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Dilúvios, loterias e outros acasos do destino

O destino, esse senhor mal-humorado e perverso, nos prega cada peça! É comum ouvir o lamento de quem se queixa dos infortúnios da vida de forma resignada dizendo: se o destino quis assim, fazer o quê? E esse famigerado destino tem vários nomes: São Pedro, Deus, Casa Lotérica…..Depende da situação e do lugar…

Quis o destino ou a leviandade dos donos de uma casa lotérica no Rio Grande do Sul que novos milionários ganhadores do prêmio da mega-sena sejam condenados à miséria. Isso porque o jogo que fizeram não foi registrado e, segundo se especula, o motivo não foi erro, mas sim desvio do dinheiro dos apostadores para engordar o bolso do proprietário da lotérica!!!! Tem azar maior?

Em São Paulo, o destino atende por São Pedro, o senhor do tempo. Segundo comercial que o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, está veiculando na televisão, os dilúvios que atingiram a cidade são os responsáveis pelo caos em que os paulistanos se viram mergulhados nos últimos meses. Claro, sem chuvas não há alagamentos. Mas pode haver chuvas sem alagamento também, basta que o município invista em infra-estrutura, projetos de ampliação das áreas verdes para melhorar a permeabilização do solo, piscinões, limpeza urbana, identificação de áreas de risco e ações preventivas para evitar mortes.

Quais desses itens tiveram atenção e tratamento prioritário nas administrações de Serra/Kassab? Não nos esqueçamos que o prefeito da cidade era vice de Serra, que abandonou a prefeitura para virar governador e deixou a cidade na mão de seu pupilo.

chuva

E o governo do Estado? Que atitudes têm tomado para evitar os problemas causados pela estação de chuvas? Acertou quem respondeu nenhuma.
E assim, entram chuvas saem chuvas, a cidade mergulhada no descaso e a culpa é dele, do destino, que trouxe o dilúvio, a tempestade…. Coitado, se for encontrado na rua é capaz de ser linchado o pobre. Enquanto isso, Serra e Kassab passeiam impunes.

Categoria: Brasil, São Paulo  Tags: , ,  2 Comments

Isso é São Paulo…

Foto do rio Tietê cobrindo as pistas da Marginal

Foto do rio Tietê cobrindo as pistas da Marginal

Lugar de lixo é na lixeira! Para o Kassab não.

Quando assumiu a prefeitura de São Paulo, o prefeito Gilberto Kassab tomou a decisão de deixar como marca de sua administração o programa Cidade Limpa. Varreu os outdoors da cidade, tirou todo tipo de sinalização, impôs regras para as fachadas dos edifícios e casas, e para a distribuição de matéria nas ruas. O alarido foi grande. Até os críticos do programa se dobraram ao “renascimento da cidade”, que com a retirada de placas e de toda a parafernália de divulgação se reapresentou para o cidadão.

sp_lixoOlharam para cima, mas esqueceram de olhar para baixo e ver que, enquanto se tirava o excesso de sinalizações para desvelar a cidade oculta, nas ruas o lixo ia se acumulando.

Ah! outra medida do Cidade Limpa foi a retirada das lixeiras das calçadas. Isso mesmo, aquelas estruturas de ferro que se impunham de forma ultrajante no passeio público, submetendo os transeuntes ao mau-cheiro, à visão desconcertante dos sacos de lixo. Tiraram as lixeiras, e o lixo saiu dela e foi direto para o chão. A solução, não me pareceu muito inteligente.

Já ia me esquecendo de outra medida que marcou o projeto de uma Cidade Limpa. É que ao lado dessas decisões, a prefeitura reduziu os contratos com as empresas de coleta, diminuindo a frequência da retirada dos lixos das ruas. Afinal, para que jogar tanto dinheiro no lixo, pensou o prefeito.

lixo2O resultado dessas medidas administrativas foi que o lixo se acumulou, os bueiros ficaram abarrotados e, com as chuvas de verão – Tchan Tchan Tchan Tchan – apareceram as enchentes.

Ah! mas alguns insistem em apontar a natureza como a responsável pelas enchentes, afinal estamos passando por um regime de chuvas recorde. É o aquecimento global, a ira de São Pedro.

Os que quiserem crer nesse conto da carochinha tudo bem, mas a verdade é que o caos que a cidade de São Paulo está vivendo dia após dia tem responsável, e ele não vive no céu, está bem aqui, na Terra.

Em tempo:
Enquanto isso, a arrecadação da cidade com multas sobe as alturas. Foram somados aos cofres públicos a bagatela de R$ 473,3 milhões. A indústria da multa já gerou de divisas para São Paulo o equivalente ao orçamento de 5,5 mil municípios do país, incluídas nestes 5 capitais. E não é só isso, Kassab aumentou o IPTU e a tarifa de ônibus também.

E onde estão os investimentos em infraestrutura, transporte, projetos urbanísticos para evitar que a população sofra com as enchentes e tantos outros de que a cidade precisa? Então, aonde está o dinheiro? “O gato comeu e ninguém viu!”

Vida e morte da Roosevelt

Eu nasci em 1971 e, bebê ainda, fui morar na Rua Rego Freitas, próximo à Igreja da Consolação. No coração de São Paulo, já tomado por grandes edifícios, o único espaço público para brincar, caminhar e praticar alguma atividade física era o recém inaugurado conjunto arquitetônico da Praça Roosevelt.

Eu amava aquela praça. Criança, nada entendia do desestre urbanístico que ela representava, mas ficava fascinada com suas rampas, o parquinho, o amplo espaço para lazer. Na parte que ladeava a rua Martinho Prado e a Igreja, muitas árvores e banquinhas de flores abafavam o zunido dos carros. Eu subi em muitas árvores ali, corria para cima e para baixo. Minha avó costumava comprar flores naquelas bancas, na época a moda era ter em casa o Bico de Papagaio. Havia, ainda, no centro da praça, um Pão de Açúcar. Era lá que fazíamos as compras.

Na Rua Martinho Prado havia várias lojas, um restaurante chique (era o que a minha mãe sempre me dizia), um brechó que eu adorava visitar e uma papelaria, onde comprei muitas vezes meus cadernos escolares.

Foi na Roosevelt que exercitei meus primeiros passos no patins – primeiro aqueles de ferro que colocávamos sobre o tenis; depois, de tanto azucrinar, consegui subir ao topo do pódio e ganhei um patins de bota da marca Reebok, o mais badalado da época. A rampa de acesso do pavimento inferior à parte de cima da praça era a minha pista de patins. Tomei muitos tombos por ali.

Na parte de cima, a Praça Pentagonal abrigou durante muito tempo uma escola de circo. Eu gostava de passear ali, ver as piruetas dos aprendizes ou ficar sentada em um daqueles bancos de concreto vendo a cidade do alto. Achava lindo.

O outro lado da praça, que faz divisa com a Rua João Guimarães Rosa, era o ponto de encontro de quem estudava no Caetano de Campos. Eu estudei ali em períodos distintos. Em 1979 e depois em 1990. No primeiro período, a praça era como uma extensão da escola. As primeiras paqueras infantis, as primeiras travessuras.

Foi na década de 80 que a praça começou a apresentar os sinais mais graves de deterioração. Antes mesmo já havia muitas goteiras, rachaduras, as luzes não funcionavam. Mas o tempo é implacável e sem manutenção, sem intervenção do poder público a praça começou a morrer. Os muitos cantos e recantos escuros tornaram-se ótimo abrigo para moradores de rua. A falta de policiamento propiciou o aumento de roubos e furtos. Uma escola infantil que funcionava na praça sofreu inúmeras depredações. Aos poucos os comerciantes foram abandonando o local e também as pessoas, as crianças e a Roosevelt foi sepultada à luz do dia.

Na década de 90, quando voltei a morar na Rego Freitas e a estudar no Caetano de Campos a praça era algo sombrio, a ser evitado de dia e de noite. As ruas ao seu redor morreram com ela. Mesmos os cineclubes que ali resistiam ainda acabaram por sucumbir.

Logo em 1991 fui morar na Rua Augusta, há duas quadras da Roosevelt. Uma amiga, na época estudante de arquitetura que divida o apartamento comigo, fez um projeto de estudo sobre a Praça. Ela me dizia que a Roosevelt era um desastre arquitetônico e que já haviam projetos e ideias de mudar o projeto da Praça. Vinte anos se passaram e nada, nada foi feito.

Até que, recentemente, grupos teatrais começaram a ocupar a Rua Martinho Prado, e com seus bares-teatros resgataram um pouco da vida na região, que convive ainda com os esqueletos da Roosevelt.

O episódio envolvendo o dramaturgo Mário Bortolloto ganhou divulgação nos jornais, mas não é o primeiro caso de violência na região. Se, de uma lado, a Roosevelt é vítima do abandono dos espaços públicos, do império do privado como locus de circulação e convivência, do outro Mário Bortolloto é vítima dessa degradação, da ausência do poder público, de segurança e de projetos revitalizantes para a cidade. Enquanto a cidade estiver abandonada, as pessoas continuarão expostas à violência.

Torço pela recuperação de Mário Bortolloto e fico na torcida para que restituam a vida da praça.

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