. A movimentação começou na Capela da Base Aérea de Fortaleza, local onde o avião da FAB (Força Aérea Brasileira) aterrissou.

Recebido por uma salva palmas, os restos mortais de Bergson Gurjão seguiram em carro do Corpo de Bombeiros, acompanhado por cortejo, até a Reitoria da Universidade Federal do Ceará (UFC), onde Bergson cursava Química. Recebida por mais centenas de pessoas, a comitiva que acompanhou o trajeto, se emocionou com a recepção e os jardins da  Universidade serviram de cenário para emocionadas homenagens ao cearense.

O velório de Bergson foi também um grande encontro de gerações. Muitos dos colegas que militaram com o cearense foram render homenagens ao guerrilheiro e o comentário era unânime: “ele foi uma pessoa especial”.

O reconhecimento

Durante cerca de duas horas, vários discursos ressaltaram a importância de se virar esta página da história. Para Augusto Chagas, presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), as homenagens a Bergson respondiam a quem questionava o motivo “para se abrir feridas do passado que nem deveriam ser tocadas”. Segundo o líder estudantil, “trazer Bergson de volta é uma forma de mostrar como a democracia avançou no Brasil nestes últimos anos. Mexer no passado é vislumbrar um futuro melhor e mais democrático para o país”.

Ressaltando o grande valor simbólico que Bergson teve para o PCdoB, Renato Rabelo, presidente nacional do Partido, destacou que “o comunista cearense é um cimento que constrói o sonho de uma nação. O resgate da história dos heróis e mártires de um povo é a base de um futuro grandioso". O dirigente comunista destacou o trabalho realizado pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República. “O que eles fazem tem valor imenso, de grande significado. Pedir desculpas e se retratar em nome do Estado Brasileiro são formas de consolidar a democracia neste país”. Renato Rabelo afirmou ainda que para o PCdoB, ter homens como Bergson representam grande incentivo e força para continuar a luta. “Devemos nos inspirar em exemplos como o Bergson. O que ele plantou, temos que continuar regando para colhermos daqui pra frente”.

O presidente da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, Paulo Abrão Pires Junior, ressaltou que nesses dias em que Fortaleza se transformou na “Capital da Anistia”, os conselheiros puderam presenciar um ato histórico e memorável. “Este é o resgate da dignidade não só do Bergson mas de toda uma nação”. A ex-militante do movimento estudantil, Luizianne Lins, destacou a ação do governo popular do Presidente Lula que luta pelos direitos do povo. A atual prefeita de Fortaleza informou que Bergson Gurjão será homenageado também pelo município. “O nome dele será dado a uma escola no bairro Autran Nunes. Seguindo os padrões do MEC (Ministério da Educação), a escola tem capacidade para 700 crianças e foi demanda do Orçamento Participativo”, confirmou.

A voz dos amigos

Visivelmente emocionado, o deputado federal petista José Genuíno relembrou os tempos em que os estudantes realizavam reuniões clandestinas na Universidade, os contemporâneos militantes do movimento estudantil como o arquiteto Fausto Nilo e o médico Mariano Freitas e ainda comentou sobre o reencontro entre ele, então Geraldo com o amigo “Jorge” (apelido utilizado por Bergson durante a guerrilha). “Bergson vive em cada caminhada de estudantes nas ruas deste país. Hoje, ele volta para esta Universidade, onde tudo começou. Bergson faz parte de uma geração que correu todos os riscos, que deu a vida em nome do que acreditava”.

Outro contemporâneo e colega de militância também discursou emocionado. O presidente do PCdoB no Ceará, Carlos Augusto Diógenes (Patinhas), ressaltou a dedicação incansável da família de Bergson em conseguir encerrar esta triste porém vitoriosa história. O comunista também destacou a presença dos movimentos sociais, juventude, sindicalistas, parlamentares, Universidade e até de companheiros guerrilheiros. Todos unidos para render homenagens ao cearense herói. “Hoje estamos acampados aqui no local que era o nosso Quartel General mas não para sair em passeata, resistindo à Ditadura. Hoje estamos aqui para homenagear você, Bergson. Hoje você volta para casa dignamente, carregando o título de herói do povo brasileiro”.

 Para o amigo Sérgio Miranda (Zó), aquele ato foi muito significativo. “Esta é a celebração da verdade contra a mentira; da memória contra o esquecimento; da justiça contra a vilania”, enfatizou. Muitos foram os adjetivos atribuídos ao amigo de juventude. “Ele era cheio de qualidades. Generoso, sempre foi a mesma pessoa nos mais diversos ambientes em que participava. Quer fosse nos jogos do Náutico Atlético Cearense, quer fosse nas periferias dando aula a jovens carentes ou ainda nas reuniões do movimento estudantil. Valoroso e corajoso, Bergson carrega qualidades que o qualificam como herói, exemplo de ser humano”, ratificou Sérgio.

Em nome da família de Teodoro de Castro, outro guerrilheiro cearense que tombou durante a Guerrilha do Araguaia, o deputado estadual Lula Morais leu uma carta onde os familiares afirmavam que o “tempo não diminui o sofrimento”. “O resgate da história de Bergson nos renova a esperança de também poder sepultar nossos entes queridos”.

Emocionada diante de tantas manifestações de apoio e das homenagens prestadas ao irmão, Tânia Gurjão afirmou: “amo todos vocês porque vocês amam meu irmão. Ele que só deixou bondade, não poderia receber outra coisa que não tanto carinho”, afirmou. Já Ielnia Gurjão agradeceu as demonstrações de solidariedade e carinho e confidenciou. “Minhas emoções ainda estão muito tumultuadas. É um misto de alegria pela chegada e de tristeza pela certeza. Bergson tinha um ideal e somos todos muito orgulhosos do legado que ele deixou para o país”, confirmou.

Memorial

Ao final da cerimônia, Bergson Gurjão, que foi vice-presidente do DCE da Universidade, foi homenageado com uma placa que ficará na Concha Acústica da UFC. Para o vice-reitor Henri Campos, “lá estava ecoando os ecos do Araguaia. Este painel será para sempre o símbolo material. É a nossa forma de eternizar a lembrança de Bergson dentro da nossa Universidade”.

O Ministro Paulo Vannuchi, da Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da  República, ressaltou o empenho do Senador Inácio Arruda e do Deputado Federal Chico Lopes para a realização das homenagens a Bergson no Ceará. “Esta é uma celebração de alegria, cheia de energia. Precisamos ter sempre em mente o exemplo deste bravo guerreiro para conseguirmos transformar liberdade em democracia”, afirmou. O ministro destacou ainda que o trabalho realizado em busca do resgate da história dos desaparecidos políticos tem grande valor. “Não estamos com revanchismo. Só queremos interromper este processo de silêncio”.

Ao final do dia, o corpo de Bergson Gurjão percorreu mais uma vez as ruas de Fortaleza, desta vez em direção ao cemitério Parque da Paz. Lá, depois de quase quatro décadas de espera, ele poderá descansar junto ao pai.

Também estiveram presentes durante as homenagens a Bergson Gurjão o Governador Cid Gomes, o Senador Inácio Arruda (PCdoB), o Deputado Federal Chico Lopes (PCdoB/CE), Daniel Almeida (Líder da bancada do PCdoB na Câmara), Aldo Arantes (Secretário do Meio Ambiente), Deputado Federal Pedro Wilson (PT/GO) e o Deputado Federal Luiz Couto (PT/PB).

Mais sobre Bergson Gurjão

Bergson era estudante de Química na Universidade Federal do Ceará (UFC), vice-presidente do DCE eleito em 1968. Foi preso no Congresso da UNE em Ibiúna e, em 1968, excluído da universidade com base no Decreto-lei 477.

Em 1968, no Ceará, foi gravemente ferido na cabeça quando participava de manifestação estudantil na Praça José de Alencar. Em 1969, foi residir na região de Caianos, onde continuou suas atividades políticas. Em 08 de maio de 1972, foi ferido e morto em combate nas selvas do Araguaia.

A ossada de Bergson foi localizada em 1996, numa escavação feita na região do Araguaia, mas apenas 13 longos anos depois foi confirmada sua identificação. O anúncio oficial sobre a confirmação dos restos mortais foi feito no dia 07 de julho deste ano pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos (SDH) da Presidência da República e pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos.

Balanço da Caravana da Anistia

75 casos de perseguição política durante a ditadura militar foram julgados pela pela 28ª Caravana da Anistia, realizada pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, na Assembleia Legislativa do Ceará.

Outros quatros processos tiveram seus julgamentos adiados e um teve pedido de vistas do relator, conselheiro Virginius da Franca.

De todos, houve apenas um indeferimento, uma ratificação e três declarações sem remuneração. O restante recebeu indenizações.

De Fortaleza,
Carolina Campos


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