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Favorito à presidência do PT defende Dirceu no Diretório

aadutraPor Marcela Rocha, na Terra Magazine

As primeiras apurações do Processo de Eleição Direta (PED) do PT confirmam o favoritismo do ex-senador e ex-presidente da Petrobras José Eduardo Dutra (SE) para comandar a próxima direção do partido. O candidato tem o apoio do presidente Lula e da presidenciável Dilma Rousseff, ministra-chefe da Casa Civil. A Terra Magazine, o quase-presidente já fala com ares de vitorioso, explica o mote da campanha pela corrida ao Planalto de 2010 e defende José Dirceu no Diretório Nacional do partido.

- O mote para 2010 é a comparação. (…) Vamos mostrar como se comportou a economia brasileira numa crise de alguns poucos bilhões de dólares, que foi a crise da Rússia em 1999; e como se comportou numa crise que envolveu trilhões de dólares, atingindo o centro do capitalismo internacional – explica Dutra.

O favorito defende que Dilma permaneça em seu cargo de ministra “até o final”. Entre fevereiro, que acontece o Congresso do PT – onde será lançada politicamente a candidatura dela -, e o início de abril, é proibido fazer campanha e manter Dilma no Ministério daria “mais exposição a ela”, defende.

- Como a nossa candidata é muito menos conhecida do que o seu adversário, ela precisa de mais exposição. E isto ela teria muito mais ficando no governo do que saindo dele – justifica.

A 99ª rodada da pesquisa CNT/Sensus mostrou que Dilma Rousseff com o deputado Michel Temer (PMDB-SP) de vice tem 22,6% das intenções de voto. E que uma chapa encabeçada pelo governador mineiro, Aécio Neves (PSDB), com o governador paulista, José Serra (PSDB), como vice, seria a favorita no primeiro turno das eleições.

Os números parciais do PED mostram também que as chapas compostas por petistas que são réus do processo do mensalão no Supremo Tribunal Federal (STF) também saíram na frente.

No caso de José Dirceu, Dutra é taxativo e diz que o colega está em “pleno gozo” de seus direitos partidários e que não sente nenhum incômodo com a presença dele na chapa por ter se envolvido no escândalo do mensalão. Quanto ao cargo que Dirceu ocupará, o candidato à presidência do PT defende que seja o Diretório do partido. “Gente importante tem que estar no Diretório”, justifica.

Leia abaixo a íntegra da entrevista:

Terra Magazine – A declaração do presidente Lula sobre “não ter mais ilusão” quanto às alianças nos Estados preocupou setores do PMDB. Essa é uma preocupação do senhor também? Como pretende trabalhar para costurar alianças estaduais?
José Eduardo Dutra –
Não avaliei a declaração do presidente como uma atitude de quem joga a toalha. Ele fez uma constatação de que muitas vezes as pessoas pensam no próprio umbigo e de que não levam em conta a coordenação nacional. Na nossa posição, que vamos encaminhar e levar ao congresso do PT, a lógica estadual não pode se sobrepor à nacional. O que não significa que vamos empurrar goela abaixo de todos os Estados a nossa decisão. Quer dizer, temos um projeto de conversa permanente com o PMDB e PT estaduais. Há alguns lugares onde já não tem mais jeito, como Rio Grande do Sul e Pernambuco, e há outros que são preocupantes.

Quais?
O Rio de Janeiro é um Estado preocupante porque o PT participa do governo, é o mais importante governado pelo PMDB e precisamos chegar num consenso de candidato. O mesmo vale para outros Estados.

A Bahia?
Veja bem, a Bahia não é um problema do PT, quem rompeu foi o PMDB, que participava do governo, rompeu com o governador Jaques Wagner e diz que vai lançar candidato. Se isso não for revertido, teremos que trabalhar com dois palanques. Isso não é um problema, mas não é o ideal.

O PT já desistiu do PMDB-SP?
O Quércia, principal liderança do PMDB, já disse várias vezes que vai apoiar Serra, levando, inclusive, vários prefeitos de São Paulo. Não é, sem dúvida, uma situação a ser resolvida pelo PT. Temos que ver o seguinte: queremos uma aliança institucional com o PMDB, uma coligação na chapa, com o PMDB indicando o vice. Havendo essa decisão, não caberá ao PT ficar enquadrando o PMDB nos Estados.

José Dirceu vai integrar a Executiva?
Olha, nós ainda não discutimos isso. Primeiro, quero dizer para você o que eu já disse várias vezes: ele está em pleno gozo de seus direitos partidários, não sinto nenhum incômodo com a presença dele na chapa. Em relação à Executiva e Diretório, só conversaremos depois que os votos forem apurados. Veremos quanto cada chapa terá de representantes no Diretório e na Executiva e, a partir de então, iniciaremos a discussão sobre as alianças e colocações. Eu defendo que o José Dirceu faça parte do Diretório. Gente importante tem que estar no Diretório. A questão da Executiva, ou não, pensaremos depois.

Uma pesquisa mostrou que Dilma e Temer teriam 22,6% das intenções. E que uma chapa com Aécio e Serra (PSDB) seria a favorita no primeiro turno. Se vencer, o senhor vai cuidar da primeira eleição presidencial do PT sem a candidatura de Lula. O que o senhor acha de Dilma se retirar antecipadamente do Ministério? É estratégico para sua imagem?
Ela deve ficar até o final. Objetivamente, entre fevereiro, que acontece o Congresso do PT – onde será lançada politicamente a candidatura dela -, e o início de abril, ninguém vai fazer campanha. Até porque não pode fazer campanha. Então, como a nossa candidata é muito menos conhecida do que o seu adversário, ela precisa de mais exposição. E isto ela teria muito mais ficando no governo do que saindo dele.

Acredita na transferência de eleitores de Lula para ela?
Acredito. É lógico que não é 100%. Segundo as pesquisas, a maior parte das pessoas não sabe quem é Dilma, ou que ela seja candidata à presidência da República, a candidata do governo. Quando começar a campanha, todas essas informações serão passadas para o eleitor. Não há transferência automática de votos, mas ela representará a continuidade de um governo que está fazendo bem ao Brasil.

No caso de Marta Suplicy, Lula fez o mesmo e a ex-prefeita perdeu para Gilberto Kassab (DEM) nas eleições minicipais…
Mas ela estava disputando a prefeitura. Ela não ia disputar a continuidade de um governo federal. Essa é a diferença. Uma coisa é transferir voto para o substituto do mesmo cargo, como foi o caso de Maluf e Pitta, Quércia e Fleury…

O PT prefere concorrer contra Serra ou Aécio?
Hum, indiferente… Nós queremos derrotar qualquer candidato que vier do PSDB.

Qual será o mote da campanha do PT no ano que vem?
O mote é a comparação. O povo brasileiro será convocado a fazer uma opção entre dois projetos que já conhece: o já colocado em prática por Fernando Henrique Cardoso e o colocado em prática no governo Lula. Nós queremos que o povo compare os projetos e escolha o melhor.

No governo FHC, o PT atacava os juros altos, o ajuste fiscal. Mas, no governo, fez o que criticava, segundo acusa parte da oposição. Como explicar a mudança?
Uma coisa é política econômica, que modificamos. O episódio da crise mostrou isso, mostrou que mudamos a política econômica em relação ao governo anterior. O FHC teve uma crise no capitalismo marginal e o Brasil quebrou. O atual governo superou uma crise que veio do centro do capitalismo. Isso mostra que a nossa gestão econômica é mais consistente. E os juros nunca estiveram tão baixos.

Então, a crise fortaleceu o governo Lula? Dilma usará isso na campanha?
Lógico que a crise não foi boa para ninguém, muito menos para o Brasil e para quem perdeu o emprego. Mas o fato é que a oposição soltou foguetes quando chegou a crise, achando que isso ia ferir de morte o governo Lula e, consequentemente, viam a possibilidade de sucesso. Mostramos que o Brasil estava bem consolidado e conseguiu superar a crise. Isso fará parte do nosso processo de comparação na campanha. Vamos mostrar como se comportou a economia brasileira numa crise de alguns poucos bilhões de dólares, que foi a crise da Rússia em 1999; e como se comportou numa crise que envolveu trilhões de dólares, atingindo o centro do capitalismo internacional. Este será mais um mote da comparação.

Este ano, importantes lideranças “balançaram”: Mercadante, Marina Silva, que deixou a sigla, Suplicy, com o cartão vermelho em Plenário… Como o senhor observa isso?
Na verdade, só a Marina saiu. O Suplicy tem uma atuação parlamentar que é típica dele já há um tempo. O Mercadante continua líder da bancada. Houve um episódio localizado em relação a diferentes visões entre a direção do PT e a bancada no Senado no caso Sarney. Mas isto é problema superado.

Valeu a pena?
Aquele episódio era claramente uma tentativa da oposição de partidarizar e personalizar um problema que não era apenas de uma pessoa ou de um partido. Até porque o PFL (atual DEM) e o PSDB sempre ocuparam cargos importantes na estrutura do Senado. O PFL ocupou a Primeira Secretaria durante 12 anos. Colocar a culpa das mazelas do Senado em uma pessoas é porque a oposição queria criar um clima que viesse a atrapalhar inclusive os projetos de interesse do governo.

Muitos militantes deixaram o partido, o senhor acredita que o PT tenha se distanciado de seus ideais políticos?
Não, de jeito nenhum. Muitos deixaram o partido, mas milhares entraram. O crescimento do PT é permanente, ano a ano. A divergência de pessoas que saíram do partido é algo natural. O fato é que o PT mostrou ser possível mudar sem mudar de lado. Infelizmente tem algumas pessoas que ainda acham que existe o Muro de Berlim, um mundo da década de 1980, que não existe mais.

Setores do PT discordam da candidatura de Ciro Gomes (PSB-CE) em São Paulo. O deputado, que por sua vez diz manter-se candidato à presidência, disse que retiraria sua candidatura caso Aécio fosse o presidenciável tucano. Como o senhor enxerga esse comportamento de Ciro Gomes?
Não cabe a nós, do PT, ficarmos patrulhando as ações políticas de nossos aliados. O PSB é um aliado importante do PT, faz parte da base de apoio do governo. O Ciro é uma figura importante do seu partido e tem plena legitimidade para pleitear qualquer cargo. Agora, nós temos uma visão diferente em relação à estratégia para o ano que vem. Ele acha melhor lançar mais de um candidato da base do governo para se unir no segundo turno. Nós respeitamos essa posição, mas discordamos. Nossa estratégia de comparar governos é mais fácil de ser realizada com apenas um candidato. Vamos continuar trabalhando para que o PSB faça parte da nossa aliança. Se decidirem lançar candidato à presidência, paciência.

Em São Paulo…
Acredito que o PT deva afunilar um nome, até porque, quem tem seis candidatos, não tem nenhum. E apresentar esse nome para os aliados, mas sem veto ou preconceito contra outros nomes que possam surgir. O PT não pode descartar, a priori, a hipótese de ser Ciro Gomes. É importante acabar com o domínio tucano em São Paulo.

Antônio Palocci seria um bom nome?
Todos os nomes lançados pelo PT têm peso no partido e representatividade. Palocci é um dos quatro nomes mais importantes do PT, mas não cabe a mim ficar dizendo o que acontecerá em São Paulo.

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