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Rondon: Diário de Campo 1. Os Ticunas

por Renata Mielli, de Tabatinga/AM

Depois de seminários, solenidades e treinamentos, chegou a hora de ir a campo fazer o primeiro contato com as comunidades que serão, nos próximos 10 dias, o foco das atenções dos rondonistas. Não sem antes de uma última preparação: uma conversa com o prefeito da cidade, Joel da Silva. Ele fez uma breve apresentação dos principais problemas do município e respondeu várias perguntas dos rondonistas. As mais graves deficiências apontadas foram a precariedade do saneamento básico, a saúde e a falta de tratamento de lixo.

“Boa parte das comunidades vivem em igarapés e alagados, as que vivem na selva são aglomerados de 8, 10 famílias que estão alheias à cidade grande, nem têm conhecimento que nós existimos. Mas não são miseráveis, eles sabem extrair o alimento da água, da selva”, explicou o prefeito, apresentando aos rondonistas um novo modo de vida, que não se enquadra na sociedade de consumo que estrutura as grandes cidades do país.

A principal etnia indígena da região são os Ticunas, que precisam de apoio para ter sua produção artesanal valorizada. Logo após a conversa com o prefeito, os rondonistas foram visitar a aldeia Ticuna de Umariaçu II, que fica há 15 minutos do perímetro urbano de Tabatinga. É preciso deixar o carro e seguir a pé sobre uma estreita ponte de tábuas para entrar na aldeia, que é asfaltada e tem energia elétrica. As casas de madeira e alvenaria substituiem as malocas, mostrando que nem sempre os índios vivem da maneira que os livros os retratam.

Os Ticunas não foram pegos de surpresa com a nossa visita. “Antes, o capitão avisou pela ‘boca-de-ferro’”, como eles chamam os megafones que ficam no alto de um poste, contou um dos índios da aldeia. Parte dos moradores foram reunidos na sede da Igreja Evangélica, uma das três que há na aldeia, para apresentar as equipes e explicar o que aqueles “homens brancos” estavam fazendo ali.

David, representante da Funai na região, foi o nosso mestre de cerimônias. Fez as devidas apresentações para uma comunidade curiosa com a vinda dos estrangeiros e para os rondonistas que estavam embevecidos com a atmosfera, apesar do sol escaldante e do calor de mais de 40 graus, de molhar as roupas e deixar a pele vertendo água.

Os estudantes foram conhecer a aldeia, caminhando pelas suas ruas, acompanhados pelas mulheres, homens e, principalmente peas crianças, que soltavam gargalhadas gostosas toda vez que uma máquina fotográfica disparava em sua direção.

Tímidos, foram aos poucos conhecendo os estudantes. Os Ticunas ainda preservam a sua cultura, falam o idioma ticuna e o português. Ambos são ensinados na escola, porém só os maiores conseguem entender e falar o português fluentemente. Alguns também dominam o espanhol, já que a aldeia fica na fronteira com o Peru e a Colômbia.

Os estudantes de economia, artes, enfermagem, biologia, já procuraram dirigir o olhar para fazer uma análise inicial da comunidade. Os Ticunas daquela aldeia não recebem programas sociais como o bolsa-escola, não têm um sistema de tratamento de lixo, não têm mecanismos para comercializar as bolsas, tapetes e redes que trançam e tingem com as fibras e as tintas naturais da região. No dia anterior de nossa visita 10 moradores foram diagnosticados com Malária.

No caminhão do exército, já no caminho da volta, o debate intenso entre os rondonistas mostrava que apesar de rápida a primeira visita já tinha dado muitos elementos para o trabalho que está apenas começando.

Publicado em 20/01/2005 no Estudantenet

Um mergulho na floresta amazônica

Conhecer a região amazônica é uma experiência que nós dá a dimensão do Brasil e nos faz mais brasileiros. Já falei sobre isso neste blog e disse que reproduziria, aqui, a série de reportagens que fiz quando estive na região do Alto-Solimões em 2005, na reedição do Projeto Rondon.

“A selva nos UNE”

A frase, que representa a necessidade de preservar a Amazônia, é o lema das Forças Armadas. Ela traduz a idéia que simboliza o lançamento do Projeto Rondon. Em solo Amazônico, o sentimento nacional aflora à nossa pele.

de Tabatinga, Renata Mielli

Tabatinga fica incrustada no meio da selva amazônica. Quando chegamos no pequeno aeroporto da cidade, podemos ver um mar de árvores aos nossos pés. A cidade é plana, asfaltada e muito simples, mas, à primeira vista, bem organizada. Não tem posto de gasolina, mas possui a maior frota de motos por habitante do Brasil.

Foi nesta pequena cidade da tríplice fronteira com a Colômbia e o Peru, que neste dia 19 de janeiro de 2005 aconteceu a abertura oficial do Projeto Rondon.

Com um fuso horário de três horas a menos que Brasília, desde muito cedo todos estavam mobilizados para a solenidade de abertura, que aconteceu no auditório do 8º Batalhão de Infantaria da Selva – BIS. O ato começou às 11 horas, com a chegada do Presidente da República, Luis Inácio Lula da Silva, acompanhado da primeira-dama; do Vice-Presidente e Ministro da Defesa, José Alencar; dos ministros Aldo Rebelo, da Coordenação Política; Tarso Genro, da Educação; Luis Dulci, Secretário-Geral da Presidência; Celso Amorin, Relações Exteriores; do Comandante do Exército, General Albuquerque; do Comandante da Aeronáutica, Tenente Brigadeiro Bueno; do Comandante da Marinha, Almirante de Esquadra, Guimarães Carvalho; do General Arantes, coordenador do Projeto Rondon; do professor Estanislau de Oliveira, da Associaçao dos Ex-rondonistas; do governador do Amazonas; e do prefeito de Tabatinga, entre outras autoridades e personalidades.

Transformados pelo conhecimento
O primeiro a saudar os rondonistas foi o Ministro da Defesa, José Alencar. Ao lembrar do 47º aniversário da morte do Marechal Rondon, afirmou que o país reconhece hoje “a importância do respeito aos valores regionais e indígenas que compõem a nossa diversidade”, referindo-se a uma das missões do Projeto de propiciar o contato dos jovens de todas as partes com os povos amazônicos.

Alencar afirmou que o Projeto tem uma vocação de inclusão social, que só foi possível graças à parceria do governo com a UNE, com as universidades, as Forças Armadas e outras instituições do país. “Cada um dos participantes do Rondon irá sair transformado pelo conhecimento da realidade do Brasil”, disse o Vice-Presidente.

O Ministro da Educação, Tarso Genro, destacou as políticas de inclusão social implementadas pelo atual governo para diminuir as desigualdades, permitindo um maior acesso da população à Universidade e à Educação Básica. Genro disse que o MEC, desde o início da proposta de retomada do Rondon, ficou entusiasmado pela sua importância acadêmica, que poderá revigorar a Extensão Universitária. E finalizou: “quando os estudantes e a universidade brasileira se voltarem para a realidade da Amazônia estaremos construindo um novo Brasil e o Projeto Rondon pode propiciar isso”.

Defesa dos interesses nacionais
O Presidente da UNE, Gustavo Petta, afirmou que “a unidade de forças heterogêneas da sociedade brasileira sempre foi decisiva para as grandes transformações e para a defesa dos interesses nacionais. A UNE sempre procurou se posicionar ao lado daqueles que colocam como centro os interesses do país, lutando pelo seu desenvolvimento e contra as enormes injustiças sociais”. Para Gustavo, o relançamento do Projeto Rondon entrará para a história da UNE como um desses momentos, porque “conhecer a realidade brasileira, contribuir com o conhecimento adquirido na universidade para soluções dos nossos graves problemas sociais, defender a preservação e a integração da região Amazônica” são questões estratégicas que fazem parte dos objetivos do Projeto Rondon.

Gustavo foi muito aplaudido quando falou do caráter estratégico da Amazônia: “todos nós sabemos da importância da Amazônia para o Brasil e para a humanidade. Mas todos deveriam saber que quase toda a Amazônia faz parte do nosso território e que, portanto, deve ser preservada, desenvolvida e orientada pelos nossos interesses”. Denunciou a ganância orquestrada pelos Estados Unidos para difundir a idéia de que a Amazônia é internacional e, por isso, tem que ser dirigida por organismos internacionais, afrontando a nossa soberania. “Soma-se a esses ataques à nossa soberania a crescente presença norte-americana na região de nossas fronteiras, através de bases militares, deslocamento de tropas e do absurdo Plano Colômbia. Por todas essas ameaças, a UNE, mais uma vez em sua história, está ao lado das forças armadas para defender a Amazônia soberana, preservada e brasileira”. E, aproveitou, para anunciar que a entidade irá lançar uma campanha pela proteção da região: “Amazônia, Território Brasileiro!”

O Brasil começa aqui!
Em seguida, Geisa, estudante da Universidade Federal do Paraná, fez sua saudação em nome de todos os rondonistas e afirmou que para todos os acadêmicos presentes participar da primeira Operação do Projeto Rondon é um privilégio. “Poder contribuir com nosso conhecimento científico é, antes de tudo, retribuir à comunidade brasileira o investimento que nos é propiciado através das universidades públicas e projetos de pesquisas. Também conhecer e reconhecer um pouquinho da Amazônia com todas as suas particularidades era uma possibilidade remota para muitos de nós antes da retomada do Rondon”, afirmou. E concluiu: “ansiosos pela experiência individual que certamente será agregada, partiremos para as comunidades, sensíveis no coração, atentos no olhar e sábios nos pensamentos, para captar a cadência do povo amazônico, tal qual os rios da grande floresta! Estamos redescobrindo o país, afinal, o Brasil começa aqui”. Ao final de sua saudação, Geisa presenteou o presidente Lula com um chapéu do rondonista e arrancou aplausos de todos.

“Para muitos de vocês, jovens integrantes do Projeto Rondon, esta é uma viagem de iniciação a um Brasil, do qual vocês tem algumas informações e conhecimento, mas, por falta de oportunidade ou mesmo de estímulo, possivelmente, não avaliem a dimensão exata dos nossos desafios e a chance histórica de superá-los nessa geração”. Com essa frase, que resume a aposta em um novo Brasil, o Presidente Lula abriu seu discurso na solenidade de lançamento do Projeto Rondon.

2ª Certidão de Nascimento
Lula lembrou que a experiência da migração do sertão pernambucano para São Paulo mudou sua vida. “A escola pode provocar efeito semelhante nos corações e mentes da juventude contribuindo, assim, para dar todos os referenciais e pontos de partida para a vida”. Por isso, explicou o presidente, o governo está investindo para democratizar o acesso à educação, “as cotas que instituímos são uma trilha republicana para a igualdade”. Ao lado da importância da educação formal, Lula disse que a vivência, o contato com a realidade, pode transformar a vida de um jovem, e desse contato nasce “a consciência social, que é a segunda certidão de nascimento do ser humano”.

Para Lula, “a democracia coloca ao alcance de nossas mãos uma tarefa política cobrada pelo país e agendada pela história. Trata-se de continuar trilhando o caminho do desenvolvimento nacional em sintonia com um profundo e eficaz projeto social. Um projeto que responda aos apelos da vida e inaugure um novo tempo para o nosso povo”.

O presidente lembrou que, num passado recente, o Brasil trilhou o caminho inverso, porque o Estado perdeu o foco principal, “o individualismo triunfante corroeu a auto-estima nacional numa aspiral de desigualdade. É por entender esse recado da história que apoiamos a proposta da UNE e da Associação dos Ex-rondonistas e criamos um Projeto Rondon com a cara do Brasil de hoje”. Lula afirmou que é preciso recriar a idéia de nação com base no interesse coletivo “é para isso que vocês estão aqui”, disse aos rondonistas.

Após a solenidade, o Presidente e os demais presentes participaram da cerimônia de formatura de soldados no BIS. Em seguida, Lula almoçou com os rondonistas.

Publicado em 19/01/2005 no Estudantenet

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