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O acesso à internet como direito e o PNBL

A percepção de que a comunicação é um direito humano vai ganhando, a cada momento histórico, mais alcance. Na verdade, o direito à informação e à livre expressão de ideias sempre foi alvo de confronto entre àqueles que não tinham os canais para fazê-lo e os que os possuíam. Em certos momentos essa disputa se deu de forma mais latente do que outras, em razão da situação política e do surgimento de novas tecnologias.

O surgimento da internet tornou esse conflito mais inflamado e está contribuindo muito para ampliar a noção de que é preciso democratizar os meios de comunicação. É o que se pode concluir do levantamento realizado pela BBC de Londres (íntegra em inglês), cujos dados mostram que 4 entre 5 pessoas entrevistadas em 26 países consideram o acesso à internet como um direito fundamental.

Entre as mais de 27 mil pessoas entrevistadas, 87% dos usuários na rede mundial de computadores apontaram que o acesso à internet deveria ser um direito fundamental. Entre os que não são usuários, 71% consideram que deveriam ter o direito de acessar a internet.

Banda Larga para Todos
Entre os brasileiros que respoderam à pesquisa, 91% apontaram que o acesso à internet é um direito fundamental. No Brasil, cerca de 70 milhões de pessoas têm acesso à internet, sendo que destes, apenas metade são de usuários ativo, o que representa algo em torno de 19%.

Por isso é fundamental que a implantação do Plano Nacional de Banda Larga seja acelerado e tido como uma política de Estado e não de governo. Capilarizar a internet por todo o Brasil, fazendo com que o acesso em alta velocidade chegue a todos os municípios brasileiros tem que ser uma prioridade política que só será viabilizada com a participação direta do Estado.

Daí a discussão em torno da recuperação da Telebrás e da ação direta do governo na oferta ao consumidor final, e não apenas na infraestrutura de rede para a operação do setor privado. Isso porque não há interesse desse segmento para investir nos rincões do país, onde o retorno econômico do investimento realizado é praticamente nulo.

Mesmo assim, os empresários desse setor resistem à participação do Estado e operam um forte lobby para tentar garantir seus interesses, postergando a aplicação do PNBL ou alterando seu caráter.

Infelizmente, parece que o governo vai cedendo à pressão empresarial e já anuncia que o PNBL deve ficar mesmo para a próxima gestão e que neste ano haverá apenas um “ensaio” de sua aplicação.

Lógico que a universalização do acesso deve cumprir metas e etapas, e está claro que em 2010 será aplicada uma parcela incial do plano. Mas, o que não podemos aceitar, é que haja uma redução do ritmo de aplicação do plano em razão das pressões políticas contrárias a ele. Estava previsto que até o final de 2010 cerca de 3 mil cidades seriam contempladas pelo PNBL. Essa meta foi reduzida para 300.

Não se pode deixar para amanhã, o que pode ser feito hoje. Construir as condições para universalizar o acesso à internet é um instrumento fundamental para aprofundar a democracia na sociedade.Por isso, é imperativo colocar os movimentos sociais na luta pela imediata implementação do Plano Nacional de Banda Larga.

Alta velocidade para todos

A conexão em banda larga oferecida pelas empresas de Telecom no Brasil – parte delas de capital estrangeiro – é um nicho econômico em que há cresceste procura e limitação de oferta. Esta limitação existe, em parte, porque as empresas privadas que atuam no setor definiram como público alvo setores de maior poder aquisitivo, o que permite a cobrança de taxas elevadas e deixa milhões de pessoas que estão em cidades do interior e periferias sem acesso ao serviço.

Acabar com este gargalo é uma exigência democrática e econômica para o Brasil. A conexão de banda larga é ferramenta indissociável para a inclusão digital de milhões de brasileiros e alavanca primordial para o desenvolvimento econômico e social.

Por isso, universalizar este serviço é uma das bandeiras essenciais da luta pela democratização das comunicações. Este tem sido um dos principais temas abordados nas discussões da Conferência de Comunicação e encontra uma oposição articulada e de grande poder econômico  nas empresas de Telecomunicações.

Principalmente no momento em que o governo federal discute a criação de uma empresa estatal para oferecer conexão de internet em alta velocidade para a população. O debate em torno do tema tem sido polêmico até mesmo no interior do governo, onde para variar o Ministério das Comunicações, liderado por Hélio Costa, tem cumprido o papel de se contrapor à proposta do Palácio e de defender o interesse das Teles.

Ampliar o mercado das Teles
Nas últimas semanas a alternativa para ampliar o serviço de banda larga em debate no governo parecia caminhar para uma saída híbrida, onde o Estado constituiria uma empresa para prover a infraestrutura de cabos para a transmissão de dados, enquanto a oferta do serviço ao cidadão seria feito por empresas privadas.

Velocidade para poucos
A Telebrasil – Associação Brasileira de Telecomunicações – tem defendido ardorosamente que a expansão da Banda Larga seja feita com ampla participação do setor privado, investimentos vultosos do poder público na construção de infraestrura e isenção tributária.

Esta é a primeira das 11 propostas que a entidade apresentou nos debates da Conferência Nacional de Comunicação. O objetivo das empresas é ampliar o mercado e manter uma margem de lucro com a exploração destes serviços.

Pelo projeto híbrido, assinado por Hélio Costa, a meta é ampliar o acesso da banda larga a um custo de R$ 30,00 por mês. Este valor, contudo, não atende à demanda de incluir no sistema a população mais carente.

Concorrência estatal e políticas públicas
Mas, mesmo diante do lobby do setor privado encampado pelo Minicom, a proposta apresentada ao presidente Lula aparentemente não agradou. Lula endureceu o discurso na última semana e pediu novos estudos que prevejam a criação de uma empresa estatal, que oferte não só a infraestrutura mas também o serviço de acesso. Com isso, se criaria um ambiente de mais concorrencia, se garantiria preços mais acessíveis e uma cobertura geográfica maior, já que a empresa estatal poderia levar o serviço em locais onde o setor privado não tenha interesses de chegar.

Está pode ser uma importante iniciativa do governo no sentido da universalização do acesso, medida que deve vir articulada a outras como a criação de pontos de acesso gratuito nas cidades, políticas de incentivo para a abertura de lan-houses, parceria com estados e municípios para liberação de sinal wirelles gratuitos entre outras políticas que incentivem o acesso.

Temos que caminhar para ter mais cidades digitais até, nos transformarmos, quem sabe, num país digital. Como diz o sociólogo e militante dos direitos do cidadão na internet, Sérgio Amadeu da Silveira, isso não acontecerá se ficar ao sabor da regulação do mercado, através da lei da oferta e da procura. Sem a ação contundente do Estado e de políticas públicas neste setor a sociedade brasileira não migrará para a era digital.

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