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Entrevista com o novo presidente do PT de São Paulo, Antonio Donato

Eleito com 17.564 votos (63%) no PED 2009, Antônio Donato assume hoje a presidência do Diretório Municipal do PT de São Paulo. Exercerá o cargo pelos próximos três anos. Em entrevista do PT Câmara SP, Donato – que cumpre o segundo mandato de vereador na Câmara Municipal paulistana – conta alguns de seus planos para o DM. Ele quer trabalhar em conjunto com os Diretórios Zonais e uma das suas primeiras tarefas será montar um congresso de DZs para discutir a organização do partido e elaborar as prioridades de atuação na oposição às gestões Kassab na Prefeitura de São Paulo e Serra no governo estadual.

Donato também falou sobre o papel que o Diretório Municipal pode desempenhar na eleição presidencial e estadual de 2010. “Demarcar que o projeto existente em São Paulo é o projeto que eles (PSDB e DEM) querem aplicar no Brasil aclara o debate político e isso pode permitir uma eleição polarizada. Podemos crescer na cidade de São Paulo”, afirmou. Leia a entrevista:

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PT CÂMARA SP: Quais os projetos que o senhor pretende desenvolver à frente do Diretório Municipal do PT de São Paulo?

DONATO: Essa nova direção vai ter uma responsabilidade muito grande. A primeira é ajudar na eleição da companheira Dilma à Presidência da República, numa cidade que tem o quarto eleitorado do país. Nós só perdemos para o próprio estado de São Paulo, Minas Gerais e o estado do Rio de Janeiro. A cidade de São Paulo tem 8,3 milhões de eleitores e o Rio Grande do Sul inteiro, por exemplo, tem 7,9 milhões de eleitores. Ou seja, a cidade de São Paulo tem uma importância estratégica na eleição presidencial. Por outro lado a cidade é o QG da oposição ao governo Lula, através da administração Kassab e do governo Serra. Portanto, é uma batalha desigual, pelo uso da máquina e por outros recursos. Também é aqui a sede dos grandes grupos de mídia, daqui se irradia a política para o Brasil e as posições mais conservadoras também partem daqui. Portanto, a gente precisa ter muita organização, muita política, muita capacidade de intervenção para fazer uma boa disputa e colaborar na eleição presidencial e também na eleição para o governo de São Paulo, que é outra batalha absolutamente importante.

Temos visto o fracasso dos tucanos em todas as áreas: a falência da educação, comprometendo gerações de jovens paulistas e paulistanos; na segurança pública os indicadores pioraram; e agora o problema das enchentes, mostrando a falência e a incapacidade de planejamento e de gestão dos tucanos. Portanto, há a necessidade para o povo de São Paulo de que o PT e os aliados possam conquistar o governo paulista. Essa é a primeira e principal tarefa esse ano, e para isso precisamos de um partido organizado. É isso que queremos em conjunto com os Diretórios Zonais.

PT CÂMARA SP: E como será essa relação com os Diretórios Zonais? De que forma vai trabalhar com eles?

DONATO: Vai ser uma atuação bastante próxima, compartilhada. Prova disso é a própria posse. Estamos fazendo a posse conjunta do Diretório Municipal e também dos presidentes dos 35 zonais que deram quórum no PED. Isso tem um simbolismo e mostra uma direção desta gestão, que é trabalhar muito em conjunto com os Zonais. Na campanha eleitoral do PED apresentamos uma proposta que foi abraçada por todo mundo, por todas as correntes, que é um congresso das direções zonais. Realizaremos esse congresso até o final de março, para estabelecer as prioridades de trabalho na cidade, nossa política de organização, a organização em relação à oposição ao governo do Kassab e do Serra, e nossa participação na campanha eleitoral de maneira organizada. Estamos muito confiantes nesse trabalho cada vez mais estreito entre o Diretório Municipal e os Zonais.

PT CÂMARA SP: Os Zonais terão participação constante na atuação do partido?

DONATO: Constante nas tarefas e na elaboração partidária. A gente quer fazer um grande pacto, isto é, definir para que lado nós vamos remar. E remar todo mundo junto para o mesmo lado. É evidente que tem Zonais com mais dificuldades, e que o Diretório Municipal precisa acompanhar mais de perto, e Zonais melhor estruturados. O importante é que a gente tenha um eixo político comum, uma visão comum das tarefas e que em cada região a gente possa colocar o PT na rua. No processo de debate do PED surgiu uma proposta de uma coordenação dos Diretórios Zonais do centro expandido da cidade, que é onde a gente enfrenta mais dificuldades e precisa de uma política própria. Vamos ter que trabalhar com os Zonais numa compreensão política comum, mas evidentemente respeitando o território e a atuação de cada um, porque a cidade é diferenciada e isto tem um impacto também na vida partidária.

PT CÂMARA SP: E de que forma será a relação do DM com a Bancada do partido na Câmara Municipal?

DONATO: Da melhor maneira possível, até porque tudo indica que teremos três ou quatro vereadores integrando a direção municipal. A Bancada tem sido muito parceira do Diretório, mas precisamos estreitar esses laços porque ela é a cara pública do partido. É quem dá projeção e voz ao PT na maioria das vezes, porque tem acesso à mídia, ao plenário da Câmara, acesso à tribuna, e as propostas articuladas junto com a Bancada repercutem na sociedade. Então é fundamental a gente ter um trabalho conjunto e também chamar a Bancada a opinar sobre os rumos do PT, a ajudar na organização partidária, porque são 11 mandatos partidários, que tem relação com a base partidária e podem contribuir muito, também, nessa organização do PT. Temos a melhor expectativa possível de trabalhar conjuntamente para potencializar o trabalho da Bancada e a própria atuação do PT.

PT CÂMARA SP: Que avaliação o sr. faz da situação vivida na cidade de São Paulo hoje? Como pretende desenvolver a oposição à gestão do DEM/PSDB na Prefeitura de São Paulo?

DONATO: Acho que estamos num momento triste para a cidade, porque está vindo à tona toda a farsa que foi apresentada na última eleição. Se vendeu um prefeito administrador, competente, presente, e não é isso que acontece na cidade. São Paulo está abandonada, sem rumo. Você não vê uma estratégia clara para várias áreas como a educação, a saúde, o transporte, os serviços de manutenção. Você vê apenas improviso e isso revela bem o caráter desse governo. O PT tem que se apresentar como uma oposição firme, denunciando todas as mazelas do governo. Nós temos experiência política-administrativa e capacidade de formular propostas para a cidade.

Precisamos estabelecer um diálogo com a população, apresentando a crítica, mas também apresentando qual o caminho correto que a cidade deve seguir em cada área. Para isso temos experiência, acúmulo, e não temos medo do debate. Se o debate for feito de verdade, e não através dos marqueteiros, temos muito a mostrar e a contribuir. Precisamos mostrar todo o desmonte que foi feito em várias áreas por esta gestão e apontar a necessidade de em 2012 construirmos uma frente política ampla, com programa de governo claro, prioridades claras, e que possamos recuperar para o povo de São Paulo a administração da cidade. Porque São Paulo não pode conviver com o caos diário que temos presenciado atualmente.

PT CÂMARA SP: Antes de 2012 tem 2010. Qual a contribuição que o PT do município de São Paulo pode dar na disputa presidencial e, principalmente, na eleição estadual, em que o partido até hoje não venceu uma eleição?

DONATO: Podemos contribuir muito mobilizando, buscando voto, conversando com as pessoas, mas, principalmente, mostrando que existem dois projetos no país. No estado, e na cidade de São Paulo em particular, isso é muito claro, porque o povo vivenciou uma experiência de governo com o PT, com a prefeita Marta – antes já havia vivenciado uma experiência com a prefeita Erundina, também do PT na época – e vivencia agora com a gestão Serra/Kassab. E são nítidas as diferenças, o enfoque, as prioridades. Demarcar que o projeto existente em São Paulo é o projeto que eles querem aplicar no Brasil aclara o debate político e isso pode permitir uma eleição polarizada. Podemos crescer na cidade de São Paulo. Crescer mostrando que em nível federal não podemos cometer o mesmo erro que aconteceu em São Paulo, perder a eleição e ver recuar várias políticas públicas construídas com muito esforço e com muito empenho e luta da população.

PT CÂMARA SP: E no plano estadual?

DONATO: Acho que no estado também. Eu não sou daqueles que acham que a eleição estadual está perdida. Na medida em que houver um debate de projetos políticos para o país, as nossas chances aumentam. Toda tentativa dos tucanos é de esterilizar o debate, impedir o debate, transformá-lo num debate de personalidades, Serra contra Dilma, e não mostrar que existem dois projetos. Se conseguirmos estabelecer essa pauta para a eleição tenho certeza que em São Paulo a tendência é de todos partidos que se colocarem nesse campo de oposição de crescerem muito. Porque como eu disse, na hora em que você for discutir objetivamente segurança pública, saúde, educação, transporte ou infraestrutura urbana, os tucanos não têm o que mostrar. Temos que deixar claro a existência de um estado com potencial imenso e com um governo que não tem criatividade, não tem uma política marcante. O que o governo Serra fez? Continuou o rodoanel, com mais de 30% de recursos vindos do governo Lula, não limpou a calha do Tietê, jogou R$ 2 bilhões da obra de rebaixamento da calha no lixo. Na segurança pública aumentaram os indicadores de roubos, latrocínios, homicídios e outras ocorrências. Na educação a tragédia da progressão continuada e da não educação da nossa juventude.

Portanto, se esse debate for feito tenho certeza que o PT vai crescer, porque o PT tem propostas, experiência administrativa. Já comandou as principais cidades do estado, mostrou que sabe administrar bem, e tem um governo federal absolutamente exitoso, que mostrou que o PT tem lado ao governar. Governa para todos, mas sabe que os mais fracos é que precisam mais de governo. A cidade de São Paulo em um terço do eleitorado do estado. Queremos dar nossa contribuição politizando o debate, organizando e buscando os votos dos eleitores que moram aqui.

ANP: Balança comercial de petróleo teve saldo de US$ 227 mi

Dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Derivados (ANP), a balança comercial de produtos derivados do petróleo registrou, em 2009, reversão do prejuízo obtido em 2008. Registrou saldo de US$ 227 milhões no ano passado, ante um prejuízo de US$ 1,3 bilhão em 2008, causado principalmente pela queda nas importações.  

A redução nas importações, segundo a ANP, foi influenciada pelo menor volume de óleo diesel comprado do exterior, que caíram 39,7% em 2009, devido à menor demanda interna pela crise, e o maior tempo em que as usinas termelétricas ficaram desligadas. Os gastos com a importação de óleo diesel tiveram retração de 67,5%.

Ao longo de 2009, o país gastou US$ 5,5 bilhões com as importações de petróleo e derivados. Isso significa uma retração de 50,1% em relação aos US$ 11,1 bilhões despendidos em 2008. Foram comprados 274 mil barris diários de petróleo e derivados no ano passado, ante 308 mil barris/dia em 2008. Já a receita com exportações foi de US$ 5,9 bilhões, queda de 39,2% frente aos US$ 9,8 bilhões observados em 2008.

Foram enviados ao exterior, em média, 261 mil barris de petróleo e derivados por dia. Em 2008, essas exportações foram de 275 mil barris de barris/dia. Se for levado em conta apenas a compra e venda de petróleo bruto, o resultado negativo de 2008 permaneceu no ano passado. Em 2008, o prejuízo era de US$ 2,8 bilhões. No ano seguinte, ficou em US$ 164 milhões. As exportações de petróleo significaram uma receita de US$ 9,3 bilhões, recuo de 31,5% frente aos US$ 13,7 bilhões registrados em 2008. Ao todo, foram remetidos a outros países, em média, 525 mil barris diários no ano passado, ante 433 mil barris/dia no ano anterior.

As importações representaram um gasto de US$ 9,2 bilhões, queda de 44,5% em relação aos US$ 16,6 bilhões constatados em 2008. Em média, o país importou 393 mil barris/dia de petróleo bruto em 2009; no ano anterior, foram comprados, em média, 408 mil barris/dia. Os dados da ANP levam em conta informações da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior.

A informação é do Monitor Mercantil

Cid Teixeira: “O certo seria o Dia da Consciência Mulata”

aaaaaaacidPor Claudio Leal e Roberto Albergar, de Salvador (BA), na Terra Magazine 

Um homem avista o casarão arruinado, no Centro de Salvador, e decide parar o carro, para contemplar os adornos. Ao lado, um mestre de obras. Malemolente, encostado no tapume, ele vê o estranho sondar os desvãos do prédio em caquinhos.

- O que era isso aí?

E o operário responde:

- Não sei. Por que o senhor não pergunta ao professor Cid Teixeira?

Oitenta e cinco anos, a picardia dos séculos nos olhos em losango, o historiador Cid Teixeira ganhou o reconhecimento dos anônimos no programa radiofônico “Pergunte ao José”, no qual respondia a dúvidas sobre a história de Salvador e da Bahia. A simplicidade de seus relatos, sem espezinhar o vernáculo, revelava um humanista, um leitor de crônicas históricas e da literatura universal.

O folclorista Câmara Cascudo se definia como “erudito de província”. E talvez Cid José Teixeira Cavalcante, nascido em 11 de novembro de 1924, seja também uma ave dessa espécie, pela despretensão da conversa e pela autoridade de intelectual à margem das vaidades acadêmicas. O romancista Jorge Amado o descreveu em “Bahia de Todos os Santos” com essa roupagem de historiador a serviço do povo, da divulgação da história ao homem comum:

“Os programas de Cid Teixeira implicam sempre a análise e a extensão cultural de um problema, um fato, uma figura, um aspecto da vida da Bahia, levam ao ouvinte a erudição e a pesquisa realizada por um intelectual da melhor estirpe para quem a cultura é um bem provindo do povo e que a ele deve ser restituído”.

Afastado das salas de aula, das rádios e dos jornais (chegou a ser editor-chefe da Tribuna da Bahia), Cid Teixeira mantém suas leituras e a memória do cotidiano minúsculo, porém essencial para compreender a formação do povo baiano – e, claro, o brasileiro, já que as desordens nacionais nasceram na cidade do poeta Gregório de Mattos.

Em entrevista a Terra Magazine – com a participação especial do antropólogo Roberto Albergaria, doutor pela Universidade de Paris III -, Teixeira aborda a história da negritude na Bahia e avança sobre as privacidades da Província, das técnicas de “branqueamento” aos ardis do matrimônio. Ele folga em definir-se, sem palavrinhas de meio caminho, como um mulato baiano.

- A mulatice é rejeitada pelo branco e pelo negro… Havia aquele negócio de barriga suja, barriga limpa. Quando o menino nascia mulato, se saía dominantemente mulato, a mãe tinha barriga suja. Se o menino nascia dominantemente branco, a mãe tinha a barriga limpa. Tinha essa conversa…

Em vez de segregar, afirma Cid, o melhor seria assumir a mestiçagem sem recalques. Na contramão do discurso de linhagem norte-americana, ele provoca:

- Já pensou o que seria da Bahia se os brancos baianos resolvessem fazer o Dia da Consciência Branca? Já pensou? Teria tumulto na rua. O certo e verdadeiro seria o Dia da Consciência Mulata (risos) Aí estaríamos falando a verdade, mesmo.

Autor de “Bahia em tempo de Província” e “Histórias: Minhas e Alheias”, entre outros livros, ele relata, certamente pela primeira vez, o vestibular étnico prestado para entrar na Academia de Letras da Bahia. Em conferências, ele fazia questão de assumir-se um mulato nato, no sentido lato, mulato democrático do litoral – com a licença poética do autodeclarado mestiço Caetano Veloso. Diz o professor:

- Os piores são os mulatos metidos a branco… Quando eu entrei pra Academia de Letras, na história da Academia de Letras de 1917 até hoje quem entrou com menor número de votos fui eu. Eu entrei com um voto só que decidiu o ingresso. Houve uma campanha contra mim patrocinada, não vou dizer o nome aqui, por um cidadão mulatíssimo. Médico baiano mulatíssimo que patrocinou o veto.

Neste depoimento, em sua casa no bairro da Pituba, na capital baiana, ele descreve minúcias do familismo provinciano. Se quer saber, relata como é difícil permanecer viúvo ante inúmeras investidas de conselheiros e pretendentes.

- Ah, ficar viúvo… É uma tragédia. Porque o que existe de gente querendo arranjar noiva, namorada e casamento pra viúvo… Sou viúvo hoje. É um negócio terrível… “Ah, você está sozinho, tem que casar, arrumar alguém…” E esse alguém já está programado pra tomar o lugar da finada.

Prosa gentil, doce e maledicente, como o bom baiano deve ser, Cid Teixeira identifica a vocação regional para o vira-casaquismo, uma arte derivada do chaleirismo, hoje disseminada de Brasília à Cidade da Bahia, com ganhos para todos os lados.

- Não havia revolucionários em 1930. Quando a Revolução ganhou, acabou-se o estoque de pano vermelho nas lojas. Porque todo mundo estava de lenço vermelho nos pescoços, todos viraram revolucionários.

Seguimos o conselho do mestre de obras e perguntamos ao José. Leia a conversa no jardim da casa de Cid Teixeira, o gênio da raça.

Terra Magazine – O senhor é um grande entendedor do mulatismo. Quais eram as astúcias simbólicas que as famílias tradicionais baianas utilizavam para o seu branqueamento? Como as pessoas se faziam crer brancas, antigamente, numa cidade parda, onde o único branco puro, como você dizia, era o cônsul da Suécia?
Cid Teixeira – O único branco puro que eu conheço aqui na Bahia é o cônsul da Suécia. Alguns são, digamos assim, ostensivamente mulatos, outros disfarçadamente mulatos, mas a maioria é composta de pardos. Pardos mais evidentes, pardos menos evidentes. Agora, o negro baiano existiu em grande relevo, em grande importância, em grande repercussão. Qual é o engenheiro branco hoje que equivale a Teodoro Sampaio? Você conhece algum? E ele era um negro. Américo Simas era um negro. Arlindo Fragoso era um negro. Manoel Querino (escritor e fundador do Liceu de Artes e Ofícios da Bahia) era um negro. Nomes do século 19 que alcançaram relevo, importância social. Vidal da Cunha era médico e negro. Todo mundo procurava Vidal da Cunha para operar. Era um privilégio fazer uma cirurgia com dr. Vidal da Cunha, “o” cirurgião que a cidade possuía. Assim como esses que citei de exemplo, tem uma porção deles. Na construção civil, o mestre de obras era negro, seu Menininho, Oldegário Ludgério dos Santos, que eu conheci demais. Negro, negro, negro. E estava vigente socialmente.

Os brancos moravam na Graça e eram, em geral, decadentes. Donald Pierson (sociólogo americano) inventou a expressão “os brancos da Bahia”. “Brancos e pretos na Bahia”, de Donald Pierson, continua sendo o livro fundamental para entender isso. Porque ele veio dos Estados Unidos, onde só havia preto e branco. Quando ele viu na Bahia uma porção de mulatos, pardos, serem tidos e havidos, inclusive sinceramente, honestamente, se acreditando brancos, ele se espantou e criou a expressão “branco da Bahia”. Um branco específico, que se considera branco mas não é. A Bahia é uma cidade parda, uma cidade de uma gradação – quase eu diria degradação – de pardos variados. Eu que estou aqui falando, tenho guardado comigo o ferro com o qual minha bisavó foi ferrada. Tenho guardado, está em minha mão. Minha bisavó, escrava, foi ferrada a fogo porque era negra. E daí entraram brancos pelo meio, coisas variadas aconteceram, duas famílias, três famílias com o mesmo pai, tudo vai se resolvendo. Eu estou aqui, pardo, mulato baiano, conversando com você.

Mas você é considerado “branco”.
Branco da Bahia!

Qual era a ascensão social do negro no final do século 19 e início do 20?
Valia por si. Valia por si. Gosto de usar o exemplo de Teodoro Sampaio (1855-1937) porque tem retrato conhecido e difundido aí pela cidade. Teodoro Sampaio era negro. Filho de pardo com escrava preta. Foi pra São Paulo, o pai mandou pra lá, formou-se em Engenharia. Ruas de São Paulo, o sistema de esgoto da Bahia que ainda hoje está vigorando no Centro da cidade é de autoria dele. O plano original de 1917 é dele. Essas ruas todas, o plano central da Pituba, foi feito por ele em 1917. Era um homem capaz de fazer isso. Se ainda tinha uma doença mais grave, e precisava de um médico mais especializado, convidava Caio Moura, convidava Vidal da Cunha. Eram os dois médicos. E cada bairro tinha o seu. Perceval Vasconcelos, negro, foi médico do Rio Vermelho. Ir à cidade do Salvador já era uma violência (ri) Não tinha avenida oceânica e o bonde 14 matava quando Deus era servido… Então, doutor Perceval, negro, foi o médico do Rio Vermelho inteiro. Doutor Júlio David…

Do bairro da Ribeira.
Da Ribeira e de Itapagipe inteiro. Luiz Anselmo, autor do “Escravidão, o clero e o abolicionismo”, negro. Virgílio de Lima, negro. Todos eles estavam aqui com ascensão social e respeitados porque necessários à comunidade tida por branca.

A forma de ascensão era individual ou por apadrinhamento?
Não! Era sempre individual.

Teodoro Sampaio, por exemplo, era filho de quem?
Do vigário de Santo Amaro. Mandou o filho pra São Paulo.

Onde Teodoro se ligou à família Prado.
Se ligou, por mérito, a dona Veridiana Prado, mãe de Eduardo Prado. Dona Veridiana era uma espécie de grande matriarca da comunidade paulista. E adotou-o. Lá em São Paulo ele se firmou. Já chegou à Bahia engenheiro famoso, respeitável. Veio pra cá trabalhar, morava na Ladeira de São Bento. Ele morreu em 1937, era amigo de meu pai. Me lembro vagamente dele. Eu tinha 11 anos. Tenho dele uma memória diluída, mas tenho. Teodoro Fernandes Sampaio.

Essa expressão “branco da Bahia” não é mais antiga, não é também referente aos líderes políticos baianos que iam para o Rio de Janeiro?
Não conheço. Conheci essa expressão forjada por Donald Pierson. Pode ser. Mas, você quer um mulato mais mulato do que J.J. Seabra (ex-governador da Bahia, professor de Direito)? Esse já era quase negro: Severino Vieira. Essa expressão “deixa que eu chuto” vem do tempo de Severino. (risos)

E quais eram as astúcias de branqueamento? Casamento?
Casamento, estruturas familiares detentoras do alto comércio baiano, ser Manoel Joaquim de Carvalho, ser Bernardo Martins Catharino, ser seu fulano de tal Cruz, que não me lembro agora… Esses eram tidos e havidos por brancos. Costa Pinto. E os estrangeiros que vieram pra Bahia. A colônia suíça com Wildberger e outros. A colônia inglesa. Havia um bairro chamado Banco dos Ingleses. Dos ingleses que moravam lá. O cemitério dos ingleses. Esses foram fazendo filhos por aí. Foram criando os brancos da Bahia.

Como era a relação dessas famílias com os empregados?
Não há notícia de (maus tratos)… Ao contrário, até de uma boa convivência.

Os pais de família branca ou brancarrona não resistiam?
Ah, resistiam. Uma moça brancarrona, como você está dizendo, namorar e casar com um mulato escuro, preto, era tido como… Sei lá. Eu digo isso pela minha estrutura familiar. Meu pai casou com minha mãe, não direi contra, mas com restrições, com pequenas referências, mas depois casou e nascemos nós, está tudo bem.

Nas famílias havia fuxico com relação ao cabelo de ondinha…
Cabelo de ondinha…

No fundo, o grande fator de miscigenação era o fato de as mulheres feias, encalhadas, terem nos mulatos uma possibilidade de sair do barricão?
Não, não acho que seja isso. As mulheres feias e as mulheres bonitas sempre existiram. Umas se casaram com brancos, outras se casaram com negros, algumas não se casaram simplesmente. Mas não creio que a beleza em si tenha influído.

Na hora da negociação familiar, entrava o quê? Cor, dinheiro e beleza?
Sim, beleza.

E tinha a formosas sem dote, que negociavam seu dote físico no mercado matrimonial.
Exatamente. Em geral, o noivo, embora negro ou pardo, tinha uma condição econômica melhor do que o sogro.

Se fala muito da contribuição da geração de Jorge Amado, de Caymmi, do jornalista Odorico Tavares, para a assimilação do negro, da cultura negra. Como o senhor entende?
Vou dizer uma coisa aqui que vai chocar muita gente: a Bahia foi um assunto pra Jorge Amado. Nunca o vi baiano no sentido integrante do processo social baiano. A Bahia foi um assunto muito bem tratado por Jorge Amado. Mas foi assunto. Caymmi é outro. Caymmi tocou violão na Bahia, foi pro Rio de Janeiro e lá continuou usando a Bahia como assunto, mas, quando lhe deram uma casa aqui, a primeira coisa que ele fez foi vender a casa.

A gente pode dizer que, desde meados do século 20, essa Bahia que foi romanceada por Jorge Amado, fotografada por Pierre Verger, pintada por Carybé, cantada por Caymmi, editada por Odorico Tavares, que botou o candomblé na revista O Cruzeiro, já era imaginária, era ficção, somente assunto, ou existia como uma realidade?
Existia. Ela era uma realidade. Mas esses nomes que você usou aí utilizaram essa realidade com um comprometimento pessoal muito relativo. Verger nunca acreditou em um orixá na vida dele. E Verger foi Obá, que é o que pode haver de mais hierarquicamente importante no Candomblé. Mas você não pode comparar a crença, a integração de Verger com a de Miguel Santana (Ojé Orepê do Culto aos Egungun). Era um negro baiano integrado no processo do Candomblé, totalmente. Verger era um francês integrado no processo do Candomblé sem, em nenhum momento, assumir o compromisso de crença que você quer dos negros.

Quais eram as características predominantes da Bahia, nos anos 20 e 30? Como ela era representada nacionalmente?
A Bahia não era representada nacionalmente. Era um corpo estranho dentro do processo paulista e carioca.

Não tinha aquela ideia da velha mulata, o lugar onde o Brasil nasceu? Ruy Barbosa…
Não, não, não. Não tinha, não. Ruy Barbosa, bom mulato baiano, morou no Rio, veio à Bahia fazer campanha civilista. A Bahia era um assunto, não era uma integração. Bahia é boa terra, ela lá e eu aqui. Era o grande ditado da época! (risos) A Bahia é boa terra, ela lá e eu aqui!

Há a epígrafe de um livro, o professor Ruy Simões que falava, não sei se de Afrânio Peixoto ou de Afrânio Coutinho. Na época existiam vários breviários, guias da Bahia, e tinha essa epígrafe: “A Bahia é o melhor lugar do mundo para nascer e lembrar-se depois”.
Não me lembro de ter lido, mas é verdadeiro.

A elite baiana migrava pro Rio?
Migrava. A elite letrada. Oscar Freire fundou, na Bahia, a medicina legal no Brasil. Foi pra São Paulo, ficou em São Paulo, morreu em São Paulo. A Rua Oscar Freire é refinada, de primeiro plano, o nome veio de um médico baiano que migrou pra São Paulo. O “Nina Rodrigues” de lá é o Instituto Oscar Freire.

A turma de Jorge – e aí entra Verger, Caymmi – não inova na medida em que incorporam as coisas da Bahia, a tradição populista?
Ah, sim! A Bahia foi um grande assunto. Jubiabá não seria mais lembrado se não fosse o romance de Jorge Amado. Os capitães da areia seriam esquecidos. Aquilo tudo era uma verdade sociológica. Na verdade, Jorge Amado foi muito mais um sociólogo do que um romancista.

E o resto da elite que acreditava naquelas coisas francesas, essa gente tinha resistência a esse grupo?
Não, considerava um segundo time. Eu ainda alcancei pessoas do meu conhecimento importando, pagando o “Bon Marché”, que era o figurino francês por excelência, à moda do que estava vigente em Paris.

Em casa, Jorge Amado era leitura proibida para as moças?
É, verdade, não podia ler Jorge Amado.

O reconhecimento dessa turma não vem mais do olhar de fora, do Rio, de São Paulo, do que da própria elite baiana?
Exatamente. Ele (Jorge Amado) descobriu a Bahia. A elite baiana passou a perder a cerimônia. Por exemplo, eu morava na Federação quando era garoto, numa roça vizinha à roça de Dona Escolástica – ninguém dizia Mãe Menininha (1894-1986), não. “Mãe” era privativo de quem era filho de santo. Dona Escolástica, como minha mãe a chamava. Em minha casa tinha uma geladeira e na casa de Dona Escolástica não tinha. Quando chegava tempo de Candomblé, de festa lá, a geladeira de nossa casa era usada pra guardar os ingredientes das festas de dona Escolástica. E compareciam à casa dela pessoas que iam jogar búzios, fazer consultas. Pessoas da branquitude baiana, mas que eram altamente reservadas, chegavam meio escondidas, não eram pra ser vistas. Da minha casa se via porque dava pra ver. Minha mãe comentava: “Ó praí, quando acabar diz que é branco baiano. Não tem nada disso, vai lá consultar, vai ver se casa”.

O Candomblé era restrito, ainda, aos negros?
Aos que acreditavam. Ninguém ia “ver” o Candomblé. Só ia ao Candomblé quem era filho de santo, quem acreditava no Candomblé. Ver no sentido turístico da expressão, não havia isso. Nem com Dona Menininha, nem com Dona Senhora (1900-1967). Conheci bem Dona Senhora. Nem Joãozinho da Goméia (1914-1971) nem com os candomblés da cidade.

E os grandes jornais?
Falavam mal. Você não encontra nenhuma louvação ao Candomblé. “Os atabaques não deixam a vizinhança dormir e tal…” Os jornais eram maledicentes em relação ao Candomblé. “A cidade cheia de ebós, cheia de feitiços…” Os jornais não aceitavam.

A gente está aqui falando das heranças africanas, mas me lembro que uma vez, no Instituto Histórico, o senhor falou que as heranças portuguesas, no Brasil e na Bahia, estavam sendo desprezadas…
Deixe eu lhe fazer uma pergunta. Vamos inverter agora. Você nunca foi rezado de olhado, não?

Já fui.
E eu também (faz uma reza com as maõs).

Vinha uma senhora com o galho de arruda…
Era o lado B da branquitude religiosa. Era a fronteira entre a ortodoxia religiosa e o Candomblé. Rezar de olhado. Nunca incensaram sua casa aos sábados, não?

Terra Magazine – Câmara Cascudo escreveu um livrinho chamado “Made in Bahia”, que não teve repercussão. Mas, nesse livro, ele diz que a herança africana, no Nordeste – ele não gosta muito da Bahia, tinha aquele ciúme…
Cid Teixeira – E havia um caso pessoal dele. Começou a estudar Medicina na Bahia e eu nunca soube exatamente por que, mas houve um caso pessoal.

Ele dizia que na Bahia se superestimava a cultura africana em detrimento da herança lusitana e da indígena. Tanto que Câmara Cascudo dá muita ênfase à herança lusitana e à indígena, enquanto aqui na Bahia os folcloristas fazem um trabalho inverso. Por que na Bahia é diferente?
Porque a predominância negra, na Bahia, foi maior do que em Pernambuco. Não se esqueça que o Brasil é o único lugar do mundo onde não existe Leste. Onde é o Leste do Brasil? Botaram a Bahia no Nordeste.

Mas ela não já foi posta no Leste?
Agora a Bahia fica no Nordeste.

Antigamente era tudo um Norte genérico, onde a Bahia estava no Norte, correto?
A Bahia estava no Norte na colônia. De São Paulo pra cima era Norte. Depois houve Norte, Sul, Leste, Oeste. Depois acabou o Leste, a Bahia virou Nordeste.

Como foi a integração da Bahia ao Nordeste?
Eu não sinto, eventualmente (hoje menos, porque a saúde e a idade não permitem), mas quando eu ia à Paraíba, era outro mundo, era outro Nordeste. Não tinha nada a ver. Maranhão era Nordeste, a Bahia era Leste. Hoje a Bahia é Nordeste, o que é uma falsidade sociológica.

Quando você fala que a herança africana era mais forte na Bahia, por conta até da…
Quantidade, demografia.

Está se referindo ao Recôncavo, né?
Sim, a “Bahia” é o Recôncavo. Porque Candomblé, negritude, essas coisas, em Barreiras, Xique-Xique (no sertão baiano), não existem.

De Feira de Santana em diante…
Era outra conversa. Estamos falando de Salvador e arredores.

De qualquer forma, por mais que Jorge Amado tenha romanceado e Carybé estetizado o negro, tornando a negritude uma coisa pitoresca, e Odorico tenha exportado a baianidade, isso tinha a ver com a realidade, tirando os exageros. E hoje, ainda existe? Ainda se vê isso?
Não tem. A negritude baiana apropriou-se de si própria. Quando a negritude apropriou-se de si própria, criando o Ilê Aiyê, o Malê Debalê, essas organizações todas, para reivindicar para os negros a sua identidade, a sua direção, a sua autenticidade, as coisas mudaram muito, né? Hoje, você não entraria pra desfilar nos Filhos de Gandhy. Tem condições étnicas?

Os filhos de Gandhy se abriram muito, dá pra desfilar. O Ilê Aiyê criou um bloco pra aceitar brancos.
Sim…

Isso foi na última quadra do século 20, um tipo de afro-baianidade muito marcado pelo modelo americano.
Quem foi menos negro neste mundo foi Gandhi. (risos) Gandhi não tem nada a ver com negritude.

Mas se reivindica uma África imaginária como uma coisa baiana: a Bahia seria essencialmente africana, as raízes mais profundas da baianidade estariam nisso. Não é um pouco forçado, não?
É forçado. Há uma presença negra dominante, muito forte, mas que não chega a ter a densidade que alguns movimentos querem dar. Já pensou o que seria da Bahia se os brancos baianos resolvessem fazer o Dia da Consciência Branca? Já pensou? Teria tumulto na rua. O certo e verdadeiro seria o Dia da Consciência Mulata (risos) Aí estaríamos falando a verdade, mesmo.

Por que as pessoas relutam tanto em admitir que são mestiças, mulatas?
Não sei. Eu não rejeito.

Aqui na Bahia, só você e Caetano se dizem mulatos.
Eu e Caetano? (risos)

Por que essa rejeição à mestiçagem? Hoje os europeus falam tanto da beleza dos mestiços, e só você e Caetano…
Só eu e Caetano somos os mulatos da Bahia…

Nos meios sociais em que senhor convive, como é vista a mulatice?
A mulatice é rejeitada pelo branco e pelo negro.

Na cabeça das elites, há como um sentimento de culpa pela mistura…?
Por que culpa?

Porque havia a expressão “melhorar a raça”.
Limpar a raça. Havia aquele negócio de barriga suja, barriga limpa. Quando o menino nascia mulato, se saía dominantemente mulato, a mãe tinha barriga suja. Se o menino nascia dominantemente branco, a mãe tinha a barriga limpa. Tinha essa conversa…

No meio intelectual, você assumia sua mulatitude e criava um silêncio incomodativo…
Era.

Você sempre foi um pouquinho marginal, um pé dentro e um pé fora, tanto na universidade, que não lhe reconheceu em nada, porque você nunca abriu as pernas pra universidade…
Exatamente…

Na alta cultura. Essa gente tolerava você, lhe achava exótico?
Os piores são os mulatos metidos a branco (risos) É. Os piores. Quando eu entrei pra Academia de Letras, na história da Academia de Letras de 1917 até hoje quem entrou com menor número de votos fui eu. Eu entrei com um voto só que decidiu o ingresso. Houve uma campanha contra mim patrocinada, não vou dizer o nome aqui, por um cidadão mulatíssimo. Médico baiano mulatíssimo que patrocinou o veto a Cid.

Qual era o argumento?
Inconveniente, boquirroto, mulato… Todas as características do mulato.

E havia aquela elite do Recôncavo, descendente de senhores de Engenho, com muitos mulatos na família, mas com aquela pompa de brancos…
Sim, o mulato filho do barão era tolerado. O Barão de Belém teve filho como diabo com todas as escravas. Teve alguns aí…

O Barão de Belém era de onde?
Santo Amaro.

Que família é?
Calmon (risos) (N.R.: família tradicional na Bahia)

Como era ser filho de padre?
Normalíssimo. O livro de Cândido da Costa e Silva (“Os Segadores e a Messe: O Clero oitocentista na Bahia”) arrola filhos de padre. Era normal.

Não havia resistência social?
Não. Havia muito filho de padre. E digo mais: filhos de padres que os padres não rejeitaram, botaram pra estudar. Teodoro Sampaio é um clássico exemplo. Mas ao lado de Teodoro há outros. E o filho do dono da casa, do dono do engenho.

A bastardia vinha do fato de que pra ser macho, na Bahia, você tinha que ter uma segunda família?
Era fatal.

Esses filhos das segundas famílias, a famosa matriz filial, eram aceitos?
Era aceitos, sim. Tenho casos dentro da minha estrutura. As mães, não. As mães eram inimigas entre si. Mas, os meninos? Se misturavam…

A briga vinha na hora do testamento…
Quando morria o pai, aí tem que ver o que ele deixou.

Numa sociedade patriarcal, machista, todo mundo tem que casar. Quando se comprava um apartamento, tinha que passar por um estágio probatório para as pessoas saberem se era viado ou tarado. Quem não casava era suspeito. Os viados se casavam? Como era isso?
Era a boca pequena. Discrição. “Não, não é verdade…”. Desmentia, salvo casos como Evandro de Castro Lima (1920-1985, figurinista), que era notório. Esses faziam questão. Eles se orgulhavam…

 

E a homossexualidade em Salvador? Me parece, por relatos, que toda a cidade sabia quem era homossexual, os casos notórios.
As famílias “B”, digamos assim, não eram tão recusadas. No aniversário de um menino da família A, os meninos da família B compareciam, comiam toucinho…

O fuxico baiano está se perdendo? Era tão criativo, como se estivessem criano histórias. Todos eram um Jorge Amado ordinário. A Bahia está perdendo a oralidade?
Está. A cidade que está aqui, na Pituba, não tem nada a ver com aquela cidade do começo do século 20. Eu não sei o nome do homem que mora ali defronte. Se eu o encontrar na rua, não o cumprimento por ignorância.

As feministas sempre falam da opressão da mulher, do salão dos homens, mas mulheres tinham as suas manhas…
Tinham, tinham.

Eram sonsas?
Eram.

Santinhas do pau oco?
É. Claro que tinham aquelas Hildergardes (Viana, folclorista baiana que morreu virgem)… (risos)

E os casamentos arranjados pra viúvos?
Ah, ficar viúvo… É uma tragédia. Porque o que existe de gente querendo arranjar noiva, namorada e casamento pra viúvo… Sou viúvo hoje. É um negócio terrível… “Ah, você está sozinho, tem que casar, arrumar alguém…” E esse alguém já está programado pra tomar o lugar da finada. É isso daí.

Antigamente, se um viúvo com 70 anos quisesse se casar com uma mocinha, uma formosa sem dote…
Isso era objeto de escândalo.

Escândalo ou murmuração?
Murmuração… Ninguém ia empatar ninguém. Mas há uma tendência na sociedade de não deixar que o viúvo fique viúvo e nem que a viúva fique viúva. Há uma preocupação social de arrumar um segundo par para o viúvo ou a viúva.

O senhor falou das famílias tradicionais e me lembro de vê-lo falar sobre o familismo na política. O senhor escreveu que, na Bahia, houve poucas exceções à famílias políticas, como o ex-governador Lomanto Júnior. Juracy Magalhães é listado como dos Acioly do Ceará. Quais são as exceções de políticos sem o amparo de uma tradição familiar? Você dava uma aula inteira sobre a política dos genros.
Sim, você vê que a estrutura partidária da República Velha era essencialmente uma estrutura familiar. Virgílio Damásio era parente de Ruy Barbosa. Aqueles todos lá. Até chegar a Frederico Costa, todo mundo tinha a filha que casou com o sobrinho do primo… De 1930 pra cá, as coisas mudaram pouco, pouco, pouco. A chegada de Juracy não tem nada a ver com o “aciolismo” do Ceará, ele era tenente ligado a Juarez (Távora), mas repare que até hoje tem Jutahy, Jutahy Júnior… Luis Viana, Luis Viana Filho e Luis Viana Neto, que saiu da política e foi cuidar dos negócios.

Mesmo Lomanto acabou tendo seguidores…
Lomanto tem Lomanto neto, filho…

Você dizia que essa estrutura da política dos genros, com a exceção de Antonio Carlos Magalhães, que era um outsider, vai até o governador Roberto Santos.
Era filho de Edgard Santos (ex-reitor da Universidade da Bahia).

Waldir Pires?
Francisco Waldir Pires de Souza. Esse é solitário.

Como o senhor avalia a passagem de Antonio Carlos Magalhães pela política?
Vou fazer uma comparação que você vai achar maluca. Foi uma passagem de Napoleão pela França (risos)

Por quê?
Ele chegou, ele fez, ele arrumou, ele acabou, ele morreu, politicamente morreu. Pronto.

Você estranhou que no enterro dele houvesse tão pouca gente?
Tão pouca gente! Ele não era querido, era temido. Bastou perdeu o poder.

Isso aconteceu com Juracy Magalhães?
Eu me lembro da existência da Associação dos Amigos de Juracy Magalhães.

E tinha também a missa de Seabra.
A missa de Seabra e de Juracy. No dia 4 de agosto, aniversário de Juracy, o jornal A Tarde publicava, sistematicamente, o convite pra missa com três signatários. E que eram os três líderes do juracisismo. De ano pra ano, mudam os signatários. Quando está no poder, é um. Quando está fora do poder, é outro. (risos) Veja isso nos jornais antigos!

O senhor teve experiências com Antonio Carlos?
Não, fomos bons amigos, ele foi do meu tempo de ginásio, convivemos juntos, fui amigo do irmão dele, Zezito. Nunca ocupei nenhum cargo, nada. Relacionamento cordial e nada mais que isso.

Mas, fazendo um balanço da gestão, ele foi bom gestor, modernizou a Bahia?
Ele modernizou, marcou. Mas com o temperamento dele, exclusivo, conseguiu não ser querido, e sim ser temido.

Qual a relação dele com as tradicionais famílias baianas? Ele que acelera a decadência?
Também. Porque não os indicou, como era de praxe, para os cargos essenciais da administração pública.

Aí entram os técnicos…
Os tecnocratas. Acaba com aquele negócio de o sujeito nascer sabendo que vai ser diretor de banco.

Quais eram os bons lugares? Trabalhar no Estado, no Banco Econômico…
E na prefeitura (de Salvador). E na Magalhães & Cia.

O golpe de 1964 alterou as relações políticas?
Não, não houve. É como na Revolução de 1930. Não havia revolucionários em 30. Quando a Revolução ganhou, acabou-se o estoque de pano vermelho nas lojas. Porque todo mundo estava de lenço vermelho nos pescoços, todos viraram revolucionários. Nada se parece mais com um conservador do que um liberal no poder. A frase não é minha, não, mas é verdadeira. Isso é aplicável a todos os outros movimentos.

O vira-casaquismo.
O vira-casaquismo é normal.

Isso aconteceu com o governador Jaques Wagner (PT). Ele entrou e todo mundo virou a casaca.
É, mas sabe que não o conheço pessoalmente? Nunca o vi.

Aquele negócio de Florestan Fernandes, de José Honório Rodrigues, de que no Brasil sempre houve uma tradição de combinação pelo alto, é uma regra na Bahia? Se Geddel tomar o poder…
Todo mundo é geddelista. (risos)

Os cristãos-novos, na Bahia, se integraram logo, né?
Logo. Foram ser donos de mobiliaria no Desterro. (risos)

E os espanhois?
Não se meteram nisso. Se contentaram em ficar donos de armazéns, ou morrer ricos, ou morrer pobres. Ficaram fora do processo (político).

Vamos falar no corpo, porque está muito na moda falar no corpo…
Cada tempo tem seu padrão. E agora há esse padrão… Não havia essa psicose da magreza e também não havia a psicose da gordura.

E as mulheres eram desejáveis por serem…?
Repolhudas!

Aumento do salário mínimo reduz jornada para pagar cesta básica

O preço da cesta básica aumentou em janeiro, comparativamente a dezembro, mas continuou abaixo do que custava um ano atrás em 17 capitais pesquisadas pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese). Paralelamente, o reajuste do salário mínimo em quase 10%, no mês passado, reduziu o percentual de salário e o tempo de trabalho necessários para pagar a cesta.

Pelos cálculos do Dieese, o aumento do salário mínimo para R$ 510, em janeiro, diminuiu de 114 horas e 26 minutos, em dezembro, para 86 horas e 48 minutos a jornada necessária para o trabalhador comprar os produtos da cesta básica. E, enquanto o trabalhador que ganhava salário mínimo em dezembro comprometia 47,10% para comprar a cesta; em janeiro, passou a comprometer 42,88%.

ALTA DO AÇÚCAR

De acordo com a Pesquisa Nacional da Cesta Básica, divulgada ontem, de dezembro para o mês passado a cesta ficou mais cara em dez das 17 capitais, especialmente em Goiânia (GO), Salvador (BA), Florianópolis (SC) e João Pessoa (PB). As maiores quedas de preços ocorreram em Belo Horizonte (MG), Brasília (DF), São Paulo (SP) e Vitória (ES).

O produto que mais contribuiu para encarecer a cesta básica em janeiro foi o açúcar, cujo preço subiu em 16 capitais, sobretudo em João Pessoa (32,47%), Goiânia (19,18%) e Vitória (16,97%).  Segundo o Dieese, o preço do açúcar subiu nos últimos 12 meses em todas as 17 capitais pesquisadas, por efeito da maior procura no mercado internacional, da valorização do dólar e do período de entressafra.

De dezembro para janeiro, também ficaram mais caros o arroz (em 12 capitais), a carne e o pão (em dez) e a batata (em nove). Já o preço do tomate caiu em 15 capitais; o do óleo de soja em 13 e o café em dez capitais.

Porto Alegre (RS), São Paulo, Vitória e Manaus (AM) são as capitais em que a cesta básica foi mais cara em janeiro. Na capital gaúcha custava R$ 236,55; em São Paulo R$ 225,02; em Vitória R$ 217,20; e na capital do Amazonas R$ 216,53.

A informação é da agência Brasília Confidencial

 

Jorge Mattoso: Desafios do investimento

Por Jorge Mattoso, no Correio Braziliense

Jorge Mattoso, economista e consultor, foi presidente da Caixa Econômica Federal e professor do Instituto de Economia da Unicamp

Mesmo os economistas e observadores mais céticos não têm muito do que reclamar da economia brasileira nesta entrada de 2010. O Brasil soube aproveitar suas recém-adquiridas condições econômicas: reservas internacionais em expansão, crescimento econômico com distribuição de renda e valorização do mercado interno, setor financeiro estabilizado e bancos públicos fortalecidos, investimento em expansão e inflação sob controle, entre outras. E, contrariamente ao ocorrido durante as crises menores dos anos 1980 e 1990, o governo federal enfrentou a recente crise internacional com políticas monetárias e fiscais anticíclicas inovadoras.

Os próximos anos serão de retomada do processo de desenvolvimento, do crescimento econômico sustentado e da redução das desigualdades. Mas, para que isso se consolide e mantendo o indispensável controle inflacionário, teremos que assegurar a ampla retomada dos investimentos públicos e privados.

Já antes da crise, o PAC articulou os investimentos públicos e privados e definiu prioridades, favorecendo a elevação da taxa de investimento relativamente ao PIB para cerca de 19%. Com a crise, essa relação caiu, mas já se recupera, e o PAC 2 deve abrir espaço para sua consolidação e indispensável ampliação.

O crédito direcionado, desde antes da crise se comporta bem, seja aquele de longo prazo oferecido às empresas, seja aquele destinado à habitação e saneamento ou ao setor rural. O governo federal soube mobilizar as instituições diretamente envolvidas (BNDES, Caixa e BB), favorecer o acesso das empresas e das pessoas ao crédito e assegurar a extraordinária expansão do crédito direcionado.

Em contrapartida, o crédito livre despencou com a crise. Embora tenha melhorado recentemente, sua lenta recuperação indica que os bancos privados ainda não se recuperaram de sua maior aversão ao risco. O fraco desempenho do crédito livre em novembro e dezembro de 2009 fez com que a participação dos bancos privados no total do crédito recuasse no último mês do ano para pouco mais de 38%, contra mais de 61% dos bancos públicos.

Frente ao risco de contração do crédito, da liquidez e dos investimentos, o governo federal reforçou o caixa do BNDES, reduziu o compulsório dos bancos, cortou juros, criou novo programa habitacional (Minha Casa Minha Vida) e fortaleceu o PAC.

No entanto, com as taxas de crescimento do PIB projetadas para os próximos anos, certamente teremos que olhar o crédito e o financiamento do desenvolvimento com outros olhos. Mesmo países que dispõem de um mercado de capitais desenvolvido e crédito bancário de longo prazo, sempre que há aumento do investimento a questão do financiamento torna-se um problema.

Para o Brasil, o desafio de se alterar o padrão de financiamento do investimento é ainda maior. Aqui, não dispomos de crédito de longo prazo do sistema bancário privado, o FGTS e a poupança ainda são as principais fontes de financiamento ao desenvolvimento urbano, o coeficiente crédito/PIB é notavelmente baixo — apesar da importância do setor bancário na economia — e o mercado de capitais ainda não alcançou relevância no financiamento às empresas do país, salvo alguns segmentos. Com o indispensável aporte de recursos do Tesouro ao BNDES — R$ 100 bilhões em 2009 e prometidos R$ 80 bilhões em 2010 — ampliou-se o custo fiscal, pois enquanto o Tesouro capta à taxa básica de juros (Selic), que está hoje em 8,75% a.a., o BNDES empresta às empresas cobrando TJLP, que está em 6% ao ano.

Esse padrão e estrutura do financiamento, ainda hoje vigente, precisa ser transformado ou o investimento dificilmente romperá a barreira dos 20% do PIB. O maior desafio para a aceleração das taxas de investimento — processo absolutamente indispensável à sustentação do crescimento — será enfrentar estrategicamente essa questão e buscar um novo padrão de financiamento. E não bastam pequenas inovações financeiras.

Para iniciar esse processo, precisam ser viabilizados amplos fundos capazes de articular as distintas fontes de recursos disponíveis no cenário brasileiro. Às atuais fontes de recursos (FAT, FGTS, poupança, Tesouro, etc.) deveriam ser articulados tanto um menor estímulo à aquisição de títulos públicos e busca de uma maior participação dos bancos privados, quanto dos recursos dos fundos de pensão, dos fundos de investimentos nacionais e estrangeiros, das agências multilaterais e do mercado de capitais.

Iniciar essa articulação antes que as atuais fontes de financiamento se esgotem ou se mostrem insuficientes, é agenda imperiosa, que todos envolvidos — pretendendo dar continuidade a esse histórico e recente crescimento sustentado e inclusivo — precisam enfrentar.

Argentina tem pressa para utilizar reservas

O governo da Argentina acelera as negociações com os governadores para conseguir a aprovação do Fundo do Bicentenário, composto por US$ 6,5 bilhões das reservas internacionais, para pagar vencimentos da dívida em 2010.

A pressa está relacionada às possíveis complicações que a crise global poderia provocar na emissão da nova dívida que a Casa Rosada quer fazer como parte do swap dos títulos em moratória.

Na última quinta-feira, o ministro Amado Boudou disse que vai manter o cronograma do swap dos US$ 20 bilhões de títulos em default, em mãos dos holdouts (os credores que não entraram na reestruturação da dívida em 2006″. O swap está previsto para ser lançado no final de fevereiro.

“Embora essa seja a idéia, temos que ver se não surge nenhuma complicação com a tramitação da documentação junto aos organismos reguladores nos Estados Unidos, Europa e Japão”, ponderou uma fonte do Ministério da Economia ouvida pela Agência Estado.

No Ministério, os assessores ligados à operação suspeitam que poderiam receber novos pedidos da Security and Exchange Commission (SEC) para esclarecer informações sobre a inflação e o uso das reservas por parte do Executivo.

Com agências

 

Correios poderão passar a S/A

O ministro das Comunicações, Hélio Costa, apresentou ontem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva uma minuta do texto de medida provisória (MP) que visa a promover a reestruturação e modernização da estrutura administrativa da Empresa Brasileira de Correios. A previsão do ministro é de a MP seja assinada pelo presidente ainda neste mês e entre em vigor até o final do ano.  

Com a proposta, disse o ministro, a idéia é de que a receita dos Correios, hoje em R$ 12,5 bilhões por ano, cresça algo em torno de 50% no prazo de um ano e meio. De acordo com Hélio Costa, a proposta apresentada ao presidente muda o regime jurídico dos Correios, que deixaria de ser uma empresa pública de direito privado para torna-se uma empresa de sociedade anônima de capital fechado.

- Estamos propondo a mudança porque estamos perdendo cerca de R$ 400 milhões de correspondências por ano que são entregues normalmente pelos Correios, uma vez que a modernização dos sistemas de comunicação eletrônica têm custado aos Correios clientes importantes. Queremos mais flexibilidade para se modernizar e competir com empresas estrangeiras do setor e resolver alguns problemas clássicos dentro da empresa, como no caso de logística – disse o ministro ao final da reunião com Lula.

Uma das mudanças previstas, é a possibilidade das agências dos Correios venderem, seguros e recarga de celular, que hoje são proibidas.

- Temos que modernizar a empresa para recuperar os clientes, aumentar nossa receita anual, caso contrário, os Correios estão fadados, em dois anos, a ser uma carga pesada para o governo – alertou o ministro.

Outra alteração prevista na proposta, de acordo com o Hélio Costa, é a possibilidade de os Correios atuarem no exterior.

- Nesse momento não temos essa capacidade. Hoje, somos os principais consultores dos correios latino-americanos e, no entanto, não podemos ter atuação no exterior.

Segundo ele, a proposta vai permitir que a empresa tenha uma atuação “mais presente” principalmente na captação de remessas de valores dos brasileiros que moram foram do país, que chegam, por ano, a US$ 6 bilhões.

A informação é da Agência Brasil

Alta da Selic afeta 62% da dívida

Cerca de dois terços dos débitos públicos está indexada à taxa básica de juros

Caso a ameaça do Banco Central (BC) de elevar a taxa básica de juros (Selic) se concretize, ela terá forte impacto na dívida pública brasileira. Segundo dados do próprio BC, proporcionalmente, a dívida do governo nunca esteve tão atrelada à Selic.

Em dezembro, 62% do endividamento líquido do setor público eram remunerados pela Selic, novo recorde anual.

Em 2006, a fatia era 20 pontos percentuais menor: 41,7%. A grande participação da Selic na dívida acontece num momento em que cresce o lobby para o BC iniciar nova escalada dos juros.

O mercado financeiro pressiona para que a alta comece em março ou abril. O tema gera fortes divergências no Palácio do Planalto, que demonstra desconforto com a pressão dos bancos para alta da Selic, com o objetivo de incrementar lucros.

Levantamento mensal do BC mostra que a fatia da Selic na dívida subiu rapidamente nos últimos anos. Em 2006, a parcela era de 41,7%. No ano seguinte, o número aumentou para 47,2% e saltou para 58,2% em 2008.

O professor de economia da USP Fabio Kanczuk afirma que essa alta da participação do juro pós-fixado na dívida é resultado da estratégia do BC de comprar dólares para as reservas internacionais.

Os números do próprio BC mostram que essa correlação acontece desde 2006, quando os dólares das reservas somados ao valor que o país tem a receber do exterior superam a dívida externa.

Naquele ano, a posição credora na divisa norte-americana equivalia a 3,4% da dívida. Em 2007, quando a dívida indexada à Selic começou a subir rapidamente, a posição credora foi a 17,5%. Alcançou 30,3% em 2008 e 24,7% no fim do ano passado, o equivalente a R$ 33,23 bilhões.

Isso ocorre porque o BC compra dólar dos bancos e paga em reais. Mas para evitar que esse dinheiro amplie o crédito da economia, o BC vai a mercado tomar emprestado os mesmos reais entregues pelos dólares. Em troca, oferece aos bancos um título público que geralmente paga a taxa Selic.

A informação é do Monitor Mercantil

 

Após conversa com Lula, Paulo Bernardo desiste de candidatura

O ministro do Planejamento Paulo Bernardo desiste de se candidatar a deputado federal pelo PT, atendendo ao apelo de Lula para que continue no cargo. Em seu twitter, o ministro afirma que vai “jogar mais uma temporada no time” do presidente.

Segundo Bernardo, Lula disse que não queria mudar nem o Ministério do Planejamento, nem a sua equipe econômica. Ou seja, o apelo incluiria a permanência do neo-PMDB e presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, cotado por setores petistas para assumir o posto de vice da pré-candidata Dilma Rousseff (PT) ao Planalto.

Foi, portanto, colocado um ponto final nas especulações de que Paulo Bernardo substituiria Dilma na Casa Civil e de que se demitiria do cargo para se candidatar a deputado.

O acerto de Paulo Bernardo com o presidente Lula ocorreu nesta segunda-feira, 8, dia em que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso reiterou críticas à candidata petista em evento do provável pré-candidato tucano, governador de São Paulo José Serra.

No dia anterior, domingo, 7, FHC publicou um artigo no qual afirmou que Lula “enuncia inverdades” e desafiou os petistas a fazerem comparações entre as gestões tucana e petista “sem mentir” e “sem descontextualizar”. Enfatizando medidas econômicas e sociais de seu governo, FHC diz que não se intimidaria com a comparação.

As comparações propostas no artigo dividiram opiniões no PSDB. O texto contraria a estratégia do governador de São Paulo e pré-candidato tucano, José Serra, de evitar comparações de governos. O artigo foi publicado enquanto o comando tucano trabalha para convencer o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, a ocupar a vice de Serra.

Com agências

 

Foto- café


(Ilustração: Gabriel Daher)

Por Rui Daher, na Terra Magazine

A cafeicultura ainda hoje se destaca por uma notável riqueza cultural à altura de sua importância na formação econômica do Brasil. Será difícil as gerações futuras verem o mesmo nas culturas que hoje formam o grosso da produção agrícola nacional.

Comprova-o uma visita ao Museu do Café, no centro de Santos (SP), instalado num palácio que, a partir de 1922, abrigou a Bolsa Oficial do Café, central de operações comerciais. O prédio, restaurado em 1998, foi tombado pelo IPHAN (Patrimônio Histórico) no ano passado.

Na cafeteria, é possível provar os melhores cafés e blends produzidos nas principais regiões do País, sem ter de pagar os preços escorchantes de Starbuck´s e congêneres. Aviso: a coluna agradece, mas dispensa mensagens didáticas sobre a lei da oferta e procura.

Se a cafeicultura brasileira, de força inconteste no passado e presente ainda pujante, para assim manter-se no futuro precisará corrigir sua rota.

Na semana passada, a coluna visitou áreas tradicionais e produtivas no nordeste do estado de São Paulo, próximas das encostas de amena declividade dos cafeeiros do sul de Minas. Em São Sebastião da Grama (SP), paramos para conversar com um grupo de produtores.

O local tem história desde 1870. Coisa de desbravadores e tropeiros. Hoje, seus quase 13.000 habitantes, sem balbúrdia, em silêncio quase de monastério, ficam sabendo de todas as confusões do planeta, mas continuam preferindo falar de café. Ainda mais depois que o senhor Homero Teixeira, da Fazenda Recreio, venceu o concurso de melhor café produzido no estado de São Paulo, em 2008.

São regiões tradicionais, que cultivam cafés finos da espécie arábica, de custos mais altos de manutenção e preferidos no mercado externo. O Brasil é o maior produtor e exportador mundial de café, o consumo interno está crescendo em taxas aceleradas e os preços internacionais estão favoráveis. A bianualidade aponta, em 2010/11, produção de 40 milhões de sacas beneficiadas de 60 kg (11,5% maior que a anterior)

Mesmo com tudo isso, a situação do produtor é deficitária. Dívidas acumuladas ao longo dos anos e a dificuldade em obter e pagar os custos atuais de mão de obra comprometem a rentabilidade, sobretudo, em áreas montanhosas de colheita e tratos intensivos. O fator trabalho pesa mais de 50% no custo de produção.

É claro que pelo lado das relações entre capital e trabalho isso é um dado positivo. Trabalhadores sendo absorvidos por setores da economia que remuneram melhor e exigem desgastes físicos menores é um fato que os produtores de café não podem lamentar.

Mas os problemas não se restringem a isso. É cada vez maior a participação do café robusta no mercado, produzido a custos menores, e cujo consumo mundial, em 30 anos, passou de 25% para 40%, no rumo de desalojar a posição mandatória do café arábica.

Ainda que aceitem discutir rotas de fuga para a situação, e elas passam pela redução da dívida em troca da erradicação da parte ineficiente do parque produtivo, o que acarretaria reduções de área, custos de produção, menor oferta e melhores preços internacionais, todos falam disso com muita relutância e dor. Compreensível.

Há lideranças sérias do setor sugerindo que, em função da escassez de mão de obra e dos altos encargos sociais, financeiros, tributários e ambientais, a expansão da cafeicultura está muito mais propensa a ocorrer em pequenas e médias propriedades familiares do que em áreas maiores, fazendas situadas próximas a grandes aglomerados urbanos, industrializados, onde são mais caros os fatores de produção.

Está aí um bom assunto para debate entre as entidades do setor e o governo.

Rui Daher é administrador de empresas, consultor da Biocampo Desenvolvimento Agrícola.

 

BNDES pode se associar à Braskem em futura aquisição

O vice-presidente de finanças da Braskem, Carlos Fadigas, disse à Folha que o BNDES se ofereceu para participar da próxima aquisição da companhia nos Estados Unidos.

Entre o final de janeiro e o começo deste mês, a Braskem comprou a Quattor no Brasil -criando um monopólio na produção de petroquímicos básicos no país- e a americana Sunoco Chemicals.

No anúncio da segunda transação, o presidente da companhia, Bernardo Gradin, informou que os planos de internacionalização do grupo incluem mais uma empresa nos EUA. Ele não havia explicado, contudo, de onde viriam os recursos para o novo empreendimento.

De acordo com Fadigas, a proposta do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) é entrar na operação por meio de seu braço de participações, a BNDESPar. Ou seja, a instituição injetaria recursos na petroquímica comprando uma parte de suas ações.

Fadigas disse que é muito importante uma nova incorporação nos EUA para a estratégia da companhia de consolidar sua presença no mercado americano. Ressaltou, no entanto, que a próxima aquisição só deve ocorrer mais para a frente, pois a Braskem precisa primeiro “digerir” as duas conquistas anunciadas agora.

Mas, segundo a Folha apurou, a petroquímica brasileira já teria aberto conversas com cinco companhias nos EUA.

O vice-presidente da Braskem destacou também que não necessariamente precisará do capital do BNDES. “O “funding” [recursos] vai depender do tamanho da aquisição”, disse.

A Braskem tem três alternativas, segundo Fadigas. A primeira é utilizar recursos próprios. A segunda, levantar financiamento no mercado americano, onde as taxas de juros são mais baixas.

“Se for muito grande [a empresa a ser comprada], vamos aceitar a participação do BNDES”, disse ele.

Procurada pela reportagem, a assessoria do BNDES informou que não se manifestaria sobre o assunto.

Fadigas contesta o argumento de que a incorporação da Quattor representa um monopólio no país. Disse que enfrentam a concorrência da belga Solvay, que tem operações no Brasil e na Argentina, e da Dow Chemicals, com planta também no país vizinho.

“Além disso, 25% das resinas usadas no Brasil são importadas. Não há que falar em monopólio”, disse. Ele lembra também que a Quattor vinha de um processo de concentração liderada pela Unipar. “Para ficar sozinha [a Braskem], os outros decidiram sair.”

A informação é do jornal Folha de S. Paulo

 

Alencar afirma que fará tudo para eleger Dilma

Em dois discursos que pronunciou em Belo Horizonte, o vice-presidente da República, José Alencar, disse ontem que se considera no dever “de fazer tudo para que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tenha assegurada a continuidade do seu trabalho”.

Alencar afirmou que não reivindica candidatura a nada, mas que não se furtará a contribuir para a unidade dos partidos que formam a base do Governo Lula.

“Não postulo a nada. Quero a unidade para que a candidata nacional do Lula em Minas Gerais tenha um palanque inteligível. A única coisa que me move é ter unidade em Minas Gerais, para garantir apoio à continuidade do trabalho do presidente Lula”.

O vice-presidente ressalvou que só não disputará o governo mineiro se não estiver convencido de que poderá cumprir o mandato.

“O que me se segura no momento é o problema da saúde”, explicou. Na segunda quinzena de março ele se submeterá a exames médicos para avaliar os resultados do tratamento contra o câncer, segundo informou após visita ao governador Aécio Neves (PSDB).

José Alencar esteve em Belo Horizonte para receber uma homenagem da Câmara dos Vereadores e o título de “militante honorário” do diretório mineiro do PT. De acordo com o jornal Estado de Minas, “a possível candidatura do vice-presidente vem ganhando aliados à medida em que crescem as dificuldades para acomodar os interesses de, pelo menos, três aliados do Governo Lula: os ministros Hélio Costa e Patrus Ananias e o ex-prefeito de Belo Horizonte, Fernando Pimentel. O PT de Minas quer ter sua candidatura própria para disputar o governo do estado contra o candidato de Aécio, o vice-governador Antônio Augusto Anastasia. Mas não consegue colocar em acordo seus dois pré-candidatos, Patrus e Pimentel. O PMDB, por outro lado, cobra a cabeça de chapa” para o ministro Hélio Costa.

O jornal mineiro observa ainda que “Hélio Costa e Patrus Ananias já deram declarações sobre abrir mão da candidatura caso Alencar decida-se por ser candidato ao governo de Minas. Pimentel também já deu sinais de que está aberto às negociações. Com Alencar candidato ao governo, Hélio Costa poderia disputar o Senado com apoio da base aliada. A disputar ficaria entre os petistas para decidir quem ficaria com o cargo de vice, Patrus ou Pimentel.”

A informação é da agência Brasília Confidencial

 

Tarso: Fala de FHC quer dar voz a oposição sem rumo

O ministro da Justiça e pré-candidato pelo PT ao governo do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, afirmou nesta terça-feira que os recentes ataques do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) à ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, refletem a disposição de dar voz a uma oposição perdida e sem capacidade de fazer críticas consistentes à gestão petista.

“Ele (FHC) sintetiza a oposição e busca dar rumo a uma oposição sem rumo. É importante ele participar do debate. O que me estranha é que seus companheiros de partido não o defendam e não o acolham como nós acolhemos o presidente Lula”, disse Tarso.

Pré-candidata à sucessão petista na corrida presidencial, Dilma chegou a ser classificada por FHC de “boneco” que é “manipulado” por Lula.

“Algumas críticas me parecem duras demais para sua trajetória”, disse o ministro.”O Fernando Henrique Cardoso é a principal personalidade política da oposição. Ao contrário de ficar estarrecido, eu o saúdo. A oposição está muito fragmentada, muito sem rumo. (A participação de FHC) é positiva porque em um país democrático a oposição tem que ter voz. Não acho estranho, não acho desleal ou impróprio que se levantem críticas ao tipo de personalidade que o candidato tem. Só acho que não funciona”, afirmou.

Tarso Genro também afirmou que partido algum pode ser “o depositário da moral”. A queixa é referente ao seu partido, o PT, e também a outros, como o PSDB, citado por ele. Para Tarso, o debate veio à tona em decorrência das críticas sobre a espetacularização das ações da Polícia Federal que em algumas situações filmou e expôs os acusados e a impunidade.

“A espetacularização das operação da Polícia Federal levaram a isso ao debate sobre quem teria amparo moral para julgar . Isso é natural, ocorreu com o PT que chegava ao poder. Mas se fosse com o PSDB, ocorreria o mesmo.”

“Partido algum pode ser o depositário de toda moral”, afirmou Tarso, que nesta terça-feira deixa o cargo para se dedicar à campanha para o governo do Rio Grande do Sul.

Para Tarso, a indignação causada pelas críticas à impunidade pode ser positiva. Segundo ele, é necessário, a partir desse debate, mudar a legislação penal para reduzir as situações que permitam recursos judiciais, atrasos nos julgamentos e o uso de novas tecnologias. “É evidente que a impunidade existe. Nós temos de mudar essa situação.”

A informação é da Agência Brasil

 

Diatribes de FHC: Esse debate nos interessa, reage Tarso Genro

Com a nova rodada de ataques do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso à ministra-chefe da Casa Civil e pré-candidata ao Planalto, Dilma Rousseff, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva orientou uma reação em série de seu ministério. O ministro da Justiça, Tarso Genro, por exemplo, depois de participar da reunião de coordenação política do governo, disse que FHC tem legitimidade para participar do debate político em torno da sucessão presidencial e também para fazer comparações entre o governo dele e o atual. “É bom para nós que ele compare as duas administrações. Esse debate nos interessa”, declarou Tarso.

Na avaliação do ministro, a polarização que o ex-presidente provocou, com o artigo no Estado, é boa também para o País e a democracia. “Alguma frase mais agressiva, aqui e ali, vai ocorrer durante a campanha”, declarou Tarso, ressaltando que a presença de Fernando Henrique na cena política, vinculada à candidatura do governador de São Paulo, José Serra, “é positiva para a democracia e permite que a população compare os dois projetos”.

Ao responder aos últimos ataques de Fernando Henrique, o ministro-chefe da Secretaria de Relações Institucionais, Alexandre Padilha, decidiu ressaltar a capacidade administrativa de Dilma, ao salientar que ela “demonstrou sua capacidade de liderança ao construir o novo modelo energético, que resolveu o problema do apagão”.

“O estímulo para comparação entre os dois governos já foi feito na outra eleição e nós certamente vamos fazer novamente”, frisou Padilha. “O exercício da defesa do governo também é comparar com os governos anteriores e, enquanto a oposição não falar o que quer fazer para o Brasil daqui para a frente, nós só temos que comparar com o que eles fizeram.”

O ministro ironizou que “a única coisa que foi dita é que querem acabar com o PAC, querem mudar meta de inflação, querem mexer na taxa de câmbio, querem rever juros”. Referia-se, indiretamente, às declarações do presidente do PSDB, Sérgio Guerra (PE), dadas em entrevista recente. “Vamos debater. A partir do momento em que a oposição aparecer e mostrar o projeto que quer apresentar para o Brasil vamos comparar também com o futuro.”

“PINGO DE CHUVA”

O ministro das Comunicações, Hélio Costa (PMDB), por sua vez, desdenhou da importância das declarações do ex-presidente. “O impacto é o mesmo da queda de um pingo de chuva no Lago Paranoá”, ironizou.

O senador Aloizio Mercadante (PT-SP), durante evento em Santos, também considerou positivo o confronto das gestões tucana e petista. “Essa comparação vai fortalecer a campanha da Dilma”, comentou. “Eu acho que esse é um bom caminho que vai ajudar o Brasil a entender o discurso embutido em tudo que foi feito.”

No Rio, o governador Sérgio Cabral Filho (PMDB) considerou natural que em uma campanha política haja comparações entre a posição dos partidos que ocuparam o poder.

“Ou você compara propostas de quem não assumiu com quem já fez, ou você compara propostas no caso de dois partidos que ocuparam o governo federal”, comentou Cabral. “Há como comparar política econômica, política social, política de infraestrutura.”

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo

 

Robinho planeja 3 festas no Brasil

Um jogo, boa apresentação, um golaço, o da vitória por 2 a 1 contra o São Paulo, domingo, em Barueri, e Robinho mostra entusiasmo no Santos. Promete bom comportamento na volta ao Brasil e faz planos para três festas até agosto, quando retorna ao Manchester City. Festas só para comemorar a conquista do Campeonato Paulista, da Copa do Brasil e do Mundial da África do Sul, com a seleção brasileira, garantiu a amigos.

Um de seus principais objetivos é apagar a fama de baladeiro. No Santos, espera recuperar o bom futebol para chegar à Copa em ótima forma. Robinho diz ter como meta a curto prazo ser o principal jogador em campos africanos. Está disposto a mudar a imagem. Nem mesmo a reestreia com vitória, com gol de letra, mereceu comemoração. Depois de uma semana de treinos físicos em dois períodos, sob forte calor, e da ansiedade nos dias que antecederam sua reestreia no Santos, o camisa 7 apenas descansou após o gol de letra marcado em Rogério Ceni. Ontem, acordou às 11 horas, almoçou com a família e passou bom tempo brincando com o filho, Robson Júnior – a quem dedicou o gol -, até a viagem à capital no fim da tarde para participar do programa Bem, Amigos, do Canal SporTV.

Na TV, mostrou bom humor e revelou conversa recente com Dunga, pouco antes de voltar ao Brasil. “Liguei da Inglaterra e disse o que estava acontecendo. Aí ele me aconselhou a ir em busca de minha felicidade, e disse que eu precisava estar feliz para jogar bem.” E reforçou o ambicioso projeto de brilhar na África. “Sem ser mascarado, quero mesmo ser o melhor jogador da Copa, porque estou numa idade boa e me sinto bem.”

Hoje, o camisa 7 retoma a rotina de dois treinos por dia, mas livre da tensão que antecedeu o clássico de domingo. Depois do clássico, o astro santista voltou para sua luxuosa casa no Guarujá, em seu carro, com um amigo, três seguranças e o assessor Evandro de Souza. “Durante o trajeto, Robinho conversou por telefone com sua mulher (Vivian), com o filho (Júnior, 2 anos), e recebeu um telefonema de Elano. Ele estava tão feliz que convidou o companheiro do Santos de 2002 para também voltar, dizendo que o time é “levinho” e tem uma molecada que joga demais”, comentou Evandro de Souza.

A informação é do jornal O Estado de S. Paulo

 

Campeões de 70 pedem Neymar na seleção

Neymar já merece chance na seleção. Precipitado ou não, o pedido vem de senhores que têm experiência com a amarelinha. Para os campeões do tri, o garoto está apto no (improvável) caso de ser lembrado hoje por Dunga.

Os craques de 70, homenageados ontem na chegada da taça da Copa do Mundo a São Paulo, estavam encantados com a atuação de Neymar no clássico com o São Paulo. “Ele tem a qualidade do Robinho, mas com passe e finalização superiores. Espero que o Dunga ache espaço para o Neymar”, disse Clodoaldo.

O ex-goleiro Félix, sem passagem pelo Santos na carreira, foi mais comedido. “Como experiência, acharia bom convocá-lo. Mas acho cedo para ir à Copa, não tem conseguido ainda uma regularidade.”

Para Carlos Alberto Torres, Dunga pode usar os exemplos de Ronaldo, convocado em 1994, e Kaká, em 2002. “Seria uma jogada inteligente (levá-lo para a Copa), como foi em outros anos. É importante para ganhar experiência.”

Capitão do tri, Torres repetiu ontem o gesto imortalizado há quase 40 anos. Desta vez, porém, foi mais difícil levantar a taça. “Vamos, pessoal, está pesada”, apressou os fotógrafos. Tinha razão. A Copa do Mundo pesa 5,5 kg, quase dois a mais do que a Jules Rimet, erguida por ele no México.

A informação é do jornal O Estado de S. Paulo

 

Leonard Peltier e a notória perversidade da justiça “Made in USA”

Por Elsa Claro, no jornal Granma

Há cerca de 200 anos, o juiz superior do Supremo Tribunal de Justiça estadunidense, John Marshall, determinou que a relação legal dos habitantes originais do território com o governo dos Estados Unidos não era um tratamento entre iguais, mas de tutela (wardship), por se tratar de pessoas “carentes de capacidade civil”.

Quando um nativo norte-americano disse: “Nosso trabalho consiste em procurar que os que venham depois, as gerações que ainda não nasceram, não encontrem um mundo pior que o nosso, mas melhor…” estava se referindo ao que hoje é um sério problema originado a partir de insensatas ambições e da ausência de perspectiva assombrosa a respeito do planeta. A ideia se adequa a outros preceitos, citando os rancores desatados entre nações e as destrutivas guerras para submeter ou roubar territórios e recursos alheios.

“Por que nos arrebatam o que podem conseguir com amor? Estamos desarmados e dispostos a darmos-lhes o que peçam se vêm como amigos…” O critério parece tão lógico, básico e elevado, que não proceder em consequência disso delata uma escassa moral, mas os dirigentes dos EUA, durante sua primeira expansão, não repararam em possibilidades tão avançadas e agiram segundo continuam fazendo-o hoje: despojando aqueles que ali já estavam quando eles chegaram e submetendo-os com o uso da força ou empapando-os de pessimismo e raiva.

A usurpação da região norte deste continente pôde ser menos indigna, apesar de que fazê-lo sempre vai constituir um ato injusto e fora de lei. É difícil acreditá-lo, mas, no século 19, o Supremo Tribunal de Justiça decidiu que o índio é, por nascimento, um “estrangeiro e dependente”. É um dos motivos pelos quais se incluiu na Constituição que os aborígines não podiam ter representação parlamentar.

O nascente império queria aumentar sua hegemonia e possuir posições onde houvesse riquezas para serem exploradas. Daí nasceu também a expressão bárbara do general Philip Sheridan afirmando que “o único índio bom é o índio morto”.

 Quem imaginar que se trata de assuntos do passado, ignora ou minimiza a discriminação racial que os afro-americanos continuam padecendo, após tantos projetos de curtos avanços, depois de anos de luta e morte de tantos combatentes pelos direitos civis. Em sua própria dimensão e peculiaridade, isso é o que continua acontecendo com os nativos que vivem em reservas, espécie de bantustão, muitas vezes, sobre terrenos de alta toxicidade e com os que são ultrajados, ignorados ou impugnados quando querem manter seus costumes.

“Não temos o controle dos recursos da nossa reserva, não temos poder econômico” (…) Por isso se mantém “… uma grande controvérsia em Dakota do Sul sobre os problemas e o duplo sistema de justiça (uma para “brancos”, outra para índios) pelo qual protestamos nos anos 60 e 70”. (Trecho de uma entrevista a Leonard Peltier, realizada pelo politicólogo alemão Heinz Dietrich).

Leonard Peltier é um dos presos mais antigos dos EUA, considerado um  dos tantos “indígenas maus”, protagonistas daqueles filmes “do faroeste” com os quais nos fizeram crer e “demonstraram” a superioridade dos criminosos e a ausência de virtudes dos atropelados que hoje continuam sendo vítimas mal escondidas do sistema.

O CASO PELTIER

Umas 100 mil páginas recolhem dados do FBI guardados até hoje em secreto. Investigações independentes e de organismos internacionais, contudo, situam a história deste indígena anishinabe-lakota nos anos 70, chamada por alguns a década prodigiosa porque nela ocorreram mudanças significativas em nível mundial na música e movimentos sociais de larga envergadura, entre os quais, os protestos contra a guerra no Vietnã.

 Pertencia ao Movimento do Índio Americano (AIM), grupo comprometido com o progresso de suas comunidades, partindo da conservação do orgulho cultural próprio. Aderiram os chamados tradicionalistas, tribos empenhadas também em manter seus costumes, soberania moral e intimidade com a natureza.

Nunca foram bem vistas tais expressões de emancipação. Assassinaram vários membros dessas comunidades e após padecerem diversos maus-tratos, os indígenas realizaram em 1973 um protesto no povoado de Wounded Knee, em Pine Ridge. Foram barbaramente reprimidos e, apesar de o governo prometer investigar as queixas apresentadas pelos demandantes, as condições existentes na reserva piorariam ao ponto de impedir que os dois assentamentos em protesto realizassem juntos suas cerimônias ancestrais.

Nos três anos seguintes, os membros do AIM viram, entre muitas ações contra ele, como suas casas foram queimadas e foram alvos de disparos feitos de veículos em marcha. Foram feridos ou assassinados. Foi organizada uma campanha em que foram apresentados como indivíduos violentos e não apegados à lei, tentando justificar aquelas investidas de forças paramilitares com a anuência do FBI, entidade que, segundo dados diversos, na época, foi responsável pela criação de uma rede fraudulenta para justificar qualquer ação contra os indígenas.

O crescimento de tão péssimo e artificial ambiente fez com que os do AIM fossem chamados pelos tradicionalistas para que retornassem à reserva e os protegessem das constantes e muitas vezes letais transgressões. Entre os que responderam a esse pedido de auxílio sobressai Leonard Peltier que, junto a mais 12, acampou numa fazenda de Jumping Bull, junto às famílias assentadas no local. Ali estavam quando, em 26 de junho de 1975, dois agentes do FBI irromperam em veículos não-oficiais. Segundo disseram estavam procurando um indígena que havia participado de uma rixa e um roubo.

Não se sabe com exatidão — ou tal se pretendeu — quem começou a disparar, mas, aos poucos, estavam envolvidos numa contenda residentes e policiais. Estes últimos pediram reforços a tropas especiais do Bureau of Indian Affairs. Cercaram a fazenda, da qual Peltier conseguiu tirar um grupo de adolescentes para um local seguro sob o fogo cruzado que, afinal, feriu dois agentes. Peltier foi culpado de dar cabo deles, enquanto agonizavam.

 De repente, foram acusados desse resultado três líderes do AIM (Dino Butler, Bob Robideau e Leonard Peltier, além de Jimmy Eagle). Butler e Robideau foram inocentados pelo júri por agirem em defesa própria, admitindo que a atmosfera de alarme e desassossego imperantes em Pine Ridge explicava que tivessem ripostado os disparos dos guardas.

 O FBI reagiu colérico diante do veredicto e retirou as acusações contra Jimmy Eagle (quem era inicialmente procurado pelos guardas), tentando que “… todo o peso da lei do governo federal caísse em Leonard Peltier”, segundo aparece nalguns memorandos que, quase por acaso, foram conhecidos. Quer dizer que foram capazes de eximir de culpa a quem pôde ser, de maneira ciente ou não, detonante dos fatos, para passar a vingança a quem era um ativista muito prestigioso e popular entre o povo. Para garantir o resultado que finalmente obtiveram, transferiram o suspeitoso para que fosse processado por um juiz diferente ao de seus companheiros e que sobressaía pelo rigor de suas considerações.

 Peltier tinha muitíssimas dúvidas sobre a qualidade do julgamento ao qual pensavam levá-lo, partindo de um enfoque muito parcial e do desejo ardente de vingança que se respirava na zona. Foi para o Canadá, onde foi preso uns meses depois. Para ser extraditado para os EUA, apresentaram contra ele depoimentos de uma mulher que, apesar de não conhecê-lo, alegou ter sido sua namorada e que o viu disparar contra os policiais.  Ela nem sequer esteve no local dos fatos e, tempo depois, contradisse-se, especificando que seu testemunho falso foi devido às ameaças e pressões do FBI.

 De qualquer maneira, Peltier foi deportado e nos EUA (Fargo, Dakota do Norte, 1977) impetrou-se um arranjado recurso, no qual foi condenado a duas penas de prisão perpétua, apesar de que as provas do perito demonstraram que as balas que mataram os agentes não foram disparadas com sua arma.

Para Anistia Internacional, “após ter examinado pormenorizadamente o caso durante muitos anos… continuam preocupando diversos aspectos sobre a imparcialidade do processo que conduziu a sua condenação, como por exemplo, as evidências que demonstraram que ele disparou à queima-roupa e coagiu uma suposta testemunha ocular”.

 O próprio organismo, com uns cinquenta congressistas estadunidenses e vários membros do Parlamento do Canadá, aderiu a outras organizações exigindo um novo processo, desta vez, imparcial, pois o processo para a extradição em 1976, e o fato de a promotoria ter retido provas balísticas, “potencialmente chaves que poderiam ter ajudado na defesa de Leonard Peltier”, indicam às claras a manipulação sofrida pelo envolvido.

BODE EXPIATÓRIO?

Existem critérios que apontam que Peltier serviu como elemento de contenção contra um movimento que ganhava força, quando o governo pensava ter sufocado toda pretensão redentora dos diferentes povos índios. Queriam, fundamentalmente, pôr fim à resistência de muitos destes habitantes autóctones ao desenvolvimento de megaprojetos energéticos em terras entregues pelo próprio estado federal, por meio de pactos que assinaram com eles.

 Muitos tratados feitos com os caciques, quando ainda existia certo decoro fatalmente dissipado, quebrantaram-se em diferentes momentos e em quantidade esmagadora. No momento em que tiveram lugar os fatos narrados, pretenderam repetir as violações de palavra e compromisso, mas se depararam com a oposição de novas gerações unidas a seus maiores, convencidas de que viver em harmonia com o entorno é melhor que acabar com ele e considerando que nada dava razões para ceder direitos já bastante encolhidos, era preferível defendê-los custasse o que custar.

 Com o decurso do tempo, soube-se que a Reserva Pine Ridge, em Dakota do Sul, foi na verdade escolhida para uma operação paramilitar de “manutenção da paz” por parte do FBI, que teria aplicado os métodos da guerra de contra-insurgência aplicados em vários países para usá-los contra os indígenas inconformados, durante uma etapa na qual confluíram no país, várias correntes de protesto dentro das minorias submetidas, levantadas para resgatarem seus direitos.

 Em meados dos anos 70, morreram ao redor de 60 membros do AIM ou seguidores desse grupo. Como as “advertências” prévias executadas não tiveram os frutos esperados, passaram a escalar os ataques e iniquidades. O contexto de violência foi de tal magnitude, que os líderes e idosos da tribo Oglala criaram o acampamento Jumpling Bull — onde depois tiveram lugar os fatídicos fatos — tentando proteger suas famílias das mortíferas operações policiais e paramilitares.

 Que fossem capazes de se organizarem e até de resistirem, foi intolerável para as “autoridades brancas” que buscaram uma justificativa e um culpado que freasse as tentativas de resistência indígena. Estavam de olho em Peltier pelo arraigo que conseguiu.  Era o adequado para usá-lo no plano de contenção. Ao ser perguntado sobre por que não lhe fizeram outro julgamento, ele respondeu: “Eles sabem que se eu conseguir um novo processo, terão a mesma possibilidade de ganhar que a que tem uma bola de neve no inferno”.

 Antes que seu caso fosse submetido à Comissão Federal de Indultos foi surrado no presídio, como parte de fórmulas para aplacar seu ativismo na prisão em causas nobres e ter bases que permitissem colocá-lo em confinamento solitário, aparentando que era o causador de alguma desordem, e apresentá-lo como revoltoso inveterado, depois de três desgastantes décadas. Assim apareceria perante a equipe que o avaliaria com uma posição não vantajosa.

 No final de julho de 2009, foi avaliado para uma sempre negada liberdade condicional. Seu advogado deu azo a essa aspiração, alegando sua boa conduta e o compromisso da tribo Turtle Mountain de acolhê-lo em seu grupo.

A recusa a libertá-lo baseou-se em que pô-lo em prática “depreciaria a seriedade de suas ofensas e promoveria o desrespeito à lei”. A Comissão passou por alto que um dos ex-acusados tinha admitido pouco antes que foi o autor dos disparos que mataram os agentes.

 Ou seja, nem sequer ter provas concludentes, como foi aquela confissão espontânea, foi suficiente para os que usaram e mantêm o critério de possuir um protótipo “exemplar”, de maneira que outros não ousem desafiá-los de novo.

 É vergonhoso saber que a próxima audiência para outra improvável libertação foi fixada daqui a 14 anos! Os examinadores sabem que Peltier sofre de várias doenças sérias e mal-atendidas, portanto, é possível que, sob as difíceis condições da prisão, piorem ou provoquem a sua morte.

Figuras do mundo artístico, legal e político, bem como cidadãos correntes de muitos países, exigem clemência para um caso tão claramente arranjado e levado a elevado grau de perversidade notória. Neste momento, está veiculando uma carta encaminhada ao presidente Barack Obama com a reivindicação de que seja revisto o caso ou concedida a liberdade a quem nunca deveu ser submetido a tão prolongada e ilícita pena. Não existe muita esperança de que este presidente, entre todos os que fizeram similar requerimento, seja quem o redimir.

A crise de credibilidade da Folha

A mais recente insanidade de Lúcia Hipólito

Por RicardoB, no Portal Luis Nassif

A insanidade dos comentaristas políticos da grande imprensa não tem limites. Hoje pela manhã, Lúcia Hiplólito falou na CBN sobre a possível candidatura de José Alencar ao governo de Minas. Início do comentário: “O PT quer ganhar sem concorrer”. Em sua “brilhante análise”, Lúcia acusa o PT de querer colocar José Alencar como candidato, já pensando que este não vai aguentar até o final do mandato, e aí o PT, que terá o vice na chapa assume o cargo.

Análise rasteira, sem a mínima ética, sem nenhum respeito à figura desta exemplar figura política do País. Lúcia Hipólito se esqueceu que José Alencar estava disposto a se candidatar ao senado (mandato de 8 anos) e agora pode se candidatar a um cargo cujo mandato é de 4 anos, portanto, na sua tosca análise, ela deveria refletir que ele agora tem mais chances de terminar este mandato, que é a metade do tempo do outro.

Ouça a insanidade aqui.

Reflexões de Fidel: A revolução bolivariana e as antilhas

afidelEu gostava da história como quase todos os rapazes. Também gostava das guerras, uma cultura que a sociedade semeava nas crianças do sexo masculino. Todos os brinquedos que recebíamos eram armas.

Na minha infância fui enviado para uma cidade, onde nunca me levaram ao cinema. Naquela época não existia a televisão e na casa onde eu morava não havia rádio. Eu tinha que usar a imaginação.

Na primeira escola a qual fui enviado como interno, lia com espanto sobre o Dilúvio Universal e a Arca de Noé. Mais tarde, achei que era, talvez, um vestígio que a humanidade guardava da última mudança climática na história da nossa espécie. Foi, possivelmente, o fim do último período glacial, que supostamente aconteceu há muitos milhares de anos.

Como se presume, mais tarde li com avidez as histórias de Alexandre, César, Aníbal, Bonaparte e, evidentemente, todo livro que caia nas minhas mãos sobre Maceo, Gómez, Agramonte e outros grandes soldados que lutaram pela nossa independência. Não tinha cultura suficiente para compreender o que havia por trás da história.

Posteriormente focalizei a minha atenção em Martí. Na verdade, a ele lhe devo os meus sentimentos patrióticos e o conceito profundo de que “Pátria é humanidade”. A audácia, a beleza, o valor e a ética de seu pensamento ajudaram a me tornar no que eu acho que sou: um revolucionário. Sem ser martiano, não se pode ser bolivariano; sem ser martiano e bolivariano, não se pode ser marxista, e sem ser martiano, bolivariano e marxista, não se pode ser antiimperialista; sem ser as três coisas não se podia conceber uma Revolução em Cuba na nossa época.

Há quase dois séculos, Bolívar quis enviar uma expedição chefiada por Sucre para libertar Cuba, coisa que precisava muito dela, na década de 1820, como colônia canavieira e cafeeira espanhola, com 300 mil escravos trabalhando para seus proprietários brancos.

Frustrada a independência e transformada em uma neocolônia, em Cuba não se podia alcançar jamais a dignidade plena do homem, sem uma revolução que eliminasse a exploração do homem pelo homem.

“…eu quero que a lei primeira da República seja o culto dos cubanos pela dignidade plena do homem.”

Martí, com seu pensamento, inspirou o valor e a convicção que levou o nosso Movimento ao assalto da fortaleza do Moncada, o que jamais tinha passado por nossas mentes sem as idéias de outros grandes pensadores como Marx e Lenine, que nos fizeram ver e compreender as realidades tão diferentes da nova era que estávamos vivendo.

Durante séculos, em nome do progresso e do desenvolvimento, em Cuba se justificava a odiosa propriedade latifundiária e a força de trabalho escrava, que foi precedida pelo extermínio dos antigos habitantes destas ilhas.

De Bolívar, Martí disse algo maravilhoso e digno de sua gloriosa vida:

“…o que ele não deixou feito, hoje ainda está por fazer: porque Bolívar ainda tem coisa a fazer na América.”

“Diga Venezuela em que posso servi-la: ela tem em mim um filho”

Na Venezuela, como nas Antilhas fizeram outras, a potência colonial cultivou cana-de-açúcar, café, cacau, e levou também como escravos a homens e mulheres da África. A resistência heróica de seus indígenas, apoiando-se na natureza e na extensão do solo venezuelano, impediu o aniquilamento dos habitantes autóctones.

Salvo uma parte ao Norte do hemisfério, o imenso território de Nossa América ficou nas mãos de dois reis da Península Ibérica.

Sem temor pode dizer-se que, durante séculos, nossos países e os frutos do trabalho de seus povos foram saqueados e continuam sendo saqueados pelas grandes empresas multinacionais e as oligarquias que estão a seu serviço.

Ao longo dos séculos XIX e XX, quer dizer, durante quase 200 anos após a independência formal da América Ibérica, nada mudou em essência. Os Estados Unidos, a partir das 13 colônias inglesas que se revelaram, expandiu-se para o Oeste e para o Sul. Comprou Louisiana e a Flórida, arrebatou-lhe mais da metade de seu território ao México, intervieram na América Central e se apoderaram da área do futuro Canal de Panamá, que uniria os grandes oceanos ao Leste e ao Oeste do continente por um ponto onde Bolívar desejava criar a capital da maior das repúblicas que nasceria da independência das nações da América.

Naquela época, o petróleo e o etanol não se comercializavam no mundo, nem existia a OMC. A cana-de-açúcar, o algodão e o milho eram cultivados por escravos. As máquinas estavam por se inventar. Avançava com força a industrialização a partir do carvão.

As guerras impulsionaram a civilização, e a civilização impulsionou as guerras. Estas mudaram de caráter e se tornaram mais terríveis. Finalmente viraram conflitos mundiais.

A final, éramos um mundo civilizado. Inclusive, o consideramos como uma questão de princípios.

Mas, não sabemos o que fazer com a civilização alcançada. O ser humano equipou-se com armas nucleares de impensável certeza e aniquiladora potência, enquanto desde o ponto de vista moral e político, tem recuado vergonhosamente. Política e socialmente, estamos mais subdesenvolvidos do que nunca. Os autômatos estão substituindo os soldados, a mídia substitui os educadores, e os governos começam a serem ultrapassados pelos acontecimentos sem saber o que fazer. Na desesperação de muitos líderes políticos internacionais se observa a impotência perante os problemas que se acumulam em seus gabinetes de trabalho e as reuniões internacionais são cada vez mais freqüentes.

Nessas circunstâncias, no Haiti tem lugar uma catástrofe sem precedentes, enquanto no lado oposto do planeta continuam desenvolvendo-se três guerras e uma corrida aos armamentos, em meio da crise econômica e de conflitos recentes, a qual consome mais de 2,5% do PIB mundial. Uma cifra com a qual poderiam desenvolver-se em pouco tempo todos os países do Terceiro Mundo e talvez evitar a mudança climática, consagrando os recursos econômicos e científicos que são imprescindíveis para esse objetivo.

A credibilidade da comunidade mundial recebeu recentemente um duro golpe em Copenhague, e nossa espécie não mostra sua capacidade para sobreviver.

A tragédia do Haiti me permite expor a minha opinião a partir do que a Venezuela tem feito com os países do Caribe. Enquanto em Montreal as grandes instituições financeiras hesitam sobre o que fazer no Haiti, a Venezuela não hesita um minuto em perdoar-lhe a dívida econômica de 167 milhões de dólares.

Durante quase um século as maiores multinacionais extraíram e exportaram o petróleo venezuelano a preços ínfimos. Durante decênios a Venezuela virou o maior exportador mundial de petróleo.

É bem conhecido que quando os Estados Unidos gastaram centenas de milhares de milhões de dólares em sua guerra criminosa do Vietnã, matando e deixando incapacitados milhões de filhos desse heróico povo, também quebrou unilateralmente o acordo de Bretton Woods suspendendo a conversão do dólar em ouro, segundo estipulava o acordo, e lançando sobre a economia mundial o custo dessa súcia guerra. A moeda norte-americana desvalorizou-se e o ingresso de divisas dos países caribenhos não dava para pagar o petróleo. Suas economias baseiam-se no turismo e nas exportações de açúcar, café, cacau e outros produtos agrícolas. Um golpe desconcertante ameaçava as economias dos Estados do Caribe, com a exceção de dois deles, exportadores de energia.

Outros países desenvolvidos eliminaram as preferências alfandegárias às exportações agrícolas caribenhas, como a da banana; a Venezuela teve um gesto sem precedentes: garantiu à maioria desses países fornecimentos seguros de petróleo e facilidades especiais de pagamento.

Por outro lado, ninguém se preocupou pelo destino desses povos. De não ter sido pela República Bolivariana, uma terrível crise teria golpeado os Estados independentes do Caribe, com exceção de Trindade e Tobago e Barbados. No caso de Cuba, após a URSS ter colapsado, o Governo Bolivariano impulsionou um crescimento extraordinário do comércio entre ambos os países, que incluía o intercâmbio de bens e serviços, que nos permitiu encarar um dos períodos mais duros de nossa gloriosa história revolucionária.

O melhor aliado dos Estados Unidos, e ao mesmo tempo o mais baixo e vil inimigo do povo, foi o farsante e simulador Rômulo Betancourt, Presidente eleito da Venezuela quando triunfou a Revolução em Cuba em 1959.

Foi o principal cúmplice dos ataques piratas, os atos terroristas, as agressões e o bloqueio econômico a nossa pátria.

Quando mais o necessitava nossa América, estourou finalmente a Revolução Bolivariana.

Convidados a Caracas por Hugo Chávez, os membros da ALBA comprometeram-se a oferecer o máximo apoio ao povo haitiano no momento mais triste da historia desse lendário povo que levou a cabo a primeira Revolução social vitoriosa na história do mundo, quando centenas de milhares de africanos ao se revoltarem e criar no Haiti uma República a milhares de milhas de suas terras natais, levaram a cabo uma das mais gloriosas ações revolucionarias deste hemisfério. No Haiti há sangue negro, índio e branco; a República nasceu dos conceitos de equidade, justiça e liberdade para todos os seres humanos.

Há 10 anos, em momentos em que o Caribe e a América Central perderam dezenas de milhares de vidas durante a tragédia do furacão Mitch, foi criada em Cuba a Escola Latino-americana de Medicina (ELAM) para formar médicos latino-americanos e caribenhos que nalgum dia salvariam milhões de vidas, mas especialmente e por cima de tudo, serviriam como exemplo no nobre exercício da profissão médica. Juntamente com os cubanos estarão no Haiti dezenas de jovens venezuelanos e mais outros latino-americanos graduados na ELAM. De todos os cantos do continente chegam notícias de muitos companheiros que estudaram na ELAM, que desejam colaborar ao lado deles na nobre tarefa de salvar vidas de crianças, mulheres e homens, jovens e idosos.

Haverá dezenas de hospitais de campanha, centros de reabilitação e hospitais, onde prestarão serviço mais de mil médicos e estudantes dos últimos anos da carreira de Medicina, procedentes do Haiti, da Venezuela, de Santo Domingo, da Bolívia, da Nicarágua, do Equador, do Brasil, do Chile, e demais países irmãos. Temos a honra de contar já com um número de médicos norte-americanos que também estudaram na ELAM. Estamos dispostos a cooperar com aqueles países e instituições que desejem participar destes esforços para prestar serviços médicos no Haiti.

A Venezuela já deu casas de campanha, equipamentos médicos, remédios e alimentos. O governo de Haiti tem oferecido toda a sua cooperação e apoio a este esforço por levar os serviços de saúde gratuitamente ao maior número possível de haitianos. Para todos será um consolo em meio da maior tragédia que tem tido lugar em nosso hemisfério.

Fidel Castro Ruz

7 de Fevereiro de 2010

Cantor sertanejo Pena Branca morre aos 70 anos

aaaaaaaapenabrancaO cantor sertanejo José Ramiro Sobrinho, o Pena Branca, morreu no início da noite dessa segunda-feira, aos 70 anos, no Hospital São Luiz Gonzaga, em São Paulo, vitimado por insuficiência respiratória. O cantor ficou conhecido no Brasil inteiro pela dupla com Ranulfo Ramiro da Silva, o Xavantinho, que morreu em 1999.

Pena Branca nasceu em Igarapava, em 1939, e viveu boa parte da vida na cidade mineira de Uberlândia. Ranulfo Ramiro da Silva, o Xavantinho, era seu irmão e nasceu em Uberlândia em 1942. Em 1958 eles começaram a cantar, apresentando-se em uma rádio de Uberlândia. Mudaram-se para São Paulo para tentar a vida artística em 1968. Com o tempo, Pena Branca e Xavantinho tornaram-se exemplos da música sertaneja caipira, considerada “de raiz”, em relação à música sertaneja com influências country que se popularizou nos anos 90.

Em 1980, Pena Branca e Xavantinho se inscreveram em um festival da TV Globo com a música Que Terreiro é Esse? e chegaram à final. Também nesse ano, a dupla lançou o disco Velha Morada, com músicas como Cio da Terra, composta por Milton Nascimento e Chico Buarque, e Calix Bento, além da canção finalista no festival. Durante a carreira, gravaram com nomes como Milton Nascimento, Rolando Boldrin, Fagner e Almir Sater, entre outros. Em 1990, conquistaram o Prêmio Sharp de melhor música interpretando Casa de Barro, de Xavantinho e Moniz, e melhor disco, com Cantado do Mundo Afora. Em 1992, o disco Ao Vivo em Tatuí, com Ricardo Teixeira, ganhou o Prêmio Sharp de melhor disco.

Nos anos 90, a dupla iniciou shows internacionais, tocando em lugares como os Estados Unidos. Com a morte de Xavantinho, em 1999, Pena Branca continuou em carreira solo. Em 2001, o músico recebeu o Grammy Latino de Melhor Disco Sertanejo com o álbum Semente Caipira, gravado com o grupo Viola de Nóis. O último trabalho de Pena Branca é Cantar Caipira, de 2008. Ainda não há informações sobre o velório ou o enterro de Pena Branca.

Discografia de Pena Branca com Xavantinho
Velha morada (1980)
Uma dupla sertaneja (1982)
Cio da terra (1987)
Canto violeiro (1988)
Cantadô do mundo afora (1990)
Ao vivo em Tatuí com Renato Teixeira (1992)
Violas e canções (1993)
Pena Branca e Xavantinho (1994)
Ribeirão encheu (1995)
Coração matuto (1998)

Discografia solo de Pena Branca
Semente Caipira (2000)
Pena Branca canta Xavantinho (2002)
Cantar Caipira (2008)

Dilma comanda reação a diatribes de FHC

aaaaaaaaaaaaaaaamala

O governo saiu em bloco para responder as críticas feitas pelo ex-presidente neoliberal Fernando Henrique Cardoso (FHC). A ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, disse que não deixará de fazer comparações entre o que foi feito pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seu antecessor. “Não estou desmerecendo ninguém, estou dizendo que nosso caminho é melhor”, disse.

Em artigo publicado ontem no jornal O Estado de S. Paulo, FHC afirmou que Lula, levado por “momentos de euforia”, está inventando inimigos e enunciando inverdades. O ex-presidente direitista, com seu habitual palavreado rasteiro, dise que Lula se deixando “contaminar” por “impulsos tão toscos” e mostrou disposição para entrar no embate das realizações de cada governo. “Se o lulismo quiser comparar, sem mentir e sem descontextualizar, a briga é boa”, provocou.

FHC, diria o ex-jogador Romário, calado é um poeta. Para Dilma, o que o governo defende é uma comparação para a escolha de caminhos. “Essa é a forma de nós confrontarmos as possibilidades”, disse a ministra. O ex-presidente direitista afirmou em seu artigo que a estratégia adotada pelos governistas seria uma tentativa de ganhar as eleições “com o retrovisor”.

Dilma rebateu. “Comparar não é ficar olhando pelo retrovisor. Comparar é discutir que caminho vou seguir”, disse. “Sem sombra de dúvida, houve passos no governo anterior, agora, o que estou dizendo é que o nosso caminho é melhor.”

O ministro das Relações Institucionais, Alexandre Padilha, também defendeu a política de comparações e disse que o PT está disposto a debater com os tucanos suas propostas para o futuro. “Assim que mostrarem o que querem fazer, nós vamos comparar com aquilo que queremos fazer daqui para frente”, afirmou

O ex-presidente neoliberal argumentou em seu artigo que o governo ignora dados e insiste em contar sua versão dos fatos para tentar “desconstruir o inimigo principal”, os tucanos. O empréstimo feito pelo país em 2002, no FMI, foi um dos exemplos citados por FHC de custos enfrentados pelo país por anos de “bravatas” do PT que hoje são ignoradas pelos petistas.

Dilma desmontou a argumentação. “O governo pediu US$ 14 bilhões porque só tinha US$ 16 bilhões de reservas e tinha atrelado sua dívida interna ao dólar”, disse. “Hoje, temos reservas de US$ 240 bilhões, essa a diferença.”

Segundo a ministra, a de cisão de atrelar a dívida ao dólar acabou tendo efeitos perversos. “Cada vez que havia uma desvalorização, a dívida das empresas, a dívida do governo se multiplicava na proporção da desvalorização”, disse. “Diante de cada crise o governo quebrava, ele era parte do problema.”

Para Dilma, o atual governo mudou o papel do Estado. “Na hora que a coisa ficou preta, quando acabou o crédito internacional e nenhum banco privado emprestava, foram os nossos bancos públicos que seguraram”, comentou. “Não vamos comparar desta vez que o governo brasileiro foi parte da solução?”

A tentativa de colar a imagem do governo com sinais de mudanças radicais também não faz sentido, disse. “O pessoal está um pouquinho atrasado, nem em Davos a gente recebe mais essa crítica.”

Citado no artigo do trêfego FHC, o presidente eleito do PT, José Eduardo Dutra, disse que quem não reconheceu os feitos do governo passado foi o candidato tucano ao Planalto em 2006, o ex-governador Geraldo Alckmin. “Quem escondeu os progressos do governo dele foi o Alckmin. Ele ficou envergonhado de defender o governo FHC”, provocou Dutra.

Em seu artigo, FHC disse que Dutra, que já presidiu a Petrobrás, reconheceu que votaria contra uma eventual proposta de volta ao monopólio do petróleo, tema defendido por muitos anos pelo PT. Dutra confirmou essa posição e disse também que já elogiou outra medida tomada pelo governo FHC, hoje alvo de críticas dos próprios tucanos.

“Um dos grandes motivos para o crescimento da Petrobrás foi a agilidade que ela ganhou a partir do momento em que não teve mais de cumprir a 8666 (Lei de Licitações). Agora o TCU bombardeia esse decreto, que é do governo FHC, e a oposição fica do lado do TCU”, disse.

Com informações do jornal O Estado de S. Paulo

Assédio moral assombra a LG

Por quase uma semana, os funcionários da coreana LG Eletronics de Taubaté — em torno de 2,4 mil — interromperam a produção de cerca de 300 mil unidades com o objetivo de brigar pelo cumprimento de um acordo de promoções e para protestar contra o assédio moral por parte de alguns executivos. A greve terminou na sexta-feira, depois de um acordo entre o Sindicato dos Metalúrgicos de Taubaté e a empresa, intermediado pelo Tribunal Regional do Trabalho de Campinas (SP).

O fim do assédio moral é um tipo de reivindicação comum nas pautas sindicais, mas o excesso de queixas, segundo o sindicato, mobilizou os funcionários. A empresa, segundo a entidade, se comprometeu a mudar suas práticas. Os trabalhadores falam de insultos, palavrões e maus tratos.

Depois de um tapa nas costas e um rosário de insultos, Simone de Gouvêa Rosa, de 35 anos, recorreu à Justiça. Desde junho de 2007 briga por uma indenização. A acusação é de agressão moral e física. O acusado, diretor da área de celulares, é conhecido por todos como Mister Ahn. Em caso de condenação da empresa, o valor será determinado pelo juiz.

Após um acordo, ficou acertado que, até a decisão do juiz, Simone continua vinculada à empresa. É funcionária, recebe o salário e demais benefícios, mas fica em casa. Não pode procurar emprego nem ter atividade remunerada. Depois de tanto tempo, ainda tem de conviver com as perguntas inconvenientes de quem quer saber por que levou um tapa do diretor coreano. Até o filho único, de 13 anos, é atormentado pela curiosidade dos colegas de escola.

Simone entrou na LG em 2001. Acordava às 5 da manhã, ainda com o céu escuro, preparava o filho para a escola e chegava à fábrica às 7h15. O expediente terminava às 17h18. Parava10 minutos para o café da manhã, tinha pausa para o almoço e outra para o lanche da tarde. Mas, segundo ela, precisava pedir para ir ao banheiro ou tomar água. “Se ninguém estivesse livre para me substituir, tinha de segurar a vontade”, diz. Seu trabalho era testar baterias e colar adesivos nos aparelhos.

Em junho de 2007, quando a produção de monitores estava mais tranquila e a de celulares acelerada, alguns funcionários, entre eles Simone, foram recrutados para mudar de departamento por uma semana. O grupo teve de aguardar em uma sala para receber mais instruções para a hora extra que faria. Ela conversava com Adriano Calais, então integrante da Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (Cipa), para ter detalhes sobre como seria a Participação de Lucros e Resultados (PLR). Mr. Ahn, segundo ela, entrou na sala, deu um tapa estalado nas costas dela e gritou em coreano.

Abalada, a funcionária diz que passou por um psiquiatra e uma psicóloga e teve de tratar da depressão com muitos remédios. “Tomava calmantes, não conseguia dormir. Naquela época não conseguia sair de casa, nem tirava o pijama, ficava enfiada no quarto o dia inteiro à base de antidepressivos.”

Ainda hoje Simone se desestabiliza ao lembrar do caso. Chora e diz ter pesadelos. “Ele olhava nos meus olhos, gritava comigo, gesticulava muito. Fiquei paralisada, me senti assustada e não consegui reagir”, diz.

O marido fez o possível para ajudar na recuperação. Numa saída para jantar, ela simplesmente travou ao passar pela porta do restaurante e ver uma mesa cheia de coreanos da LG, entre eles Mister Ahn.

Desgastada, Simone espera encerrar o processo e, pouco a pouco, “voltar à rotina, arranjar outro emprego, ter a minha independência novamente e uma vida social”.

PALAVRÃO

João, nome fictício, é funcionário da LG há nove anos. Relata que a relação com os chefes coreanos é difícil. Ele diz que uma das primeiras coisas que os novatos costumam fazer, até por instinto de defesa, é aprender palavrões em coreano para tentar acompanhar o que os executivos dizem nas rodinhas de conversa.

Em março do ano passado, João ajudava o supervisor em outra linha de produção. Conta que Mister Ahn, aparentemente insatisfeito com a presença do funcionário, o xingou no idioma natal. “F.d.p.”, teria dito. “Respondi que sabia o que ele estava falando e disse “é a sua mãe”, pronto para bater nele. Chorei de raiva. Pensei na minha mãe que me colocou no mundo. Ela é o quê, uma vadia?”

João foi ao ambulatório da empresa, tomou um calmante e pediu providências. Mister Ahn teve de pedir desculpas formais. Ele tentou entrar com uma ação na Justiça, mas teve de interromper o processo por falta de testemunhas. “Será que ele é bipolar? Na semana passada dizem que ele jogou um notebook no chão num momento de fúria.” A empresa nega.

A LG informou, em nota, não existir uma cultura dominante na empresa: “O objetivo é fazer com que a cultura local e a coreana se integrem, transformando a forma de trabalhar, conviver e interagir em um misto das duas culturas, na qual o que prevalece é o melhor de cada uma.”

Dos cinco mil funcionários no País, 64 são coreanos, espalhados por Taubaté, Manaus e o escritório de São Paulo. Sobre a acusação de assédio moral, a LG diz que as queixas podem ser feitas à matriz. “Caso seja apurada uma infração, as providências são imediatamente tomadas pela matriz, que acionará os responsáveis no País”, explica a nota.

Para Roberto, outro nome fictício, a cultura coreana é muito diferente da nossa. “Para eles, é normal chamar a atenção de um funcionário na frente dos outros ou simplesmente não falar com os subordinados. Mas não é assim que agimos”, ressalva. Ele também viu cenas inusitadas na LG. A máquina que fechava as caixas de monitores estava com um defeito e não fazia o lacre corretamente. Um diretor coreano chamou a equipe para uma reunião e arremessou uma caixa com o monitor no chão. “Tranquilo, ele saiu para fumar com os outros coreanos como se nada tivesse acontecido”, afirma.

Para Roberto, estar na LG é um “desgaste psicológico”. Se pudesse, mudaria de emprego. “Quando fui admitido, imaginava que seria o lugar do futuro. Afinal, lá se faz tecnologia.”

A informação é do jornal O Estado de S. Paulo

Incentivo à inovação é “ilusório”, afirma Iedi

Prioridade na Política de Desenvolvimento Produtivo (PDP) do governo Lula, a inovação é uma atividade restrita a um número ainda pequeno de empresas no Brasil. Do total de 4,4 milhões de empresas de diferentes segmentos, apenas 30 mil se declaram inovadoras e só 6 mil realizam atividades de pesquisa e desenvolvimento (P&D), segundo o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi). Para a entidade, o sistema de incentivos brasileiros é pouco eficaz para alavancar o gasto privado em P&D o suficiente para mudar de forma radical o quadro da inovação no País.

“O Brasil precisa construir sua capacidade inovadora para ter uma pauta de produção industrial e de serviços mais sofisticada. Só vamos conseguir participar competitivamente do mercado global se tivermos uma base inovadora forte”, avalia o presidente do Iedi, Pedro Paulo Passos.

Cerca de dois terços de todos os recursos contabilizados pelo governo como incentivo a atividades de P&D do setor privado – algo como R$ 3,2 bilhões, em valores de 2008 – são, em boa parte, ilusórios, afirma estudo do Iedi. Trata-se dos recursos provenientes de incentivos fiscais e subvenções da chamada Lei de Informática (1991), principal mecanismo de apoio público ao esforço privado.

Na avaliação da entidade, a Lei de Informática é muito mais uma contingência da necessidade de equilibrar os incentivos concedidos na Zona Franca de Manaus à realidade tributária do restante do País do que propriamente uma lei de P&D. “Se não houvesse o incentivo, a produção migraria em massa para a Zona Franca ou seria importada”, explica o economista do Iedi, Rogério César de Souza.

“Não temos nenhuma crítica à Lei de Informática. Apenas não achamos correto incluí-la no conjunto de incentivos à inovação”, comenta o ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Júlio Sergio Gomes de Almeida, que contribuiu para a elaboração do documento do Iedi. “Ela resolve um problema, mas não o da inovação”, ressalta.

Considerando-se todos os instrumentos, o apoio público ao gasto privado em P&D é da ordem de R$ 5,2 bilhões (dado de 2008), o equivalente a 0,18% do Produto Interno Bruto (PIB), o que colocaria o Brasil entre os países que mais incentivam a inovação. No entanto, excluindo a Lei de Informática, o montante cairia para cerca de R$ 2 bilhões, ou 0,07% do PIB, um porcentual considerado baixo quando comparado a outros países, em especial os principais concorrentes do Brasil.

“Com a Lei de Informática, nosso padrão de incentivos é comparável ao francês, acima do japonês e do norte-americano. Sem ela, o padrão é mexicano”, diz Gomes de Almeida.

LULA PEDE MAIS INOVAÇÃO

Na semana passada, tanto o presidente Lula quanto o presidente do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciano Coutinho, convocaram os empresários a investir em inovação. “O momento é de investimento em inovação tecnológica e isso vai fazer toda a diferença para o crescimento e desenvolvimento do Brasil”, disse Lula, quarta-feira, em seu programa de rádio “Café com o Presidente”.

O presidente do Iedi é da mesma opinião. Para ele, o fato de o Brasil ainda investir pouco em inovação não é um problema só de governo, mas também de mobilização da iniciativa privada. “É preciso criar alguns mecanismos que facilitem a entrada da iniciativa privada, mas ela também precisa abraçar essa causa, acreditar que isso funciona e dá resultado”, afirma Passos.

O gasto das empresas em P&D atingiu R$ 15,16 bilhões em 2008, o que corresponde a 0,51% do PIB. Para elevar esse porcentual para 0,65%, tal como proposto pela atual política industrial, seria preciso rever a forma de incentivar as empresas, diz o documento do Iedi. Exigiria que o apoio governamental subisse de 0,07% para 0,09% do PIB, aumento de 30%.

Imposto alto é maior obstáculo à pesquisa

As empresas querem inovar, mas o custo ainda é considerado alto para o risco do investimento, segundo pesquisa realizada pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). Para as empresas, os principais obstáculos aos investimentos em atividades inovadoras são decorrentes do desequilíbrio do trinômio câmbio-juros-carga tributária.

Nos últimos dois meses, a entidade ouviu 334 empresas, que listaram as dificuldades que enfrentam para investir em inovação. A mais citada – por 59% dos entrevistados – foi a elevada carga tributária incidente sobre os gastos em pesquisa e desenvolvimento (P&D), seguida da alta taxa de juros e dos custos de financiamento (58%) e da valorização do câmbio (55%).

“Ainda persistem sérios problemas relacionados aos riscos econômicos que influenciam negativamente a capacidade de inovação do País”, diz o diretor do Departamento de Competitividade e Tecnologia da Fiesp, José Ricardo Roriz Coelho, que coordenou a pesquisa.

“Especialmente no caso das pequenas e médias, investir em algo novo para uma demanda incerta é uma ousadia que pode ser desempenhada apenas por um grupo restrito.”

A Brapenta, empresa de médio porte que fabrica equipamentos de inspeção e detectores de metais na linha de produção, tem feito “ginástica” para conseguir investir 10% do seu faturamento em pesquisa e inovação. “Exportamos para 30 países e ficamos numa situação de grande desvantagem totalmente expostos ao fogo cruzado do exterior”, diz o presidente da empresa, Martin Izarra.

Segundo ele, as dificuldades estruturais, burocráticas e econômicas que encarecem o investimento no País são tamanhas que serviu de inspiração para o lema interno da empresa: “Temos que ser mais inteligentes que os nossos concorrentes para compensar o custo Brasil”.

Roriz Coelho nota que, embora a criação de linhas de financiamento à inovação seja um fenômeno relativamente recente no País, já é possível observar muitos avanços. Porém, na avaliação dele, seria preciso tornar o financiamento mais adequado às empresas. “A estrutura do financiamento das atividades de P&D precisa ser melhor distribuída e menos concentrada em recursos próprios das empresas”, afirma.

Além disso, acrescenta o diretor da Fiesp, os instrumentos de desoneração dos investimentos em inovação hoje são restritos somente às empresas de lucro real, que representam só 10% das companhias do País.

Nesse seleto grupo está a Natura, líder no setor de cosméticos. Os investimentos da empresa em pesquisa alcançam R$ 120 milhões por ano, equivalentes a 3% do seu faturamento líquido. “Isso tem propiciado um índice de inovação bastante forte”, diz o copresidente do Conselho de Administração da Natura, Pedro Paulo Passos, que preside também o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi).

“Mais de 65% da nossa receita vem de produtos lançados nos últimos dois anos” , explica Passos. Boa parte das novas tecnologias em estudo na companhia está nas mãos de uma rede de parceiros, que já representa uma centena de universidades e pesquisadores dentro e fora do Brasil.

A informação é do jornal O Estado de S. Paulo

 

Brasil vai à OMC contra subsídio ao açúcar europeu

O Brasil levou as vendas de açúcar da Europa à Organização Mundial do Comércio (OMC). O Itamaraty, ao lado de Tailândia e Austrália, pediu a inclusão do tema na agenda. A exportação europeia será discutida no dia 18 de fevereiro, em Genebra.

O Brasil denuncia a Europa por exportar açúcar subsidiado ilegalmente, mas a decisão de levar o caso à OMC ainda não significa a abertura de uma disputa jurídica. Por enquanto, o Itamaraty pedirá explicações aos europeus.

Bruxelas anunciou semana passada que autorizaria seus produtores a exportar 500 mil toneladas adicionais de açúcar em 2010, acima do teto permitido em acordo na OMC.

Produtores europeus alertam que, se o volume não for exportado, simplesmente teriam de estocar por um tempo indeterminado. Na Bélgica, 10% da colheita está estocada.

O Brasil acredita que a medida é ilegal e quer sua retirada imediata. Ha três anos, a UE foi derrotada nos tribunais da OMC depois que o País abriu uma queixa contra os subsídios dados aos produtores de açúcar. A Europa ficou proibida de exportar açúcar subsidiado acima de 1,27 milhão de toneladas.

Agora, com os preços do produto em alta, a União Europeia quer garantir sua parcela de lucro. Bruxelas disse que não se tratava de uma medida constante e que seria uma resposta à “situação excepcional no mercado mundial de açúcar”.

Segundo representantes dos governos da União Europeia , o consumo está superando a produção mundial, que foi afetada pela queda na safra brasileira em 2009 e por problemas na Índia. A cotação do açúcar dobrou em um ano.

A avaliação do Brasil é que, ao permitir uma exportação acima do teto, a UE viola a determinação da OMC e despeja no mercado uma quantidade importante de açúcar subsidiado.

A UE já tem sua resposta pronta: o açúcar exportado fora da quota não é subsidiado. Mas a avaliação do Brasil é de que não existe açúcar na Europa sem subsídio.

O Brasil não terá uma vitória assegurada se o caso for levado aos tribunais. Com os preços recorde do açúcar, é difícil provar que existe subsídio. O Itamaraty, porém, quer mostrar aos europeus de que não aceitará a violação das regras.

A informação é do jornal O Estado de S. Paulo

 

Países defendem taxar os bancos

A ideia de uma taxa global sobre bancos ganha força nos sete países mais ricos, que formam o G-7, mas não há ainda uma indicação de como seria cobrada. Na reunião do grupo no Canadá, ministros de Finanças deram seu aval à ideia, depois que o governo do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, apresentou a proposta.

A meta do G-7 é ter um plano claro de como seria cobrado esse nov imposto antes da reunião do G-20, que inclui os países ricos e emergentes, como o Brasil, em meados do ano.

O projeto é que a taxa financie os custos que governos tiveram para salvar a economia mundial de um colapso, desde setembro de 2008. Dados oficiais indicam que o mundo gastou mais de 5% do Produto Interno Bruto (PIB) global apenas para salvar os bancos.

Por enquanto, a única decisão dos ministros foi de encomendar um estudo para tentar viabilizar a taxa. Segundo os ministros do G-7, deve haver pelo menos duas condições para a implementação do imposto. A primeira é que precisa haver uma coordenação internacional.

Há uma semana, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, garantiu que o Brasil não tem a intenção de aplicar uma taxa sobre os bancos. Mas indicou seu apoio à iniciativa de Obama.

Outra condição é que a taxa não signifique um novo obstáculo para a recuperação da economia mundial. Apesar dos bilhões de dólares dados aos bancos, créditos e empréstimos não voltaram aos níveis de antes de 2008. A falta de crédito é um dos elementos que retarda a retomada do crescimento. O Fundo Monetário Internacional (FMI) prometeu apresentar um estudo em abril.

“Ficou acordado que bancos terão de pagar pelo custo da crise”, disse o ministro de Finanças da Alemanha, Wolfgang Schaeuble. Para Jim Flaherty, ministro canadense, os bancos devem contribuir por causa de sua responsabilidade na crise.

Christine Lagarde, ministra francesa, foi uma das que insistiram que a taxa teria de ser “universal” para evitar que bancos escapem do imposto indo para outros países, ou que bancos de economias sem impostos sejam mais competitivos.

Timothy Geithner, secretário do Tesouro americano, e Alistair Darling, seu contraparte no Reino Unido, foram os principais defensores da ideia. Mas há ainda diferenças sobre como isso ocorreria.

Os ingleses estimam que a cobrança de um imposto único de 50% sobre o valor dos bônus dos banqueiros seria suficiente. O FMI defendeu a cobrança de uma só vez de um imposto sobre os lucros dos bancos. Já o governo americano quer uma taxa permanente de 0,15% sobre transações, que poderia arrecadar US$ 117 bilhões apenas para os cofres dos EUA.

“Obviamente que temos diferenças, mas sabemos que esse é um problema que exige soluções globais”, disse Darling. “Estamos comprometidos que haja a mesma condição de competição para todos”, afirmou Geithner.

INCENTIVOS

Outra mensagem do G-7 foi que os pacotes de incentivos sejam mantidos para garantir a recuperação das economias, em um reconhecimento que a retomada do crescimento ainda é frágil. Mas o grupo admitiu que haverá uma preocupação cada vez maior em impedir que os déficits explodam.

Para o G-7, a economia mundial ainda não tem condições de crescer sem as “muletas” que os governos oferecem. Geithner pediu que países mantenham seus compromissos de ajudar os setores mais debilitados. Para ele, essas medidas evitariam que a economia mundial caia de novo em recessão.

A informação é do jornal O Estado de S. Paulo

 

Europa tenta sair da crise sem FMI

A União Europeia (UE) rejeita a ajuda do Fundo Monetário Internacional (FMI) e garante que a solução de seus problemas da dívida será doméstica. Mas nem a UE nem o grupo dos sete países mais ricos (G-7) conseguem convencer investidores de que a situação está sob controle.

Nesta semana, algumas capitais europeias terão suas ruas tomadas por manifestantes, enquanto os mercados devem continuar voláteis – a Bolsa de Tóquio abriu esta segunda-feira em baixa de 0,59%. Na quinta-feira, a cúpula da UE se reúne para dar uma resposta à nova crise e já se insinua que poderá haver um novo pacote.

Ontem, a reunião de ministros de Finanças do G-7, no Canadá, manteve o suspense sobre a capacidade dos governos de criar um plano de resgate das economias mais endividadas da Europa. Por mais que essas dívidas estejam corroendo a confiança dos mercados, os governos europeus deixaram claro que não vão retirar ainda os incentivos econômicos. O fim do apoio poderia jogar a economia mundial de volta à recessão.

O problema é que esses mesmos governos enfrentam um grande dilema: precisam continuar gastando para evitar a recessão, mas estão com as contas em um estado crítico. Na semana passada, o temor de calote na dívida da Grécia, de Portugal e da Espanha abalou as bolsas mundiais e o euro sofreu sua maior desvalorização em nove meses. O problema é ainda mais grave porque na crise os países (ricos) do G-7 (EUA, Japão, Alemanha, Inglaterra, França, Itália e Canadá), acumularam, juntos, uma dívida de US$ 30 trilhões, mais da metade do PIB mundial.

Ministros europeus usaram o G-7 para tentar passar o recado de que a situação está sob controle. “Estamos confiantes de que governo grego tomará todas as decisões que permitam que a meta (de redução do déficit) seja atingida”, afirmou Jean Claude Trichet, presidente do Banco Central Europeu.

O temor dos mercados é que, apesar dos planos de redução de gastos, os gregos e outros países não tenham como financiar sua dívida. Ontem, a Grécia voltou a prometer cortar gastos.

A tônica dos europeus é que o FMI não é necessário e sua ingerência não é bem-vinda. “Dissemos a nossos parceiros que temos de resolver o problema sozinhos”, disse Jean Claude Juncker, presidente do Eurogrupo, o 16 países que usam a moeda comum. O G-7 optou por tomar distância. Jim Flaherty, ministro canadense, foi claro: “Esse é um assunto que não deve ser administrado pelo G-7, mas pela UE”.

Analistas do Banco UBS indicaram que um pacote do FMI seria a solução. Mas Timothy Geithner, secretário do Tesouro dos EUA, disse que a UE promete acertar a situação “com cuidado”, o que provocou a expectativa de que um plano esteja sendo preparado em Bruxelas.

A informação é do jornal O Estado de S. Paulo

 

Pedro Simon: Temer é “muito fraco” para ser vice de Dilma

asoimonPor Diego Salmen, na Terra Magazine

Reeleito presidente do PMDB, o deputado Michel Temer (SP) é considerado “muito fraco” para ser o vice de Dilma Rousseff (PT) na corrida pela presidência da República. A opinião é do senador e correligionário Pedro Simon (PMDB-RS), que também acusa as lideranças do partido de terem dado um “golpe”.

“A eleição estava marcada para 10 de março, e nós estávamos nos preparando para o dia 10 de março”, diz Simon, favorável à candidatura própria do partido. “Agora de repente eles marcam a eleição para este sábado”.

Temer foi reconduzido à presidência do partido neste sábado, 6, durante a Convenção Nacional do PMDB. A reunião foi realizada sem a participação das alas contrárias à aliança da sigla com o PT para as eleições presidenciais. O governador do Paraná, Roberto Requião, tem manifestado seu desejo de ser o candidato peemedebista no pleito deste ano.

“Eles fizeram uma coisa maquiavélica”, critica Simon. “E como no caso deles são eles mesmo que fizeram a chapa, não precisam provar nada, ninguém sabe nem se a chapa que eles apresentaram tinha assinatura ou não”.

Confira a entrevista com o senador:

Terra Magazine – Como avalia a reeleição de Michel Temer à presidência do PMDB?
Pedro Simon -
Eu esperava, não tinha nenhuma dúvida nesse sentido. A maioria dele no PMDB é uma coisa mais do que evidente. Nossa expectativa é que, se nós conseguirmos que haja uma convenção para votar no nosso canidato à presidência da República, na votação secreta, a maioria eleitores, que são filiados, vote no Requião ao invés de votar no candidato de outro partido. É a expectativa que nós temos.

A reeleição de Temer muda algo no partido?
Não muda nada. Não houve nenhuma decisão, a não ser reconduzir o Temer para ser vice da Dilma. Aliás um vice, na minha opinião, muito fraco.

Por que o setor do PMDB contrário à aliança com Dilma não apresentou uma chapa?
Porque a convenção era para ser no dia 10 de março, e eles escandalosamente anteciparam para 6 de fevereiro. Não havia nem tempo de apresentar a chapa. Ela precisa ter um representante de cada Estado, e esse representante tem que assinar. Não tinha nem como a gente pegar, por exemplo, uma do Amapá, de Rondônia, etc.

 

Sim…
Eles fizeram uma coisa maquiavélica. E como no caso deles são eles mesmo que fizeram a chapa, não precisam provar nada, ninguém sabe nem se a chapa que eles apresentaram tinha assinatura ou não. Agora, se é a oposição que apresenta a chapa, eles invalidam se não tiverem as assinaturas. Não tinha nenhuma condição.

Em segundo lugar, nós não estávamos preocupados com isso. Nossa briga não era com isso, embora nós achássemos que o Temer devia ter grandeza de colocar uma pessoa com mais independência (para representar o partido na chapa de Dilma). Estava nas nossas cogitações apresentar uma chapa para fazer 20%, 30%, e evitar que o Diretório fosse só deles. Teve um representante do Paraná que lançou a candidatura do Requião e ninguém vaiou. Mas do lado de lá ninguém falou em candidatura própria.

 

Ainda assim, a ausência da ala favorável à candidatura própria não pode ter sido ruim do ponto de vista da disputa por espaço dentro do PMDB?
Mas aí você não leva em consideração que eles deram um golpe. A eleição estava marcada para 10 de março, e nós estávamos nos preparando para o dia 10 de março. Agora de repente eles marcam a eleição para este sábado. A chapa tinha que ser registrada com oito dias de antecedência; quando marcaram a convenção, nós tínhamos dois dias para fazer a chapa.

Essa ala acabou ficando subrepresentada no PMDB?
Não adiantava. Nós não tínhamos nenhuma preocupação nesse sentido. O problema é apresentar uma chapa na convenção e querer liberdade democrática para que ele possa fazer a votação. Há quatro anos o PMDB não fez convenção para escolher candidato, porque se fizesse ganhava (a tese) da candidatura própria.

Parece que a convenção só é realizada quando é oportuno…
Exatamente.

Hélio Costa: Sem aliança em Minas, meu eleitor se sentirá traído

Na avaliação do ministro das Comunicações, Hélio Costa (PMDB), PT e PMDB serão derrotados na disputa pelo governo de Minas se concorrerem separadamente no Estado. Ele acredita que isso poderá até comprometer o desempenho eleitoral da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, na disputa presidencial.

Costa quer disputar o governo e propôs ao PT que seja escolhido aquele que estiver melhor nas pesquisas até março. O ministro tem liderado os levantamentos feitos até agora e os petistas resistem a abrir mão da cabeça de chapa, optando pelo ministro do Desenvolvimento Social, Patrus Ananias, e pelo ex-prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel.

Para o ministro, seus eleitores “não entenderão” se o PT mineiro for intransigente na negociação local com o PMDB e podem acabar rejeitando a candidatura de Dilma no Estado. “Mesmo que eu, cumprindo com a minha questão de honra de apoiá-la, o faça, ela perde. Porque o meu eleitor vai se sentir traído.”

A sucessão mineira é hoje o nó político que mais preocupa as cúpulas do PMDB e PT por conta das dificuldades para fechar um palanque comum aos dois partidos e pelo tamanho do colégio eleitoral, o segundo maior do País. Tanto que o governo chega a pensar na possibilidade de lançar o vice-presidente José Alencar (PRB) como uma opção de consenso. Embora Costa afirme que apoiaria o vice, PT e PMDB, extraoficialmente, discordam.

Diante do engajamento do governador de Minas, Aécio Neves (PSDB), na campanha de seu vice, Antônio Anastasia, Costa acha que a negociação com PT, considerada impossível até o mês passado, poderá finalmente evoluir. Segundo o ministro, acabou o clima de “beligerância”, dando início a um processo de negociação com os pré-candidatos petistas. A seguir, os principais trechos da entrevista:

_______

O que o senhor achou da declaração do vice-presidente dizendo que poderia concorrer ao governo de Minas?

José Alencar é hoje uma das pessoas mais queridas, admiradas e certamente competentes que temos no quadro político de Minas Gerais. Se ele disser que é candidato a governador, acho que é até inteligente.

O senhor o apoiaria? E o PT?

Sem dúvida nenhuma. Espero que o PT também. A origem dele é no PMDB. Acho que o PT deve muito a ele, principalmente na primeira campanha do presidente Lula.

E se ele concorrer ao Senado?

Também tem todo o apoio do PMDB. Possivelmente não teremos candidato ao Senado para apoiar a candidatura dele.

Minas tem um dos cenários mais complicados para a montagem de aliança entre PMDB e PT. O senhor tem conversado com o PT?

A pedido do presidente Lula, fazemos todas as quartas-feiras um encontro entre a direção do PMDB e do PT. O que a gente tem discutido são os caminhos que vão nos levar a uma aliança. A nacional já temos consagrada. Estamos trabalhando duramente para encontrar soluções regionais, principalmente em Minas Gerais, Bahia e Ceará.

O senhor acha que a decisão regional tem de sair depois da decisão do candidato a vice?

Não necessariamente. Acho que a questão da coligação nacional está definida. As questões estaduais são muito importantes e espero que sejam parte desse compromisso nacional. A minha visão dá a Minas uma importância considerável nesse próximo pleito. Será muito difícil a vitória de um candidato da base do governo em São Paulo.

É possível haver dois palanques governistas em Minas?

Ainda vivemos um pouco da história do PSD e da UDN em Minas. Se você é do PSD não sobe no palanque da UDN e vice-versa. O eleitor não aceita isso. Não adianta me pedir para ir a um palanque adversário porque não vou. O PMDB nunca fez imposições em Minas. A única exigência é que ninguém faça exigências absurdas.

O PT mineiro está fazendo?

Eles têm de responder a eles mesmos, para o presidente da República e para a candidata Dilma. Porque nós do PMDB estamos unidos, absolutamente conscientes da importância do nosso partido em Minas.

Existe um impasse?

O importante é que temos conversado. O candidato que tiver a melhor performance nas pesquisas será o escolhido.

Os pré-candidatos petistas têm resistido a essa proposta…

Acho que principalmente com relação ao PT, está começando a cair a ficha que o adversário não é o PMDB, mas o governo (local). A dependência dos poderes públicos com o Estado é muito grande. Não interessa o candidato, nem o nome. É o governo de Minas que é forte.

O senhor será candidato independentemente de o PT aceitar a aliança?

Posso até, lá na frente, dependendo de uma série de circunstâncias, rever. Mas, neste momento, essa é a linha do partido.

E se o PT não fizer a aliança?

Paciência. Até porque não estamos impondo candidatura. Estamos quase fazendo um apelo por aliança e vamos encontrar o candidato. Não tem nada mais correto, cristalino e inteligente do que estamos falando.

Tem quem aposte que o senhor pode romper com o governo federal se o PT não apoiá-lo e que poderia se juntar ao governador Aécio Neves…

Tem cinco anos que estou aqui dentro. Oito anos apoiando e atravessei os dois mandatos. É impossível dizer que vou apoiar o Serra. Não posso fazer isso. Seria quase um absurdo.

Mas seus apoiadores podem não se empenhar pela campanha da ministra Dilma?

O fato de você estar no contexto de uma aliança, com todas as chances de vitória, faz com que seus eleitores vejam sua campanha de uma forma. Se eu afirmar que minha candidata é a ministra, mas, de certo modo, estou injuriado com o PT, a resposta será outra.

O senhor pode ser candidato a vice na chapa da ministra?

Vice não é uma candidatura, é um convite. Quem foi convidado para ser vice foi o Michel Temer. É o nosso candidato e tem todo o meu apoio. Só posso dizer que fico honradíssimo quando pensam no meu nome. Não é o melhor dos possíveis mundos em que eu gostaria de me ver. Eu acho que estou projetado para uma campanha de governador. E se tiver qualquer variação, a segunda opção é o Senado.

Ala oposicionista do PMDB avisa que insistirá em reverter quadro pró-PT

Com a recondução do deputado Michel Temer (SP) à presidência do PMDB, e o consequente fortalecimento da tese a favor da aliança com o PT na eleição presidencial, a ala peemedebista que faz oposição ao governo federal começa a articular a reversão do quadro – hoje favorável à coligação com a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff.

A política de alianças tem ainda de ser referendada na convenção nacional do PMDB em junho, e é com esse tempo que os oposicionistas pretendem jogar. “A eventual disputa será na convenção. Ainda é possível mudanças”, disse o ex-governador Orestes Quércia, que articula reunião com os governadores Roberto Requião (PR) e Luiz Henrique (SC) e os senadores Pedro Simon (RS) e Jarbas Vasconcelos (PE). Há oposicionistas favoráveis à candidatura própria e outros que defendem coligação com o PSDB.

“Como dizia o Tancredo Neves, voto secreto dá uma vontade de trair”, disse Simon, ao comentar que a tese de candidatura própria pode ser beneficiada com votos de governistas. “Até a convenção, Requião continua pré-candidato a presidente.”

Na avaliação de setores do PMDB, diretórios da Bahia e de Minas podem ainda virar o jogo e se alinhar aos que defendem a candidatura de José Serra.

O presidente do diretório do PMDB do Paraná, Waldyr Pugliesi, um dos que assinaram a ação judicial que pretendia a suspensão da convenção de sábado que reelegeu Temer, disse que é preciso mobilizar os que querem a candidatura própria. “Aqueles que a defendem têm de trabalhar para, em junho, comparecer à convenção nacional e colocar uma ou duas pré-candidaturas para disputar.”

Levantamento da ala oposicionista mostra que 24 diretórios estaduais querem a candidatura própria. Há, no entanto, ceticismo de que a proposta possa sair vitoriosa. Para o presidente eleito do PT, José Eduardo Dutra, a reeleição de Temer mostra a “representatividade” dos militantes e do grupo que defende a aliança. “É um passo a mais nesse sentido.”

A informação é do jornal O Estado de S. Paulo

 

Os EUA ainda não pereceram

Por Paul Krugman, do The New York Times, na Terra Magazine

Sempre soubemos que o reinado dos Estados Unidos como a maior nação do mundo terminaria em algum momento. Mas a maioria de nós imaginava que nosso declínio, quando viesse, seria algo grandioso e trágico.

Em vez disso, o que estamos tendo é menos uma tragédia do que uma farsa mortal. Em vez de nos extenuar no esforço da expansão imperial, estamos paralisados pelo procedimento. Em vez de reprisar a decadência e a queda de Roma, estamos reprisando a dissolução da Polônia do século 18.

Uma breve lição de história: nos séculos 17 e 18, o poder legislativo polonês, o Sejm, operava com base no princípio da unanimidade: qualquer membro poderia vetar uma lei gritando “não permito!”. Isso tornou o país ingovernável em grande medida, e regimes vizinhos começaram a despedaçar seu território. Em 1795, a Polônia havia desaparecido, para ressurgir não antes de um século depois.

Hoje, o Senado americano parece determinado a tornar o Sejm virtuoso na comparação.

Na semana passada, depois de nove meses, o Senado finalmente aprovou a nomeação de Martha Johnson para o comando da Administração de Serviços Gerais (GSA, na sigla em inglês), que administra os edifícios do governo e compra suprimentos. É um cargo essencialmente não político. E ninguém questionou as qualificações de Johnson: ela foi aprovada por 94 votos contra 2. Mas o senador Christopher Bond, republicano de Missouri, havia colocado uma “restrição” em sua indicação para pressionar o governo a aprovar um projeto de lei em Kansas City.

Essa conquista dúbia pode ter inspirado o senador Richard Shelby, republicano do Alabama. Seja como for, Shelby agora coloca restrições em todas as nomeações pendentes da administração Obama – cerca de 70 postos de governo de alto nível – até que seu estado consiga um avião-tanque e um centro antiterrorismo.

O que dá a senadores, individualmente, esse tipo de poder? Muitos dos negócios do Senado baseiam-se no consentimento unânime: é difícil conseguir fazer qualquer coisa a menos que todos cheguem a um acordo sobre o procedimento. E ganhou força uma tradição segundo a qual os senadores, em contrapartida por não obstruírem tudo, conquistam o direito de inviabilizar a nomeação de quem eles não gostam.

No passado, as restrições eram usadas moderadamente. Isso porque, como diz um relatório do Serviço de Pesquisa do Congresso sobre a prática, o Senado costumava ser regulado por “tradições de civilidade, cortesia, reciprocidade e prestimosidade”. Mas isso naquela época. Regras que costumavam ser aplicáveis tornaram-se paralisantes agora que um dos principais partidos políticos do país caiu no niilismo, não vendo mal algum – na verdade, dividendos políticos – em tornar a nação ingovernável.

Até que ponto isso é ruim? É tão ruim que sinto falta de Newt Gingrich.

Os leitores devem lembrar que, em 1995, Gingrich, então porta-voz da Casa dos Representantes, cortou recursos do governo federal e obrigou o governo a um recesso temporário. Isso foi um ato desagradável e extremo, mas pelo menos Mr. Gingrich tinha demandas específicas: ele queria que Bill Clinton concordasse com cortes drásticos no Medicare.

Hoje, ao contrário, os líderes republicanos se recusam a oferecer propostas específicas. Eles atacam sem misericórdia o déficit – e, no mês passado, seus senadores votaram em bloco contra qualquer aumento no limite da dívida pública, um movimento que teria levado a outro recesso do governo se os democratas não tivessem obtido 60 votos. Mas eles também condenam tudo o que possa realmente reduzir o déficit, inclusive, ironicamente, qualquer esforço para gastar com mais sensatez os recursos do Medicare.

E, com o G.O.P. (sigla em inglês de Velho Grande Partido) nacional tendo abdicado de qualquer responsabilidade de fazer as coisas funcionarem, é natural que os senadores, individualmente, se sintam livres para transformar o país em refém até que consigam garantir seus projetos preferidos.

A verdade é que, considerando a situação da política americana, a forma como o Senado funciona não é mais compatível com um governo em funcionamento. Os próprios senadores deveriam reconhecer esse fato e encaminhar mudanças nessas regras, incluindo a eliminação ou pelo menos limites às manobras para obstruir votações. Isso é algo que eles poderiam e deveriam fazer, por voto da maioria, no primeiro dia da próxima sessão do Senado.

Mas não espere por isso. Do jeito que está, os democratas nem mesmo parecem capazes de marcar pontos políticos enfatizando o obstrucionismo de seus oponentes.

Isto deveria ser um mensagem clara (e deveria ter sido a mensagem central em Massachusetts): um voto para um republicano, não importa o que você ache dele como pessoa, é um voto na paralisia. Mas, a esta altura, sabemos como a administração Obama lida com aqueles que a destruiriam: vai direto aos capilares. Como se poderia prever, Robert Gibbs, porta-voz da Casa Branca, acusou Shelby de “estupidez”. Sim, isso realmente repercutirá entre os eleitores.

Depois da dissolução da Polônia, um oficial polonês que servia a Napoleão escreveu uma canção que acabou se tornando – depois da ressurreição do país no pós-Primeira Guerra Mundial – o hino nacional da nação. Começa com “A Polônia ainda não pereceu”.

Bem, os Estados Unidos ainda não pereceram. Mas o Senado está se empenhando para isso.

Paul Krugman é economista, professor da Universidade de Princeton e colunista do The New York Times. Ganhou o prêmio Nobel de economia de 2008. Artigo distribuído pelo New York Times News Service.

 

Soldados feridos

 Por Aloizio Mercadante, no jornal O Globo

Elcio Inocente, Rodrigo de Oliveira, Toninho Messias e Roberto Luis Florin. Você não conhece esses nomes.

Mas devia. São nomes de heróis desconhecidos do Brasil, soldados feridos na linha de frente da batalha contra o crime.

Elcio tentava proteger a vítima de um sequestro. Levou três tiros. Um atingiu sua coluna e o deixou paraplégico.

Depois, perdeu um rim e teve que fazer hemodiálise. Salvou-se graças a um transplante. Hoje luta, assim como os demais, pela segurança pública, como presidente da Associação dos Policiais Militares Portadores de Deficiência do Estado de São Paulo (APMDFESP). Rodrigo de Oliveira, pai de portador da Síndrome de Down, recebeu um estilhaço quando perseguia assaltantes. Também ficou paraplégico. Em homenagem na PM paulista, comoveu a todos ao fazer questão de receber a sua condecoração de pé, apoiado na sua mulher. Toninho Messias, ao tentar evitar, fardado, o roubo de sua moto, levou quatro tiros de calibre 45. “Vaso duro de quebrar”, como ele mesmo me disse, inacreditavelmente Toninho sobreviveu. Mas, como os outros, tornou-se paraplégico. Roberto Luis Florin estava em casa, quando ela foi assaltada. Os bandidos já saíam, quando repararam na farda da PM paulista no armário. Esmagaram a cabeça do Roberto com um bloco de concreto. Ele está em coma há seis anos. Não pode mais lutar, mas inspira a luta de todos.

Conversei com o Élcio, o Toninho e o Rodrigo e vários outros com histórias comuns. Embora profundamente feridos, eles não desistiram da sua justa reivindicação por remuneração digna e melhores condições de trabalho para os soldados que lutam com grande sacrifício por nossa segurança.

Não desistiram do combate contra o crime e, acima de tudo, não desistiram da vida.

Quem não pode desistir são alguns governos estaduais. Os últimos dados sobre o crime em São Paulo, por exemplo, são desanimadores. A criminalidade voltou a crescer em 2009, especialmente no interior. Os homicídios aumentaram 16% no interior paulista. Essa súbita deterioração das condições de segurança em São Paulo parece ter relação com uma política pública inconsistente, que leva a decisões equivocadas. Uma delas foi a implantação do Adicional por Localização de Exercício (ALE), que beneficia os policiais da capital, em detrimento dos policiais do interior.

É medida que está produzindo resultados ruins, e deve ser revista.

Na realidade, São Paulo precisa de uma nova política de segurança.

Claro que a situação da segurança pública não é precária apenas em São Paulo. Trata-se de problema nacional, que atemoriza a população, inibe investimentos e atinge todas as cidades brasileiras. Por isso, o governo federal dá agora apoio às ações dos governos estaduais, inclusive mediante a valorização dos policiais. No Senado Federal, aprovamos também vários projetos relevantes, como as videoconferências, monitoramento eletrônico de condenados, combate às organizações criminosas, agravamento da pena para quadrilhas que se utilizam de menores na prática de delitos, critérios mais rigorosos para progressão de pena, entre outros.

Mas é preciso muito mais.

Não há mágica. Se quisermos ter segurança, precisamos investir de verdade no aparelho policial e trabalhar todos em conjunto. É por isso que o Élcio, o Rodrigo e o Toninho estão empenhados na aprovação de piso nacional para as polícias civis e militares. É reivindicação justa e necessária, que o Senado já aprovou.

Com o piso e bons planos de carreira teremos polícias eficientes, à altura da sofisticação do crime organizado.

As polícias estaduais precisam seguir o exemplo da Polícia Federal, hoje instituição modelo, graças aos investimentos nela feitos.

Não podemos lembrar das polícias apenas quando, em pânico, ligamos para o 190. As feridas físicas do Elcio, do Rodrigo, do Toninho e do Roberto são indeléveis. Mas talvez as feridas que mais doam neles sejam as feridas psicológicas originadas pela falta de reconhecimento do seu valor profissional e do seu sacrifício pessoal. Em relação às primeiras, não podemos fazer nada. Porém, podemos fazer tudo, no que tange às outras. Vamos aprovar o piso nacional, valorizar o trabalho policial e curar as feridas desses soldados.

Ciro se diz ”prejudicado” e engrossa discurso

Após um giro pela França, Alemanha e Holanda, que despertou a fúria de aliados, o deputado Ciro Gomes (PSB) voltou a Brasília com um veredicto: foi prejudicado pela mudança do seu título de eleitor para São Paulo em outubro passado. Agora, com setores de seu partido flertando com apelos governistas de fazer uma eleição plebiscitária, o deputado resolveu engrossar o discurso de pré-candidato e chega a vaticinar uma zebra no cenário da eleição nacional. “Vai mudar tudo”, afirma.

“Eu estou dizendo que topo, mesmo isolado. Para mim é um imperativo moral. Se amanhã o meu partido me exonerar desse imperativo, também estou satisfeito, estou com a vida ganha. Não acho que eu seja indispensável para o País”, afirmou ao Estado, antes de viajar a Pernambuco, onde gravou o programa de TV do partido que vai ao ar no dia 18 e do qual será a principal estrela. E o suicídio eleitoral de ir para uma disputa com dois minutos de TV? “Vou com zero”, respondeu Ciro.

O PSB passa por um dilema. Enquanto setores apostam que Ciro deve ir para a disputa, mesmo sem alianças, outra ala avalia que, sem tempo de TV, resta abraçar a candidatura da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff. Neste grupo, está o presidente do PSB, o governador Eduardo Campos (PE). Parlamentares temem que o voo solo prejudique os planos de eleger 50 deputados e reeleger os governadores de Pernambuco e Ceará (Cid Gomes, irmão de Ciro).

O deputado joga para o partido a decisão sobre sua candidatura a presidente, o que deixa a porta aberta para a retirada de seu nome da corrida. Caso isso ocorra, aumenta a chance de ser arrastado para a disputa do governo paulista – desejo do presidente Lula inversamente proporcional ao dele.

Na avaliação de Ciro, o “ruído” causado pela transferência do seu domicílio eleitoral para São Paulo acabou prejudicando-o nas pesquisas de intenção de voto. “Claro que o maior prejudicado foi eu. Disse a Eduardo Campos: “Sabe que isso vai criar ruído, dubiedade. Provavelmente, vou cair nas pesquisas porque as pessoas vão ficar em dúvida”.” Embora diga que a candidatura paulista seria “fabricadíssima”, tem na manga o discurso que usaria, caso venha a encabeçar a coalizão governista no maior colégio eleitoral do País. “Se eu topasse, seria para dizer, eventualmente: “Atenção paulistas, nasci em Pindamonhangaba, conheço a importância de São Paulo, mas vim para mobilizar a intelligentsia, trazer meu conhecimento de governante para quem acha que o que está aí é medíocre. Mas não vou dizer que sei onde está a Mooca. Se tiver de ir até lá, desculpe, só se for de táxi”.”

Para integrantes do PT e até aliados, apesar da retórica, o deputado não levará em frente a candidatura. As movimentações e as críticas frequentes ao PMDB são vistas como desejo de obter a indicação à vice-presidência na chapa de Dilma. Ele nega. “O sistema político é brilhante. Se não for da vontade do eleitor que eu seja presidente, estarei obrigado a apoiar a força vizinha a mim no segundo turno. Mas abrir antes é deserção de um dever moral. Não estou pedindo um passeio. Estou pedindo uma tarefa dificílima.”

O parlamentar aposta que o cenário eleitoral vai mudar. Diz que o governador de São Paulo, José Serra, não será candidato e o de Minas, Aécio Neves, terá a indicação tucana. Dilma pode não decolar nas pesquisas, fortalecendo a tese do segundo candidato da base governista. “A taxa de profecia de dezembro para cá caiu em favor da percepção de realidade”, afirmou.

“Ciro está firme. A avaliação é de que a sua candidatura fortalece o PSB nacionalmente”, afirmou o deputado Rodrigo Rollemberg (DF). “O partido quer viabilizar a candidatura, mas pode chegar lá na frente e fazer uma reflexão. Ele sabe disso. A conversa é aberta”, disse o senador Renato Casagrande (ES).

CRÍTICAS

Questionado se subiu o tom contra Lula – na semana passada disse que “santo Lula” estava errado em ser contra outra candidatura da base -, Ciro respondeu: “Há uma manipulação sem nenhuma coerência com a perfeita sintonia e a fraterna amizade que tenho pelo presidente. O que disse é que, para mim e para todos que cultivam a política como hábito coletivo, Lula não é um santo nem um mito. É um extraordinário líder político, por quem tenho respeito.”

Farpas sobram para o ex-ministro José Dirceu. “Gosto dele, mas acho que tem uma cabeça política que precisa muitas vezes ser contrastada. Zé Dirceu tem o ego pouco regulado e de vez em quando navega na maionese”, afirmou. As críticas são em razão de viagem de Dirceu ao Ceará e Pernambuco, onde teria articulado contra a candidatura de Ciro. “Resolvi dizer: “Zé, chega. Muda de método que essa simulação de alter ego do Lula só serve para desinformar”.” E disparou: “Neste momento, para recuperar o espaço perdido, simula para o planeta que é íntimo de Lula de novo. Com isso ganha dinheiro e, por outro lado, faz política. Ele não é consultor da República? E ganha quanto por isso?”

A informação é do jornal O Estado de S. Paulo

 

Aposentados pressionam parlamentares por fator previdenciário e reajuste de benefícios

Aposentados e pensionistas de todo o país estiveram no Congresso para cobrar a aprovação do projeto de lei que acaba com o fator previdenciário e do que vincula o percentual de reajuste dos benefícios as correções do salário mínimo estipuladas pelo Executivo. Eles foram homenageados em sessão solene, no Senado, em comemoração ao Dia Nacional do Aposentado, comemorado em 24 de janeiro.

O diretor de Organização da Nova Central Sindical, Isaac Neco, destacou que o fim do fator previdenciário é o tema principal na pauta de reivindicações da categoria.

- Essa é uma luta para os aposentados. Hoje, o salário está sendo devastado cada vez mais, estamos defendendo os aposentados – afirmou.

Neco disse, ainda, que a equiparação salarial com os trabalhadores da ativa se faz necessário para evitar que os aposentados e pensionistas continuem a ter “um aumento salarial irrisório”. Toda galeria do plenário foi tomada pelos idosos, além das poltronas destinadas aos parlamentares, imprensa e convidados.

A informação é da Agência Brasil

 

Costa Rica elege pela primeira vez uma mulher para a Presidência

aaaaaaacostaPela primeira vez na sua história política, a Costa Rica terá uma mulher na Presidência da República. Aliada e sucessora política do ex-presidente Óscar Arias Sánchez, escolhido Prêmio Nobel em 1987, Laura Chinchilla foi eleita ontem. Os últimos dados oficiais indicam que ela obteve 48,7% dos votos. O segundo colocado, Ottón Solís conseguiu 22,5%, e o último, Otto Guevara, ficou com 21,3%. Houve abstenção de 33% em um universo de 2,8 milhões de eleitores.

Com o apoio de Óscar Arias Sánchez, que recebeu o Prêmio Nobel por sua atuação pela busca de um acordo durante o conflito entre Nicarágua e El Salvador, Laura Chinchilla fez campanha prometendo diálogo, segurança, desenvolvimento social e independência. Também disse que dará prioridade ao combate ao narcotráfico e à Previdência pública com foco nos aposentados e idosos.

A presidente eleita manteve o discurso depois de revelada sua vitória. Com um perfil político associado à ideologia de esquerda, ela tem posições conservadoras sobre temas, como a liberação do aborto e o reconhecimento da união civil entre pessoas do mesmo sexo. É ligada aos movimentos religiosos.

Os demais candidatos levantaram suspeitas, durante a campanha presidencial, sobre a independência do governo de Chinchila em relação à influência de Arias. Ex-assessora direta dele, ela reitera que será independente e que seu governo manterá “portas abertas” numa referência de que estará disposta a negociar e ouvir.

Até o dia das eleições, as pesquisas de opinião mostraram vantagem para Chinchilla. Nelas, a presidente eleita, do Partido Libertação Nacional (PLN), contava com 41,9% das intenções de votos, seguida por Guevara, do Movimento Libertário (ML), com 22,9%, e por Otto Solís, do Partido Ação Cidadã (PAC), que teria 19,9%.

Cerca de 200 observadores estrangeiros acompanharam as eleições realizadas ontem na Costa Rica.

Também foram eleitos 57 deputados e 81 governantes municipais. De acordo com a Justiça Eleitoral do país, não houve incidentes no período de votação – das 6 às 18h.

A informação é da Agência Brasil

 

Governo Federal cancela quase 710 mil benefícios do Bolsa Família

Por falta de atualização cadastral, o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS) cancelou o pagamento do Bolsa Família de 709.904 beneficiários. O prazo para atualização era 31 de outubro do ano passado. Desde então, esses beneficiários tiveram o pagamento suspenso e receberam avisos para fazer a atualização.

A atualização rotineira dos dados das famílias assistidas permite ao MDS efetuar o controle sobre o pagamento. A renovação do cadastro deve ser feita a cada dois anos e é regulamentada pelo Decreto nº 6.392, de 12 de março de 2008.

A atualização cadastral deve ser feita nas prefeituras municipais. Segundo o MDS, o Bolsa Família atende 12,4 milhões de beneficiários. No ano passado, o programa transferiu benefícios que somaram R$ 12,4 bilhões.

A informação é da Agência Brasil

 

Dieese: cesta básica tem reajuste na maioria das capitais

O valor da cesta básica aumentou, no mês de janeiro, comparado a dezembro último, em 10 das 17 capitais onde é realizada a Pesquisa Nacional da Cesta Básica pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese).  

A maior alta foi em Goiânia (4,61%), seguida por Salvador (1,43%), Florianópolis (1,10%) e João Pessoa (0,79%). As maiores quedas ocorreram em Belo Horizonte (-3,87%), Brasília (-3,49%), São Paulo (-1,39%) e Vitória (-0,86%).

Comparado a igual período do ano passado, houve redução nas 17 capitais com destaque para Belo Horizonte (-11,35%) e Goiânia (-9,38%). Apesar de a capital paulista estar entre as cidades com queda, em janeiro, nessa localidade a cesta é a segunda mais cara do país (R$ 225,02). O maior valor foi constatado em Porto Alegre ( R$ 236,55), em terceiro aparece Vitória (R$ 217,20) e Manaus (R$ 216,53).

Pelos cálculos do Dieese, a correção do piso do salário mínimo em 9,68%, em janeiro, que elevou o teto para R$ 510 implicou redução da jornada necessária para o trabalhador comprar os produtos da cesta básica, passando de 114h26, em dezembro, para 86h48, em janeiro.

Segundo o órgão, em dezembro, o assalariado que ganhava o mínimo vigente do no país comprometia 47,10% par comprar a cesta e, no primeiro mês de 2010, o índice estava menor (42,88%).Na cidade de São Paulo, o percentual era de 53,34% e passou para 47,96%.

Entre os itens que mais influenciaram para os aumentos da cesta básica está o açúcar com correções em 16 capitais, sendo a maior alta em João Pessoa (32,47%), seguido de Goiânia (19,18%) e vitória (16,97%). Sob o efeito da maior procura no mercado internacional, valorização do dólar e período de entressafra, conforme análise do Dieese, esse produto teve alta em todas as 17 capitais, nos últimos 12 meses. As ofertas mais cara foram encontradas em Salvador (78,38%) e em Belo Horizonte ( 21,71%).

O arroz teve aumento em 12 das 17 capitais com destaque para Belo Horizonte (8,51%) , Vitória (7,41%) e Goiânia (7,23%); a carne e o pão – com maior peso no valor da cesta – aumentaram em 10 capitais e a alta mais expressiva foi constatada em Goiânia (6,67%). E a batata foi reajustada em nove capitais com as maiores taxas em Porto Alegre (40,53%), Florianópolis (32,08%) e Curitiba (31,84%).

A pesquisa indica que oito itens apresentaram predomínio de quedas entre eles o tomate, com baixa de preço em 15 capitais; o óleo de soja, em 13 e o café, em 10.

A informação é da Agência Brasil

Setor de telemarketing é líder nas ofertas de emprego no país

Com cerca de três mil vagas disponíveis no Centro de Apoio ao Trabalhador (CAT), na capital paulista, o setor de telemarketing é um dos que mais cresce a cada ano, liderando a lista das ofertas de emprego, afirmou o gerente do CAT regional norte, André Bucater. Segundo ele, isso ocorre porque o Serviço de Atendimento ao Cliente (SAC) se tornou uma necessidade desde que as empresas passaram a atender o consumidor em tempo real para poder avaliar o que ocorre com seus produtos e serviços.

“Isso está acontecendo com muitas empresas atualmente. Eles estão contratando muita gente não só para o SAC como para vendas, promoções e cobranças. E a procura pelas vagas também é grande porque não se exige experiência em carteira, o que faz com que a maior procura seja pelos jovens no seu primeiro emprego. Normalmente é preciso ter conhecimento em informática, objetividade, clareza na comunicação, facilidade para abordagem com o cliente, simpatia e determinação.”

De acordo com o diretor de Comunicação do sindicato dos Trabalhadores em Telemarketing, Ronaldo Lopes, o setor emprega atualmente cerca de 850 mil trabalhadores em todo o território nacional. Até o fim deste ano este número deve chegar a 1 milhão a 1,2 milhão. Só no estado de São Paulo são 380 mil funcionários e na Região Metropolitana da capital 250 mil.

Lopes disse que 70% dos empregados no telemarketing têm de 18 a 26 anos e 76% são mulheres. Ele destacou que o setor agrega vários segmentos e, por isso, está sempre aberto também para outras faixas etárias, incluindo mulheres acima dos 40 anos. “Há muitas mulheres nessa faixa etária que estão na área porque depois de ficarem afastadas do mercado de trabalho resolveram ou precisaram voltar a exercer uma atividade remunerada.”

De acordo com ele, o setor do telemarketing tem a especificidade de não ter nenhuma espécie de preconceito ao selecionar seus trabalhadores.

A rotatividade é outro fator presente no telemarketing. O chamado turno over, praticado pelas empresas, serve para estimular os funcionários, ou seja, aqueles que produzem continuam, os que não atingem os objetivos acabam sendo eliminados. “As empresas pregam que quem vender mais continua na empresa, quem não atingir as metas acaba sendo substituído pela mão de obra que há no mercado”. Ao mesmo tempo a média de permanência de um funcionário em uma empresa de telemarketing varia de três a sete anos.

As menores empresas são as que pagam as melhores médias salariais, um dos motivos que contribui para a rotatividade de funcionários. Em uma empresa de maior porte o salário chega a R$ 750,00. Já naquelas com até 100 funcionários os ganhos podem chegar a R$ 1.200. “Os trabalhadores acabam adquirindo experiência nas grandes empresas e migram para as pequenas, por conta das melhores condições.”

Apesar de afirmar que a atividade é interessante por permitir o contato direto com o público, Lopes afirmou que o trabalho de telemarketing gera estresse ao funcionário por causa das condições nem sempre boas e, principalmente, pelo assédio praticado contra o trabalhador. “Embora tenhamos conseguido instituir o descanso, muitas empresas insistem em controlar a ida do trabalhador ao banheiro por exemplo. Embora seja um setor no qual a tecnologia é de ponta, as relações com o trabalhador ainda estão atrasadas.”

A informação é da Agência Brasil

 

Lula diz que investimento em educação compensa “atraso”

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva justificou os investimentos de seu governo nas áreas de educação, inovação tecnológica e capacitação de mão-de-obra como medida para vencer “o atraso” provocado pelos governos anteriores. A declaração foi feita no programa de rádio semanal Café com o Presidente desta segunda-feira.

“O Brasil está investindo muito em capacitação. Lógico, que, como nós ficamos muito tempo sem investir, nós temos um atraso muito grande”, afirmou Lula.

O presidente citou, no programa, a redução realizada por governos passados em investimentos na formação de engenheiros. Muitos deles, segundo Lula, mudavam de ramo ou iam trabalhar no exterior pela falta de oportunidade. “Agora nós estamos permitindo que a engenharia volte a ser uma coisa importante para a nossa juventude”, disse.

Relatou que cem deles retornaram ao país para atuar no Centro Nacional em Tecnologia Eletrônica Avançada (Ceitec), localizado em Porto Alegre (RS), e inaugurado na sexta-feira.

O Ceitec, construído com o aporte de R$ 400 milhões do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), será a primeira fábrica da América Latina a produzir chips para rastrear gado bovino.

“Eu acho que essa fábrica marca um divisor na história de investimentos em inovação no Brasil”, avaliou o presidente, destacando que o empreendimento coloca o país em condições de competir com as nações desenvolvidas num mercado qualificado.

O presidente também mencionou a inauguração de 78 escolas técnicas somente na última semana, e acrescentou que pretende alcançar a marca de 354 dessas escolas no país, com 500 mil jovens participando. Segundo Lula, a destinação de mais recursos para a educação seria uma novidade para o País.

“Eu penso que o Brasil está precisando dessa cara nova, que são os investimentos do governo federal na educação”, observou. Lula já declarou que sua intenção, no último ano de mandato, é inaugurar o máximo de obras o que serviria para impulsionar a candidatura da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, pré-candidata à sucessão presidencial pelo PT.

Com agências

 

Trabalhadores da Grécia prometem nova greve contra plano fiscal

Os trabalhadores do setor público da Grécia afirmaram nesta segunda-feira que pode convocar outra greve no início de março se os detalhes do plano de austeridade do governo nesta semana forem muito rígidos.

“Dependendo da decisão do gabinete sobre impostos e pensões, nós vamos decidir na quinta-feira sobre mais ações de greve”, disse Ilias Vrettakos, vice-presidente da entidade. “Houve uma proposta para uma greve nos primeiros 10 dias de março.”

Trabalhadores do setor público sairão dos seus postos na quarta-feira para protestar contra as medidas de austeridade do governo.

Autoridades do sindicato disseram mais cedo nesta segunda-feira que estão considerando se juntar à greve do sindicato do setor privado, no dia 24 de fevereiro. Juntos, os dois sindicatos representam cerca de metade da força de trabalho grega de 5 milhões de pessoas.

Com agências

 

Jovens não têm a menor idéia do horror que foi a ditadura militar no Brasil

POR JOSÉ BESSA FREIRE, no Blog da Amazônia

Quando cheguei, às duas da tarde, ela já estava lá, esperando. Não me conhecia e me olhou, obliquamente, me estudando como se eu fosse um fungo bolorento: quem é esse cara? Não havia viva alma no auditório da Biblioteca Pública, na Rua Barroso, em Manaus, naquele 19 de abril de 1978. Nós dois éramos os palestrantes num evento sem público sobre o Dia do Índio, organizado pelo artista plástico Álvaro Páscoa, da Fundação Cultural do Amazonas. Foi ele quem nos apresentou.

Geny Brelaz de Castro, formada pela Universidade Federal de Pernambuco em Farmácia e Bioquímica, em 1970, é a primeira índia diplomada do Brasil. Estuda fungos, comestíveis uns, venenosos outros, mas também pesquisa parasitas agressores -alguns mortais- que infectam gente, animais e plantas, e apodrecem as árvores. O outro palestrante -esse locutor que vos fala- era, então, professor da Universidade Federal do Amazonas, com uma tese inconclusa de doutorado em Paris sobre história indígena.

- Cadê o público? Quem é que vai sair de casa com esse calor infernal para ouvir falar de índio, numa hora dessas, depois de almoçar jaraqui frito com baião-de-dois? – indaguei apreensivo.

Álvaro Páscoa deu uma baforada no cachimbo e nos tranqüilizou. Já estava tudo agendado com o professor de Educação Moral e Cívica da Escola Técnica Federal, chamado Cauby, um pomposo nome de origem tupi. No horário de sua aula, ele traria os alunos de várias turmas, com controle da lista de presença.

Efetivamente, arrastados compulsoriamente, os alunos lotaram o auditório. Cauby, um sargentão, fechou as portas para ninguém fugir. Não era preciso. Geny falou primeiro e deu um show. Quem a conhece sabe do que estou falando. Ela tem tal domínio de palco e de microfone que bota no chinelo a Hebe Camargo. Cativou os meninos. Falou nas toxinas presentes na farinha que eles haviam acabado de comer, nos hábitos alimentares, nas bebidas indígenas, nas plantas medicinais. Contou histórias. Enfim, lavou a égua.

Especialista em micologia, Geny, que é da nação Munduruku, incorporou a ciência oral milenar do seu povo ao saber escrito aprendido na universidade. Ela sabe tudo sobre fungos. Pesquisou a farmacopéia indígena, os fungos na preparação do tarubá -uma bebida indígena- e os microorganismos em farinhas da Amazônia. Já era naquela época uma pesquisadora respeitada com participação em congressos e artigos publicados no Brasil e no exterior. Foi aplaudidíssima pelo auditório.

Falar depois dela era um desafio. Tentei dar meu recado. Apoiado em documentos, descrevi o desaparecimento de muitos saberes, devido ao massacre das nações indígenas, uma das maiores catástrofes demográficas da história da humanidade. Fui aplaudido ruidosamente. No debate, o professor Cauby quis se exibir para os alunos. Discordou do termo “nação indígena”, que eu havia empregado, considerando-o inapropriado e perigoso.

- Só um traidor da Pátria chama índio de nação – aloprou.

Sua intervenção, aplaudida com assobios e gritos de apoio, me intimidou. Esclareci: quem chamou os índios de “nações” foi o português, não era invenção minha, estava na documentação da época. O termo “nação”tinha, inclusive, significado mais amplo, pois era também usado como coletivo. Recitei versinho cantado pelas crianças lusas:

- Aranha aranhão, sapo sapão, bichos de toda nação.

Fui saudado por uma onda de aplausos. Ai entendi que qualquer discurso seria aplaudido. Foi o que aconteceu no duelo que se seguiu.

Cauby:

- Não existem nações indígenas. Somos todos brasileiros. Quem fala em nações indígenas quer dividir o Brasil, que é uma só nação, uma única pátria – disse Cauby. (Clap, clap)

Eu:

- Conversa fiada. Nação é uma coisa, estado é outra. Comete erro primário quem confunde conceitos tão diferentes. Um estado pode abrigar muitas nações. (Clap, clap).

Cauby:

- Exatamente, é o caso da União Soviética. Só os comunistas pensam assim, porque querem minar os alicerces da Pátria. (Clap, clap).

Eu:

- Tolice. A Suíça é um estado plurinacional. Lá, tem mais nações do que buracos em queijo suíço. A existência de tantas nações não dividiu o estado suíço, não anulou sua natureza capitalista. Ao contrário, fortaleceu. (Clap, clap).

No final de cada intervenção, uma onda de aplausos para o orador da vez. Quem falasse por último, ganhava. A Geny só ali, na moita, calada, observando tudo. Foi aí que Cauby, que havia feito o curso da Escola Superior de Guerra, engrossou o pirão e disparou o tiro de misericórdia, com um – digamos assim – argumento triunfante:

- Hoje, não é só Dia do Índio. É também Dia do Exército Brasileiro e da vitória na primeira Batalha de Guararapes. Você não homenageou o Exército. Você é comunista.

Fiquei gelado. Hoje, parece bobagem, mas naquele contexto era uma denúncia grave. Afinal, um ano antes, de volta do exílio, foi essa acusação que me levou a passar três semanas preso, em Manaus, quando fui encapuzado e maltratado. (Anexo 01) Estávamos em plena ditadura militar, com um governador biônico, Enoch Reis, nomeado pelo general Geisel, que por sua vez também não havia sido escolhido pelo voto popular.

Os jovens de hoje, em sua maioria, não têm a menor idéia do horror que foi a ditadura. Não havia liberdade de expressão e de associação. O povo não podia votar em presidente, governador, prefeito. A censura impedia que as idéias circulassem nos jornais, no teatro, na música, no cinema, nos livros, na sala de aula. Professores, estudantes, jornalistas, artistas, músicos, cineastas e sindicalistas eram presos não pelo que fizeram, mas pelo que disseram ou pensavam e até pelo que achavam que você tinha a intenção de pensar.

Em todas as universidades, havia uma Assessoria Especial de Segurança e Informação (AESI), com delatores pagos com bons salários para dedurar quem expressasse opinião contra a ditadura. Na Universidade do Amazonas, seu chefe era José Melo de Oliveira. Tenho em mãos cópia de dois ofícios circulares assinados por Melo, em 1974, e enviados a todas as faculdades e institutos. Um deles pedia os nomes das pessoas que pretendiam organizar “uma exposição de livros soviéticos”, o outro exigia controle sobre a formatura de alunos e até sobre o discurso do orador da turma.

Depois disso, ele fez carreira na administração publica, foi Secretário de Educação do governador Amazonino Mendes, e ficou conhecido como José Melo Merenda, por causa do desvio de recursos da merenda escolar. Atualmente, é Secretário de Estado do Governo Eduardo Braga (PMDB, vixe, vixe!). (Anexo 02).

Não podemos esquecer, também, que em Manaus, no período de 1975 a 1979, funcionou um centro de formação, que recrutava e treinava agentes especializados em espionagem, infiltração, repressão política e torturas, financiado pela Operação Condor, conforme comprovam documentos encontrados nos arquivos da polícia política paraguaia, abertos ao público pela Justiça de lá (O Globo, domingo, 7/05/2000, pg. 48)

Há quem, hoje, defenda a ditadura militar. Depois de dois artigos contra a tortura publicados aqui nesse espaço, recebi cartas de alguns leitores com um argumento bizarro: a ditadura foi necessária, porque se os comunistas vencessem, eles aboliriam a liberdade de expressão, suprimiriam as eleições, prenderiam seus opositores, torturariam, etc. Ou seja, para impedir a implantação de um hipotético regime totalitário se fez tudo aquilo que supostamente o inimigo faria: prisão, tortura, censura, etc.

Ih, meu espaço está terminando! E a Geny, como foi que ela me salvou? Ah, a Geny foi genial, leitor (a)! Quando o sargentão me emudeceu com aquela acusação, Geny pegou o microfone, piscou um olho discretamente pra mim e fez uma defesa tão delirante quanto à peça de acusação, dando um xeque mate no Cauby:

- Se o palestrante é comunista, então eu também sou comunista e o Comando Militar da Amazônia (CMA) está cheio de comunistas, porque tudo que ele disse aqui, eu ouvi foi da própria boca dos generais, lá dentro do quartel (clap, clap, clap, claps).

Cauby ficou bestificado. Geny tinha autoridade pra falar. Ela havia acabado de receber uma medalha do CMA, por ter descoberto algum fungo lá aquartelado. Depois disso, fez concurso para professora da UFAM, onde foi Chefe do Laboratório de Patologia, ganhou muitas medalhas, inclusive a do Mérito Universitário, foi convidada a palestrar na Índia, na Argentina, na Europa, França e Bahia, se aposentou, mas continua ativa, pesquisando, é feliz e vive para sempre no meu coração: a solidária e generosa Geny.

O professor José Ribamar Bessa Freire coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas (UERJ), pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO) e edita o site-blog Taqui Pra Ti .

 

Imunidade rima com impunidade

aaaaaaaaarudaPor Milton Hatoum, de São Paulo, na Terra Magazine

Já não recordo o nome de um jovem promotor público que acusou, com provas cabais, uma das quadrilhas de políticos que assaltavam a nação. São tantas denúncias, tantas “tenebrosas transações”, que os brasileiros acabam por esquecer o que aconteceu há cinco ou dez anos. Ou há duas semanas. Seria saudável para a nossa memória se um jornal ou outro meio de comunicação listasse – com atualização semanal ou diária – os casos de bandalheira ocorridos nas duas últimas décadas.

Mas nem tudo é esquecimento. Não esqueci a declaração bombástica, mas verdadeira do jovem promotor. Em resumo, ele afirmou que os corruptos eram assassinos em potencial. O dinheiro roubado matava crianças brasileiras, pois a verba desviada podia ser investida em políticas sociais.

Ninguém sabe o valor anual do desvio de dinheiro público. Certamente bilhões de reais, mas é impossível calcular com exatidão o volume do roubo. As projeções de crescimento econômico para 2010 e uma euforia exagerada ofuscam a imensa miséria do povo brasileiro.

Não é preciso mencionar as áreas mais pobres do Nordeste e as periferias de todas as capitais. A miséria está presente no coração do Planalto Central, na capital do País. “Cidades-satélites”, mais do que uma palavra composta, é um eufemismo de inspiração futurista para nomear um aglomerado de favelas ao redor de Brasília.

O governador e alguns deputados do DF são exemplos abjetos de um tipo de político pós-ditadura. Mais de vinte anos de autoritarismo, censura e repressão usurpou qualquer promessa – ainda que tênue – de civilidade e cidadania, gerando esse tipo de político monstruoso, hiper-cínico, jeca e cafajeste. Além disso, a ditadura enfraqueceu o poder judiciário, um poder que solta barões e tubarões vorazes e prende piabas, desmoralizando a polícia federal, a promotoria pública e um setor do judiciário que tenta cumprir com rigor a lei.

O que mais impressiona é a impunidade de certos políticos de conduta moral duvidosa, uma impunidade protegida pela imunidade parlamentar, essa obra-prima de corporativismo e uma das excrescências da nossa democracia. Se os políticos estão imunes à lei, então eles podem tudo, inclusive praticar atos explicitamente delituosos, sem medo de sofrer qualquer punição. Daí a recorrência de casos escabrosos de corrupção, e não apenas em Brasília – a Capital dos escândalos escancarados -, mas em todo o País.

Uma parte não desprezível dos impostos pagos pelos contribuintes é dragada pela corrupção. Por isso, a grande maioria dos aposentados vive à míngua; o salário dos professores da rede pública e dos policias é baixíssimo, faltam creches em todas as cidades brasileiras, falta um sistema de transporte eficiente, falta investimento na infra-estrutura das cidades. Na verdade, falta o essencial para a maior parte da população, que desconhece a cidadania.

Recentemente um grupo de manifestantes cobriu com estrume o jardim da câmara legislativa do Distrito Federal. Esse ato de protesto mostra como o brasileiro comum, sem privilégios e favores, vê os legisladores da Capital. O protesto é válido, pois expõe as virtudes da esperança e da revolta num País em que reinam as virtudes do fracasso e da impotência diante de tanto desmando, cinismo e impunidade. Mas não bastam o estrume e seu fedor, metáforas da Casa que representa o povo. É preciso aplicar a lei aos meliantes fantasiados de homens e mulheres públicos.

Milton Hatoum é escritor, autor dos romances Órfãos do Eldorado, Dois Irmãos, Relato de um Certo Oriente e Cinzas do Norte.

A alteração das pensões e a desigualdade perante a morte

Angeles MaestroNo momento em que se discute na Assembleia da República a alteração da regras das pensões de reforma em Portugal, este texto de Angeles Maestro vem dizer-nos que a ofensiva do capital contra a classe trabalhadora não é um fenómeno isolado nem devido a dificuldades conjunturais provocada pela profunda crise internacional do capitalismo. O corte nas reformas verificado em Espanha está anunciado para Portugal com a aprovação do Orçamento de Estado.

Mas diz-nos também que é pelo reforço da luta e uma crescente unidade da classe trabalhadora que é possível inverter o sentido desta guerra sem quartel quotidianamente travada ao longo das 24 horas do dia.
Tudo isto acontece ao mesmo tempo que se transferem milhões de milhões para os bancos e as grandes empresas.

Por Ángeles Maestro*, no Diario.info

Quosque tandem abutere,
Catilina, patientia nostra? [1]

A deliberação do passado Conselho de Ministros de Espanha de propor a elevação da idade de reforma de 65 para 67 anos, a ampliação do período de tempo para o cálculo das pensões – com o objectivo evidente de reduzir a sua quantia – e o anúncio para o próximo dia 5 de Fevereiro dos conteúdos de uma nova reforma laboral – que indubitavelmente implicará novos cortes nos direitos laborais –, são as gotas que devem encher o copo da paciência dos trabalhadores e trabalhadoras.

Com cinco milhões de desempregados, 1.200.000 famílias com todos os seus membros desempregados, ao mesmo tempo que se volatiliza o emprego precário criado no tempo de fabulosos lucros empresariais, quando reforma após reforma se agravam os requisitos para aceder ao subsídio de desemprego ou de jubilação; agora que se transferiram centenas de milhares de milhões de euros para a banca e a indústria automobilística, que se reduzem sem parar os impostos às grandes fortunas e aos lucros empresariais, as cotizações do patronato para a segurança social; agora que se mantém a fraude fiscal ( do capital, claro) calculada em, pelo menos 130.000 milhões de euros, precisamente agora, aproveitando a paralisia catatónica que momentaneamente é a expressão generalizada do pânico da classe operária, o Governo do PSOE pretende descarregar sobre ela a totalidade do custo da crise.

Mas o mais grave não são os recursos que nos arrancam, precisamente na última etapa da nossa vida, quando o nosso corpo e a nossa ente envelheceram e se desgastaram produzindo a riqueza que nos foram expropriando e que engrossa os seus ofensivos lucros.

O cúmulo da alienação e da manipulação expressa-se quando o Governo e os seus «peritos»fazem o diagnóstico, e a partir dele o seu tratamento, no aumento da esperança de vida e, dizem eles, o correspondente aumento do tempo que medeia entre a reforma e a morte do trabalhador. O que deveria constituir, se fosse assim, um indiscutível avanço do desenvolvimento humano é um obstáculo a besta do capital continue a engordar, isto é para que funcione a prioridade absoluta que rege a sociedade e à qual se sujeita qualquer consideração que afecte as pessoas que a integram.

Mesmo que não houvesse milhares de outros exemplos, só este bastaria para definir o modelo social capitalista do século XXI como o predador mais feroz de seres humanos, precisamente quando o desenvolvimento científico e tecnológico permitiriam satisfazer as necessidades básicas de toda a humanidade.

A primeira consideração que há que fazer é que estão a manipular os dados como objectivo de confundir. A esperança de vida, como sabe qualquer aluno do primeiro ano de um curso de estatística, não mede a idade média da morte, como parece indicar o seu nome. A esperança de vida é um indicador complexo elaborado a partir de taxas de mortalidade em cada idade e que é decisivamente influenciado pela mortalidade infantil (primeiro ano de vida) e, ainda mais, pela perinatal (primeira semana de vida); isto é, o aumento da esperança de vida reflecte fundamentalmente diminuições nas taxas de mortalidade nas primeiras etapas da vida e não que se viva muito mais tempo. Utilizar este argumento é um truque indecente.

A segunda ideia essencial é ainda mais cruel, e por isso mais zelosamente escondida: as enormes e crescentes desigualdades sociais perante a morte.

Apesar dos poucos estudos não serem recentes – não é por acaso –, desde que existem estatísticas que comparam a mortalidade por classes sociais os dados reflectem o mesmo em todos os países capitalistas: as desigualdades reflectem-se directamente em diferenças de mortalidade que além do mais se expressam de forma gradual (o decréscimo em cada nível da escala social reflecte-se no correspondente aumento da mortalidade), que estão há décadas a aumentar e que exacerbam nos períodos de crise económica.

O relatório SESPAS 2000 [2] conclui rotundamente: «A mortalidade é superior entre os trabalhadores manuais em comparação com os restantes profissionais e quadros dirigentes. (…) A Razão da Mortalidade Estandardizada entre ambas as classes sociais [indicador que permite compará-las] aumentou de 1,27 em 1980-82 para 1,72 em 1988-90 e em quase todas as doenças as desigualdades se incrementaram. (…) Por outro lado, regista-se uma associação em forma de gradiente entre a privação material (desemprego, analfabetismo, classe social e condições de habitabilidade) e a mortalidade». [3]

Outro relatório elaborado sobre a mortalidade na cidade de Sevilha [4], comparando bairros diferentes (Zonas Básicas de Saúde), apesar de ser um estudo indirecto (por os territórios comparados não serem homogéneos), danos dados como estes: a mortalidade prematura multiplica-se por quatro nos homens nas zonas mais desfavorecidas, comparando-as com as zonas mais favorecidas; nas mulheres, multiplica-se por 2,6.

Isto é, a classe operária não é só a que produz a totalidade da riqueza que é usurpada por alguns, não vê apenas reduzir a capacidade aquisitiva do seu salário e deteriorarem-se as condições de vida em função da mais-valia expropriada, não só é expulsa para o desemprego como um traste imprestável quando o patronato calcula que os lucros não são insuficientes; Além disso, os trabalhadores e trabalhadoras – com o seu corpo e a sua mente convertidos em autênticos campos de batalha da luta de classes – ainda pagam com a doença, e sobretudo, com a morte prematura, o seu dramático tributo ao desenvolvimento do capitalismo.

Mas tudo tem um limite e a impostura deste Governo e a de todos os que o precederam também o terá. A verdade nua e crua é que eles não são capazes de esgrimir um só argumento credível, nem sequer para os mais ingénuos, de que estas novas machadadas nos direitos laborais e sociais podem conseguir criar emprego, a começar pela insensata decisão de aumentar a idade da reforma.

O que é evidente é que depois de três décadas de genuflexões sindicais e de um baixar a cabeça «a ver se não me toca a mim», o que conseguimos foi retroceder até à lei da selva no que respeita a direitos, enquanto o capital enche os bolsos como nunca. Agora, perante uma crise descomunal, o que está claro é que, nem o Governo nem a restante classe política nem os capitalistas a quem eles representam têm qualquer alternativa que não seja o apertar da tarracha para reduzir os custos laborais, e que preferem que a locomotiva capitalista descarrile, em vez de mudar de via e de condutor.

Um novo sindicalismo deve surgir e é preciso recorrer o mais urgente possível ao encontro entre as organizações e as pessoas que fazem a democracia operária, a dignidade e a luta da sua razão de existir, para canalizar a luta opera´ria e popular. Está na hora de decidir, e o suicídio, que aumenta dramaticamente entre os que individualmente não vêem outra saída para desespero do desemprego e da angústia, não é alternativa.

Notas:
[1] «Até quando Catalina abusarás da nossa paciência?» Imprecação lançada por Marco Tulio Cicero contra Catilina numa reunião do Senado romano, perante as continuas conspirações deste contra a República.
[2] Sociedade Espanhola de Saúde Pública e Administração Sanitária (SESPAS)
http://www.sespas.es/informe2000/d1_01.pdf
[3] Ibid.
[4] http://scielo.isciii.es/scielo.php?pid=S0213-91112004000100004&script=sci_arttext

Madrid, 1 de Fevereiro de 2009

* Angeles Maestro é dirigente de Corriente Roja e amiga e colaboradora de odiario.info.

Tradução de José Paulo Gascão

 

Ex-secretário: Crise não motivou aumento de homicídios em SP

aaaaaaaaaaaaaaaasecretarioPor Claudio Leal, na Terra Magazine

O ex-secretário da Justiça de São Paulo Belisário dos Santos Júnior analisa, em entrevista a Terra Magazine, o índice de homicídios no Estado e propõe estudos específicos sobre as ocorrências. À frente da secretaria no governo Mário Covas, entre 1995 e 2000, o advogado não atribui à crise financeira o primeiro crescimento dos casos de homicídios em dez anos.

- Tenho impressão que a crise econômica não responde plenamente pelo aumento. O número de homicídios, no interior, aumentou no último trimestre de 2009. Nesse último trimestre, a crise era mitigada. E os homicídos não têm muito a ver com a crise econômica. Têm com outros fatores – afirma Belisário dos Santos.

Em 2009, a polícia paulista registrou 4.771 vítimas, contra 4.690 em 2008. A tendência de queda foi preservada na capital e na Grande São Paulo, mas o interior contribuiu para a alta da violência. No Estado, são 10,95 casos para cada 100 mil habitantes, o que ultrapassa a média de 10/100 mil da OMS (Organização Mundial de Saúde).

Para o ex-secretário, a sociedade civil, os municípios e o governo federal devem participar dos estudos sobre o aumento da criminalidade em São Paulo. “A polícia continua na rua, as prisões continuam sendo efetuadas, as drogas são apreendidas e, de repente, esses números mudam”, diz. Somente com ações coordenadas as políticas públicas poderiam alcançar resultado.

- Quero tirar o foco da polícia de São Paulo, dizendo que ela tem sua responsabilidade, para dizer que a Polícia Federal, o Exército, os municípios têm responsabilidades. O crime é um fenômeno muito complexo pra ser deixado na mão apenas da polícia.

Leia a entrevista.

Terra Magazine – Depois de dez anos, o número de homicídios voltou a crescer em São Paulo, com destaque para o interior do Estado. Como esses dados podem ser interpretados?
Belisário dos Santos Júnior – Constato duas coisas. Primeiro, a importância da lei de 1995, em função da qual todos nós podemos ter acesso a isso. Está sendo cumprida. O segundo fator importante é que, considerando todos os números, a tendência é de baixa. Houve realmente um crescimento, mas o viés é de baixa, como diria o presidente do Banco Central. Houve um crescimento grande durante três trimestres (de 2009), mas o último é de baixa. Uma outra constatação se impõe. Se você for realmente analisar os números do interior, esses são preocupantes.

Por quê?
Primeiro, em seu conjunto, porque representa um aumento razoavelmente expressivo em relação a 2008. No interior, o último trimestre foi de 521 homicídios para 538. Se você entender que isso é uma estatística e os números são maiores em algumas regiões, você vai ver que a Baixada Paulista, o Litoral Sul e São José dos Campos são os lugares onde se faz necessário um olhar melhor da Polícia Civil. Uma outra coisa que gostaria de chamar atenção: fui para os números que não aceitam subnotificação. Latrocínios, por exemplo. O número de latrocínios cresceu na capital. A média estatística subiu no Estado como um todo, mas no interior os latrocínios baixaram. Latrocínio é homicídio cometido antes ou depois de um crime patrimonial. Esse número faz com que a polícia tenha que se preocupar também com a capital. Quando a polícia tem boas estatísticas para apresentar, como foi ao final de 2008, ela relaciona os números com a identificação e prisão dos criminosos, com a apreensão de armas ilegais e o aumento de polícia nas ruas. Veja, em 2008 a diminuição foi relacionada com a presença da polícia nas ruas, ainda que tenha havido, durante três meses daquele ano, um movimento reivindicatório. E ela relacionou também ao uso da inteligência policial como forma de solucionar a ocorrência. Isso é um sinal que é passado para a criminalidade. Isso a polícia diz quando tem bons números.

O governador José Serra afirmou que o crescimento dos homicídios se deve à crise econômica e ao desemprego. Como avalia esse argumento?
Tenho impressão que a crise econômica não responde plenamente pelo aumento. O número de homicídios, no interior, aumentou no último trimestre de 2009. Nesse último trimestre, a crise era mitigada. E os homicídos não têm muito a ver com a crise econômica. Têm com outros fatores. Os latrocínios poderiam ter a ver com a crise econômica. O número de latrocínios aumentou na capital. Precisamos achar outras explicações. A polícia continua apreendendo armas. Ela apreendeu mais armas em 2009 do que em 2008: o aumento foi de 4,5%. A polícia prendeu bem mais em 2009 do que em 2008. No último trimestre, ela prendeu 23.300 pessoas em 2008 e 29.400 em 2009. Drogas. A quantidade de drogas apreendidas em São Paulo é crescente desde 1995.

O que a gente nota? A polícia continua na rua, as prisões continuam sendo efetuadas, as drogas são apreendidas e, de repente, esses números mudam. Nós temos que considerar essa situação especial do crescimento do latrocínio em São Paulo, em especial os homicídios na Baixada, no Litoral Sul e em São José dos Campos, áreas próximas. A polícia dispõe de vários dados. Tem o Infocrim, a inteligência da polícia funciona razoavelmente em boa harmonia. Então, eu acho que a gente precisa fazer críticas menos genéricas e mais específicas. Esse secretário (Antonio Ferreira Pinto), que tem mexido muito na estrutura policial, fez uma coisa que era reivindicada desde o primeiro Plano Estadual de Direitos Humanos, que era tirar a corregedoria da cúpula policial e jogar no seu gabinete. Ele fez isso. As estatísticas policiais têm um pouco a ver com a existência de maus policiais que não cumprem sua missão. Esse fator o secretário elimina.

Não há outras variáveis para que o homicídio seja epidêmico no Brasil.
É. Se você entender que não é um crescimento em todas as áreas da capital e da Grande São Paulo, vai verificar que principalmente na Grande SP houve a Lei Seca. Houve a proibição de bares venderem bebida alcoólica em determinado momento e fecharem em determinada hora.

Funciona?
Veja, em 2009, na Grande SP, os homicídios baixaram em todos os trimestres. Essa providência é possível aplicar em uma cidade pouco menor que São Paulo. Funciona e é mais fácil de fiscalizar. Em São Paulo, houve um descréscimo no terceiro e no quarto trimestre. Não dá pra relacionar isso com a crise porque essas providências de crise, emprego, retorno ao emprego, demoram um pouco para se refletir. O que a gente deve considerar são duas coisas: da parte da polícia, uma atenção maior para os números específicos, da capital e do interior.

E direcionar políticas públicas específicas para esses locais?
Redirecionar as políticas. Pra isso a polícia tem o disque-denúncia. O disque-denúncia precisaria ter uma consideração um pouco diferenciada. Já sustentei isso e acho que ele deveria estar ligado sempre à sociedade civil. A participação policial civil e militar teria que ser num nível hierárquico quase próximo ao do secretário, para que esses índices fossem manejados por pessoas mais experimentadas do que ainda o são. Pelo Infocrim, temos que verificar o que houve nessas regiões. Acho pouco a gente atribuir à crise. Porque a crise esteve em todos os lugares. São José dos Campos é um dos lugares em que o desemprego, seguramente, não foi dos maiores. Nem a Baixada Santista, que tem aquela população flutuante. Da parte da sociedade civil, a gente precisaria avaliar um pouco as instâncias que ela tem de resolução de conflitos. A sociedade civil, o Estado e a Justiça. Porque o Estado legislador criou novas leis… Por exemplo, tem a violência familiar e a gente não leva isso a sério.

E é mais difusa.
Nós todos ficamos abismados quando um cidadão, num lugar onde existe uma câmera, ele entra, mata a ex-mulher e vai embora. Com o revólver. Isso é uma coisa que me parece muito complicada. Você não vê nenhuma dificuldade para as organizações criminosas terem armas. Esse é um fato que não tem muito a ver somente com a polícia de São Paulo, que está fazendo sua parte. Deve respostas a esses pontos, mas tem a ver com a apreensão de armas pela Polícia Federal, pelo Exército, tem a ver com os pontos vulneráveis da nossa fronteira. Ninguém compra arma na loja. Senão, não tem explicação. Falta um esforço conjunto, menos partidário e mais solidário, entre diversas instâncias do poder. São Paulo não tem fronteira com o exterior, salvo o porto. E, ainda assim, a fiscalização nos portos e aeroportos não é da polícia estadual. Concentrar a crítica só na polícia estadual é fraco.

Há também os crimes banais, como é possível combatê-los?
Grande parte dos homicídios é isso. Crimes banais. É o homicído em que o cara foi para o bar armado. A polícia diz que está fazendo várias incursões em bares… Toda briga em bar termina com revólver na mão! Outro dia, numa padaria, o segurança sacou e deu um tiro num cliente. A gente tinha que rever a questão dos armamentos. Os que se opunham às vendas de armas foram vencidos, mas as estatísticas estão cobrando como a gente deveria ter entendido a questão das armas. A reversão é pequena, mas é uma reversão. Temos que reverter a desconfiança na Justiça. Porque quem vai armado a um lugar é porque não confia na polícia ou na justiça. E há a mediação social, as igrejas prestarem atenção nesses números e começarem a trabalhar. Muitas organizações não-governamentais estão trabalhando, como o “Sou da paz” – e eu sou do conselho. Se você olhar pra 1999, nós tínhamos quase 40 homicídios por 100 mil pessoas. Chegamos a 10,7. É só não deixar essa tendência se inverter. Mas o números preocupam, porque são pessoas que morreram. A Lei Seca funcionou em alguns lugares, por que não funcionará em outros?

Municipalizar a política de segurança pública seria uma boa alternativa?
Não. A polícia tem entendido que as guardas municipais são boas parceiras. Até porque, a partir de 1999, com a polícia militar se aproximando da civil, o policial saindo preparado com o colete, com armamento melhor, isso deu resultado. Os homicídios foram pra 10,7. Estamos quase no índice ideal. A polícia tem que continuar estadual, polícia municipal seria com muita facilidade colocada a interesses subalternos. O Estado de São Paulo conta com corregedorias eficientes. A polícia está fazendo sua parte. Precisaria um pouco mais de atenção nesses pontos.

As prefeituras poderiam estudar a Lei Seca, os lugares em que a violência ocorre… Os fenômenos, a rua mal iluminada, o bar que funciona quando não pode, venda de bebida para menores. E aí trabalhar com essa visão, em cima dos números. A estatística é apenas para preocupar e direcionar as nossas angústias. Ela não é senhora, tem que ser examinada com prudência. Até semáforo inteligente ajuda a se livrar de latrocínio. Temos que nos preocupar com os locais onde isso aconteceu. Quero tirar o foco da polícia de São Paulo, dizendo que ela tem sua responsabilidade, para dizer que a Polícia Federal, o Exército, os municípios têm responsabilidades. O crime é um fenômeno muito complexo pra ser deixado na mão apenas da polícia.

Roupa suja lavada em público na Usiminas

Da estrutura dos negócios à logomarca da empresa, o engenheiro Marco Antônio Castello Branco mudou quase tudo na Usiminas nos últimos dois anos. Quando assumiu a presidência, em 2008, ele recebeu carta branca dos acionistas para mudar a cultura da companhia, fortemente marcada pelos 17 anos de comando do ex-presidente Rinaldo Campos Soares — que continua na empresa como membro do Conselho de Administração. As mudanças aborreceram parte dos funcionários. As queixas transbordaram e criaram situações constrangedoras.

Numa investigação que corre em sigilo de Justiça, a Usiminas é acusada de ter submetido executivos a assédio moral e sexual durante treinamentos realizados pela consultoria SID APA, do médico e antropólogo Ely Bonini.

Junto com as notícias sobre a investigação conduzida pelo Ministério Público, chegaram ao mercado rumores de que o mandato do executivo, que vence em 30 de abril, não seria renovado. Os acionistas, principalmente os japoneses da Nippon Steel, não estariam satisfeitos com os problemas internos e com a performance no mercado. A Usiminas perdeu terreno para a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) no mercado automotivo, onde sempre foi líder com folga. Castello Branco deixou um cargo no alto comando da V&M na França para assumir a Usiminas. Afirma que tudo não passa de intriga, manobra para desestabilizar a imagem de sua gestão e prejudicar o processo de mudanças na siderúrgica. A seguir, os principais trechos da entrevista.

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Resistência é normal em processos de mudança nas corporações. Mas na Usiminas parece ter atingido níveis fora do padrão. Foi uma surpresa para o sr.?

A baixa qualidade da resistência, que chega ao ataque pessoal, me surpreendeu. A quebra de dogmas antigos está gerando uma resistência brutal, animalesca. É preciso ter paciência e firmeza. Dei um azar muito grande, que foi a crise. Mais ou menos como aconteceu com o Barack Obama (presidente dos EUA). O negócio estourou na mão dele. Ele é o portador do futuro, mas ao mesmo tempo… Que cara azarado, né?

Como é ter, nesse processo de mudança, o ex-presidente sentado no conselho de administração?

Muito ruim isso, péssimo. No caso específico dos objetivos que essa organização e os seus acionistas me deram, isso dificulta porque é constrangedor.

Que percepção os acionistas têm desse conflito?

Isso é muito constrangedor, principalmente para o acionista japonês (Nippon Steel). Não faz parte da cultura dos japoneses chegar a um conflito tão explícito. Todos os acionistas brasileiros que estão no grupo de controle tinham a expectativa de que a coisa não ia ser fácil. Não está sendo tão surpresa para eles quanto está sendo para mim o baixo nível a que chegou esse negócio.

A Nippon Steel cobrou explicações sobre o que está acontecendo?

Claro. Estão chegando cartas anônimas no Japão, para o presidente do Conselho. Eles não estão gostando disso. Hoje eu gasto 40% do meu tempo dando explicação, visitando, recebendo, convidando as pessoas para vir e ver em vez de acreditar no que estão dizendo por aí. No momento em que estamos começando a sair da crise, com grandes investimentos para decidir, precisamos ficar resolvendo esse fuxico corporativo.

Há boatos no mercado de que a renovação de seu mandato está por um fio…

O conselho de administração da Usiminas pode demitir o presidente a qualquer momento. Não tem de dar satisfação, não precisa esperar a data de renovação do mandato, no dia 30 de abril. Fiz uma consulta ao conselho da Usiminas e o retorno foi a confirmação da necessidade de fazer a transformação. Esse fuxico corporativo tem é o objetivo de desestabilizar.

Uma de suas metas é rejuvenescer o corpo de executivos?

O perfil etário obrigava a, no meio do caminho, ter de substituir. Quarenta por cento dos superintendentes executivos, o nível abaixo da diretoria, estavam aposentados e tinham acima de 62 anos. Quase a metade do primeiro time era de aposentados. Não é que o aposentado é ruim. Mas isso significa que tem gente presa embaixo. Estamos sem poder dar maturidade de gestão para essas pessoas. Nós temos muito MBA aqui sem prática.

A demissão de funcionários tão antigos foi o principal substrato para o tal fuxico corporativo?

Criamos as tais partes contrariadas. E foi um número expressivo e concentrado na região de Belo Horizonte e Ipatinga. É o pessoal que mora no mesmo bairro, frequenta o mesmo clube, joga peteca junto.

Era possível fazer isso de forma menos traumática?

Na Usiminas, o clima é meio passional. Os indivíduos se apropriam da instituição, é uma relação de paixão, de ciúme. O que faria diferença seria a dilatação no tempo. Não deu para fazer por causa da crise, paciência. Maquiavel fala: a maldade você faz toda de uma vez e a bondade a conta-gotas.

A consultoria que o senhor contratou está sendo atacada por todos os lados…

É uma grande injustiça. O cara (prof. Ely Bonini) foi condenado por alguma coisa? Falar que tem assédio sexual, isso é baixeza. O cara tem uma história. Para quantas empresas ele já trabalhou? Na Mannesmann, eu trabalhei com ele desde 2001.

Como executivo, o sr. foi submetido aos mesmos métodos que trouxe para Usiminas?

Eu queria uma consultoria de recursos humanos brasileira, localizada em Belo Horizonte e que tivesse, principalmente, um diferencial científico. Na área de psicoantropologia social, existe ciência. Aqui em Belo Horizonte tinha o grupo formado pelo professor Bonini, que é professor, médico, antropólogo, de experiência pessoal muito rica. Não queria simplesmente um livrinho de autoajuda. É preciso situar a nossa empresa no contexto brasileiro. Nós somos um povo colonizado. Nessa região de Minas Gerais, nós vivemos o coronelismo. Quando você vai para o chão de fábrica, o supervisor tem o papel do sargento, isso faz parte da nossa história.

Quando o sr. conheceu a consultoria SID APA?

Quando fomos mudar a Mannesmann. Em 2000 assumi a presidência de uma empresa que tinha sido vendida para a Vallourec. Em vez de ser controlados por alemães, passamos a ser controlados por franceses. E vínhamos de uma crise, de prejuízo atrás de prejuízo. Não conheço nenhuma empresa onde o SID APA tenha trabalhado que não esteja muito bem, com lucro.

O sr. concorda que esses métodos possam ser constrangedores para alguns diretores?

A condição da SID APA para trabalhar é que a diretoria participe. Porque normalmente as dificuldades de uma organização começam lá no topo. Eu participei, lá na Mannesmann, e tomei isso como um valor. Você não tem como fazer o processo de transformação do ambiente em que você trabalha se você não se transforma. Mas nesse trabalho ninguém fica falando de vida pessoal. É absurdo quererem configurar invasão da intimidade, da integridade pessoal.

Então o senhor está tranquilo em relação às denúncias feitas ao Ministério Público?

Muito tranquilo. É manipulação. Não admito que isso tenha acontecido.1

Não houve nenhuma reclamação interna antes da denúncia ao MP?

Nós temos o canal aberto, você entra na intranet e vai encontrar umas 80 denúncias de assédio. Tem uma de um operário que entrou no banheiro e bateram nele, lá em Cubatão. Tem reclamação de chefe que trata mal, que xinga todo dia. Tem reclamação de chefe que pede dinheiro emprestado sob ameaça de mandar o subordinado embora. Nós escutamos todas, analisamos, encaminhamos para o comitê de conformidade. Mas sobre isso (contra o professor Bonini) não tem nada. No Ministério Público não tem ninguém que está reclamando que ganha menos de R$ 20 mil por mês.

Que consequências as investigações do MP poderão trazer para a Usiminas?

Nós fizemos um termo de compromisso, não é um termo de ajuste de conduta porque nós não aceitamos que houve desvio de conduta. Mas acertamos determinados procedimentos. Vamos explicitar o que não estava explícito.

O sr. fez grandes mudanças na estrutura de negócios, dividindo a Usiminas em quatro eixos. O que o senhor pretende com essas mudanças?

Existe a convicção que a Usiminas não está adequadamente precificada. Uma das coisas que afetam isso é exatamente a falta de noção de quanto contribui cada tipo de negócio para a geração de valor. Iniciou-se então este trabalho de organizar os quatro eixos básicos da Usiminas: mineração e logística, siderurgia, transformação do aço, bens de capital.

O mercado já começou a perceber melhor a Usiminas?

Precisamos fazer mais, precisamos comunicar a contribuição de cada segmento no faturamento. A partir deste ano, vamos divulgar os resultados da Usiminas por segmento, quanto contribuiu mineração e logística, siderurgia, bens de capital, transformação do aço.

Como a crise complicou os planos de reestruturação dos negócios da Usiminas?

Fazer um processo de transformação num ambiente de recessão, com necessidade de redução dos quadros, é mais complicado. Ao mesmo tempo, a crise abre oportunidades. Temos um bom exemplo. Havia muita resistência, quase um preconceito, com o próprio minério da Usiminas. Comprar de terceiros era melhor do que adaptar nossos altos-fornos. Em 2008, num momento difícil, a diferença de custos foi tão grande que conseguimos ampliar o uso do minério próprio. Chegamos a usar 100% de minério próprio em Cubatão. Isso só foi possível, na velocidade que conseguimos fazer, por causa da emergência que a crise nos impôs.

A Usiminas perdeu espaço para CSN no mercado automotivo e essa é outra crítica que fazem à sua gestão…

A Usiminas perdeu participação, particularmente aqui em Minas Gerais, com a Fiat, por um problema de oferta. Antigamente, tínhamos um mix de fornecimento para a cadeia Fiat com alguma participação de material galvanizado. Em 2007, a Fiat fez uma alteração das especificações técnicas e trocou o laminado a frio por mais galvanizado. Mas encontrou a Usiminas, que sempre foi seu principal parceiro, sem capacidade de atendimento. Mesmo com todas as 430 mil toneladas vendidas, a Usiminas ia perder participação porque o mercado cresceu. A autocrítica que fazemos, a direção, é que estamos atrasados. O processo de ampliação será concluído neste ano e chegará ao mercado em 2011. Essa reverberação de que a Usiminas está perdendo mercado é também uma disseminação de informação com intuito de afetar a imagem da gestão que estou fazendo.

Que reflexos terá essa demora na decisão? Dá para recuperar a participação de mercado?

Claro que tem reflexos. Se não tivéssemos uma deficiência de oferta, poderíamos nos sustentar melhor no crescimento da demanda, ter um atendimento mais global para nosso cliente. Tem jeito de recuperar? Tem. Vamos ter no ano que vem aumento da capacidade e tecnologia top de linha, produzindo aço galvanizado premium. Vamos entrar com 500 mil toneladas de uma vez, mais competitivos, em condições de oferecer preços mais adequados. Somos um fornecedor muito tradicional do setor automotivo. E, com um aço de alto valor agregado, vamos poder ter também um posicionamento mais consistente no setor de construção civil.

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Quem é Marco Antonio Castello Branco

Formado em engenharia metalúrgica pela Uiversidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com mestrado e doutorado na Alemanha. Tem 49 anos

Entrou na antiga Mannesmann como estagiário, em 1983. Com a fusão da empresa com o grupo francês Vallourec, tornou-se presidente da companhia no Brasil.

Em 2004, assumiu funções no alto comando do grupo na França. Acumulava a presidência do Conselho de Administração da empresa no Brasil. Dois anos atrás, foi contratado para comandar a Usiminas

A informação é do jornal O Estado de S. Paulo

Leia também:

Vale-Usiminas: das privatizações ao monopólio

 

Ciro Gomes quer um projeto de futuro para o Brasil

aaaaaaaciro2Deputado afirma que o país está perdendo espaço e que precisa se organizar para um crescimento socioeconômico com distribuição de renda mais justa

O deputado federal e pré-candidato à Presidência da República Ciro Gomes (PSB-CE) disse nesta segunda-feira, em São Paulo, que quer propor um projeto de futuro para o Brasil. Para ele, o Brasil tem condição de fazer uma aposta no crescimento socioeconômico através de uma distribuição de renda mais justa para sua população.

“Já está provado, se eu aumentar a renda do trabalhador brasileiro, o povo vai comprar, o que faz com que a nossa produção também aumente, girando nossa economia”, disse Ciro Gomes. Segundo o deputado, é preciso uma reforma na Saúde, na Educação, “onde as pessoas possam ter uma escola pública que as libertem da mensalidade escolar, uma rede pública de atendimento médico que torne os planos de saúde desnecessários”.

Ciro Gomes afirmou que é inadiável e que não se justifica não ter um metrô de qualidade em São Paulo, Rio de Janeiro, e Belo Horizonte. “Se você tomar 10% do que se paga em juros em um ano dá para financiar um metrô em São Paulo. Enquanto isso, as pessoas têm que viajar duas ou até mais horas para ir ao serviço e outro tanto desse para voltar; é uma terceira jornada de trabalho pela qual ninguém paga um centavo e que destrói a vida do cidadão.”

“Não sou o dono da verdade, mas é preciso debater os assuntos, convocar o país, ajudar o povo a entender o que está acontecendo e a hora de fazer isto é agora, na eleição geral. E isto tem que ser feito de forma urgente”, enfatizou Ciro Gomes.

Na opinião do deputado, o Brasil não tem um projeto organizado, desenhado e protegido por leis, que prepare nosso país para enfrentar o futuro. Ciro Gomes acredita que “no Brasil, tudo está fora do lugar.”

“O país melhorou muito se olharmos pelo retrovisor, compararmos com o passado, mas se você olhar para o futuro do Brasil, eu tenho medo. Do jeito que a política está ficando, eu tenho medo do nosso futuro”, ressaltou Ciro Gomes.

Para completar, o deputado afirmou que o Brasil está perdendo espaço no mundo em matéria de qualidade dos produtos que vende; “a China está crescendo um Brasil siderúrgico em aço por ano; passamos no ranking mundial de 6o país em tecnologia aeroespacial para o 27o; sem contar que se um garoto nascer num morro do Rio de Janeiro e for negro, deve morrer antes dos 23 anos”.

A informação é da assessora de Ciro Gomes

 

Imagens que correram o mundo hoje

PAULISTA

 

 

 

 

 

 

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Robinho e Rogérios

Zezinho chega nesta segunda ao Santos para reforçar “bando de moleques”

 

Mais uma jovem revelação se juntará ao Santos. Na segunda-feira, o atacante Zezinho, ex-Juventude, é aguardado pelo clube da Baixada Santista para realizar exames médicos e finalizar sua contratação. Ele é mais uma aposta da diretoria alvinegra.

“O Zezinho chega por empréstimo de dois anos. É mais um moleque que chega para o bando de moleques”, disse Pedro Luiz Nunes, diretor de futebol alvinegro, brincando com o termo “bando de loucos” adotado pelo Corinthians.

Os moleques citado pelo dirigente estão novamente em alta no Santos. Apresentando o futebol mais atraente do Paulista, o time de Dorival Júnior tem como principais destaques Neymar e Paulo Henrique Ganso, de 18 e 20 anos, respectivamente. Parceiro de ataque de Neymar, André é outro desse bando, com 19 anos.

Embora tenha só 17 anos, Zezinho chegará ao Santos com salário de jogador profissional. Seu nome foi aprovado por Dorival Júnior. Ele ganhou projeção no cenário internacional após participar do Mundial sub-17, realizado em novembro de 2009, na Nigéria.

Zezinho foi titular da seleção ao lado de Neymar, mas já despertava a cobiça de clubes europeus. Segundo a imprensa gaúcha, o Juventude chegou a recusar uma proposta de US$ 1,8 milhão feita pelo Arsenal (ING).

A informação é do UOL Esporte

 

Fórum Sindical dos Trabalhadores (FST) realiza plenária em Brasília nesta segunda (8)

Da Agência DIAP 

O objetivo dessa reunião é acompanhar a tramitação de matérias de interesse do movimento sindical no Congresso. Está também na pauta, mobilização na Câmara em defesa da inclusão na pauta da PEC 231/95, redução da jornada

A coordenação do Fórum Sindical dos Trabalhadores (FST) realiza, nesta segunda-feira (8), em Brasília, reunião com os representantes e presidentes das entidades filiadas, para traçar plano de ação no Congresso Nacional.

O objetivo dessa reunião é acompanhar a tramitação de matérias de interesse do movimento sindical.

O encontro será às 15 horas no plenário 2, Ala Nilo Coelho, no Senado.

Os dirigentes sindicais discutirão a seguinte pauta: plano estratégico para ações no Congresso; proposta da Cobap para auditoria pública na Previdência Social; agendamento de audiências na Câmara dos Deputados; composição da comissão organizadora do Encontro Nacional do FST 2010 (18 de maio); e proposta para a edição da primeira revista do Fórum.

40 horas

O coordenador nacional do FST, José Augusto da Silva Filho, lembra que, na terça-feira (9), as lideranças sindicais irão fazer nova mobilização na Câmara dos Deputados pela redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais.

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